Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

Jesus segundo a contemporaneidade

 

Com o título "Quem é Jesus para Bento XVI?", publicou Bárbara Wong, no passado dia 20, um excelente texto de apresentação do novo livro de Banto XVI. Começado ainda antes da sua eleição para a Cadeira de S. Pedro, este é um livro misto de novo papa e antigo cardeal.

  

Estamos a poucos dias do lançamento em Portugal desse livro. Nesta data, é do maior interesse olhar para essa figura milenar que é Jesus.

   

Convido todos a lançar as suas mais desgarradas reflexões sobre Jesus.

     

Veja-se o referido artigo em:

http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain2%2Easp%3Fdt%3D20071020%26page%3D9%26c%3DC

     

Paulo Mendes Pinto  

   

Publicado por Re-ligare às 10:08
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4 comentários:
De Anónimo a 22 de Outubro de 2007 às 23:25
Falar sobre Jesus, apesar de ser tão comum, continua a ser um desafio, pois a figura deste homem é sem dúvida marcante para toda a história e humanidade.
A dicotomia entre o Jesus histórico e o Jesus da fé, parece criar campos distintos, antagónicos e por vezes beligerantes. Mas a realidade é que houve uma pessoa chamada Jesus, que alcançou um novo título, Cristo, que pelo seu significado é incapaz de deixar alguém indiferente, porque ou se crê ou se rejeita, não há meio-termo.
A importância de estudar, pesquisar e conhecer o mais possível sobre a sua historicidade é essencial para uma melhor compreensão da sua importância na fé e da capacidade mobilizadora que ultrapassa gerações, raças, estratos sociais ou mesmo sexo.
Não consigo separar estes dois aspectos, o Jesus histórico é o Jesus da fé, apenas existem aspectos menos conhecidos, que são de extrema importância para melhor conhecer a pessoa, sem a mistificar, para melhor entender como viver de acordo com os seus ensinos e exemplos actualmente.
Jesus na sua introspecção pessoal abriu um novo caminho para a dignidade humana e principalmente para o equilíbrio da relação pessoal com a sociedade em geral. Deu-nos uma nova luz de cidadania e responsabilidade, sem diminuir a dignidade humana. Lembro palavras suas como: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus."
Aguardo com alguma expectativa o lançamento do livro, porque acho que é preciso coragem, e sublinho coragem, para falar desta vertente de Jesus.
"Muito débil é a razão se não chega a entender que há muitas coisas que a ultrapassam." (Blaise Pascal)
Muito mais há a dizer, mas deixo esta pequena reflexão esperando que seja um contributo para a discussão ou ajuda e esclarecimento para alguém

Bem-haja

João Pedro Robalo
De Re-ligare a 23 de Outubro de 2007 às 00:07
Por me parecer de grande interesse para a discussão, reproduzo os dois textos de Anselmo Borges publicados no Diário de Notícias.

O JESUS DE RATZINGER-BENTO XVI (1)

Foi uma jornalista que me chamou a atenção: o Jesus de Nazaré, de J. Ratzinger-Bento XVI, conteria alguns erros, como, por exemplo, Abraão ter sido chamado para sacrificar o filho Isaac no monte Horeb. Disse-lhe que ainda não tinha tido acesso à edição alemã, mas que, se lá estivesse essa afirmação, era um erro, pois haveria confusão com o monte Moriá. Agora que me chegou o original alemão, pude confirmar: na página 58, lá está que Abraão se pôs a caminho do monte Horeb.

Mas esse e outros são pequenos lapsos, que passaram despercebidos à incompetência de algum revisor ou secretário. O decisivo problema desta obra, votada aliás a um tremendo sucesso de best-seller, com milhões de exemplares vendidos em dezenas de línguas, como de todas as obras referentes a Jesus de Nazaré é outro: o da passagem do Jesus da história ao Cristo da fé. Com que bases é que Jesus de Nazaré é confessado como o Messias, o Cristo, o filho único de Deus? Como se fez, historicamente, o trânsito de Jesus, nome próprio e que significa "Deus salva", de cuja existência histórica nenhum académico sério hoje duvida, a Jesus Cristo?

