Religião, Sociedade e Cultura. Blog dos Docentes e Investigadores da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.
Por Re-ligare | Quinta-feira, 12 Novembro , 2009, 15:46

 

Na prossecução do nosso percurso reflexivo sobre o silêncio, importa indagar a razão de algumas mudanças dos nossos hábitos quotidianos mais simples. Por qual razão eliminámos o silêncio que nos adormecia deixando o televisor ligado? Por que destruímos o silêncio que nos acordava substituindo-o pelos despertadores criativos. Qual a razão da dificuldade em conduzirmos sozinhos sem a companhia do rádio? Por que se tornou impossível, fazer compras sem música ambiente? Nas ruas ou nos ginásios parece que foi decretado o fim do silêncio durante a prática desportiva. Estamos perante o medo do silêncio ou na dependência de um novo estupefaciente?  
 

Por outro lado, a azáfama dos compromissos e a competitividade laboral impõem-nos um ritmo de vida alucinante. Para além do desgaste físico e emocional, com consequências psíquicas e sociais, a pressão a que nos sujeitamos impede-nos de ouvir. Em particular as vozes que gritam pelo silêncio da escuta. Como podemos nós, hoje, ser curados desta surdez? 
 

Propomos aqui ouvir o silêncio que nos interpela mediante duas histórias procedentes da literatura bíblica. 
 

Misturadas com a oração, ao longo de muito tempo as lágrimas de Ana foram sacrificadas no templo. Esmagada pelo desgosto da esterilidade, a sua voz ficou reduzida ao balbuciar dos lábios. Perturbação da alma que confundiu o homem da religião considerando-a ébria. A fim de desfazer tal equívoco, confessou-lhe: “Apenas estava a contar as minhas mágoas ao Senhor Deus (…) Por causa da minha grande aflição e desgosto é que eu tenho estado a falar assim até agora” (I Samuel 1-2). A seu tempo Deus atendeu ao seu pedido. O silêncio da infertilidade foi quebrado pelo alegre choro de uma nova vida. Todavia, esta não deve ser uma história que nos anima pelo seu final feliz. Remete-nos para um recolhimento, para a experiência da oração levada ao limite do silêncio imperscrutável. Uma experiência religiosa que fez da dádiva divina um empréstimo provisório e do sentimento de inutilidade uma realização antropológica. 
 

Herdeiro da espiritualidade da mãe, o filho de Ana também vive a experiência do silêncio. Vozes do silêncio que apenas ele é capaz de ouvir. Silêncio que na quietude da noite desassossega o aprendiz a sacerdote e o convoca. Samuel foi o último juiz do povo e o primeiro profeta do reino (cf. I Samuel 1-28). Esta não é a história de uma criança que responde à sua vocação mas a história do Silêncio rompido para revelar e desafiar uma criança a conduzir o destino do seu povo. Remete-nos para a uma silenciosa reflexão sobre dimensão pessoal e social da natureza da vocação. Uma experiência religiosa que fez da vocação divina uma decisão individual e do sentimento familiar uma realização social. Experiência individual porque, o inquietante apelo reformula o desejo do serviço religioso (da mãe) numa decisão pessoal em submeter-se chamamento interior. Social porque a experiência da convocatória divina, independente da acção humana, tem como único telos a realização do povo como nação.  
 

Entre outros ensinos, estas são histórias cuja experiência do silêncio desafia o leitor a não temer os momentos de escuta e a deixar que ela lhe revele a consciência, o sentido e a realização da sua humanidade. 
 

 

             

Simão Daniel Cristóvão Fonseca

Investigador do Centro de Estudos, Mestrado e Licenciatura em Ciência das Religiões. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias


Por Re-ligare | Quarta-feira, 11 Novembro , 2009, 15:15

Saramago e a defesa judaico-cristã

As questões levantadas por José Saramago, à volta da sua última publicação, “Caim”, exigem que este país debata, seriamente, e de uma vez por todas, questões tão antigas como a da revelação, a do sagrado, em oposição ao que, ao longo da história, se teve sempre por, profano, mundano, secular. A defesa judaico-cristã a que nos habituámos ao longo dos séculos há muito que deixou de fazer sentido.

