Domingo, 26 de Outubro de 2014

Entre a pobreza e a miséria

 

Participei, da forma mais modesta, na Jornada Internacional pela Erradicação da Pobreza levada a efeito no passado dia 17 de Outubro. Não sei se posso dizer que participei – pois dar a cara, escrever umas linhas, mostrar-me comprometido com o lado social e humano, não chega a ser digno de menção. Pode, ao ler-me, julgar que eu promovo qualquer equívoco, já que o tema não é cingido a Mafra, mas dir-lhe-ei que não só a conexão existe – em Mafra há pobreza, há miséria, há ainda o encapotar da mesma, sob o manto envergonhado de não confessar que se passa por privações graves – como é uma realidade cada vez mais generalizada. Ouvi vários argumentos nessa Jornada e no entanto só registei o eco daqueles que não ouvi. O mundo mudou nos últimos 40 anos. Sim, dos anos 1970 do século passado para agora. Não foi uma mudança nacional – aqui, mesmo assim, a euforia de Abril deu-nos a cor que não tínhamos e depois um futuro que temos vindo a perder, em especial nos últimos 3 anos – mas uma mudança profunda no mundo ocidental. Hoje há conflitos cada vez mais fortes e os mais ferozes são entre ricos e pobres – apesar da aparente calma da nossa sociedade portuguesa, passividade que reflete bem como os mais carenciados não têm voz nem acesso ao poder. Esses conflitos resultam do que se passou nestas quatro décadas: a crueldade progressiva suportada pela maioria das pessoas, numa economia moldada e codificada há décadas para servir o interesse de muito poucos. É todavia um erro pensar que vivemos num país em que, uma a uma, as instituições que eram suporte e esteio da sociedade vão sendo corrompidas, destruídas ou que sofrem uma implosão – é mais acertado dizer que é essa a imagem que estamos a adquirir (e a sofrer) do mundo em geral, sombra daquele que conhecíamos ainda há pouco. Não é um exclusivo nosso, portanto. É pouco – é pobre – brandir apenas um chavão. Por exemplo, o da necessidade de proclamar ilegal a pobreza. As vaias não bastam. Obviamente, sem ir incomodar Karl Marx lá ao seu repouso no Cemitério de Highgate, no Reino Unido, diria que o eco mais forte dos muitos que não ouvi ressoam na expressão luta de classes, que Marx e herdeiros brandiram como sua. A luta de uma classe de trabalhadores (os geradores da riqueza, a classe média) contra aqueles que a destituem e exploram. Uma nova luta, uma velha luta. É dela que resultam os pobres e sem eles não haveria os mais ricos. Outro eco que não ouvi é o da evidência: a recessão económica está ligada à recessão da democracia. Esta última é tão profunda, que há políticos que assumem que nem precisam de ouvir as pessoas – porque não são a sua prioridade. Mas o declarado abandono do interesse público, da responsabilidade e do compromisso com a real democracia por parte de uns é o que deve motivar todos os outros. É que sem as pessoas não se faz nada, nem mesmo a sua pobreza. Precisamos já de um novo modo de vida que não se baseie na maximização do poder de compra, mas na maximização dos valores importantes na vida. E como ainda há o que resta da democracia, ainda temos valores, ideais e sobretudo ainda temos o voto como arma. Não temos de regressar aos mercados mas ao respeito pelas pessoas, ao combate à corrupção e à influência empresarial sobre o destino social. E já agora, outro eco: são os cidadãos os defensores da cidadania.

         

 Alexandre Honrado, investigador e docente da área de Ciência das Religiões da Un. Lusófona

(texto escrito para o Jornal de Mafra)

      

 

 

Publicado por Re-ligare às 11:10
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Sábado, 18 de Outubro de 2014