Segundo historiadores e exegetas reconhecidos, como, por exemplo, o padre J. Carreira das Neves, é possível determinar com segurança histórica alguns factos: 1. O nascimento de Jesus deu-se por volta do ano 4 a.C. (este paradoxo deve-se a um erro de datação, agora corrigido, de Dionísio, o Exíguo, no século VI). 2. Mais ou menos até aos 27 anos Jesus viveu em Nazaré, desconhecendo nós o que se passou nesse período. 3. Foi baptizado por João Baptista, começando, depois da sua morte, a pregar na Galileia e arredores a chegada do Reino de Deus. 4. Foi "um reformador do farisaísmo, um taumaturgo e um pregador, que se distinguia da pregação judaica de fariseus, saduceus, essénios e baptistas." 5. Desencadeou "um movimento popular político-religioso", que levantou suspeitas e interrogações às autoridades judaicas de Jerusalém. 6. Entre os muitos discípulos e discípulas que aderiram à sua mensagem, escolheu 12 homens, sinal do novo Israel, que preparou para continuarem a sua obra. 7. Por volta dos 30 anos foi a Jerusalém para celebrar a festa da Páscoa, desencadeou "problemas religiosos e políticos com a sua acção 'profética' no Templo", celebrou "um banquete de despedida com os seus discípulos", foi julgado pelo Sinédrio como "blasfemo" e, assim, "digno de morte", condenado à morte por crucifixão pelo governador romano Pôncio Pilatos. 8. Após a sua morte e depois de "um breve tempo de abandono, desânimo e fuga", os seus seguidores mais próximos, entre os quais algumas mulheres e os 12 discípulos, confessaram que "o viram ressuscitado", proclamaram que ele era o Cristo, continuando o movimento de pregação por ele iniciado. 9. "Pertence a esta pregação dos discípulos a fé na segunda vinda para estabelecer, definitivamente, o Reino."

Há um só Evangelho, mas em quatro Evangelhos: segundo Marcos, Mateus, Lucas e João, que, aliás, não só nem sempre coincidem como contêm contradições. Aí está a prova de que não narram a história de Jesus no sentido da história crítica moderna. São testemunhos de fé, portanto, escritos por quem já acredita em Jesus e lê a sua vida histórica à luz da ressurreição.

Esta leitura não significa, porém, que não tenham um fundamento histórico. São testemunhos de fé com base na história. Decisivo é saber lê-los como textos nos seus contextos e intertextos, conhecendo a finalidade de quem escreve, os destinatários e o ambiente cultural e religioso em que se inscrevem. Estão sujeitos ao método histórico-crítico e, como lembra Ratzinger, valem no todo da Escritura ("exegese canónica").

Qual é, neste quadro, o Jesus de Ratzinger-Bento XVI? Ele é o Filho unigénito de Deus, que vive "na mais íntima unidade com o Pai". O que trouxe ao mundo? Trouxe Deus e assim "a verdade sobre a nossa origem e o nosso destino". Agora que conhecemos o rosto de Deus, "conhecemos o caminho que devemos trilhar neste mundo como seres humanos".|
De Re-ligare a 23 de Outubro de 2007 às 00:08
Continuação (mais um artigo de Anselmo Borges):

Passados dois mil anos sobre a sua execução, um terço da população mundial acredita hoje em Jesus como o Cristo, o Messias, o Filho de Deus, o Salvador. Sobre ele escreveram-se centenas de milhares de livros e artigos. Os debates filosófico-teológicos por causa dele não têm conta. Por causa dele se morreu, por causa dele se matou. Há milhares de lugares consagrados ao seu culto. Não houve na História nenhum homem tão discutido e sobre o qual se tenha debatido e escrito tanto. "Ele dividiu a História ao meio" (padre Carreira das Neves).

A questão de Jesus é a da relação entre o Jesus da História e o Cristo da fé. Como se chegou à confissão de que Jesus é o Cristo, que quer dizer o Messias, e o Filho de Deus?