Ao defender que o que nos governa é algo de humano, de demasiado humano, Nietzsche, revela que a história resulta da oposição de dois termos complexos – talvez, no seu entender, os mais perigosos de todo o vocabulário humano: o bem e o mal. A sua invenção, e a relação que se foi estabelecendo entre eles, ao longo do tempo, que está também na origem, por um lado, da criação de divindades más, violentas, sangrentas e, por outro, de divindades boas, compassivas e misericordiosas, é a grande geradora da nossa história, e os traços que caracterizam a ontologia do nosso momento presente. Há quem continue a defender, nesta linha, e numa reflexão séria sobre a condição humana, que nascemos todos de deuses e diabos, que estes mais não são que fruto da interpretação humana, feita ao longo dos séculos, tornada, nuns casos, sagrada e noutros pagã. E que a segurança local e global, exigida não pelo direito natural (de facto não nascemos iguais), mas pela fragilidade que a todos é comum, só será possível na medida em que nos conseguirmos libertar destes opostos e dos rostos que os tornaram absolutos, quer na religião como na política que se alimente de tradições religiosas, de alternativas a estas ou de todo o tipo de secularismo, de saber científico e tecnológico. 
 

Programa do governo e oposição

Ouvia outro dia dizer ao actual presidente do BPI, Fernando Ulrich, que processos como a “Face Oculta” e outros ainda em curso, e cujo o termo se antevê inatingível, têm tido um impacto tão negativo no país, que as pessoas começam, cada vez mais, a perder a confiança nas instituições e nas pessoas directamente responsáveis pela sua liderança, como na justiça, dada a sua real bagunça, desorganização e consequente morosidade. Não é a primeira vez que a justiça se apresenta célere em processos que envolvem pessoas acusadas de roubar para comer, e tão desastrosamente lenta diante de suspeitas de corrupção, envolvendo pessoas que têm tido a seu cargo zelar pelas poupanças dos portugueses e pelo bom governo do país.

O debate parlamentar, que levou à recente aprovação do programa do governo, serviu, uma vez mais (para quem teve pachorra de o seguir, através dos meios de comunicação social) para alimentar um confronto de interesses partidários, que simplesmente se marimba para os verdadeiros problemas do país. O povo quer melhor acesso à saúde, melhor justiça social, melhor educação, melhores e mais fáceis oportunidades de emprego, mais respeito, mais afecto, mais carinho e mais espírito de serviço, capaz de privilegiar os mais negligenciados e carenciados. Não estará no meu poder fechar a Assembleia da República, agora sofisticadamente informatizada, mas não pensaria duas vezes em fazê-lo até que alguém, eleito para servir o país, começasse a fazê-lo desapegado do poder, numa total entrega à resolução dos reais problemas dos portugueses, e num diálogo ininterrupto com a sociedade civil. Se os programas de qualquer governo e oposição não se elaboram a partir da nossa situação presente, dos nossos problemas e desafios, não serão outra coisa que puros cultos de personalidade, a precisar de erguer, com muita agitação e pressa, monumentos, em quatro ou mais anos de legislatura.   
 

2010 – Memória e erradicação da Pobreza – Uma Marcha

Fazemos memória, neste mês  de Novembro, de todos os que faleceram, vítimas da fome, da pobreza… aqui e no mundo, muitas vezes sem que o seu nome tivesse sido conhecido ou recordado por quem lhe fosse mais próximo, como família ou simples amigo. Concordo com o Fernando Nobre quando diz, a respeito de Portugal, que os pobres não são apenas 18 ou 19% da população mas 41%. As transferências sociais poderão aliviar o pesado fardo de alguns, mas não conseguem, por si, romper com o fenómeno de quem há gerações vive refém da mais severa miséria. Defenderei sempre que o problema não está no facto de termos nascido num país pobre, até porque não o é, mas no facto de não termos ainda aprendido a partilhar o que é todos com todos.

Por isso, no aproveitamento do ano de 2010, ano que a União Europeia dedica à erradicação da pobreza, um conjunto significativo de organizações, IPSS, ONG, Fundações e outras entidades, irão procurar mobilizar Lisboa para que cada um tome parte numa Marcha que entende fazer memória de quem nasceu, viveu e morreu pobre e abrir, num anúncio festivo, também colorido pelas mais diversas comunidades de imigrantes presentes em Portugal, este grande desafio colocado aos 27 Estados membros da União Europeia. Erradicar a pobreza e amar o planeta que é de todos continuam a ser as duas grandes tarefas que devem dominar as agendas individuais de cada família, comunidade e nação, neste século XXI.

A Marcha terá lugar no dia 17 de Dezembro, com concentração no Marquês de Pombal. Desfilará, pela Avenida da Liberdade e pela Rua Augusta, e terá um momento de memória e esperança junto à laje pela erradicação da pobreza (uma réplica da que está no Trocadero de Paris - 1987), que fica próxima do Arco da Rua Augusta, em Lisboa. A Marcha deseja também concluir uma iniciativa anual da CAIS, Pão de Todos Para Todos, e será na tenda do Pão que todos os marchantes continuarão a fazer festa, partilhando um pão que tal como o sol, todos desejam fazer nascer para todos.  

