De Gabriel a 21 de Outubro de 2007 às 23:07
Comentário Parte I de II:

Uma sociedade “civilizada” encontra inúmeros perigos na sua organização interior, nas suas representações formais, nas suas semânticas funcionais. Claro está que um corpo colectivo é composto de indivíduos, e serão sempre estes, e os seus estados de consciência, que se verão reflectidos na tela global. De facto, qualquer evento de escala colectiva (ou qualquer outra escala) com o qual somos confrontados, e por vezes profundamente incomodados, representa sempre um convite à auto-análise, à auto-reflexão e a percebermos o que nós enquanto células de um organismo maior, reflectimos e contemos da natureza do problema que se apresenta fora de nós (tal como um holograma, no qual cada parte contém em si mesma o todo do qual faz parte). A tendência imediata e automática quando percebemos algum elemento indesejado no nosso íntimo é a de “empurrar” para fora e para bem longe (por vezes para tão longe como o médio-oriente) o problema (fenómeno projectivo), “demonizando-o” e buscando eliminá-lo, varrê-lo da nossa memória e consciência o mais rapidamente possível.

Não gostamos daquelas personagens que nos relembram algum aspecto incómodo de nós próprios, a nossa sombra, quanto mais respeitá-los ou mesmo, seguindo a orientação radical e revolucionária de Jesus, amá-los! Quantos de nós (os ocidentais... o que quer que seja que isso signifique) conseguirão amar Osama Bin Laden? E quantos de nós conseguirão inclusive perceber o que significa esse amar, sem confundi-lo com indiferença ou negligência? Jesus, com essa frase (“Amem os vossos inimigos”) propôs uma completa revolução dentro da nossa consciência, abalando tudo o que construímos e conhecemos com base na cultura e educação. Revolução esta que tarda a acontecer (talvez porque faltem as chaves e os instrumentos correctos para a efectuar) e de se consumar na consciência individual e planetária. Ele não sugeriu nenhuma regra de etiqueta. Não propôs diálogos, nem sequer buscou ensinar o respeito. O que ele falou foi de uma total alteração das leis psicológicas comuns da personalidade. Não ensinou o politicamente correcto, nem ética ou moral (assim como nenhum dos outros Instrutores, no que de mais essencial contém a Sua Mensagem)... apontou antes para um Ser Humano Novo, Desconhecido. Esta alteração ao efectivamente acontecer, elimina qualquer necessidade de respeito, boa-vontade, necessidade de diálogo ou qualquer outro atributo acessório. Tudo isso está implícito, e mais que implícito. Tudo isso passa a ser uma banalidade implícita e automática (claro que até lá, convém existir todo o tipo de regras e legislações que defendam o homem de si próprio e regulem as suas actividades. O que esta minha reflexão traduz não é tanto uma realidade pré-moral, mas talvez antes uma pós ou trans-moral). Quanto de superficial não se observa nestas simulações de nobreza e profundidade.

continua a seguir.
De Gabriel a 21 de Outubro de 2007 às 23:09
Comentário II de II:

A linguagem e a repetição de certas palavras tendem a criar a ilusão de que, por experimentarmos a ideia que um conceito traduz, a vivamos integralmente. O uso e abuso, assim como a “protocolarização” de uma palavra como “ecumenismo” correm o risco de ter o efeito exactamente contrário ao que se pretende. Cria-se uma realidade virtual feita de pseudo-consessões e falsos respeitos... respeitos esses que na maioria das vezes só demarcam ainda mais a diferença e vincam exclusivismos (quantas vezes esse respeito não representa apenas uma tentativa de quem o professa de convencer o outro e a si próprio de uma realidade que de facto não a vive nem sente?). Passam a existir as Religiões que se destacam em “superioridade” por serem capazes de algo que as outras não são (e por isso passam a ter um estatuto de maior fiabilidade na sua proposta de “salvação”). Seria equivalente à contradição evidente daquele que diz ser o indivíduo mais humilde de todos... arrogantemente, claro. E com tudo isto, continuamos com isso mesmo: Religiões... perdendo-se de vista o que cada uma delas essencialmente busca: a Transformação Integral do Ser Humano e a Realização do seu Potencial Criativo. Só esta Transformação e Expansão de Consciência poderão eventualmente trazer de facto, e como epifenómeno, todo o espectro de respeitos e qualidades afins. A Busca do Homem deveria ser, em paralelo com todas as boas-vontades em corrigir e encontrar soluções para os problemas sociais que surgem, a de desenvolver esses instrumentos de auto-Transformação e Esclarecimento Interior.

Viveríamos assim talvez algo mais próximo de uma Ecosofia... reservo-me, no entanto, o direito de utilizar esta palavra o menos possível, não se vá esgotar o seu valor real, criando mais uma ideia interessante, mas oca de experiência efectiva e consumação do seu significado pleno.
De Re-ligare a 22 de Outubro de 2007 às 10:08
Gostei da ideia de arrogancia neste quadro ... gostei mesmo. E gostei porque é disso mesmo que se trata. Basta, por exemplo, ir à nossa Lei da Liberdade Religiosa: quem dá os pareceres para que uma nova confissão seja aaceite num certo patamar de relação com o Estado? simples, uma assembleia que, na prática, é constituida por membros de religiões já aceites. A lei não diz isto, mas a escolha dos membros assim o ditou ...
De Gabriel a 23 de Outubro de 2007 às 14:36
É curioso este paradoxo onde se dá este fenómeno insólito, no qual se reverte o impulso original de todas as religiões, impulso de emancipação e de revolução para fora de um sistema rígido e conservador, para logo depois seream reabsorvidas no mesmo mecanismo, passando a ocupar o mesmo cargo e função controlador antes ocupado por quem lhes ofereceu resistência. É uma espécie de autofagia religiosa, onde o núcleo duro, o epicentro espiritual centrado no indivíduo que o manifesta e comunica (Profeta, Messias ou Instrutor) é consumido pela forma que adquire, numa busca de território e estabilização formal. De facto, o evento numinoso (R.Otto) e na maior parte das vezes desconcertante, que está na origem das sucessivas e posteriores manifestações formais, em busca de delimitar essa experiência dando-lhe um formato e conjunto de códigos que o torne legível à comunidade (o que acaba por obedecer a uma necessidade de controlar uma realidade que pertence a um plano e a um registo de leis inteiramente diferente do plano social e mundano) acaba por se esbater e tornar-se um reflexo tímido na superfície da estrutura formal que o contém. Já alertava um tal de J.R.Tolkien para os perigos de um estranho e tentador anel: o que prometia a experiência do poder... De que me serve tentar dirigir leis e realidades Misticas, Transcendentes, ou Sagradas se nem sequer sei gerir e manobrar as leis mais elementares do meu veículo psicológico? Lá, onde se encontram todos esses conflitos e confusões de categorias existenciais...

Gabriel.
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