Quarta-feira, 9 de Julho de 2014

O PAGANISMO ONTEM E HOJE

Contar a história do Paganismo, é contar a história da civilização. Outrora a religião de impérios, hoje é associada à vida campestre e rural, aos poucos conhecimentos e modos de vida primitivos. Apenas uma destas é falsa: o pouco conhecimento.

O Paganismo é uma religião assente em três princípios: o panteísmo, o politeísmo e o dualismo. Viajar por estes três princípios é saber a Natureza como sagrada, imbuída de um divino que, por se manifestar de formas diversas (a bio diversidade comprova-o), reconhece vários Deuses que encerram em si o conhecimento que nos permite alcançar um estado de harmonia e sintonia com um Cosmos criado a partir de dois pólos energéticos opostos, que não se aniquilam nem anulam, antes se complementam numa dança infinita ritmada pela divina lei do nascer, crescer, morrer e renascer, que marca o tempo como o conhecemos.

Este conhecimento vive nas tradições pagãs da Europa desde as suas origens: as tradições cretense, helénica, romana, ibérica, nórdica, celta, entre outras.

Na sua vivência plena, o Paganismo é uma religião natural, de observação de ciclos como o solar e o lunar. É uma religião que parte do que observa à sua volta, nos padrões que regem a vida e a natureza. Sim, podemos reconhecer facilmente a dimensão campestre do Paganismo. Mas nesta observação de ciclos naturais, nesta observação de padrões como as marés e a lua, também vemos um entendimento dos primeiros elementos primitivos de cálculo e raciocínio matemático.
Em todos estes reflexos (cosmológico, campestre e primitivo) somos também levados a reconhecer outra verdade: a da existência e valorização do conhecimento.

Hoje, o Paganismo assume os seus princípios e neles se arma para enfrentar o mundo como outrora já o fizera livremente. Hoje, o Paganismo mostra reverência a leis e a elemento que nunca se separaram da existência humana. Porque hoje a necessidade destes princípios transformou-se num apelo renovado pelas contínuas ameaças ao equilíbrio no ecossistema que nos permite viver nesta Terra. O Paganismo de hoje é o mesmo que o de ontem, apenas transformado na linguagem que nos aproxima do entendimento dos seus princípios.

E estes mesmos princípios transpiram uma ética que é atual: a equidade. É nesta equidade que uma religião espelhada por diversas tradições retoma um espaço no diálogo entre as outras formas de falar o divino, sabendo que as respostas que todas têm respondem à mesma necessidade de conhecimento para se (re)ligarem à origem e ao destino de tudo, seja ontem, seja hoje.

Mariana Vital
Delegada da PFI-Portugal para o Diálogo Inter-Religioso

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Segunda-feira, 30 de Junho de 2014

ESPIRITUALIDADE PARA O NOSSO MUNDO

No passado a espiritualidade emergia através de instituições, líderes ou cerimónias e rituais sagrados, canais tradicionais que não envolviam pessoas comuns. O decréscimo de influência dessas instâncias faz com que hoje, as forças superiores entrem na sociedade através do individuo, através de um processo de auto capacitação que propõe nova espiritualidade, enquanto expressão de individualidade.

A espiritualidade é vista como uma inteligência superior que ameaça o racionalismo e que se manifesta como resultado de um percurso do eu interior, geralmente em ambiente de sofrimento, dor, morte, descobrindo uma fonte de ajuda permanente. É como que darmo-nos conta de que nos falta algo, de que estamos incompletos, de que podemos beneficiar de um património que nos transcende. Essa experiência revela-se como capacitante inesgotável, como alegria confiante, como fonte permanente de ajuda.

Hoje as experiências espirituais surgem como resultado do fluir abundante de amor indiscritível, dinâmica de profundidade que dá sentido à existência dos acontecimentos inexplicáveis da vida. Como que se uma inteligência superior pairasse em permanência sobre a nossa ansiedade. Nesta nova dimensão espiritual deixa de ter lugar o dogmatismo e o autoritarismo das religiões e igualmente o misticismo da Nova Era, que propaguei-a a vontade pessoal como fazedor de todas as obras, pelo afastamento de todos os pensamentos negativos.

