Segunda-feira, 16 de Março de 2015

Música e Emoções - Romantismo, Fisiologia ou Semelhança?

 

Como estabelecer a natureza das nossas respostas emocionais à música? É a nossa resposta meramente fisiológica? Assenta numa conceção romântica? Faz sentido responder emocionalmente à música?

Será o estabelecimento da relação existente entre a música e as emoções humanas central no campo da filosofia das artes?

Sendo a música definida como a arte de exprimir sentimentos e impressões por meio de sons, através dessa combinação de sons, a alma do Homem é expressa, revelando-se através de sete emoções. Numa perspetiva objetiva e de real importância, estão teorias da psicologia e da neurociência, representadas por Daniel Goleman e António Damásio. Estas mostram-nos que as emoções são biológicas, físicas, e não um produto de abstração.

Segundo Paul Ekman, as emoções básicas, inatas no ser humano e transversais a todas as culturas, são sete: Tristeza, Alegria, Medo, Aversão, Surpresa, Desprezo, Raiva. Acreditamos que elas estão para o corpo como as sete notas estão para um instrumento musical. A observância das notas musicais ajuda-nos a saber “tocar” as “notas” dos nossos corpos; as emoções, num generoso contributo que visa a sua própria compreensão e libertação.

Ao darmos significado às emoções, reconhecemo-las enquanto possibilidades de vida, conservação, desenvolvimento, realização de interesses e tarefas que estas nos oferecem, afirmando assim a não predominância do racional no ser humano. Do mesmo modo que ao não darmos significado às emoções, restituímos a razão como característica dominante do Homem, que lhe permite a ordem, a harmonia e a perfeição.

Quando dizemos que a música é concebida tanto para provocar como para exprimir ou representar emoções definidas, como estabelecemos essa relação? Ou seja, onde nos baseamos para afirmar que as emoções são o conteúdo e o objeto da música? Em respostas emocionais à música? Numa explicação fisiológica?

Devemos questionar se a música tem a capacidade de provocar em quem a ouve, emoções definidas, ou se um compositor pode através dela, exprimir emoções igualmente definidas. De acordo com livro, o Do Belo Musical, um trabalho de 1891, redigido pelo crítico musical alemão Eduard Hanslick; a música não pode provocar, nem tampouco exprimir emoções definidas.

Segundo Hanslick, as emoções têm um elemento intencional, ou seja, um conteúdo que envolve estados mentais, assim sendo, a música não pode provocar emoções definidas pois não estabelece uma relação causal com emoção provocada no ouvinte, uma vez que ao escutarem a mesma música, pessoas diferentes podem reagir com emoções diferentes.

Além disso, de acordo com Hanslick, a música absoluta não dispõe de uma linguagem adequada para representar estados mentais sendo por isso que p.ex. uma crença ou o desejo não podem ser representados por meio de sons sem significado.

No entanto, como explicamos o fato de sermos emocionalmente afetados pela música? Qual é o processo que está aqui subjacente? Como esclarecemos a natureza da experiência emocional que a música nos proporciona? Bastará a este respeito tomar em consideração uma explicação de natureza fisiológica? Ou antes, argumentarmos que este não é um problema filosófico? Qual a chave de resposta que pode dar por concluída esta questão?

Do ponto de vista da física e da biologia:

Ouvimos sons em virtude de vibrações que são conduzidas através do ar. A orelha funciona como uma concha acústica, que capta os sons e os direciona para o canal auditivo. As ondas sonoras por sua vez, fazem vibrar o ar dentro do canal do ouvido e a vibração é transmitida ao tímpano. Esticada como a pele de um tambor, a membrana timpânica vibra, movendo o osso martelo, que faz vibrar o osso bigorna, que por sua vez, faz vibrar o osso estribo. Esses ossículos funcionam como amplificadores das vibrações. A base do osso estribo conecta-se a uma região da membrana da cóclea denominada janela oval, e fá-la vibrar, comunicando a vibração ao líquido coclear. O movimento desse líquido faz vibrar a membrana basilar e as células sensoriais. Os pelos dessas células, ao encostarem levemente na membrana tectórica, geram impulsos nervosos, que são transmitidos pelo nervo auditivo ao centro de audição do córtex cerebral.[1]

Podemos concluir dizendo que, as vibrações, na forma de ondas sonoras, são transformadas em impulsos nervosos e levadas ao cérebro que as interpreta como espécies diferentes de sons que levam, de algum modo, à experiência de alguma emoção. Mas, será tal explicação suficiente?

O filósofo norte-americano Paul Boghossian, no seu artigo “Explaining Musical Experience” (2007), respondeu negativamente a esta questão. Porque se torna insuficiente uma explicação fisiológica? Na realidade, porque parece haver algo mais do que uma simples reação fisiológica na nossa experiência musical, esta não pode ser reduzida meramente a reações corporais.

Segundo Boghossian, precisamos de uma explicação da racionalidade e não da fisiologia, no que concerne às nossas respostas emocionais à música. Este autor, assenta a sua explicação na sugestão de que a explicação fisiológica demonstra que música induz estados emocionais, no entanto, ser afetado pela música não é apenas uma questão de determinar o tipo de reação química que ocorre no corpo do ouvinte.

No contexto da música, como se daria a explicação racional de tais respostas?

Clive Bell um dos defensores mais proeminentes do formalismo na estética, aponta-nos uma nova perspetiva, através da qual se pode defender que a música desperta um tipo especial de emoção: a emoção estética.