Missões, evangelização e a identidade portuguesa

Encheu-me de gozo ouvir o arcebispo de Goa em Fátima agradecer a fé cristã recebida dos portugueses e dizer que a sua mãe o ensinou dar o nome de Fátima a Nossa Senhora. A evangelização e lusofonia na expansão, colonização e emigração portuguesas são inseparáveis, como ficou bem evidenciado no Congresso dos 500 anos da diocese do Funchal. O caldo lusófono de Banguecoque, Sri Lanka, India, Brasil, Angola; e das comunidades de emigração , Canadá , Estados Unidos,Venezuela, África do Sul, Austrália, para não falar das da Europa, consta de marcas e vestígios católicos, igrejas e capelas; nomes de bispos portugueses, missionários, fundadores de obras sociais; santos portugueses, catecismos, festas religiosas, que tornam inseparáveis lusofonia e evangelização católica. As duas dão visibilidade a Portugal no mundo. Surpreende que em tantos volumes eruditos sobre lusofonia se omita esta ligação com a evangelização. A aldeia global lusófona não existiria sem a evangelização católica realizada por missionários e leigos católicos. Ser conhecido, do Brasil ao Japão, Portugal deve-o aos missionários das naus de Lisboa.

Sem expansão missionária católica quem notaria Portugal? Sem o ímpeto da evangelização na expansão, colonização e emigração portuguesa a dimensão da lusofonia ficaria meia apagada. Em Lusofonia e Identidade na Diáspora concluímos a urgência de um “Mapa de lusofonia e portugalidade” da língua e cultura portuguesa no mundo, como serviço ao revigoramento da identidade e da pertença ao “Portugal Missionário”. Sem as missões do Padroado a identidade portuguesa ficaria sem afirmação. Nem se esqueça que para além das bandeiras do Futebol e do Fado, Fátima e Nossa Senhora, a grande evangelizadora, ainda é um dos maiores focos de irradiação da portugalidade e lusofonia!

A mentalidade de génese pombalina, liberalista e maçónica hostil à Igreja persiste em escamotear a coesão do empreendimento português de séculos entre a expansão, colonização e evangelização católica. Algumas tensões e conflitos neste empreendimento não anulavam a necessária unidade e colaboração pelo ideal comum de expandir Portugal e dilatar a Fé Católica. Hoje sobram os conflitos ideológicos e falta a coesão à volta de um empreendimento capaz de unir e dinamizar os portugueses. E não será encontrado sem a chave perdida da lusofonização evangelizadora. Não se enxerga “cola” que possa unir o país. A primeira globalização  veio do fermento evangelizador lusófono; a grande pequenez do Portugal de Quinhentos dilatou-se na expansão de sentido evangélico que ainda hoje espanta e leva muitos povos dos cinco continentes a agradecer a Portugal a sua fé católica.

Precisamos de um mapa guia para visitar os marcos da história de lusofonização e evangelização católica que fomos e somos. As   muitas centenas de igrejas e capelas; nomes de   evangelizadores, ruinas de conventos, hospitais, escolas e residências de bispos, missionários, religiosos; devoções e irmandades difundidas; e a suas obras escritas nos arquivos e bibliotecas pedem entrada nesse mapa para em dia das Missões nos dizerem o que somos e o que arriscamos esquecer.

Funchal, 17 de setembro de 2014

Aires Gameiro

Publicado por Re-ligare às 15:49
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Sábado, 11 de Outubro de 2014

A inutilidade de sermos história

            

Aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a arte de vivermos juntos, como irmãos

              

Martin Luther King

              

              