A convicção de que, o eu interior só pode evoluir se ascender às forças superiores, revela o propósito oculto de todo o sistema espiritual: criar hábitos de passar de consumidor ao criador, através da nossa vontade, respondendo como escolha ao que somos desde a origem. A espiritualidade assenta no que se faz e não no que se acha, no que se pensa, no que se segue ou decide: assenta na experiência pessoal aliada ao poder que recupera do Universo. As limitações, os sofrimentos, a dor, tudo o que te acontece, pode forçar-te na orientação de contacto com capacidades que não pensarias possuir. Aprendemos que para ter validade universal, para ser digna de aceite por todos, tem que ter dimensão científica e uma espiritualidade não tem essa dignidade. Mas o ser humano tem quando procura a totalidade e o desenvolvimento criativo proposto por Carl Gustav Jung.

Como diz Pascal: é o coração que sente Deus e não a razão. A chave está em amar activamente, permitindo que as minhas irritações se evaporem, porque me organizo em redor da confiança e tudo o resto é irrelevante. Quando experiencio a força superior na minha vida, como quando me nasce um filho, quando supero uma doença ou quando sinto perdão de alguém; mudo-me para melhor e sei que me supero, sei que a fé é confiança e que as forças superiores estão sempre presentes para me facilitar a existência. Ao ceder o meu lugar, como agente de mudança, às forças que me superam tenho um aliado todo-poderoso, que não quero mais alienar.

A dada altura damo-nos conta que nos encontramos dentro de um sistema espiritual, como um Universo profundamente solícito para cada um de nós. Na actualidade o sistema espiritual não é apenas um conceito estruturado que devo conhecer ou aderir, antes, é uma experiência pelo qual eu encontro significado positivo para toda a minha existência, seja alegre ou sofrida. Sei que a fé me é ensinada pelo maior professor de todas as nossas aprendizagens: a vida.

A nossa percepção actual está enviesada pelo precário modelo científico, onde a ciência não aceita nada que não possa ser provado de maneira lógica. Todos sabemos que as forças superiores existem num nível não sujeito ao modelo científico. Kierkegaard aludiu a este princípio, quando referiu que a vida tem as suas forças ocultas que só podem ser descobertas se vivenciadas; e a vivência é sempre uma experiência pessoal e única. É ainda a diferença entre saber alguma coisa mentalmente e vivê-la com todas as energias do seu ser.

A nova espiritualidade organiza-se em redor de experiências vivenciadas por cada um. Na nova espiritualidade, cada individuo tem de experienciar as forças superiores e tirar as suas próprias conclusões sobre a sua natureza. As figuras de autoridade externa deixam de poder definir percursos para a realidade espiritual de cada um, baseando-se na singularidade de cada ser humano, permite experimentar a natureza das forças superiores à nossa maneira.

Na realidade actual a maioria das pessoas não se encaixa propriamente numa religião contradizendo mesmo os ensinamentos da própria fé. Católicos que praticam meditação oriental; ou que participam noutros grupos religiosos; protestantes que rezam à virgem Maria; e ainda judeus budistas. Esta postura de libertinagem religiosa não está a ser posta em causa pelas religiões. Não creio que as pessoas que assumem este comportamento o façam por ignorância, mas, porque escolhem o que funciona para eles, com base nos seus instintos espirituais. Mais que uma religião hoje, busca-se uma espiritualidade e as religiões tradicionais parecem ter perdido a espiritualidade.

O facto dos problemas pessoais serem a força motriz da evolução espiritual de muitos: grande adversidade, execução hipotecária, despedimento, morte de um familiar, os indivíduos superam esse momento difícil mudando a lógica que tinham da vida. Viviam organizados em redor da mentalidade consumista: a sua vida tem sentido quando as suas necessidades estão satisfeitas; e mudam para uma mentalidade criativa: os problemas, as adversidades são um trampolim para algo de melhor que pode surgir, algo que o transcende, algo a que se abrem: uma dimensão espiritual.

Enfrentar seus próprios problemas é demasiado doloroso, por isso muitos se organizam em redor dos problemas alheios que os, média nos comunicam. Com esta atitude denunciamos, que em cada um de nós há o desejo de superar as dificuldades, tal como proclamava Freud ao introduzir a psicanálise, com terapia. Todos temos consciência da importância dos problemas na evolução pessoal e sabemos que temos mais capacidades do que as que estamos a demonstrar. Temos capacidades que estão ocultas e dispomo-nos o fazer o necessário para as desenvolver. Queremos responder aos nossos problemas como criadores e fazemos da psicoterapia do Freud ateu, um processo de crescimento espiritual.