Por isso, não falte. Junte-se a nós, com aquele igual ou maior entusiasmo com que sempre apoia Portugal em competições desportivas. Pão de Todos Para Todos deseja recuperar a gratuidade das coisas e instituir em Portugal o Dia da Não Cobrança. Trabalhamos para que o que hoje parece impossível seja uma possibilidade amanhã.  
 

                 

Henrique Pinto

 

  

 


Por Re-ligare | Quinta-feira, 29 Outubro , 2009, 16:45

 

Entre o Ensaio Sobre a Cegueira e o Ensaio Sobre a Lucidez, impõe-se um terceiro que ocupe o hiato deixado entre ambos: o ensaio sobre o silêncio. Da confiança no outro como proposta de (re) humanização à lucidez branca como uso da razão, importa construir uma ponte que ligue estas duas margens da existência humana. Entre histórias e poesias, a experiência do silêncio na literatura bíblica ajuda-nos a observar um outro horizonte de esperança. Tomando o homem como um todo, esse olhar pode renovar-lhe a mente e o coração ajudando-o a superar as epidemias que assolam a sociedade e comprometem a sustentabilidade do desenvolvimento civilizacional.
 
A antiga sabedoria popular diz que “o silêncio é de ouro”. No decorrer dos tempos, poetas, filósofos, teólogos e iminentes políticos têm-lhe atribuído «significados» distintos. Enquanto Aldous Huxley destacou a natureza inefável do silêncio ao afirmar que ele “é o que mais se aproxima de expressar o inexprimível”, Mário Quintana descreveu-o como “um espião”. Numa intermediação entre ambas, Xanana Gusmão examinando o poder do silêncio escreveu: “Nosso grito é o silêncio na passagem do tempo e o tempo é o sangue no silêncio do mundo! (...) Nosso tempo é o silêncio nas mudanças do mundo e o sangue é o preço nos mundos do silêncio! (...) A nossa luta... é a história do poder do silêncio.”
 
No relato da vida de Jesus, o seu biógrafo Marcos revela-nos a tensão dialéctica entre estes dois poderosos lados do silêncio: “Tudo quanto ele faz é extraordinário. Até põe os surdos a ouvir e os mudos a falar.” Ao curar surdos e mudos Jesus não superou apenas a fragilidade de dois corpos humanos prisioneiros dos seus silêncios. A cura coloca-nos também perante a responsabilidade de nos assumirmos como resposta às necessidades do nosso tempo. Embora a regeneração da surdez nos exorte à prática da escuta, mediante a cura da mudez somos desafiados ao uso da nossa voz. Precisamos de reflectir sobre a natureza dos nossos silêncios. Importa reflectir sem deixar de agir. Com efeito, à necessidade de fazer silêncio – ou como disse Madre Teresa de Calcutá, “aprender a escutar porque Deus fala no silêncio do coração” – a interpõe-se o tempo para romper o silêncio que, nas palavras de Florbela Espanca, significa “condensar o mundo num só grito!”
 
(continua…)
 Simão Daniel Fonseca
(investigador da área de Ciência das Religiões)

Por Re-ligare | Terça-feira, 27 Outubro , 2009, 12:01

 
Alguns acontecimentos só ganham relevância com ampliação mediática. Há também quem aproveite a lógica da comunicação global para dar a determinado acontecimento a relevância que, na realidade, não tem.
 
Recentes polémicas com o “mundo” islâmico têm o registo desta perversidade. Foram os casos das “caricaturas” de Maomé ou do discurso do Papa Bento XVI na Universidade de Ratisbona, usados agilmente por extremistas islâmicos e com uma reacção inábil de alguns actores políticos na Europa.
No dia 11 de Setembro, Londres foi palco de preocupantes incidentes que, ao contrário do que seria expectável, quase passaram despercebidos na opinião pública.
A polícia teve de intervir para afastar um grupo de manifestantes “anti-Islão” que se concentrava à porta da Mesquita Central.
Com o slogan “Parem a islamização da Europa”, alguns dos manifestantes foram detidos na posse ilegal de armas, enquanto jovens muçulmanos se juntavam do outro lado da barricada policial.
Este episódio em Londres abre um perigoso precedente na Europa democrática. Os protestos liderados pela extrema-direita racista foram “focalizados”… na religião.
Os muçulmanos na Europa estão “entre a espada e a parede”, ou seja, entre um indisfarçado preconceito nas ruas e o radicalismo contagioso que persiste nas comunidades. Por um lado são pressionados a revelar lealdade para com a cultura ocidental, provando que a religião islâmica é pacífica. Por outro, são vítimas da incompreensão e dos estereótipos que alimentam os radicais de uma tradição bélica e hegemónica. Já este ano, um pequeno grupo de muçulmanos perturbou uma parada de militares britânicos recém-chegados do Afeganistão.
Nos últimos meses têm sido colocados na Internet filmes sobre os “perigos” da islamização da Europa. Agitam o fantasma do desemprego e da baixa taxa de natalidade em alguns países, em contraponto com o crescimento da população imigrante oriunda de países de cultura islâmica. Misturam e baralham, propositadamente. Uma destas “montagens” vídeo prevê, por exemplo, uma França dominada pelo Islão (!) dentro de algumas décadas. Noutros contextos a mistura podia ser explosiva.
O problema da baixa taxa de natalidade na Europa é complexo e exige uma reflexão sobre o conceito de desenvolvimento e sustentabilidade. Ao não o enfrentarem com um debate sério e medidas concretas, os poderes públicos e políticos abrem espaço a medos desnecessários e manipuláveis.
Os incidentes em Londres inquietam. São um alerta. Os actores sociais determinam os actores políticos. E os totalitarismos só existem politicamente se as sociedades os aceitarem.
Nesta plataforma de culturas que é a Europa já foram experimentados vários modelos. Faltará aprofundar o modelo inter-cultural, alicerçado nos Direitos do Homem. O que melhor contribuirá para uma saudável e preventiva convivência entre “diferentes”, na religião ou em qualquer outra dimensão da vida.