Dificilmente, à distância, um futuro historiador olhará para estes quase 15 anos do arranque do século XXI e para as fontes de interpretação que dele restarem, com um olhar melhor que o da comiseração. Sentirá remorsos, porque a falta de objetividade desse sentimento limitá-lo-á na sua tarefa. Sentirá como recompensa o prazer de ser um sobrevivente. Ao contrário dos que aventavam os jornalistas económicos, a sua profissão manteve-se, para explicar-lhes como estavam errados. Ficará talvez conformado, esse historiador, por não ter sido ainda este o tempo do fim da História que colegas seus haviam preconizado. Até porque um historiador não deve produzir futurologia, a sua missão de entender o passado é que permite exatamente o futuro e o estonteante, efémero, pulverizado momento presente. Ficará, o mesmo historiador, um pouco abismado com a arte de dominar o descartável dos povos do passado, afinal seus pais e avós: no início do século XXI somos deglutição. Ficará espantado ao perceber que Paquistão, Afeganistão, a Serra Leoa que estavam nas capas dos jornais desapareceram para dar lugar à República centro Africana, esta à Somália, e à Nigéria, ao Mali, ao Egito, engolidas pela Ucrânia, a Rússia, o Iraque, a Síria, a Palestina, Israel, o ébola..., num desfile de horrores sem consequência, apenas a voracidade dos espectadores, quase todos ocidentais, sentados na poltrona da paciência, vendo o medo e a estupefacção alheios como produto de entretenimento e coisa intocável. Espetadores que um dia não entenderam a Primavera Árabe, no dia seguinte não perceberam as sublevações no Brasil e uma semana a seguir não quiseram esperar para ver como acabava a situação das raparigas raptadas pelo grupo extremista Boko Haram, apenas por falta de interesse e paciência. A realidade alheia é sempre menor. Como encarar um século que começa com o 11 de setembro como grande chancela, e banaliza progressivamente o terrorismo? Temos saudades das suspeitas sobre Saddam Hussein, e do seu alegado programa de construção de ogivas de mísseis, quando vemos agora o sangue em direto e os corpos dilacerados, dia após dia, nos territórios mais variados. Sentimos uma certa romântica nostalgia por Bin Laden, aventureiro das arábias. Aqui na Europa, onde quase ninguém sabe ainda onde fica a Bósnia, já ninguém se lembra de Atocha e interpreta-se Auschwitz como estância de ficção. As guerras de hoje fazem pouco sentido para a maior parte de nós. E todavia houve momentos da História em que se justificaram: as guerras libertadoras, as guerras em nome de causas, as guerras pela autodeterminação e pelo erradicar do jugo, as guerras em nome do que se acreditava – e as que se travavam dentro do Homem, pela sua dignidade. As guerras de causa voaram nos estilhaços dos interesses económicos. E quando vemos um pobre desvairado a agitar a sua arma, acreditando que tem nas mãos o destino do Mundo, sabemos que o seu epitáfio será escrito com poeira pobre, dessa que se faz com pólvora, lama e sangue desperdiçado. Mesmo que combata numa guerra pesada, ele não tem o menor peso. E ao banalizar a violência esgotou-lhe o pouco sentido que ela podia ter. Se o terror se estabelecer, se for uma generalização já ninguém se aterroriza, limita-se a viver sob o novo padrão do medo e a ser o próprio medo. É frustrante. É uma narrativa que se dilui na sua própria estrutura, sem sentido nem vitória. Tranquilo com a abolição do califado por Ataturk, o Mundo acorda anos depois com a vontade do restauro do mesmo califado, por vontade de um franco-atirador de quem (ainda) não se fixa o nome. Talvez o futuro seja apenas um pátio escuro ou a explosão solar. E o que acreditados em matéria de direitos humanos, de democracia, de laicidade, da herança das Luzes, finde num massacre. Talvez o historiador do futuro entenda que quem abriu as portas à tragédia, tenham sido aqueles que afastaram o Homem como centro, como os ultraliberais, os adoradores dos mercados, os salvadores dos bancos – que patrocinam as guerras, que os enriquecem. O historiador do futuro achará inútil as mortes. As do World Trade Center ou de Kobani, na Síria, ou as crianças-soldado em todos os cenários de Guerra. Provavelmente, achará inútil a própria história e tudo aquilo que, juntos, fomos incapazes de aprender.”

               

Alexandre Honrado

 

Publicado por Re-ligare às 22:55
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Quarta-feira, 9 de Julho de 2014

O PAGANISMO ONTEM E HOJE

Contar a história do Paganismo, é contar a história da civilização. Outrora a religião de impérios, hoje é associada à vida campestre e rural, aos poucos conhecimentos e modos de vida primitivos. Apenas uma destas é falsa: o pouco conhecimento.

O Paganismo é uma religião assente em três princípios: o panteísmo, o politeísmo e o dualismo. Viajar por estes três princípios é saber a Natureza como sagrada, imbuída de um divino que, por se manifestar de formas diversas (a bio diversidade comprova-o), reconhece vários Deuses que encerram em si o conhecimento que nos permite alcançar um estado de harmonia e sintonia com um Cosmos criado a partir de dois pólos energéticos opostos, que não se aniquilam nem anulam, antes se complementam numa dança infinita ritmada pela divina lei do nascer, crescer, morrer e renascer, que marca o tempo como o conhecemos.