Muitos dos nossos contemporâneos, perderam a fé no futuro; na comunidade humana, da possibilidade de fraternidade. Cada um por si, não estamos muito dispostos a assumir responsabilidades sociais, não queremos estar ligados aos outros, que sentimos como rivais. Quando o historiador Lewis Mumford fala sobre o declínio do Império Romano, deixa claro que, todos buscam segurança, mas nenhum aceita responsabilidade. A invasão bárbara traz novas perspectivas de vida, porque a vida é sempre busca de mudança e o risco é para muitos a estabilidade preferida.

O impulso interno de cada um ganha expressão no espirito da sociedade, qual força motriz que dá sentido e permite que prossiga com coragem. A grandeza da humanidade exige que passemos a dar o melhor de nós e isso só acontece em contextos exigentes. É ai, que se manifestam as forças que nos ultrapassam, forças superiores, essenciais para o bom funcionamento da sociedade. Cada um de nós convive com uma força interior de derrota, de abatimento e de incapacidade. Nos momentos de grande pressão é posto à prova num ressalto de humanidade, na força de avanço, onde só o amor tem sentido. Durante todos os ciclos da vida fazemos experiências enriquecedores na busca de soluções positivas de ajustamento, como nos propunha Erik Erikson.

Abraçar a dor da mudança, da crise ou da dificuldade; assumir um amor activo e determinado que me faça sair do labirinto que me incapacita; ter um espirito forte que não exclui o outro e o recupera para se recompor; desenvolver posturas de agradecimento, de reconhecimento da dimensão espiritual; e arriscar sempre, diante do desânimo e da desmoralização de tantos que nos cercam, permite, ser criativo e desafiar os outros a uma atitude idêntica. Fica nas suas mãos a espiritualidade para este tempo e nela a espiritualidade do novo mundo que imerge em cada um de nós.

 

Pina Franco, 2014

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Quarta-feira, 28 de Maio de 2014

Circuncisão e Mutilação genital feminina

 

 

O tema que nos reuniu no XII jantar tertúlia na Mesquita Central de Lisboa, não era um tema leve nem de abordagem simples. 

Este foi o motivo de termos o maior painel (5 elementos) de todas as 12 sessões. A abordagem foi feita sob quatro perspetivas:

1. A bordagem médica pelos Doutores Mussa Omar e Joshua Ruah que, paralelamente a essa visão também apresentaram a visão da religião a que pertencem (Islão e Judaísmo respetivamente). 

2. Abordagem social e mais sob o pontod e vista experiencial por parte da Dra. Diana Lopes e demais colegas da Associação Musqueba. 

3. Uma Abordagem mais jurídica e de apoio à vítima partilhada pela Dra. Ana Ferreira da APAV.

4. E uma visão e explicação religiosa partilhada pelo Sheik David Munir, Imã da Comunidade Muçulmana de Lisboa. 

 

Das apresentações e do debate que se lhe segiu podemos concluir o seguinte:

1. A Mutilação Genital Feminina é uma prática mais recorrente entre os países africanos e, dentro destes, entre as comunidades muçulmanas. Pelo Dr. Omar percebemos que toda a linha (de costa a costa) da África Central tem uma alta incidência da MGF. 

Percebeu-se também que a MGF está a aparecer também na Europa, muito por via das comunidades de imigrantes que vão chegando provenientes dos paísessupra citados. 
A Dra. Diana Lopes partilhou connosco que, em Portugal, a MGF também acontece. E acontece de duas formas: Sendo praticada nas crianças (sensivelmente 8 anos) cá ou quando acompanham as famílias nas férias à Guiné (o Movimento Musqueba trabalha essencialmente com a comunidade Guineense) regressando já mutiladas. Em relação a este tema foram ainda partilhados alguns testemunhos (pessoais e assistidos) da realização de MGF e das dores e total desrespeito pela criança que estão aportadas ao processo. Para exemplificar uma criança que chega a estar 8 dias de pés e mãos atadas numa cama em que apenas recebe visitas para ser alimentada a fim de sarar a ferida provocada pela MGF... 