Nota: Os incidentes em Londres são pouco prováveis em Portugal. Têm sido exemplares as relações de alguma proximidade entre os líderes religiosos, associadas à circunstância de a maioria da comunidade islâmica em Portugal ter origem nas ex-colónias. Até mais ver, Portugal é um caso para estudo na Europa.

                

Joaquim Franco

Artigo publicado na SIC on-line

 

 


Por Re-ligare | Segunda-feira, 26 Outubro , 2009, 05:56

 

Com uma calma, uma serenidade a toda a prova, como que pairando superiormente sobre o caos, Saramago entrou por aqui a dentro, como um furacão imparável, a dizer que a Bíblia é um manual de maus costumes e que Deus não é de fiar. Fez tal tempestade que pôs o país todo em estado de alerta vermelho... 
 
Agitou as águas, fez trovejar, acendeu uns quantos relâmpagos, provocou um sismo de grau elevado na escala do dogma e pôs-se a andar, que se faz tarde. E como diz o Joaquim Franco, Saramago «fez sair da toca um certo "talibanismo" cristão, agressivo, que se pensava do passado».
 
Teve honras de entrevista em simultâneo na SIC e na SIC Notícias e mostrou que não vem cá para perder tempo. Foi-se embora e deixou rasto. 
 
Na entrevista a que me refiro, Saramago pediu que sejam adicionados mais dois direitos aos tão celebrados «Direitos do Homem»: 1. O direito à dissidência e 2. O direito à heresia.
 
Bem sei que estes dois direitos não fazem parte da cartilha seguida pelo Comité Central do PCP de Saramago… aí, a dissidência e a heterodoxia são fortemente, exemplarmente punidos.
 
Mas isso não obsta a que Saramago tenha alguma razão. É preciso ter e conceder a liberdade de dissidência e de heresia.
 
Estava aqui a pensar que as grandes religiões já foram, todas, um dia, consideradas seitas, dissidências. O budismo em relação ao hinduísmo, o cristianismo em relação ao judaísmo, o protestantismo em relação ao catolicismo romano...
 
E já para não dizer que as grandes doutrinas bíblicas, por exemplo, pilares e âncoras da mais rígida ortodoxia religiosa, começaram por ser consideradas, primeiro, como grandes heresias.
 
Nisto, estou com Saramago: viva o direito à dissidência…e à heresia!
 
Luís Melancia

 


Por Re-ligare | Domingo, 25 Outubro , 2009, 21:43


A novela «Saramago versus Bíblia» que preconiza a tensão entre o autor e a igreja católica, tem mais episódios que a recordista Anjo Selvagem. Uma longevidade que, não assentando na angelical imagem do escritor, pode ser explicada pela força selvática que habita a sua produção literária. Por selvagem entenda-se a bravura das palavras aliada ao espírito indomável que lhes confere sentido. Estas linhas não pretendem ser uma apologia nem um julgamento do Nobel português. Deixarei para os especialistas tais afoitamentos. Na qualidade de aprendiz ao exercício da escuta, ensejo que estas linhas sejam uma busca pela cura da minha surdez. 
 