De acordo com Hanslick, ideia de que a música tem um significado expressivo é inaceitável, posto que a música não é capaz de representar estados mentais como crenças ou pensamentos, não fazendo sentido existir uma reação emocional como resposta à música, uma vez que esta é incapaz de dizer-nos coisas que tenham significado. Do ponto de vista de Hanslick, a música não pode exprimir emoções em virtude de não poder representar os estados mentais que estão ligados a elas.

A experiência quotidiana revela a qualquer um de nós que, mesmo que a música não possa dizer-nos coisas que tenham significado, a verdade é que continua a haver um aspeto racional nas nossas respostas emocionais a ela.

Da mesma forma que para podermos concebermos a representação de um qualquer objeto, necessitamos apenas do acesso a alguns aspetos do objeto representado, para que uma música consiga expressar ou representar uma emoção, será realmente necessário, que seja capaz de expressar os estados mentais nela envolvidos? Acreditamos que não.

Embora a música e as emoções humanas sejam objetos de natureza tão distinta, por analogia o reconhecimento de emoções consegue ser estabelecido, através da representação de sequências de sons de uma música que nos conectam com outros aspetos reveladores dos estados mentais ligados a estas mesmas emoções. Aspetos estes que nos permitem que reconheçamos de que emoção se trata.

De um ponto de vista pessoal, acreditamos que capacidade da música para exprimir emoções reside no fato de algumas das suas propriedades partilharem semelhanças com algumas características das emoções. Tais características podem ser de dois tipos:

 

1. Comportamental: p. ex. o modo como as pessoas falam e se comportam quando estão de posse de um determinado estado emocional

2. Psicológica: p.ex. a maneira como sentimos a passagem do tempo aquando da presença de alguma emoção.

 

Para a compreensão da ponte entre música e emoções, que estabelece a natureza da nossa resposta emocional à música, é importante esclarecer três conceitos básicos acerca da mesma, a saber:

  1. Andamento: As indicações de andamento são as que estabelecem a velocidade na qual será tocada a música. Os termos geralmente utilizados são sete (como sete são as notas musicais, ou as emoções básicas do ser humano, segundo Ekman): lento, larghetto, adágio, andante, allegro, presto, prestíssimo. Ao longo da peça, o andamento pode mudar, e para designar tal mudança são utilizados termos, como accelerando, stringendo, rallentando.
  2. Dinâmica: As indicações de dinâmica são as que determinam o volume ou a intensidade sonora. Os termos utilizados com este intuito são: pianíssimo, mezzo piano, mezzo forte, fortíssimo, sforzando. Portanto, dinâmica é a propriedade de um som ser mais forte ou fraco.
  3. Altura: Diz respeito à propriedade de um som ser mais grave ou agudo.

 

Mas para além do exposto, que assenta em estados emocionais de fácil identificação e evidência, que dizer do caso de aspetos comportamentais e psicológicos de pessoas que estão de posse de estados emocionais não tão evidentes como os resultantes de emoções como p. ex. a tristeza ou a alegria? O que dizer de emoções de natureza mais complexa? Como ultrapassamos ao nível da representação musical de tais emoções, aquilo que parecem ser limitações cognitivas no que concerne ao estabelecimento preciso das características comportamentais e psicológicas suscitadas por tais emoções?

Pode estas ser representadas musicalmente? Serão emoções como a inveja, o orgulho, o remorso ou vergonha, representáveis através da música?

No caso destas, há como que uma regra geral intuitiva a respeito dos seus aspetos que têm um análogo tonal em virtude das propriedades dinâmicas das músicas.

Sabemos que diversos fatores influenciam as nossas respostas fisiológicas e psíquicas à música, sendo fulcrais aspetos tais como, a capacidade particular de perceber e ouvir, a educação, a cultura, a situação social do momento, mas a conclusão a que chegamos é a de que, a capacidade da música para exprimir emoções, reside no fato de algumas das suas propriedades e caraterísticas partilharem semelhanças com algumas características das emoções, sendo a problemática do estabelecimento da relação existente entre a música e as emoções humanas fundamental no campo da filosofia das artes.

 

Bibliografia

Heilman, KM, Bowers D, Valenstein E, Watson RT. The right hemisphere neuropsychological functions. J Neurosurg, 64:693-704, 1986.

Sergent J. Music, the brain and ravel. Tins, 16(5):168-72, 1993.

Lauter JL, Herscovitch P, Formby C, Raichle ME. Tonotopic organization in huma auditory cortex revealed by positron emission tomography. Hear Res, 20:199-205, 1985.

Muszkat, M, Correia, CMF, Noffs, MHS, Vincenzo, NS, Campos, CJR. Especialização funcional hemisférica na afasia motora. Arq Neuropsiquiatria 53(1):88-93, 1995.

Wieser HG, Hungerbuhler H, Siegel AM, Buck A. Musicogenic epilepsy: review of the litterature and case report with ictal single photon emission computed tomography. Epilepsia, 38:200-7, 1997.

Zifkin BG, Zatorre RJ. Musicogenic epilepsy. Adv Neurol, 75:273-81, 1998.