Pela exposição de alguns membros deste movimento e do próprio Sheik David Munir percebeu-se que a MGF, apesar de ter grande prevalência entre as comunidades muçulmandas, não tem nada a ver com preceitos religiosos, mas antes com preceitos ancestrais e sociais. A exclusão social a que são votas das mulheres que não passaram pela MGF é uma pressão enorme para que a mesma continue a ter lugar. É a própria comunidade que faz esta segregação e exclusão das que não forma sujeitas à MGF. Em sítio algum do Corão ou da Sharia vem dito que as mulheres deveriam passar por esse processo, antes pelo contrário, segundo o Sheik David Munir, está dito na própria Sharia que é proíbido mutilar qualquer parte do corpo humano. Nesse sentido, e ainda segundo o Sheilk Munir, quem comete MGF está a pecar 3 vezes: "pois está a mutilar um corpo, ainda por cima na intimidade da pessoa e, a terceira agravante, sendo a pessoa ainda uma criança".

Acontece que, esta temática, é dentro das comunidades um assunto TABU. Não deve ser debatido nem pensado. É para cumprir e manter. A partilha de duas experiências em que se ousou falar e pensar esta questão para fora das comunidades resultaram (segundo os próprios, sendo um deles o Sheik David Munir) em ameaças pessoais e à família, demonstrando assim o profundo secretismo a que está voltada esta prática. 

Questionou-se a legalização/condenação deste ato ignóbil como um crime público, tendo a Dra. Ana Ferreira da APAV relatado que já houve em Portugal um caso em que a menina deu entrada no hospital público com sensivelmente metade do Clítoris mutilado, mas na hora de ser apresentada queixa como crime público, a instrução não aceitou uma vez que "apenas foi mutilado metade do Clítoris e, como tal, não prefigurava a moldura penal de um crime público"... Percebeu-se pelas diferentes sensibilidades e experiências presentes na sala que a simples legalização não era suficiente, é necessário ir mais longe, ir mais fundo, é necessário intervir dentro das próprias comunidades, informar e alertar para os perigos e consequências destes atos. 

Para terminar, foi explicado por um investigador Guineense presente na sala e que pertence ao Movimento Musqueba que a explicação que encontrou dentro da sua comunidade para a justificação da prática da MGF nunca passou pelo fator religioso, mas antes por outros dois motivos: 

1. No tempo em que os maridos tinham necessidade de se ausentar por muito tempo da comunidade, a MGF era realizada como forma de retirar o prazer sexual das mulheres para que assim pudessem permanecer fiéis até ao seu regresso;

2. Para conservar a mulher mais pura...

 

Falou-se ainda dos quatro tipos de MGF, a saber:

O primeiro passa pela remoção parcial ou total do clítoris ou prepúcio.

O segundo refere-se à remoção parcial ou total do clítoris e dos pequenos lábios, com ou sem corte dos grandes lábios, também chamado excisão.

O terceiro é o estreitamento do orifício vaginal através da criação de uma membrana selante, pelo corte e suturação dos pequenos lábios e/ou dos grandes lábios, com ou sem excisão do clítoris. Identificado como infibulação.

O quarto tem a ver o corte da vagina realizado geralmente com recurso a um instrumento afiado; inclui ainda um conjunto de práticas não enquadradas nos tipos anteriores: a cauterização por queima do clítoris e do tecido envolvente; raspagem do tecido envolvente do orifício vaginal; introdução de substancias corrosivas ou ervas na vagina, para provocar sangramento ou com o propósito de a estreitar.

 

Já o caso muda de figura em relação à questão da Circuncisão. Neste aspeto, ambos os médicos e o Sheik David Munir referiram toda a dimensão religiosa inerente à circuncisão entre os elementos das comunidades judaicas e muçulmanas. A identificação com Abraão e a preservação da Aliança entre Deus e os homens estabelecida nessa "ordem dada por Deus" é um dos motivos apresentados pelas duas religiões para a condição de circuncidado ser tida como fundamental para a pertença à religião (mesmo entre os convertidos).

Apresentaram-se os benefícios da circuncisão (que aparentemente são amplamente maiores que os malefícios) e a altura em que é feita: no judaísmo ao 8 dia (também pelo facto de ser indolor) e no Islão sensivelmente na altura da puberdade, não havendo contudo uma data obrigatória. Um dado curiso: se por algum motivo um homem no Islão não tiver sido circuncidado em vida, é-o depois de morto no momento de preparação do cadáver para o enterro. 

Sentiu-se entre os oradores e os presentes um clima de descontentament pelas directrizes emanadas pelo Parlamento Europeu que visa proibir a circuncisão mesmo quando esta acontece por motivos religiosos. Os oradores (em especial o Dr. Joshua Ruah) alertaram para uma nova forma anti-semitismo já não contra os judeus mas contra os muçulmanos!