Escuta que deseja lembrar que o tempo e o espaço jornalístico é, significativamente, diferente do tempo e do espaço que Nemésio definiu como “caridade hospitaleira”. Na arquitectura da cronologia mediática Saramago ganhou a batalha. Mas segundo a hermenêutica de René Girard, a sociedade civil teve a oportunidade de se identificar com a vítima sacrificada pelos homens da igreja e assim expiar os seus pecados. Na verdade, o escritor português levou sobre si os sentimentos de culpa de todos nós que, pensando como ele, por razões culturais ou de formação religiosa, em alguns momentos também questionámos uma certa imagem de Deus no Antigo Testamento. Os cristãos que o acusam já leram a Bíblia? Entre aqueles que com regularidade lêem alguns trechos, quantos já não se sentiram, tal como Saramago, um sentimento de desconforto ou até mesmo de profundo incómodo com o impacto causado pela leitura das suas palavras? Porém, enquanto uns consideram irracional o sentimento provocado por tal reacção, outros vivem esse estado de alma traduzido pela experiência do homem diante do sagrado que, conforme descreveu o teólogo alemão Rudolf Otto, se abisma perante o terror, o tremendo e o majestoso que caracteriza o encontro com o totalmente outro. Uma inquietação legítima se, a ambas as experiências, não for dado um outro tempo e espaço para a aquietação. Em tempo útil é bem-vinda a exortação do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra para que a mesma seja de todos e entre nós mais conhecida.  
 

Em segundo lugar, quero manifestar o meu sincero apreço pelo génio brilhante que excita o Nobel da Literatura. Um respeito iniciado mas não prisioneiro da qualidade da sua produção literária. Para além da letra dos seus escritos, também reconheço na virtude do espírito os ditames de um profeta. Na história da Bíblia, narrativa que anima Saramago nesta cruzada contra o seu Deus, verificamos o desconchavo dos inimigos do povo hebreu serem muitas vezes o braço direito do próprio Deus. Pelo que, o tempo e o espaço destinados ao sagrado impõem-nos uma outra hermenêutica do niilismo profético de Saramago que tem em Nietzsche seu santo inspirador. No lugar de apedrejar o escritor à moda do mundo antigo, de lançá-lo às feras em conformidade com as tradições do Império romano, ou de queimá-lo de acordo com os tempos inquisitórios, a nossa geração pode e deve deixar que as novas parábolas do louco Zaratustra continuem a denunciar que “Deus morreu!” - ou a imagem dele por nós construída? Porque havemos nós de esperar duzentos anos para levar a efeito uma leitura de Saramago que posteriormente nos ilumine e ajude a reflectir sobre os efeitos e os defeitos da nossa cristandade? É certo que Saramago julga a Bíblia no tribunal da razão humana como sinónimo de “vontade do poder”. Mas entre nós, quem poderá lançar-lhe a primeira pedra como castigo do delito? Podemos puni-lo por não ser capaz dar o salto da fé expresso pelo cavaleiro de Keerkegard? Tempo e espaço destinados a serem compreendidos por aqueles que, nessa experiência, encontraram a sua realização antropológica.

 

Em último lugar, a fragilidade do barro que me arma não resiste à tentação de assinalar o erro de Saramago. Não foi o Erro de Descartes que Damásio sugeriu ficar por corrigir mas toca-lhe. Porque, de novo, nos recorda a complexidade e a fragilidade da condição humana. A ausência de fé, ateísmo ou simples suspensão de qualquer orientação religiosa não é um erro mas a sua cosmovisão em relação ao humano e ao divino. O erro de Saramago é outro. A incongruência de considerar justa e um grande “investimento” a atribuição do prémio Nobel da Paz ao homem que jurou fidelidade à nação – e ao mundo – inspirado num “manual de maus costumes”. Contradição que só ele poderá resolver.

                   

Simão Daniel Fonseca

(investigador do Centro de Estudos em Ciência das Religiões)


Por Re-ligare | Domingo, 25 Outubro , 2009, 02:12

                «Deus, livra-me de deus» 

                O mais belo que o homem pode exprimir sobre Deus, consiste em que a partir da sabedoria do reino interior ele possa silenciar-se. Faz silêncio, por isso, e não tagareles acerca Deus, pois mentes, com isso de tagarelares acerca d’Ele, cometes pecado.

              Aurélio Agostinho, bispo de Hipona,  
              in Mestre Eckhart, «Sermão 11», Tratados e Sermões
               
               

    A Razão – Pode-se discorrer sobre os mais variados assuntos, de uma forma honesta, coerente e límpida, sempre num registo lógico e razoável (=ditado pelo raciocínio, pela razão), mesmo que em discordância com o timbre das conveniências.

    A LUCIDEZ – Pode-se construir um discurso, literariamente organizado e harmonioso (mesmo belo!), ditado pela clarividência de análise intelectiva, mesmo que os objectivos pareçam ou sejam intuídos (por uma maioria), carregados de dissonância.