Este conhecimento vive nas tradições pagãs da Europa desde as suas origens: as tradições cretense, helénica, romana, ibérica, nórdica, celta, entre outras.

Na sua vivência plena, o Paganismo é uma religião natural, de observação de ciclos como o solar e o lunar. É uma religião que parte do que observa à sua volta, nos padrões que regem a vida e a natureza. Sim, podemos reconhecer facilmente a dimensão campestre do Paganismo. Mas nesta observação de ciclos naturais, nesta observação de padrões como as marés e a lua, também vemos um entendimento dos primeiros elementos primitivos de cálculo e raciocínio matemático.
Em todos estes reflexos (cosmológico, campestre e primitivo) somos também levados a reconhecer outra verdade: a da existência e valorização do conhecimento.

Hoje, o Paganismo assume os seus princípios e neles se arma para enfrentar o mundo como outrora já o fizera livremente. Hoje, o Paganismo mostra reverência a leis e a elemento que nunca se separaram da existência humana. Porque hoje a necessidade destes princípios transformou-se num apelo renovado pelas contínuas ameaças ao equilíbrio no ecossistema que nos permite viver nesta Terra. O Paganismo de hoje é o mesmo que o de ontem, apenas transformado na linguagem que nos aproxima do entendimento dos seus princípios.

E estes mesmos princípios transpiram uma ética que é atual: a equidade. É nesta equidade que uma religião espelhada por diversas tradições retoma um espaço no diálogo entre as outras formas de falar o divino, sabendo que as respostas que todas têm respondem à mesma necessidade de conhecimento para se (re)ligarem à origem e ao destino de tudo, seja ontem, seja hoje.

Mariana Vital
Delegada da PFI-Portugal para o Diálogo Inter-Religioso

Publicado por Re-ligare às 14:15
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Segunda-feira, 30 de Junho de 2014

ESPIRITUALIDADE PARA O NOSSO MUNDO

No passado a espiritualidade emergia através de instituições, líderes ou cerimónias e rituais sagrados, canais tradicionais que não envolviam pessoas comuns. O decréscimo de influência dessas instâncias faz com que hoje, as forças superiores entrem na sociedade através do individuo, através de um processo de auto capacitação que propõe nova espiritualidade, enquanto expressão de individualidade.

A espiritualidade é vista como uma inteligência superior que ameaça o racionalismo e que se manifesta como resultado de um percurso do eu interior, geralmente em ambiente de sofrimento, dor, morte, descobrindo uma fonte de ajuda permanente. É como que darmo-nos conta de que nos falta algo, de que estamos incompletos, de que podemos beneficiar de um património que nos transcende. Essa experiência revela-se como capacitante inesgotável, como alegria confiante, como fonte permanente de ajuda.

Hoje as experiências espirituais surgem como resultado do fluir abundante de amor indiscritível, dinâmica de profundidade que dá sentido à existência dos acontecimentos inexplicáveis da vida. Como que se uma inteligência superior pairasse em permanência sobre a nossa ansiedade. Nesta nova dimensão espiritual deixa de ter lugar o dogmatismo e o autoritarismo das religiões e igualmente o misticismo da Nova Era, que propaguei-a a vontade pessoal como fazedor de todas as obras, pelo afastamento de todos os pensamentos negativos.

A convicção de que, o eu interior só pode evoluir se ascender às forças superiores, revela o propósito oculto de todo o sistema espiritual: criar hábitos de passar de consumidor ao criador, através da nossa vontade, respondendo como escolha ao que somos desde a origem. A espiritualidade assenta no que se faz e não no que se acha, no que se pensa, no que se segue ou decide: assenta na experiência pessoal aliada ao poder que recupera do Universo. As limitações, os sofrimentos, a dor, tudo o que te acontece, pode forçar-te na orientação de contacto com capacidades que não pensarias possuir. Aprendemos que para ter validade universal, para ser digna de aceite por todos, tem que ter dimensão científica e uma espiritualidade não tem essa dignidade. Mas o ser humano tem quando procura a totalidade e o desenvolvimento criativo proposto por Carl Gustav Jung.

