Na prossecução do nosso percurso reflexivo sobre o silêncio, importa indagar a razão de algumas mudanças dos nossos hábitos quotidianos mais simples. Por qual razão eliminámos o silêncio que nos adormecia deixando o televisor ligado? Por que destruímos o silêncio que nos acordava substituindo-o pelos despertadores criativos. Qual a razão da dificuldade em conduzirmos sozinhos sem a companhia do rádio? Por que se tornou impossível, fazer compras sem música ambiente? Nas ruas ou nos ginásios parece que foi decretado o fim do silêncio durante a prática desportiva. Estamos perante o medo do silêncio ou na dependência de um novo estupefaciente?
Por outro lado, a azáfama dos compromissos e a competitividade laboral impõem-nos um ritmo de vida alucinante. Para além do desgaste físico e emocional, com consequências psíquicas e sociais, a pressão a que nos sujeitamos impede-nos de ouvir. Em particular as vozes que gritam pelo silêncio da escuta. Como podemos nós, hoje, ser curados desta surdez?
Propomos aqui ouvir o silêncio que nos interpela mediante duas histórias procedentes da literatura bíblica.
Misturadas com a oração, ao longo de muito tempo as lágrimas de Ana foram sacrificadas no templo. Esmagada pelo desgosto da esterilidade, a sua voz ficou reduzida ao balbuciar dos lábios. Perturbação da alma que confundiu o homem da religião considerando-a ébria. A fim de desfazer tal equívoco, confessou-lhe: “Apenas estava a contar as minhas mágoas ao Senhor Deus (…) Por causa da minha grande aflição e desgosto é que eu tenho estado a falar assim até agora” (I Samuel 1-2). A seu tempo Deus atendeu ao seu pedido. O silêncio da infertilidade foi quebrado pelo alegre choro de uma nova vida. Todavia, esta não deve ser uma história que nos anima pelo seu final feliz. Remete-nos para um recolhimento, para a experiência da oração levada ao limite do silêncio imperscrutável. Uma experiência religiosa que fez da dádiva divina um empréstimo provisório e do sentimento de inutilidade uma realização antropológica.
Herdeiro da espiritualidade da mãe, o filho de Ana também vive a experiência do silêncio. Vozes do silêncio que apenas ele é capaz de ouvir. Silêncio que na quietude da noite desassossega o aprendiz a sacerdote e o convoca. Samuel foi o último juiz do povo e o primeiro profeta do reino (cf. I Samuel 1-28). Esta não é a história de uma criança que responde à sua vocação mas a história do Silêncio rompido para revelar e desafiar uma criança a conduzir o destino do seu povo. Remete-nos para a uma silenciosa reflexão sobre dimensão pessoal e social da natureza da vocação. Uma experiência religiosa que fez da vocação divina uma decisão individual e do sentimento familiar uma realização social. Experiência individual porque, o inquietante apelo reformula o desejo do serviço religioso (da mãe) numa decisão pessoal em submeter-se chamamento interior. Social porque a experiência da convocatória divina, independente da acção humana, tem como único telos a realização do povo como nação.
Entre outros ensinos, estas são histórias cuja experiência do silêncio desafia o leitor a não temer os momentos de escuta e a deixar que ela lhe revele a consciência, o sentido e a realização da sua humanidade.
Simão Daniel Cristóvão Fonseca
Investigador do Centro de Estudos, Mestrado e Licenciatura em Ciência das Religiões. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