Boghossian, P. Explaining Musical Experience. In Stock 2007

d'Aversa , Rafael A. Música e Emoção, 2010

Campos, Dinorá, Emoções 2011

Budd, M. Music and the Communication of Emotion. The Journal of Aesthetics and Art Criticism, 47.2, 1989

Budd, M. Music and the Emotions. Nova Iorque: Taylor & Francis e-Library. 2003

Carroll, N. Philosophy of Art. Nova Iorque e Londres: Routledge. 1999

Hanslick, E. Do Belo Musical. Trad. A. Mourão. Lisboa: Edições 70, 1994

Matravers, D. Expression in Music. In Stock 2007

Stock, K. org. Philosophers on Music: Experience, Meaning and Work. Nova Iorque: Oxford University Press. 2007

 

 

Danuia Pereira Leite

 

 

 

 

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Terça-feira, 20 de Janeiro de 2015

Biomusicologia – Definição e Conceito

“A música, essa linguagem perfeita que poucos podem nomear, não ocupa um lugar de destaque, dirão alguns. Mas tal como numa oração, ela encerra o segredo de tudo”

(Alain Badiou – Almagestes, 1966)

 

Biomusicologia é um termo estabelecido por Nils L. Walin pela primeira vez em 1991, sendo uma disciplina que estuda os efeitos biológicos e evolutivos da música. Podemos dizer que é o estudo da base biológica para a criação e apreciação da música. Sendo a música um fenómeno existente na totalidade dos grupos humanos, os cientistas acreditam existir uma base biológica para a sua criação e apreciação.

Na década de 90, Nil Wallin, diretor do Institut for Biomusicology da Mid Sweden University em Östersund, conjuntamente com Steven Brown e Bjorg Merker, publicam o livro “The Origins of Music”, reunindo nesta obra uma coleção de 27 ensaios e artigos, fruto da colaboração de uma equipa multidisciplinar, na qual estão inseridos neurocientistas, biólogos, antropólogos, musicólogos, arqueólogos, etólogos e linguistas, num estudo que pretende compreender as origens da música em três planos, explicando que a Biomusicologia engloba três áreas principais de estudo:

 

Musicologia Evolutiva

Estudo das origens e da evolução da música, quer nos humanos quer nos animais.

•         Origens da música,

•         Canção animal,

•         Seleção natural pela evolução musical,

•         Evolução musical,

•         Evolução humana.

 

___________________________

 

 

Musicologia Comparativa

Estudo das funções, dos sistemas e do uso da música, bem como dos comportamentos musicais.

•         Funções e usos da música,

•         Vantagens e custos da produção musical,

•         Fatores universais do sistema musical

•         Comportamento musical.

 

 

___________________________

 

 

Neuromusicologia

Estudo da ontogenia da capacidade e habilidades musicais; estudo das áreas da inteligência e dos mecanismos cognitivos e neuronais no processo da aprendizagem musical.

•         Processamento musical cerebral,

•         Mecanismos neurais e cognitivos do processamento musical,

•         Habilidades musicais e ontogénese da música

 

 

Os aspetos práticos dos principais ramos contribuem para o que é denominado de Biomusicologia aplicada, cujo objetivo é conferir argumentos biológicos em áreas como:

  • Terapias médicas e psicológicas que usem música,
  • Uso generalizado de música nos meios audiovisuais,
  • Presença da música em locais públicos
  • O seu papel em influenciar o comportamento da população
  • Utilização de música para potenciar a aprendizagem

É importante referir que quando mencionamos a palavra “Música”, queremos com ela englobar todo o processo comunicativo de sons cuja origem, em termos de organização animal, remonta a um período anterior ao surgimento do homem.

Na visão desta pesquisadora, a música não é uma dádiva da inteligência humana, nem um fenómeno cultural com cerca de 52 000 anos (data dos mais antigos instrumentos musicais, encontrados na Eslovénia).

O facto da “música” das baleias corcundas ter refrão, rima e artifícios sonoros que facilitam a memorização dos trechos musicais, permite o entrelaçar intencional dessas ondas sonoras em determinados intervalos, produzindo ritmo e harmonia.

Ora, foi exatamente esta mesma ordem que surpreendeu os pesquisadores quando escutaram os sons emitidos pelas baleias no fundo dos oceanos.Nil Wallin , Steven Brown e Bjorg Merker são da opinião que as origens da música fornecem elementos para a compreensão da evolução humana.

A evolução da linguagem é altamente entrelaçada com a evolução da música. A música fornece um meio específico e direto na evolução das estruturas sociais humanas, na função de grupo e comportamento cultural.

Atualmente, uma equipa multidisciplinar tem pela primeira vez desenvolvido uma pesquisa conjunta, com o objetivo de analisar temáticas relacionadas com a biomusicologia evolutiva; num estudo que poderá contribuir enormemente para a nossa compreensão do percurso da música humana, nomeadamente nos seguintes pontos:

O “fabrico” da música é a quintessência da atividade cultural humana, e todas as culturas a produziram”.[1] Este trabalho inovador conduz-nos à necessidade de reavaliação do étimo da palavra “Música”, aqui entendida como um processo comunicativo no qual as funções originais da música, o seu uso e o seu real papel, em termos de difusão nas diversas culturas da Humanidade, devem ser reavaliadas. Isto porque “mais tarde novas organizações de estruturas sonoras se desenvolveram, com novos significados na construção da organologia e semânticas musicais da Humanidade”.[2]

Algumas delas produziam sequências musicais que demonstravam intencionalidade, fazendo isso lembrar a base da estrutura de uma sinfonia.

No entender de vários biomusicólogos, a História da Música pode retroceder até pelo menos 60 milhões de anos, quando as primeiras baleias apareceram nos oceanos. “Não é exagero dizer que esses mamíferos também criaram o que chamamos de música” (Patricia M. Gray).

Segundo um estudo da pesquisadora Patricia M. Gray, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, publicado na revista Science, humanos e animais são organismos programados para a música.

Esta ciência, de cariz pioneiro, aborda de uma forma única os estudos já existentes nas áreas referidas, procurando dar-lhes uma sequência inovadora.