Como diz Pascal: é o coração que sente Deus e não a razão. A chave está em amar activamente, permitindo que as minhas irritações se evaporem, porque me organizo em redor da confiança e tudo o resto é irrelevante. Quando experiencio a força superior na minha vida, como quando me nasce um filho, quando supero uma doença ou quando sinto perdão de alguém; mudo-me para melhor e sei que me supero, sei que a fé é confiança e que as forças superiores estão sempre presentes para me facilitar a existência. Ao ceder o meu lugar, como agente de mudança, às forças que me superam tenho um aliado todo-poderoso, que não quero mais alienar.

A dada altura damo-nos conta que nos encontramos dentro de um sistema espiritual, como um Universo profundamente solícito para cada um de nós. Na actualidade o sistema espiritual não é apenas um conceito estruturado que devo conhecer ou aderir, antes, é uma experiência pelo qual eu encontro significado positivo para toda a minha existência, seja alegre ou sofrida. Sei que a fé me é ensinada pelo maior professor de todas as nossas aprendizagens: a vida.

A nossa percepção actual está enviesada pelo precário modelo científico, onde a ciência não aceita nada que não possa ser provado de maneira lógica. Todos sabemos que as forças superiores existem num nível não sujeito ao modelo científico. Kierkegaard aludiu a este princípio, quando referiu que a vida tem as suas forças ocultas que só podem ser descobertas se vivenciadas; e a vivência é sempre uma experiência pessoal e única. É ainda a diferença entre saber alguma coisa mentalmente e vivê-la com todas as energias do seu ser.

A nova espiritualidade organiza-se em redor de experiências vivenciadas por cada um. Na nova espiritualidade, cada individuo tem de experienciar as forças superiores e tirar as suas próprias conclusões sobre a sua natureza. As figuras de autoridade externa deixam de poder definir percursos para a realidade espiritual de cada um, baseando-se na singularidade de cada ser humano, permite experimentar a natureza das forças superiores à nossa maneira.

Na realidade actual a maioria das pessoas não se encaixa propriamente numa religião contradizendo mesmo os ensinamentos da própria fé. Católicos que praticam meditação oriental; ou que participam noutros grupos religiosos; protestantes que rezam à virgem Maria; e ainda judeus budistas. Esta postura de libertinagem religiosa não está a ser posta em causa pelas religiões. Não creio que as pessoas que assumem este comportamento o façam por ignorância, mas, porque escolhem o que funciona para eles, com base nos seus instintos espirituais. Mais que uma religião hoje, busca-se uma espiritualidade e as religiões tradicionais parecem ter perdido a espiritualidade.

O facto dos problemas pessoais serem a força motriz da evolução espiritual de muitos: grande adversidade, execução hipotecária, despedimento, morte de um familiar, os indivíduos superam esse momento difícil mudando a lógica que tinham da vida. Viviam organizados em redor da mentalidade consumista: a sua vida tem sentido quando as suas necessidades estão satisfeitas; e mudam para uma mentalidade criativa: os problemas, as adversidades são um trampolim para algo de melhor que pode surgir, algo que o transcende, algo a que se abrem: uma dimensão espiritual.

Enfrentar seus próprios problemas é demasiado doloroso, por isso muitos se organizam em redor dos problemas alheios que os, média nos comunicam. Com esta atitude denunciamos, que em cada um de nós há o desejo de superar as dificuldades, tal como proclamava Freud ao introduzir a psicanálise, com terapia. Todos temos consciência da importância dos problemas na evolução pessoal e sabemos que temos mais capacidades do que as que estamos a demonstrar. Temos capacidades que estão ocultas e dispomo-nos o fazer o necessário para as desenvolver. Queremos responder aos nossos problemas como criadores e fazemos da psicoterapia do Freud ateu, um processo de crescimento espiritual.