Em relação a este tema ficou ainda bem patente na intervenção do Sheik Munir que a Circuncisão tem, sempre, de ser feita em ambiente clínico (público ou privado) e sob supervisão médica, sendo, aliás, o próprio médico o responsável por aferir quando é que o jovem ou adulto está pronto para ser circuncidado. 

 

Concluindo:

Ficaram amplamente percetíveis as diferenças que encerram a MGF e a Circuncisão. Percebue-se que ambas não podem ser abordadas da mesma forma nem sobre as mesmas perpetivas. Ficou claro que, apesar da MGF ter índícies altíssimos de prática entre a comunidade muçulmana nada tem a ver com preceitos estabelecidos por esta. Pelo contrário a circuncisão é um preceito religioso judaico e muçulmano e aparece como condição para uma adesão plena às referidas religiões. 

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Terça-feira, 27 de Maio de 2014

FE Y SENTIMIENTO DE DEVOCIÓN

 

 

 

Parece que en Occidente se ha perdido en gran medida la fe, pero esto no es así. Seguimos teniendo fe, pero un gran número de personas no tiene fe en Dios o en seres espirituales. Sin embargo, estas personas siguen teniendo fe en sus amigos, familiares, autoridades académicas, en la ciencia (que hoy en día exige mucha, pero que mucha fe), etc. Por ejemplo, que el ser humano haya pisado la Luna es una pura cuestión de fe, que la mayoría cree pero que nadie puede demostrar, y como esto muchas cosas más.


La fe en Dios o en seres de naturaleza espiritual y en la existencia de un mundo espiritual es una cuestión de fe. Esta fe tiene la virtud de generar un sentimiento de devoción similar a una gran admiración, que es muy necesario por no decir imprescindible, para avanzar en un camino espiritual. Estos seres de naturaleza espiritual y su mundo pueden ser Dios y los ángeles, los Dioses antiguos o de la India, los Budas y bodhisattvas, etc. La admiración por ellos nos coloca en un estado emocional muy intenso que nos permite profundizar en la meditación. En realidad, estos seres espirituales no son otra cosa que cualidades y arquetipos que se encuentran en nuestra mente profunda, cualidades que normalmente no desarrollamos y que tienen la virtud de purificar nuestra vida cotidiana. Y también arquetipos profundos de nuestra mente subconsciente, como son la madre, el padre, el sí-mismo o la sombra, en todos sus niveles de manifestación, con los que nos vamos a encontrar en el recorrido interior.


Por ello, la fe y el sentimiento de devoción son algo que debe cultivarse desde bien pequeño, un niño que siente una admiración reverencial por un adulto conserva, en su madurez, este sentimiento de devoción y admiración por seres espirituales superiores. Un sentimiento de devoción que conmueve y que se estimula con la música y el canto devocional. En el fondo, los ejercicios de kriya-yoga y las prácticas devocionales del bhakti-yoga (fundamentalmente el canto) buscan colocar a la mente en un estado de conmoción y sensibilidad profundo, lo que permitirá, con el tiempo y la práctica del yoga y la meditación, identificar los circuitos y movimientos de la energía vital, con los que el yogui trabaja y que experimentan muchos bloqueos por cuestiones emocionales, provocando todo tipo de enfermedades.


La actitud científica y el sentimiento de devoción son dos herramientas de incalculable valor en el camino interior, sobre todo para personas de nuestro ámbito cultural, donde se ha potenciado el pensamiento racional, que también puede ser utilizado con un propósito espiritual.

 

Juan Almiral Arnal

Em: circulo de la sabiduria




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Sábado, 17 de Maio de 2014

Da matriz religiosa das touradas

Esta semana, o programa Prós e Contras da RTP1 voltou a abordar o tema da festa brava: "Touradas: Património ou Barbaridade?" Neste fórum, não pretendo pronunciar-me a favor ou contra as touradas, mas simplesmente evocar antiquíssimas celebrações festivas com touros, de carácter religioso, por toda a bacia mediterrânica e, o que mais nos interessa aqui, em Israel.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um antigo culto mediterrânico

 

O touro é omnipresente na antiga religião mediterrânica, da Anatólia ao Egito, da Creta minoica à Índia, sem esquecer ainda os cultos de Mitra na Roma Antiga. Ele é considerado um animal divino, simultaneamente símbolo da lua, da fertilidade e do renascimento.