  • a evolução do aparelho vocal hominídeo,
  • a localização de funções cerebrais,
  • a estrutura sinalética e acústica,
  • a simbólica gestual e a manipulação emocional através do som,
  • a autoexpressão,
  • a criatividade,
  • a afinidade humana com a espiritualidade,
  • a conexão humana à própria música em si mesma.

Assim, no âmbito da pós-graduação e da especialização em Biomusicologia®, cuja vertente é voltada para a aplicação terapêutica, pretende‐se efetuar um trabalho de cariz eminentemente prático e que chegue a um elevado número de pessoas, cumprindo com um importante objetivo desta formação:

tornar a formação em Biomusicologia® pragmática e socialmente atuante.

Biomusicologia Terapêutica® controla os batimentos cardíacos, torna a respiração mais lenta e profunda, previne as enfermidades cardíacas, relaxa a musculatura, combate o nervosismo, combate enxaquecas, aumenta a resistência às excitações sensoriais, previne as neuroses, previne as enfermidades psicossomáticas, combate o stress, permite o domínio das forças afetivas e ajuda no bom funcionamento fisiológico.

  • Tanto pode causar um estado profundo de relaxamento semelhante ao da vigília, ou estado alpha, quanto pode elevar o espírito e trazer um estado de contentamento duradouro ao ato de celebrar e encontrar a verdadeira unidade.
  • Assim sendo, pode produzir no cérebro a mesma sensação de bem-estar produzida pelas endorfinas (grupo de proteínas segregado pelo hipotálamo, de grande poder analgésico, que estão presentes em estado natural no cérebro) responsável pela redução da dor que sentimos.
  • Esse estado leva à quietude mental, aliviando o stress, as preocupações, a insónia, a inquietação e a agitação mental. Faz tomar contacto com as emoções mais profundas retomando o sentido do verdadeiro Eu e dos valores mais importantes para a autorrealização.

Sendo a música um fenómeno existente na totalidade dos grupos humanos, os cientistas acreditam existir uma base biológica para a sua criação e apreciação.

Para além de terem descoberto que não somos os únicos seres abençoados com esse dom.

A Biomusicologia tem revelado que somos todos seres musicais!

 

Danuia Pereira Leite

 

Bibliografia:

WALLIN, Nils L, BROWN, L. Steven, MERKER, Björn, (Eds., 1999): The Origins of Music, Cambridge, Mass. MIT Press;

PERETZ, Isabelle, The nature of music from a biological perspective, 2006100, pp. 1–32;

WISNIK, José Miguel, O som e o Sentido, s.d.

PERT, Candace, “Molecules of Emotions”, Pocket Books, 1997;

CAESER, Wesley, MusicAll – Contraponto, 1990;

____________

[1] Wallin, Nils L./Björn Merker/Steven Brown (Eds., 1999): “The Origins of Music”, Cambridge, Mass.: MIT Press. ISBN 0-262-23206-5.

[2] Wallin, Nils L./Björn Merker/Steven Brown Op. Cit

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Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2014

Natal, naTAO

Feliz Natal

Feliz naTAO

feliz é aquele(a)

que vive no Tao

 

Natal é Cristo

naTao é Buda

Natal é nascer

naTao é re-nascer.

 

Nas-cer

Renas-ser

 

Ser um

Em Cristo, em Buda

 

menino Jesus, menino Sidarta

menino você, menina você

 

todos somos crianças.

 

Quando é que vamos aprender?

 

Aprender a ser

Apreender

Empreender

Entender

 

Que Tao, em chinês

Virou Théos, em grego

Deus, em português.

 

Daí a reverência:

namas, em sânscrito

 

Deus em mim

Saúda Deus em Ti.

 

Namas, vem de namo, em páli.

Eu me refugio

na partícula

Buda

na partícula

Deus

que existe em mim

que existe em você,

no outro, no próximo.

 

E se Ele, está, é

tão perto, tão próximo

por que o tornamos tão longe?

 

A solução?

 

Todos os dias no Tao

todo dia é Natal

dia de florescer

a parte boa que existe em mim

a parte boa que existe em você.

 

Feliz Ano Novo também !

Se nascemos a todo instante

A cada momento surge um novo ano

uma nova oportunidade

de ser feliz.

 

Feliz Natal

Feliz tudo de bom

Feliz tudo de Buda

Feliz tudo de Cristo

 

Feliz Natal

feliz é você

que vive no Tao.

 

 

ANTONIO CARLOS ROCHA

 

antoniocpbr@ig.com.br

 

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Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

Encontro com Manuel Frias Martins

Foi num muito saboroso encontro – mais um – com o Professor Manuel Frias Martins, intelectual que me cativou pela leitura muito antes de conhecê-lo pessoalmente (eu corria o JL à procura dele, e das crítica literária que produzia, nesse Jornal de Letras onde também eu publiquei prosa, numa época que me parece já uma ficção esfumada); foi nesse encontro e pela gentileza de me oferecer dois livros seus, que revi uma frase inexplicavelmente perdida na minha memória. Manuel Frias Martins citou-a, em livro, e transcrevo-a agora: “o Reino de Deus é alcançado pela violência”.          

A frase inquieta alguns – não me incluo, pois sou de uma formação onde os reinos pouco cabem e as inquietações vêm sempre dos meus pares e nunca daqueles que nos transcendem– e é de um filósofo político, Thomas Hobbes (1588-1679). Não há coincidências – mas no mesmo dia da oferta do livro e do reler da frase, num alfarrabista de Santa Catarina, vi na montra o Leviatã (de 1651, do mesmo Hobbes).