Muitos dos nossos contemporâneos, perderam a fé no futuro; na comunidade humana, da possibilidade de fraternidade. Cada um por si, não estamos muito dispostos a assumir responsabilidades sociais, não queremos estar ligados aos outros, que sentimos como rivais. Quando o historiador Lewis Mumford fala sobre o declínio do Império Romano, deixa claro que, todos buscam segurança, mas nenhum aceita responsabilidade. A invasão bárbara traz novas perspectivas de vida, porque a vida é sempre busca de mudança e o risco é para muitos a estabilidade preferida.

O impulso interno de cada um ganha expressão no espirito da sociedade, qual força motriz que dá sentido e permite que prossiga com coragem. A grandeza da humanidade exige que passemos a dar o melhor de nós e isso só acontece em contextos exigentes. É ai, que se manifestam as forças que nos ultrapassam, forças superiores, essenciais para o bom funcionamento da sociedade. Cada um de nós convive com uma força interior de derrota, de abatimento e de incapacidade. Nos momentos de grande pressão é posto à prova num ressalto de humanidade, na força de avanço, onde só o amor tem sentido. Durante todos os ciclos da vida fazemos experiências enriquecedores na busca de soluções positivas de ajustamento, como nos propunha Erik Erikson.

Abraçar a dor da mudança, da crise ou da dificuldade; assumir um amor activo e determinado que me faça sair do labirinto que me incapacita; ter um espirito forte que não exclui o outro e o recupera para se recompor; desenvolver posturas de agradecimento, de reconhecimento da dimensão espiritual; e arriscar sempre, diante do desânimo e da desmoralização de tantos que nos cercam, permite, ser criativo e desafiar os outros a uma atitude idêntica. Fica nas suas mãos a espiritualidade para este tempo e nela a espiritualidade do novo mundo que imerge em cada um de nós.

 

Pina Franco, 2014

Publicado por Re-ligare às 12:21
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Quarta-feira, 28 de Maio de 2014

Circuncisão e Mutilação genital feminina

 

 

O tema que nos reuniu no XII jantar tertúlia na Mesquita Central de Lisboa, não era um tema leve nem de abordagem simples. 

Este foi o motivo de termos o maior painel (5 elementos) de todas as 12 sessões. A abordagem foi feita sob quatro perspetivas:

1. A bordagem médica pelos Doutores Mussa Omar e Joshua Ruah que, paralelamente a essa visão também apresentaram a visão da religião a que pertencem (Islão e Judaísmo respetivamente). 

2. Abordagem social e mais sob o pontod e vista experiencial por parte da Dra. Diana Lopes e demais colegas da Associação Musqueba. 

3. Uma Abordagem mais jurídica e de apoio à vítima partilhada pela Dra. Ana Ferreira da APAV.

4. E uma visão e explicação religiosa partilhada pelo Sheik David Munir, Imã da Comunidade Muçulmana de Lisboa. 

 

Das apresentações e do debate que se lhe segiu podemos concluir o seguinte:

1. A Mutilação Genital Feminina é uma prática mais recorrente entre os países africanos e, dentro destes, entre as comunidades muçulmanas. Pelo Dr. Omar percebemos que toda a linha (de costa a costa) da África Central tem uma alta incidência da MGF. 

Percebeu-se também que a MGF está a aparecer também na Europa, muito por via das comunidades de imigrantes que vão chegando provenientes dos paísessupra citados. 
A Dra. Diana Lopes partilhou connosco que, em Portugal, a MGF também acontece. E acontece de duas formas: Sendo praticada nas crianças (sensivelmente 8 anos) cá ou quando acompanham as famílias nas férias à Guiné (o Movimento Musqueba trabalha essencialmente com a comunidade Guineense) regressando já mutiladas. Em relação a este tema foram ainda partilhados alguns testemunhos (pessoais e assistidos) da realização de MGF e das dores e total desrespeito pela criança que estão aportadas ao processo. Para exemplificar uma criança que chega a estar 8 dias de pés e mãos atadas numa cama em que apenas recebe visitas para ser alimentada a fim de sarar a ferida provocada pela MGF... 