 

Na antiga religião israelita - que não deve ser confundida com o Judaísmo que se desenvolveu em Yehud (a província persa de Judá) após o exílio babilónico - o touro desempenhava um papel idêntico ao de outros povos mediterrânicos da época, a saber: para além da sua função ou uso sacrificial (cf. Levítico), estava também relacionado com o culto de algumas divindades (e, no caso concreto, com Javé; cf. 1 Reis 12).

 

"Israel, eis o teu deus que te fez sair da terra do Egito" (Êxodo 32, 4)

Em vários lugares da Bíblia Hebraica, evoca-se a apostasia israelita, consubstanciada na adoração do "bezerro de ouro" (cf. Êxodo 32; Deuteronómio 9; 1 Reis 12). Em 1 Reis 12 e Deuteronómio 9, particularmente, a polémica deuteronomista visa certamente esse antigo culto israelita, paralelo ao ugarítico. Em Israel, Javé seria adorado, provavelmente, como um deus da tempestade, do tipo Baal; e, tal como Baal, era representado pelo bezerro (sendo El, o chefe do panteão cananeu, muitas vezes evocado como o “Touro [adulto] El”). Aliás, nas montanhas de Manassé, perto de Dotan, foi precisamente encontrada uma estatueta de um bezerro em bronze, que poderia perfeitamente ilustrar esta realidade.

O capítulo 12 de 1 Reis parece indicar que era celebrada em Betel uma importante festa a Javé, "libertador do Egito", como seria bem expresso na formula litúrgica: "Israel, eis o teu deus [Javé] que te fez sair da terra do Egito". Os ecos dessa celebração, porém, seriam mais claros no episódio do bezerro de ouro de Êxodo 32.

 

"Amanhã haverá festa em honra de Javé" (Êxodo 32, 5)

Os exegetas dividem-se na interpretação desta passagem. Segundo alguns - e é a posição mais difundida -, haveria nesta passagem uma alusão ao contexto marcial da festa israelita. O bezerro de ouro seria o suporte ou pedestal da divindade invisível (mantendo-se portanto o carácter anicónico da religião israelita), que era levada em procissão, durante a qual se repetia a fórmula litúrgica acima invocada. E, à semelhança do que acontecia no Sul com a Arca da Aliança, o bezerro de ouro seria também transportado, como símbolo da presença da divindade, nas chamadas "guerras de Javé".

Outros, porém, veem nesta passagem uma paródia da festa da renovação da aliança do Reino do Norte, na qual a imagem do bezerro representava efetivamente o deus nacional (tanto de Israel como de Judá), Javé, pelo que seria uma autêntica apostasia no entender dos escritores sagrados do Reino do Sul (que são os que, finalmente, escreveram a Bíblia!).

Finalmente, Jack M. Sasson chama a atenção para a possível representação icónica do bezerro de ouro: é certo que, enquanto símbolo da fecundidade, poderia evocar o deus israelita como garante da fecundidade em Israel (cujo solo não era assim tão propício, como noutros lugares do levante), e ao mesmo tempo ícone ainda das celebrações desportivas que marcavam as festas litúrgicas, não só em Israel como nos vários povos da região (a que alude também a passagem de Juízes 16, 25).

 

"Com o meu Deus, saltarei sobre o touro" (Salmo 18, 30)

Desde o início do segundo milénio antes de Cristo, existem vestígios iconográficos, em várias culturas mediterrânicas, de celebrações festivas envolvendo jogos com touros, e nomeadamente o salto sobre o touro (ver imagens).

A esse tipo de jogos aludiria o Salmo 18, 30 (e o respetivo paralelo 2 Samuel 22, 30). Philippe Guillaume e Noga Blockman (ver infra) demonstraram, recentemente, que as traduções correntes não respeitam o sentido original da raiz hebraica, que remeteria para o animal (touro) e não para um hipotético "muro" ou "muralha". A ser isso verdade, estas passagens bíblicas mencionariam os jogos taurinos que aparecem em inúmera iconografia da área mediterrânica (Dijk 2011), e fariam luz sobre a festa mencionada em Êxodo 32, na linha da interpretação de Jack M. Sasson (Russel 2009).