Quem lia as tirinhas de banda desenhada de um dos nossos jornais diários – onde, pensando bem, noutra época eu também publiquei prosa -,da autoria do norte-americano Bill Watterson, conhece as histórias do irrequieto Calvin (Calvino) e do tigre Hobbes, tigre de pelúcia que, produto do imaginário, materializa-se de acordo com os requisitos da ação que emerge do fantasioso Calvin, menino com ansiedades de adulto, sendo inseparáveis companheiros de inquietação e desventuras.

Calvin – homenagem a Calvino, cristão suíço-francês, da Picardia, que teve papel fundamental na Reforma Protestante – e Hobbes, que observava a natureza humana e a necessidade de governos e sociedades. No estado natural, enquanto que alguns homens possam ser mais fortes ou mais inteligentes do que outros, nenhum se ergue tão acima dos demais por forma a estar além do medo de que outro homem lhe possa fazer mal. Por isso, cada um de nós tem direito a tudo, e uma vez que todas as coisas são escassas, existe uma guerra constante de todos contra todos (Bellum omnia omnes). No entanto, os homens têm um desejo, que é também em interesse próprio, de acabar com a guerra, e por isso formam sociedades entrando num contrato social.

João Calvino, que viveu entre 1509 e 1564 e discorria acerca da depravação total do homem e acerca da predestinação e Thomas Hobbes, autor da célebre frase “O homem é lobo do homem”- ou seja, cada homem é predador de seu próximo. Thomas possuía uma visão obscura e pessimista da humanidade (visão que o tigre da banda desenhada compartilha). Mas Calvino via o homem obscuro a cada passo.

Manuel Frias Martins num dos livros que me ofereceu – As Trevas Inocentes - explica tudo isto bem melhor do que eu, que apenas recolho sentimentalmente algumas frases que ele me inspirou. E não havendo coincidências, pensar que tudo isto se passou quando os talibãs afegãos condenavam publicamente o atentado perpetrado, pelos talibãs paquistaneses, contra uma escola do vizinho Paquistão, afirmando que matar crianças inocentes vai contra os princípios do Islão. Não havendo coincidências, fico aqui ao canto a pensar no que ressalta da violência. Do que ela ensina. Do que contem e do dela pode extrair-se. A Paz não seria entendida sem o conflito que a motiva e gera. A violência e o sagrado (Frias Martins cita o título de René Girar que usa a mesma expressão) estiveram sempre na mesma antecâmara, na mesma sala ritual, à mesma distância – por ventura uma legitima o outro e vice versa. A história mostra o que Hobbes escreveu: “o Reino de Deus é alcançado pela violência”. Mesmo sabendo que esse patamar é propriedade da utopia. Como o da paz – que é um estádio em que os homens convivem provisoriamente apaziguados com os seus conflitos.

                  

 Alexandre Honrado

Publicado por Re-ligare às 14:26
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Terça-feira, 16 de Dezembro de 2014

Para Uma Consciência do Som

 

Há bem pouco tempo, a humanidade descobriu que as partículas do átomo de oxigénio protões e neutrões, vibram numa escala melódica maior, que os talos dos cereais que crescem, cantam cada um a sua própria canção e que todos ressoam num uníssono harmonioso; também ficámos a saber que ao processar-se a fotossíntese se ouvem trítonos e que a sexualidade é um fenómeno musical...

Até à pouco, o tempo e a matéria, eram os alicerces do conhecimento, sendo mesuráveis, avaliáveis e previsíveis.

Hoje os físicos estão diante de destroços. Uma das poucas certezas de que dispomos, é que o mundo é som, ritmo e vibração.

As descobertas da ciência moderna e as ideias desenvolvidas em vários movimentos sociais estão a mudar radicalmente a nossa visão do mundo. Lentamente uma nova perspetiva da realidade surge e esta será o alicerce futuro das ciências, da filosofia, da tecnologia e da economia – Este novo paradigma é uma visão holística do mundo.

Há que mudar o conceito de estrutura para o de ritmo a fim de que consigamos obter uma descrição coerente da realidade, capaz de integrar as descobertas mais recentes da física e das ciências da vida...Em todo o universo há padrões rítmicos - O mundo é som!

Desde o entrelaçamento dos padrões rítmicos da comunicação humana, das vibrações das moléculas e dos átomos, até aos “ritmos estáticos” dos cristais, aos padrões regulares dos organismos vivos, até à geometria sagrada presente em código nas grandes catedrais europeias; Tudo obedece à lei da harmonia musical.

Mas o padrão universal dinâmico, não consiste somente em vibração, ele vibra em proporções harmónicas.

Por entre biliões de vibrações possíveis, o universo opta com visível predileção, por aquelas poucas mil que têm um sentido harmónico.

Porquê?

A maioria de nós não percebe que o mundo existe de forma independente; para sermos mais precisos, somos nós que o criamos com os nossos processos de cognição e de perceção. No caso de organismos diversos, como as plantas, estes processos diferem, uma vez que dispõe de órgãos de perceção diferentes, o que os leva à criação de mundos próprios.

A compreensão de que o mudo é som, tem atualmente implicações profundas, refletindo-se, não somente na ciência e na filosofia, como ainda na nossa convivência quotidiana e sobretudo incidindo na nossa sociedade.

Se observarmos a palavra convivência, cuja raiz etimológica é constituída por dois elementos importantes, o prefixo “com” de origem latina “cum” e a raiz “vivência”. Este prefixo serve para marcar uma variedade de relações entre diferentes indivíduos ou situações. Por conseguinte “com” não é usado num contexto de singularidade pois o seu propósito é estabelecer relações com alguém, sendo pelo menos necessárias duas pessoas para que “com” tenha sentido. Assim a preposição adquire o seu sentido na medida em que serve para unir e não para separar elementos diferentes. Isto conduz-nos à ideia de conjunto, de companhia. É o passar da vivência explorativa para a vivência ecológica, assente na noção de cuidar do outro.