    A PROFECIA – Pode-se falar em nome de outrem, sem disso se ter consciência, veiculando uma mensagem com um certo sentido para o ouvinte e um certo sem-sentido para o emissor, ou melhor, com duplo sentido: o emissor concebe e manifesta com determinado propósito, mas é percebido pelo receptor, com sentido, profunda e totalmente, diferente ou mesmo oposto. 
     

    José  Saramago, no centro das a(in)tenções, mais uma vez, pelas nada consensuais razões de sempre – a das suas contundentes (provocantes?!) afirmações antibíblicas e anti-religiosas!

    Como concidadão de Saramago (orgulhoso do meu Nobel da Literatura) não posso deixar de lhe reconhecer alguma RAZÃO no que diz («está lá escrito…»), muita LUCIDEZ na forma como o afirma (directo, sem tergiversações…) e o papel de PROFETA (o que fala em nome de…), na veiculação de uma mensagem que, embora [não] lhe diga directamente respeito, por não lhe ser ditada por qualquer necessidade pessoal de afirmação religiosa, (ele não pode calar o que lhe queima o coração…), me chega carregada de sentido, a mim, cristão, católico [e (um) pouco praticante]. 

    Para o cidadão Saramago, anónimo leitor da Bíblia, aquele texto não o provoca, ou melhor, provoca-o, mas de uma forma que lhe causa náuseas, abominação e indignação.

    Curiosamente, também a mim! E é, por isso, que não me quedo por aí. Frequentemente, pergunto ao texto: «O que leio aqui incomoda-me, mas Tu, ó texto, o que é que me queres dizer com este elenco de infidelidades, de matreirices, de imbecilidades, de mortes, de angústia, de sofrimento?» E Ele, mais aqui, mais ali, responde-me, a partir das consequências de comportamento corrigido, humanizante e humanizador, com histórias de fidelidade, de boas intenções, de sabedoria, de vida, de serenidade e de alegria. E eu colho: paz, esperança, confiança, amor à vida, temperança e discernimento.

    É curioso que um materialista, às vezes, tenha tanta dificuldade, em entender a leis da sua «tão querida» DIALÉCTICA, neste caso, da vida. 

    Mas ele tem razão: «está lá escrito…» E eu moo-me pela incapacidade de não lhe poder fazer ver mais além do que os olhos da carne lhe mostram.

    Mas, meus amigos, não é uma questão de estupidez… (e aqui não cabe o insulto ou a menorização. Ele é Nobel, não esqueçam!). A questão é de entupimento, de incapacidade espiritual e carismática (por falta de dom!). Não há volta (humana) a dar-lhe, escusam de se esforçar. Pode até suceder que, um dia destes, o voltemos a ver na Televisão, pelas mesmas razões (as da Religião), mas com um discurso diferente! Já não seria o primeiro… e não seria, com certeza, o último. («Os Meus caminhos não são os vossos caminhos…») 

    Ele tem LUCIDEZ! Não me digam que não se percebe, perfeitamente, que Saramago sabe o que diz, e que nele ainda não se nota qualquer embotamento (que talvez fosse natural) motivado pela idade.

    Sabe o que diz e di-lo de forma bem assertiva e convincente. Vem-lhe de dentro, das suas crenças, ou melhor, das suas não-crenças. E nisto não pode ser acusado de incoerência e de desonestidade. Sempre poderíamos acrescentar que, para quem não acredita, não fica bem emitir opiniões acerca das «verdades» daqueles que acreditam, e menos ainda, quando essas opiniões se adivinham carregadas de intenções provocatórias (talvez, positivamente!, mas…) e fazendo uso de um vocabulário vil, baixo e amesquinhador (que soa a dislate e a ignominiosa acusação). Vejo-o como um grito de indignação que não consegue calar, por ver muitos homens, seus contemporâneos, ainda dobrados a um texto e a crenças que ele não compreende e que, num processo natural de evolução por ele esperada, já deveriam fazer parte da história mais remota da Humanidade.

    Pois, mas afinal, tudo se manifesta contraditório e, pelos vistos, o que se supunha evolução revelou-se involução, nuns casos, e revolução, noutros… Desde a Política à Economia e até às manifestações religiosas. Será que o tempo reservado, por Saramago, à abstracção e à criação literária, lhe faltou para observar o que o rodeia? Nos 86 anos da vida do laureado, tudo tem estado em mudança contínua – as ideologias, as teorias, os paradigmas – e até o Ateísmo de hoje já não é bem-bem, o de há tempos atrás. As gradações também se alteraram, e os ateus de agora até parecem um pouco menos ateus. Alguns deles até já só preferem ser chamados laicos. Saramago não se deve ter dado bem conta do que está a acontecer, com mais rapidez, de alguns tempos para cá. 