 

Para aprofundar: Renate M. Van Dijk, The Motif of a Bull in the Ancient Near East: An Iconographic Study, dissertação de Master of Arts, University of South Africa, 2011. Philippe Guillaume e Noga Blockman, "By my God, I bull leap (Psalm 18:30 // 2 Samuel 22:30)" [2004], in www.lectio.unibe.ch/04_2/HTML/guillaume_blockman.htm (consultado em 13/05/2014). Stephen C. Russell, Images of Egypt in Early Biblical Literature, Berlim, Walter de Gruyter, 2009.

 

Porfírio Pinto

 

 

 

 

 

 

 

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Segunda-feira, 12 de Maio de 2014

A Igreja não é o Papa, mas...

Na história da Igreja e das religiões em geral, há que distinguir a vivência dos crentes em relações de proximidade, das estruturas e/ou líderes que à distância definem e preservam os «cadernos» doutrinários, quando os há. As duas dimensões cruzam-se e legitimam-se num «jogo» de (des)obediências e (des)lealdades. Entre a realidade e a ideia, nem sempre coincidem. Na verdade, raramente coincidem.

 

Se a Igreja não é o Papa, como o Papa não é a Igreja, a manifestação de fé experimentada há uma semana enquadra uma Igreja católica ainda compreensível a partir da cadeira de Pedro. A linguagem mediática, emotiva e consensual, arrasta estereótipos e impõe códigos de compreensão. A comunicação é uma “ciência sagrada”, diz o cardeal de Nova Iorque Timothy Dolan, um comunicador experiente. A popularidade do Papa é determinante para o catolicismo.


As canonizações simultâneas de João Paulo II e João XXIII sustentam esta dependência em relação à figura de um papa comunicador e popular, mas têm uma leitura que vai além do imediato.


Sem um segundo «milagre» a encerrar o processo, a canonização de João XXIII foi uma opção pessoal de Francisco num acentuado processo de humanização do papado, que destaca as virtudes da vida concreta. Impulsionador da modernização da Igreja no século XX, o papa Roncali atravessa cinco décadas para se fazer presente num pontificado empenhado em atualizar a Igreja. Atualizá-la e reconciliá-la consigo própria, pelo conteúdo e não apenas pela imagem.


Não devemos comparar tempos diferentes e diferentes circunstâncias, mas é o papa Francisco que, ao decidir canonizar em simultâneo os dois antecessores, promove a análise comparativa. Independentemente dos trilhos interpretativos, e sem entrarmos na contextualização, a Igreja não teria um João Paulo II, um João Paulo I ou um Paulo VI, se não fosse um João XXIII. É um facto. Como não teria um Bento XVI cerebral e «mal-amado» pela imprensa, se não fosse um João Paulo II emotivo e ultra-mediático.


Cada um destes papas é uma sequência determinada pelas circunstâncias – políticas, religiosas… –, a resposta a um mundo em rápida, desconcertante e permanente mudança nos últimos 50 anos, como se intuía no Concílio Vaticano II, cuja dinâmica é imparável.
Um século marcado pela guerra e por ditaduras, mas também pelas liberdades e pela nova «teologia» dos direitos humanos, produziu papas empenhados na paz e no diálogo.   Ação do Espírito, dirá a tradição. Terá faltado a mesma abertura para o diálogo interno após o Concílio Vaticano II, o salto da prudência para o discernimento.


Não deixa de ser curiosa a notícia da beatificação de Paulo VI. A confirmar-se, é outro momento sem precedentes na história da Igreja de Roma. Três Papas que se cruzaram, elevados aos altares numa mesma geração. Paulo VI foi o papa que conduziu o Concílio Vaticano II – a maior revolução da Igreja no século XX, desencadeada pelo papa João XXIII, agora feito “santo” pela mão de Francisco. Teve um papel político determinante. Foi o primeiro a viajar pelo mundo. O primeiro a visitar Fátima. Recebeu no Vaticano movimentos independentistas de África e apoiou a democracia cristã italiana, de centro-esquerda. Foi também o papa que assinou a encíclica Humanae Vitae, que fixou a rígida doutrina sobre a procriação e a contraceção.


Falta reabilitar João Paulo I, o ousado papa do sorriso e da simplicidade. Teve um pontificado demasiado curto, mas suficiente para lançar uma insanável especulação. Se Francisco correspondeu a uma expectativa. João Paulo I criou essa expectativa. O que seria hoje a Igreja e o mundo se o papa Luciani tivesse tempo?