Desde há séculos que o ocidente coloca uma ênfase exagerada na visão, em detrimento da audição. Na atual mudança de paradigma, é urgente incluir uma modificação consciente e essencial dessa ênfase, que se deverá conduzir da visão para a audição.

Esta modificação “dos olhos para os ouvidos”, coincide com uma mudança de valores: dos masculinos, ou seja da cognição pela visão para os femininos, o que significa dizer para a cognição pela audição, que tantas vezes tem sido associada à nossa transformação cultural, refletindo-se da análise para a síntese, do conhecimento racional para a sabedoria intuitiva, do domínio e da agressividade para a não-violência e para a paz...

As pessoas desta geração, conhecem intuitivamente a vibração e o som. Este é um sinal do processo de consciencialização que ocorre nos dias em que vivemos. A presença desta nova consciência é sentida mesmo por aqueles que a recusam.

Nesta época em que a humanidade gasta milhões por minuto para a sua possível extinção, pode-se prever o fim de todos nós. E é essa a nossa experiência: seja o que for que a humanidade possa fazer – acaba por realiza-lo! Antes, somente as pessoas intuitivas sabiam disto, agora quase todos os sabem.

Encarar a verdadeira situação do mundo, é psiquicamente insuportável...

Embora esta seja uma afirmação polémica, o facto é que o raciocínio científico está diretamente relacionado com as graves ameaças à humanidade. Contudo não é possível dentro das diretrizes essenciais da ciência moderna, criar soluções eficazes para eliminação destas ameaças.

Enquanto isto, o fantasma da ingovernabilidade surgiu nos países industrializados, sendo que hoje alguns deles têm problemas maiores que os do 3º mundo. Mas se só uma nova consciência é capaz de nos libertar, isso significa dizer que, não podemos modificar o mundo a menos que nos modifiquemos, pois nós somos (o) mundo! Qualquer outro caminho é absurdo.

Tudo o que se modificou profundamente, mudou 1º na consciência de cada ser humano. Só depois é que isso se refletiu na transformação em que vive a coletividade humana. – Sabemos que tudo é um, de tal forma que o nosso intelecto pode compreende-lo ao mesmo tempo científica, matemática e experimentalmente.

Muito se tem falado sobre a nova consciência, mas, ainda não foi mencionado em nenhum lugar que há uma consciência das pessoas que ouvem. Nelas o som audível é mais importante que o som visível. Nelas os olhos não têm predomínio em relação aos ouvidos, pelo contrário, predominam sobre aqueles.

A pessoa que vê, analisa, separa as coisas em partes. O homem da visão acumulou de tal sorte a racionalidade que hoje estamos a assistir à sua ruína. Na era da televisão as pessoas que só veem, deixam-se conduzir, ad absurdum.

O símbolo dos ouvidos, é a concha que também simboliza o órgão sexual feminino – símbolo de recetividade e aconchego. No homem que ouve, a vida não é analisada, é aceite como um todo, ela é a realidade que está aí.

Os ouvidos têm a sua perceção mais apurada que os olhos e o tato. Os orientais consideravam os olhos um órgão Yang e os ouvidos um órgão Yin.

Para este o todo é mais importante que as partes, a síntese mais importante que a análise. Os inter-relacionamentos mais importantes que a especialização. O homem moderno perdeu-se devido à hipertrofia da audição. Não dá mais ouvidos ao divino em si. O âmbito da visão é a superfície, o da audição é a profundidade. A pessoa que ouve tem mais oportunidade de aprofundar-se do que aquela que vê.

Urge pois reaprender a ver corretamente. No mundo ocidental existe desde o mundo grego e o Renascimento, a tradição do culto aos olhos, à luz, à visão; mas nada no mundo se compara àquilo que se refere à audição. A profunda modificação da consciência somente será uma realidade quando aprendermos a usar inteiramente o nosso sentido da audição, pois só assim corrigiremos a hipertrofia de que temos sido vitimas. Como disse Goetheos olhos do espírito têm de ver em uníssono com os olhos físicos, caso contrário, há o risco de ficarmos a olhar e, no entanto as coisas passarem despercebidas

  1. Porque é que a evolução diferenciou com tanto cuidado o nosso sentido da audição?
  2. Porque é que ela ocultou aqui a capacidade de avaliação?
  3. Porque é que nesta evolução se oculta ao mesmo tempo, a capacidade da transcendência e, acima de tudo, a capacidade do equilíbrio?
  4. Porque é que os dados que recebemos pelos ouvidos são mais exatos que os da visão?
  5. Porque é que o alcance do que podemos ouvir é 10 vezes maior do que o que podemos ver?
  6. Porque é que os homens não dão atenção ao que dizem as mulheres?
  7. Porque è que as vozes femininas são mais agudas que as masculinos?
  8. Porque motivo a ciência convencional ignorou o facto de que na natureza as vozes agudas têm uma função de liderança?
  9. Os instrumentos de tonalidade mais aguda (violinos, flautas, etc.) tocam a melodia, enquanto que os de tonalidade mais grave (violoncelos, baixos, trombones, tubas) em geral tocam o acompanhamento?
  10. Estes só podem ser considerados instrumentos melódicos, quando os mais agudos se mantêm em silêncio.
  11. O que é que tudo isto nos diz...?
  12. Porque é que o mundo científico dominado pelos homens, deixou de ver, deixou de “ouvir” estas questões?