É a fé que estabelece esse laço, mas baseada na História. Sem o Jesus da História, o Cristo não passaria de um mito, mas, sem a confissão de fé de que o Jesus da História é o Cristo, Jesus não passaria de um mestre espiritual e mais uma vítima no calvário do mundo. A vida e a morte de Jesus abrem para a sua interpretação e reconhecimento como o Cristo; o Cristo ilumina a vida e a morte de Jesus. A chave acaba por ser a experiência da ressurreição - o Crucificado é o Vivente em Deus para sempre.

J. Ratzinger-Bento XVI, no seu "Jesus de Nazaré", resultado de "uma longa caminhada interior" e que não é "um acto do Magistério", pressupõe esta tensão dinâmica e entrecruzada da História e da fé, mesmo se, como disse o cardeal Carlo Martini, especialista em estudos bíblicos, "ele não é exegeta, mas teólogo e, se bem que se mova agilmente por entre a literatura exegética do seu tempo, não fez estudos de primeira mão, por exemplo, sobre o texto crítico do Novo Testamento".

Num horizonte mais paulino e agostiniano, acentua o Cristo eterno da fé, mas sublinhando que esse é o Jesus da história, "o dos Evangelhos". O cristianismo tem o seu núcleo na cristologia e, portanto, na confissão de fé da mais íntima unidade de Jesus com o Pai. Em Jesus, Deus vem ao nosso encontro. Ele é Deus presente no meio dos homens.

Quem ler atentamente depara-se com um belo testemunho sobre Jesus e a fé tradicional da Igreja. O seu pendor conservador é notório, por exemplo, quando, ao explicar a oração do Pai Nosso, afirma que, apesar de todas as imagens sobre o amor materno de Deus, "Mãe" não é um título com o qual possamos dirigir- -nos a Ele.

Embora a dimensão sociopolítica da actividade de Jesus fique na penumbra, Ratzinger- -Bento XVI não deixa de reconhecer a importância da presença das mulheres na comunidade mais próxima de Jesus e que é inegável "a opção preferencial pelos pobres". Apesar de declarar que o lugar do Reino de Deus é "a interioridade do Homem", alerta para os horrores do totalitarismo e da injustiça: "Face ao abuso do poder económico, face às crueldades de um capitalismo que degrada o Homem a simples mercadoria", compreendemos a advertência de Jesus frente ao deus Dinheiro, que "mantém grande parte do mundo numa opressão cruel".

Comentando a parábola do bom Samaritano, sublinha a sua actualidade, e escreve sobre a África: quando traduzimos a parábola para as dimensões da comunidade mundial, "vemos que nos dizem respeito os povos de África, roubados e espoliados. Vemos então como são realmente nossos 'próximos', que também o nosso estilo de vida e a nossa história os espoliaram e espoliam. E isto não se passa apenas com a África."

Não vemos também à nossa volta "o Homem espoliado e destroçado"? "As vítimas da droga, do tráfico de seres humanos, do turismo sexual, seres humanos intimamente destruídos, que, no meio da riqueza material, estão vazios."

O fio condutor da obra de Ratzinger-Bento XVI é que o sinal de Deus para os homens é o próprio Jesus. Agora, sabemos que Deus é amor. É preciso "converter-se do Deus--Lei ao Deus maior, o Deus do amor". Para se não trair o essencial da mensagem, não se pode misturar a fé e a política. O preço da fusão da fé e do poder político é "a fé pôr-se ao serviço do poder e ter de se dobrar aos seus critérios."
De Gabriel a 26 de Outubro de 2007 às 20:25
Aos que tiverem a paciência de descorrer ao longo destas ideias que aqui apresento, peço desculpa pela extensão das mesmas...