Pela exposição de alguns membros deste movimento e do próprio Sheik David Munir percebeu-se que a MGF, apesar de ter grande prevalência entre as comunidades muçulmandas, não tem nada a ver com preceitos religiosos, mas antes com preceitos ancestrais e sociais. A exclusão social a que são votas das mulheres que não passaram pela MGF é uma pressão enorme para que a mesma continue a ter lugar. É a própria comunidade que faz esta segregação e exclusão das que não forma sujeitas à MGF. Em sítio algum do Corão ou da Sharia vem dito que as mulheres deveriam passar por esse processo, antes pelo contrário, segundo o Sheik David Munir, está dito na própria Sharia que é proíbido mutilar qualquer parte do corpo humano. Nesse sentido, e ainda segundo o Sheilk Munir, quem comete MGF está a pecar 3 vezes: "pois está a mutilar um corpo, ainda por cima na intimidade da pessoa e, a terceira agravante, sendo a pessoa ainda uma criança".

Acontece que, esta temática, é dentro das comunidades um assunto TABU. Não deve ser debatido nem pensado. É para cumprir e manter. A partilha de duas experiências em que se ousou falar e pensar esta questão para fora das comunidades resultaram (segundo os próprios, sendo um deles o Sheik David Munir) em ameaças pessoais e à família, demonstrando assim o profundo secretismo a que está voltada esta prática. 

Questionou-se a legalização/condenação deste ato ignóbil como um crime público, tendo a Dra. Ana Ferreira da APAV relatado que já houve em Portugal um caso em que a menina deu entrada no hospital público com sensivelmente metade do Clítoris mutilado, mas na hora de ser apresentada queixa como crime público, a instrução não aceitou uma vez que "apenas foi mutilado metade do Clítoris e, como tal, não prefigurava a moldura penal de um crime público"... Percebeu-se pelas diferentes sensibilidades e experiências presentes na sala que a simples legalização não era suficiente, é necessário ir mais longe, ir mais fundo, é necessário intervir dentro das próprias comunidades, informar e alertar para os perigos e consequências destes atos. 

Para terminar, foi explicado por um investigador Guineense presente na sala e que pertence ao Movimento Musqueba que a explicação que encontrou dentro da sua comunidade para a justificação da prática da MGF nunca passou pelo fator religioso, mas antes por outros dois motivos: 

1. No tempo em que os maridos tinham necessidade de se ausentar por muito tempo da comunidade, a MGF era realizada como forma de retirar o prazer sexual das mulheres para que assim pudessem permanecer fiéis até ao seu regresso;

2. Para conservar a mulher mais pura...

 

Falou-se ainda dos quatro tipos de MGF, a saber:

O primeiro passa pela remoção parcial ou total do clítoris ou prepúcio.

O segundo refere-se à remoção parcial ou total do clítoris e dos pequenos lábios, com ou sem corte dos grandes lábios, também chamado excisão.

O terceiro é o estreitamento do orifício vaginal através da criação de uma membrana selante, pelo corte e suturação dos pequenos lábios e/ou dos grandes lábios, com ou sem excisão do clítoris. Identificado como infibulação.

O quarto tem a ver o corte da vagina realizado geralmente com recurso a um instrumento afiado; inclui ainda um conjunto de práticas não enquadradas nos tipos anteriores: a cauterização por queima do clítoris e do tecido envolvente; raspagem do tecido envolvente do orifício vaginal; introdução de substancias corrosivas ou ervas na vagina, para provocar sangramento ou com o propósito de a estreitar.

 

Já o caso muda de figura em relação à questão da Circuncisão. Neste aspeto, ambos os médicos e o Sheik David Munir referiram toda a dimensão religiosa inerente à circuncisão entre os elementos das comunidades judaicas e muçulmanas. A identificação com Abraão e a preservação da Aliança entre Deus e os homens estabelecida nessa "ordem dada por Deus" é um dos motivos apresentados pelas duas religiões para a condição de circuncidado ser tida como fundamental para a pertença à religião (mesmo entre os convertidos).

Apresentaram-se os benefícios da circuncisão (que aparentemente são amplamente maiores que os malefícios) e a altura em que é feita: no judaísmo ao 8 dia (também pelo facto de ser indolor) e no Islão sensivelmente na altura da puberdade, não havendo contudo uma data obrigatória. Um dado curiso: se por algum motivo um homem no Islão não tiver sido circuncidado em vida, é-o depois de morto no momento de preparação do cadáver para o enterro. 