Numa coleção de koans do Zen de 1783 o monge japonês Genro, de Quito diz “Uma doutrina que ignora a vida quotidiana, não é uma verdadeira doutrina”

No nosso ouvido há um templo, naqueles que ouvem a Alma viverá.

O som, ou a correnteza da consciência, é mais certo do que o Tempo e a Matéria...

“Se você anular os seus sentidos e o som, o que é que você ouve?”

 

Danuia Pereira Leite

 

Referências Bibliográficas

  • «O Poder Curador da Música», Mcclellan , Randall
  • «Inteligência Emocional», Golman, Daniel
  • «Musicofilia», Sacks, Oliver

 

Publicado por Re-ligare às 11:32
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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2014

Um almoço, um planeta, o alvoroço

É bem provável que se saiba que um grupo, aparentemente muito heterogéneo, se reuniu por estes dias num hotel de Lisboa, perto da EXPO, para um simpático almoço de festas (não direi almoço de natal, não tendo a certeza de que todos os presentes festejem a quadra). A verdade é que o evento sentou ombro a ombro, em mesas ricas, líderes espirituais de muitas religiões, desde altos representantes da Igreja Católica, ao líder da comunidade muçulmana em Portugal, a responsáveis de variadas igrejas cristãs, membros da Fé Bahá’í), protestantes, evangélicos, judeus, agnósticos e ateus...

Eu sei que foi assim, pois eu estava sentado numa das mesas.

Este almoço foi possível por estarmos em Portugal, no Portugal de Abril, esse que consagrou – e legislou – liberdades fundamentais para que este almoço – e outras provas de ecumenismo à moda cristã - fosse possível.

A entrada em vigor e progressiva institucionalização da Lei da Liberdade Religiosa de 2001, bem como a Concordata com a Santa Sé e o Estado Português, de 2004, foram momentos marcantes nesse percurso, com algumas diatribes pelo meio, como a negação dos festejos dos feriados religiosos imposta pelo Governo, só para dar um dos exemplos de repressão mais discretos.

A Liberdade Religiosa – a par com a Liberdade de Expressão ou de Opção – é uma das mais nobres com que contamos. É um direito do espírito - palavra que uso a metafisicamente para me referir à consciência ou personalidade. Um direito fundamental. Para quem acredita nisto, limitar alguém nas suas liberdades é uma afronta ao coletivo. Não dar voz a um preso, violentar objetores de consciência, impedir o direito às ideias, individuais e coletivas – são exemplos do que é intolerância, do que é autoritarismo, do que conduz a formas de poder musculadas e excessivas, que conhecemos nas formas dos fascismos da História em várias facetas.

Enquanto o almoço decorria, as televisões mostravam imagens de Sydney onde um sequestro num café terminava com três mortos, sendo o sequestrador abatido pela polícia. A essa, seguia-se outra, sobre o grupo autodenominado "Estado Islâmico”, com a banalização a que levaram as suas crenças. Curiosamente, os temas de conversa, no almoço, passaram por estes exemplos. E pela distância que existe entre pessoas que vivem em liberdade e que respeitam direitos humanos e aquelas que desvalorizam o ser humano e o que ele é, intrinsecamente: um ser de construção e não de destruição. O tema da liberdade religiosa anda hoje em cima das mesas dos que pensam. E ultrapassa já a polémica que esteve presente quando os crucifixos nas salas de aula italianas, em 2009, vieram a título de notícia. Ou quando começaram os atentados de Bagdad e de Alexandria , em 2010, contra a liberdade de culto dos católicos. Ou quando a construção de mesquitas com minaretes foi discutida na Suíça, em 2009. Hoje, a campanha cada vez mais expressiva contra os muçulmanos do mundo está a comprometer a sua liberdade, sabendo como sabemos que os fundamentalistas são apenas uma percentagem ínfima de uma população equivalente a um quarto dos habitantes do mundo. Mas ver algumas generalizações mediáticas sobre imagens de extremismo imbecil, acéfalo, e cobarde, que decapita inocentes para formar um estado de excessos revoltantes, pode conduzir a outros fundamentalismos, implantados nos cérebros dos consumidores dessas mesmas generalizações mediáticas. É como vir a descobrir que todos os australianos são assassinos porque um deles atacou inocentes num café – e matou alguns desses inocentes.

Observar para a Liberdade Religiosa é hoje uma tarefa de todos. Nas nossas escolas, meninos budistas sentam-se ao lado de companheiros hindus, judeus, católicos, muçulmanos. Como nós naquele almoço de festa. Tão diferentes e todavia tão iguais no mesmo prazer de disfrutar uma Liberdade que nos revela como queremos: Humanos. Creio que foi Paul Valéry quem disse que “há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade.”

Escrever em momentos de crise, por exemplo. E fazer da Escrita uma bandeira, digo eu.”

 

Alexandre Honrado

Publicado por Re-ligare às 23:54
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Sábado, 13 de Dezembro de 2014

Neurociência – Música e Emoções

A música, mais do que um som, é a tradução de sentimentos humanos. A pergunta que se impõe e que se perde na noite dos tempos, é como descobriu o ser humano que a música, enquanto combinação de sons pode ser a expressão da sua alma?

Não sabendo explicar a natureza da música, o homem procurou responder a esta pergunta, considerando-a uma dádiva dos deuses. A associação quase universal entre a música e as emoções parece dever algo à contra-reforma, em particular nas decisões tomadas no Concílio de Trento (1545-1563), de restringir os “excessos” dos compositores no que diz respeito ao uso da polifonia.