    Ele é PROFETA! Soube, como ninguém, nos últimos tempos, retratar o deus de quem, correntemente, falamos. Eu concordo que esse deus, que, por tudo e por nada – e há revelia da admoestação mosaica de não ser invocado em vão –, é adjectivado, caracterizado, identificado, imaginado, é um deus vingativo, discriminador, violento, sem-palavra e não é de fiar («Deus, livra-me de[sse] deus»). SÃO PALAVRAS PROFÉTICAS! Não são palavras de Saramago, são palavras de Outrem, proferidas por José Saramago. A profecia não está cativa do mensageiro, pois ela fez-se até no comportamento da burra de Balaão! Fiquei advertido e incomodado por ter sentido o Alerta tão próximo e tão altitonante!

    Como sempre sucede, após os acontecimentos que nos tocam em profundidade, impõe-se-me recolhimento e silêncio, para melhor auscultar o eco ainda persistente desta voz profética que aponta para além das doutrinas caducas e das soberanas instituições, onde abunda a mesquinhez, a insanidade, o acomodamento, a paz podre, a luta pelo poder, a (in)justiça morosa, a falta de generosidade, a falta de solidariedade e a falta de Amor.

    Silêncio impõe-se!

    Rui A. Costa Oliveira

 


Por Re-ligare | Sábado, 24 Outubro , 2009, 01:45

Saramago encostou às cordas os que defendem uma leitura literal das grandes narrativas das origens. Segundo ele, quando se faz essa leitura, há uma série de consequências de difícil conjugação e que põem a Bíblia em causa. E como ele acha que a Bíblia não deve ser lida de outra forma (porque assim foi lida durante séculos), despreza a Bíblia pela incoerência que essa leitura lhe confere.

Carreira das Neves, por seu turno, respondeu dizendo que a Bíblia é um conjunto de livros escritos em diferentes registos literários e não pode, por isso, ser lida literalmente. Para Carreira das Neves não há incoerência no texto. O que é preciso é saber ler: ler não só o que o texto diz mas o que o texto quer dizer. Nem tudo é literal, e logo a começar pelos primeiros capítulos. Parece que a sua abordagem ao texto bíblico é pela via do método historico-crítico.


O debate centrou-se aqui: Saramago acha que a Bíblia é para ser lida de forma literal e chega à conclusão de que isso retira credibilidade e coerência ao texto bíblico. Carreira das Neves acha que não: há partes do texto bíblico que devem ser lidas como se fossem grandes contos, grandes narrativas, tendo em atenção que há textos que não podem ficar presos à pobreza de uma leitura literal.

Agora a parte difícil:

Há cristãos que, afinal, até pensam como Saramago na questão da literalidade do texto bíblico: é para ser lido e tido como literal. Ponto. Mas depois recusam chegar à conclusão do escritor e, contrariamente a ele, continuam a achar que a literalidade do texto não diminui a sua credibilidade.

E depois há cristãos que colocariam cristãos como Carreira das Neves na fogueira da Inquisição por ele dizer que o texto tem de ser liberto do espartilho da literalidade. Segundo esta escola interpretativa, o texto diz, afinal, muito mais do que aquilo que lá está escrito.

Entre ir com Saramago para as Canárias ou com Carreira das Neves para a fogueira, opto por fazer companhia a Carreira das Neves.

 

Luís Melancia


Por Re-ligare | Quarta-feira, 21 Outubro , 2009, 20:21

 

Se a religião tem o dever de questionar a sociedade, a sociedade tem o direito de questionar a religião. Embora com os genes do preconceito, o Nobel português da literatura já revelou interessantes reflexões sobre a natureza do ser humano, também enquanto ser religioso, manipulável e susceptível.
 
Saramago não consegue evitar o conflito. Na descrença em Deus, entre um ateísmo crítico e a obsessão ateísta, constrói a narrativa da (des)crença no homem, com vícios e virtudes, más e boas condutas. Marcado pelo estigma, alicerçado na mais básica das reflexões filosóficas… O homem tem, em princípio, uma natureza má.
 
Dizer que a "Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana", é um passo de enorme responsabilidade.
A Bíblia não é um documento de hoje, embora interpele o hoje, que foi ontem e será amanhã. Nem os autores são candidatos a qualquer prémio literário. Nasceu na tradição oral, onde a noção de realidade se dilui.
 
É um conjunto de livros marcados pelo tempo, por cada tempo, com múltiplos géneros literários, escritos por homens, nos seus contextos e circunstâncias, entre mitos, com a pretensão de justificar o injustificável, provar o improvável, legitimar poderes e profecias. A fé dá apenas um enquadramento.
 