Sentiu-se entre os oradores e os presentes um clima de descontentament pelas directrizes emanadas pelo Parlamento Europeu que visa proibir a circuncisão mesmo quando esta acontece por motivos religiosos. Os oradores (em especial o Dr. Joshua Ruah) alertaram para uma nova forma anti-semitismo já não contra os judeus mas contra os muçulmanos!

Em relação a este tema ficou ainda bem patente na intervenção do Sheik Munir que a Circuncisão tem, sempre, de ser feita em ambiente clínico (público ou privado) e sob supervisão médica, sendo, aliás, o próprio médico o responsável por aferir quando é que o jovem ou adulto está pronto para ser circuncidado. 

 

Concluindo:

Ficaram amplamente percetíveis as diferenças que encerram a MGF e a Circuncisão. Percebue-se que ambas não podem ser abordadas da mesma forma nem sobre as mesmas perpetivas. Ficou claro que, apesar da MGF ter índícies altíssimos de prática entre a comunidade muçulmana nada tem a ver com preceitos estabelecidos por esta. Pelo contrário a circuncisão é um preceito religioso judaico e muçulmano e aparece como condição para uma adesão plena às referidas religiões. 

Publicado por Re-ligare às 12:05
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Terça-feira, 27 de Maio de 2014

FE Y SENTIMIENTO DE DEVOCIÓN

 

 

 

Parece que en Occidente se ha perdido en gran medida la fe, pero esto no es así. Seguimos teniendo fe, pero un gran número de personas no tiene fe en Dios o en seres espirituales. Sin embargo, estas personas siguen teniendo fe en sus amigos, familiares, autoridades académicas, en la ciencia (que hoy en día exige mucha, pero que mucha fe), etc. Por ejemplo, que el ser humano haya pisado la Luna es una pura cuestión de fe, que la mayoría cree pero que nadie puede demostrar, y como esto muchas cosas más.


La fe en Dios o en seres de naturaleza espiritual y en la existencia de un mundo espiritual es una cuestión de fe. Esta fe tiene la virtud de generar un sentimiento de devoción similar a una gran admiración, que es muy necesario por no decir imprescindible, para avanzar en un camino espiritual. Estos seres de naturaleza espiritual y su mundo pueden ser Dios y los ángeles, los Dioses antiguos o de la India, los Budas y bodhisattvas, etc. La admiración por ellos nos coloca en un estado emocional muy intenso que nos permite profundizar en la meditación. En realidad, estos seres espirituales no son otra cosa que cualidades y arquetipos que se encuentran en nuestra mente profunda, cualidades que normalmente no desarrollamos y que tienen la virtud de purificar nuestra vida cotidiana. Y también arquetipos profundos de nuestra mente subconsciente, como son la madre, el padre, el sí-mismo o la sombra, en todos sus niveles de manifestación, con los que nos vamos a encontrar en el recorrido interior.


Por ello, la fe y el sentimiento de devoción son algo que debe cultivarse desde bien pequeño, un niño que siente una admiración reverencial por un adulto conserva, en su madurez, este sentimiento de devoción y admiración por seres espirituales superiores. Un sentimiento de devoción que conmueve y que se estimula con la música y el canto devocional. En el fondo, los ejercicios de kriya-yoga y las prácticas devocionales del bhakti-yoga (fundamentalmente el canto) buscan colocar a la mente en un estado de conmoción y sensibilidad profundo, lo que permitirá, con el tiempo y la práctica del yoga y la meditación, identificar los circuitos y movimientos de la energía vital, con los que el yogui trabaja y que experimentan muchos bloqueos por cuestiones emocionales, provocando todo tipo de enfermedades.


La actitud científica y el sentimiento de devoción son dos herramientas de incalculable valor en el camino interior, sobre todo para personas de nuestro ámbito cultural, donde se ha potenciado el pensamiento racional, que también puede ser utilizado con un propósito espiritual.

 

Juan Almiral Arnal

Em: circulo de la sabiduria




Publicado por Re-ligare às 17:22
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