Santo Agostinho demonstrou a sua preocupação em que os prazeres da música, distraíssem a mente do conteúdo representacional dos textos litúrgicos; reconhecendo no entanto, que os textos cantados exerciam um efeito muito maior do que se apenas lidos. Nos finais do séc. XVI, a Camerata (grupo de teorizadores florentinos que estabeleceu os fundamentos da ópera primitiva) fundamentou que a música devia representar adequadamente as emoções que o texto exprimia. A teoria imitativa platónica, segundo a qual a música representa emoções imitando o discurso e os movimentos corporais, ganhou predominância.

Como Platão fizera na “República”, os teóricos da igreja sobrestimaram as qualidades emotivas da música, ao mesmo tempo que suspeitavam dos prazeres da música quando esta deixa de ser meramente funcional ou ilustrativa. Tendo considerado que esta apelava sobretudo às emoções e não à razão, havia que refrear a música, fazendo-a evocar emoções “corretas”, através da austeridade estética.

A ideia moderna, expressionista de uma relação especial entre a música e as emoções mantém a dicotomia entre razão e emoção com uma sobrevalorização desta última.

Tanto na “República” de Platão, como na “Cidade de Deus” de Santo Agostinho, a boa música funciona como uma metáfora da cidade bem ordenada. O romantismo preservou a ênfase nas emoções e trocou a cidade do bem ordenado pelo indivíduo desordenado.

Perguntamos, o estado emocional de um indivíduo determina a forma como ele percebe o mundo? O que tem a dizer sobre isto a neurociência?

A música é a única arte que é em simultâneo, completamente abstrata e profundamente emocional. Apesar de no contexto ser incapaz de representar um objeto exterior ou interior, tem ainda assim a capacidade poderosa e única de expressar estados intelectuais ou até mesmo sentimentos.

Comove-nos quando nos toca diretamente o coração exprimindo sentimentos sem necessidade de mensuração. É paradoxal quando em simultâneo nos faz mergulhar num universo de dor, presenteando-nos com consolação e alívio.

Tem a real capacidade de nos sintonizar com o nosso estado de espírito.

A música dirige-se à dualidade da nossa natureza, levando-nos a tomar consciência do seu aspeto simultaneamente emocional e intelectual.

A neurociência da música centra-se em mecanismos emocionais, nos quais somos perceptores da melodia, do ritmo, altura ou intervalos; no entanto, a fruição dos aspetos afetivos da música, conduz-nos a uma ligação entre psicologia e neurociência. O equilíbrio reside no ouvido crítico que estabelece a ponte entre a correção técnica e a emoção numa perfeita conjugação de beleza e estrutura formal da composição.

Robert Burton na “Anatomia da Melodia”, descreve pormenorizadamente os poderes da música, da mesma forma que John Stuart Mill refere que apenas a música tem o poder de resgatar de estados de anedonia ou melancolia.

Utilizando os termos de Styron, a música “trespassa-nos o coração” quando mais nada o consegue tocar; libertando em nós uma cascata de imagens, sentimentos ou recordações. Misto de alegria e de catarse, o poder da música chega até nós e invade-nos sem que disso tenhamos uma premeditação consciente. Indo para além do alcance das palavras, de um modo misterioso e caprichoso, produzindo o seu efeito, proporcionando-nos um reconforto profundo, invadindo-nos como uma bênção ou uma graça inesperadas, qual “impulso criador que tende para a libertação”, para usarmos a expressão de E. M. Foster.

Se considerarmos que a musicalidade pode ser entendida como inata, a sensibilidade emocional em relação à música, baseada em capacidades preceptivas e cognitivas, já se reveste de uma maior complexidade pois é fruto da influência de fatores neurológicos e pessoais, conduzindo-nos a uma experiência na qual mecanismos de apreciação e aspetos estruturais e emocionais se manifestam de forma variada e por vezes, até mesmo divergente; dependendo da pessoa em si mesma.

Linhas de investigação tais como as de Blood e Zatore (artigo de 2001), revelam-nos a existência de uma vasta rede que envolve as regiões corticais e subcorticais na base das respostas emocionais à música.

Isabelle Peretz, pensa existir “uma arquitetura funcional particular, subjacente à interpretação emocional da música”. A resposta emocional à música pode ter uma base psicológica própria, distinta e específica, na qual assentam de um modo geral as reações emocionais.

A música faz parte do ser humano e não há cultura em que esta não conheça um desenvolvimento eminente ou não seja estimada. A música para a espécie humana, não é um luxo mas antes uma necessidade, porque nos devolve a nós próprios e aos outros, ainda que por vezes, como no caso de patologias de foro psiquiátrico, que por um só momento. A perceção da música e das emoções que esta suscita, não depende apenas da memória, e a própria demência não diminui a profundidade da experiência emocional, pois continua a existir um self, que pode ser interpelado e a quem apenas a música pode falar.

A música pode chamar as pessoas a muitos níveis, entrar nelas, alterá-las, sendo isto um acontecimento tanto em pacientes dementes como em todos nós. A extraordinária robustez neuronal da música é uma evidência.

 

Danuia Pereira leite

 

Referências Bibliográficas

«Ao encontro de Espinosa», Damásio, António, Publicações Europa-América, 2004;

«O livro das Emoções», Esquível, Laura, Asa 2011;

«Molecules of Emotions», Pert, Candace, Pocket Books, 1997;

«Inteligência Emocional», Golman, Daniel, Sábado, 2006.;

«Musicofilia», Sacks, Oliver, Relógio D’Água, 2007

 

Publicado por Re-ligare às 12:13
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