Existem, a meu ver, dois níveis diferentes, ambos válidos, de abordar o passado: um, procura descrever a História em termos lineares, dando resposta a uma necessidade do Ser Humano de se localizar no espaço e no tempo, extraindo desse fluxo contínuo de eventos uma certa identidade, enquanto indivíduos históricos que todos acabamos por ser. Existe, porém, um outro nível de abordagem onde, mais do que se fazer História (enquanto disciplina científica), conta-se uma história. Temos sido habituados a atribuir um menor valor a esta actividade, onde os factos deixam de ter tanta importância para dar lugar a uma linguagem não-racional, de símbolos, reflexos remotos de uma dimensão do Homem, onde a Vida se processa sem palavras, sem predicados racionais ou positivos, onde se encontram os mais recônditos e profundos impulsos e centros vitais que animam e dão significado à existência humana. É a partir desse universo inconsciente que o Ser Humano, quase enquanto testemunha de si próprio, se espanta, se aterroriza, se exalta, se cria e se destrói.
Aquela parte de nós que reconhecemos como eu consciente, ao qual atribuímos um valor quase absoluto, é de facto e tão-somente um diminuto e periférico aspecto, integrando um vasto corpo de forças vitais, caldeirão de pulsões e correntes psíquicas, contendo tudo o que de mais sublime o Ser Humano produz (como quando as fronteiras da consciência cedem e permitem que obras como a 9ª Sinfonia irrompam e surjam ao mundo), e o que de mais violento ele é capaz (e exemplos aqui não faltam).
Um dos nossos desafios enquanto Espécie, parece ser o de atravessar essa fronteira limítrofe entre consciente e inconsciente (e para o ilustrar temos inúmeros Mitos, cujo tema central tem sido descrito, entre outros, como a Descida aos Infernos), alcançar o ponto mais distante e profundo do Ser, depois de se cruzar com todo um sem-número de obstáculos e perigosidades (mais uma vez figuras mitológicas que descrevem esta etapa do processo abundam, desde dragões, a serpentes, ogres, seres monstruosos, etc.), alcançar o ponto de síntese e de Revelação Interior, o Tesouro ou Troféu. Daqui para a frente, o Processo mostra uma inversão, onde o objectivo seguinte passaria a ser o Retorno (ressurreição) para anunciar a boa-nova (evangelho) ao Mundo, convidando todos os que o testemunham, a eles próprios cruzarem essa Fronteira, e buscarem o Ouro escondido, o Novo Continente, o Reino dos Céus.
O Símbolo, a Imagem, a história (contada) tem essa característica: de mais facilmente estabelecer pontes de comunicação com o universo para lá da Fronteira, do “irracional”. Precisamos dessas narrativas que despertam a memória intuitiva (memória que remete para um não-tempo, ao contrário da memória histórica dos factos que nos localiza e organiza no espaço-tempo), que nos relembra de um íntimo processo Universal, comum a todos, e globalmente representado numa das actividades mais profícuas e perenes do Ser Humano... o contar histórias. A nossa tendência actual é a de racionalizarmos essas mesmas histórias, desfazendo-nos daquilo que nos parece impróprio ou fruto de um inferior estado mental, quando por vezes favorecer-nos-ia bastante mais, se fizéssemos exactamente o oposto, se “irracionalizássemos” os “factos”, permitindo que uma mensagem integral, inteira, intuitiva, racional e irracional, nos tocasse e permitisse reconhecer as dinâmicas interiores de que somos todos compostos.
Um Jesus histórico e outro simbólico parecem ser necessários, para obtermos as coordenadas exactas que nos permitem soltar âncora e seguir viagem, nessa aventura pessoal e colectiva, rumo ao Ponto de Síntese, tão bem retratado nesta Figura que nos inspira a todos. Ambos são necessários... retirar um deles ou diminuir a sua importância, seria fragmentar a sua Mensagem de “Soter” (Cura, Tornar Inteiro, “Salvação”). Presto assim a minha homenagem a este Grande Ontonauta (Viajante dos Mares Interiores), que soube cruzar Todas as Fronteiras e Retornar, doando e Revelando ao Mundo Instrumentos de Unificação e Descoberta dos mais profundos Tesouros... e convidando-nos a repetir a façanha, quiçá...

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