Não é só um documento religioso. Da ciência à filosofia, é um documento da humanidade. Não sendo um livro de história, é um repositório de histórias e dilemas, objecto de estudo. Relata experiências datadas, não necessariamente factos, que moldaram a(s) sociedade(s).
 
A Bíblia é um livro de "maus costumes", mas também de bons costumes. Um "catálogo de crueldade", mas também de sensibilidade e generosidade. Céptica, mostra o "pior da natureza humana". Utópica, revela confiança para lá da lógica humana e capacidade de perdão sem limites.
 
A Bíblia pode ser lida como um tratado de violência, mas também como um tratado de não-violência. Tem histórias de guerra e de paz. Adão e Eva. De traições e fidelidades. Caim e Abel. Dramas e alegrias. Paixões e desilusões. Sansão e Dalila. Alentos e desalentos, da metáfora erótica de Cântico dos Cânticos ao suplício de Job. Ameaças e bem aventuranças. David e Golias. Desespero e esperança, do Egipto à "Terra Prometida". O ferro nas mãos e o fogo nas palavras. Jesus e Barrabás. Intolerância e confiança. Da Sabedoria a Eclesiastes, "tudo tem o seu tempo" e há um tempo para tudo. Para a Vida e para a Morte.
 
Reduzir a Bíblia a meia dúzia de frases marcadas pelo preconceito religioso é uma desonestidade. Outros pensadores – que não chegam aos calcanhares do Nobel português –, noutros cenários religiosos, já fizeram o mesmo exercício de liberdade. Dizer que a Bíblia "é um manual de maus costumes" é um mau costume, mas uma boa estratégia de vendas.
 
NOTA: Entre a procura da fé e a exegese pura, sugiro a leitura de “O que é a Bíblia?”, de Carreira das Neves, ou “Roteiro de leitura da Bíblia”, de Fernando Ventura. Para desmontar algumas teias…

           

 

Joaquim Franco

(SIC online)


Por Re-ligare | Segunda-feira, 19 Outubro , 2009, 12:16

 

Já ouvi gente dizer que o ar fisicamente frágil de Saramago é um indicador do estado da sua vida intelectual. Não me parece.
 
Temos de admitir que as suas últimas declarações acerca da Bíblia são coerentes. E Saramago é coerente porque as suas declarações são o resultado de alguém que fala a partir de um quadro ideológico perfeitamente identificado. Se percebermos isso, não nos admiramos. Eu conheço muitos comunistas como ele: comunistas que têm muita simpatia pela «bíblia» marxista, mas pouco respeito pela Bíblia judaico-cristã. E estão no seu direito.
 
Mas além de coerentes do ponto de vista ideológico, as suas declarações são também surpreendentes, preocupantes do ponto de vista intelectual. E é por aqui que me insurjo contra Saramago: ao dizer que «a Bíblia é um manual de maus costumes», considero que há, nestas declarações, uma grave falta de honestidade intelectual.
 
Não sei se Saramago já leu a Bíblia (a maior parte das pessoas que a criticam, discutem ou põem em causa, nunca a leram de uma ponta à outra; falta-lhes, por isso, uma noção de conjunto, de unidade). Se nunca a leu, está o caso resolvido; não se fala mais nisso. Se já a leu, então não deve ter percebido o que leu; ou então não quis perceber porque não lhe conveio.
 
A Bíblia é um livro (ou um conjunto de livros) profundamente antropológico,  profundamente humano. Mais, não é só um livro normativo, é também um livro descritivo. Retrata, representa, descreve, o homem em estado de natureza: o homem que ama e que odeia; que espera e que desespera; que obedece e que se revolta; que poupa a vida e que mata; que apoia e que conspira; que confia e que trai… o Homem, tal como ele é. E bem sei que isso pode ser incómodo, inquietante.
 
A Bíblia é, também, um livro que descreve Deus; não necessariamente Deus em estado absoluto, (alguém o pode fazer?) mas o Deus que é visto a partir do homem, um Deus como o homem o viu e o ouviu: um Deus que perdoa e que castiga; que dá a vida e tira a vida; que manda perdoar e manda matar… porque foi assim que o homem O sentia nesse momento. Um Deus no caminho do qual todos caminham «tacteando», como dizia S. Paulo aos atenienses. Mas que fique claro: é Deus tal como o homem o entendeu e descreveu, nesse momento.
 
A grandeza da Bíblia é outra: a Bíblia tem a grandeza de não negar o homem! O homem, na Bíblia, não é um ser hipostático. É o homem, tal como foi, como é e sempre será. E a Bíblia tem a grandeza de apresentar o homem nos seus maiores desvios e desvarios sem deixar, contudo, de apresentar um caminho de esperança.
 
Luís Melancia
 

 


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