Vindo de um país marcado pelo totalitarismo soviético, o papa Woytila fez do pontificado um palco estruturante do catolicismo contemporâneo, na defesa da liberdade religiosa e política, da dignidade humana. Com as armas da modernidade, no dealbar das redes, reforçou uma identidade moral, não necessariamente coincidente com a prática dos fiéis. Apesar do «vulcão» mediático, não foi capaz de impedir o acelerado afastamento dos templos e da vida cultual. Cavou-se um fosso entre interpretações doutrinárias e no terreno da experiência de fé, cada vez mais condicionada pelo individualismo. Surgiram divisões, segregações, ergueram-se barreiras e incompreensões à sombra de mecanismos de poder. A resignação do papa Ratzinger é interpretável também neste contexto.

   
Se a Igreja é para o mundo, os desafios que a Igreja enfrenta são os desafios do mundo. Guardião da doutrina e da tradição, mas tendo, por via da secularização, deixado de ser referência exclusiva nas estruturas do pensamento, cada um destes pontificados deve ser lido a partir desta «verdade e consequência»: Os papas são homens com uma história pessoal moldada pela fé, que ao mesmo tempo têm de interagir com as circunstâncias históricas, com os sinais do tempo, de cada tempo.


O sentido da atualização do papa Bergoglio, estará a retomar a intuição – aggiornamento – de João XXIII. Tornar a Igreja mais inclusiva com a dinâmica da misericórdia e elevar o discurso social. Neste sentido, diante de uma Europa politicamente fragilizada, potenciado pela simplicidade e pela coerência, sem uma estratégia mediática convencional, Francisco ocupa um quase vazio. E enquanto tremem alicerces, não falta na Igreja quem faça uso estratégico da espontaneidade do papa argentino, jesuíta de formação. Para o exaltar ou para o diminuir, entre o entusiasmo e a recusa, com mais ou menos subtileza.

 

Por: Joaquim Franco

Jornalista e investigador da Área de Ciência das Religiões

Texto publicado na SIC Online



Sugestões de leitura: Francisco – Vida e Revolução (Esfera dos Livros) de Elisabetta Piqué; D. José Policarpo, uma voz tranquila no palco da democracia (Paulinas) de António Marujo e Jorge Wemans.

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Segunda-feira, 5 de Maio de 2014

Último texto "Insha’Allah“

"Aquele que fala não sabe Aquele que sabe não fala” Lao Tze

 

Quando entrei em contacto com a área da Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, decorria o debate sobre qual seria o termo a utilizar para o nome de um departamento: esoteriologia ou esoterismo. Enquanto o primeiro é uma espécie de “fazer o mapa” o segundo será uma espécie de “percorrer o caminho” e estava aceso o debate sobre qual o termo a usar. Vão compreender o porquê desta introdução. Cedo me propus ir escrevendo uns pequenos ensaios para o blog desta área de estudos da universidade, sobre um tema que por alguma razão me é caro, o Islão. Abeirei-me, portanto desta religião assim “jornalisticamente”, lendo os seus textos, conhecendo os seus praticantes e seus rituais, observando, opinando e muitas vezes, pretensiosamente, julgando ter já algo a dizer sobre o assunto. Assim como quem está à porta da mesquita (e é proibido estar à porta da mesquita), como quem está à porta de um templo, atento e relatando para a linguagem do mundo aquilo que se pressente estar a passar-se lá dentro. Não me cabe ajuizar os desígnios de cada um, neste mundo, mas esta posição de “cientista da religião” não me satisfez, tendo em conta a impetuosa calma do caminho de aniquilação silenciosa que para mim se abriu. E mais do que pressentindo, ou gostando dos aromas do Islão, trata-se daquele “tem de ser”, que compassa a Vida. Entendam este texto como uma despedida da minha curta actividade de filósofo ensaísta esboçada neste blog, ou entendam-no como uma indicação que convida. Percorrer o caminho em silêncio, não como quem guarda o que sabe, mas como quem nem sabe o que sabe, nem decide, nem opina, mas cumpre a Vida. “Mort avant mourir!” (Schuon) portanto, e o horizonte silencioso, para além da ruminante análise da vida, que “foi uma ajuda e que é um entrave” (Aurobindo)

 

Francisco Ferro Lisboa 25-4-2014

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Publicado por Re-ligare às 16:28
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