Terça-feira, 13 de Novembro de 2007

Paulo Portas, o católico, é afinal mais protestante do que pensa…

Com a lucidez e a agudeza de espírito a que já nos habituou, o deputado Paulo Portas tornou a mostrar, nesta última semana, por que razão continua a ser um dos melhores políticos portugueses – goste-se ou não do seu estilo!
No meio daquele triste debate parlamentar – e para lamentar – sobre o Orçamento de Estado para 2008, Paulo Portas distanciou-se de Sócrates e Santana, dois narcisistas inveterados que debatiam vaidades e futilidades e chegou-se à frente com mais uma mão cheia de boas propostas.
De todas elas (e qual delas a melhor!) uma merece-me especial destaque: que os beneficiários do «rendimento social de inserção», o antigo rendimento mínimo garantido, sejam obrigados a desempenhar algum tipo de serviço comunitário. E isso faz todo o sentido, na medida em que essa prestação social visa, entre outras coisas, «apoiar a inserção laboral, social e comunitária dessas pessoas»; assim reza o decreto-lei.
Ora, inserção laboral, social e comunitária significa inserir, incluir, integrar essas pessoas na comunidade, através do trabalho! A lógica do rendimento social de inserção não pode ser a de criar parasitas sociais; tem de ser o de ajudar o indivíduo a ganhar uma cultura de trabalho, apoiando a inserção laboral dessas pessoas. Significa ajudá-las a ganhar dignidade à medida que são orientadas a ganhar hábitos de trabalho e assim participarem activamente na criação do seu sustento. Também neste aspecto a dignidade do homem é maior que a dos animais: é que enquanto os animais se limitam a procurar sustento, o ser humano, através do trabalho, cria o seu próprio sustento.
No século XVI, o Reformador Martinho Lutero, que veio a dar origem às Igrejas Cristãs Protestantes, insurgia-se veementemente contra um certo esquema religioso católico de caridade feita aos pobres preguiçosos de então, que deambulavam pelas ruas sem nada fazer e vociferava: «Que lhes ponham a charrua nas mãos»!!! É esta cultura de trabalho que levou Max Weber a falar de uma «ética protestante», geradora do «espírito do capitalismo». É esta dignidade do trabalho que levou Lutero a usar a expressão Beruf – o trabalho como vocação, como missão dada por Deus ao homem.
Paulo Portas, o católico, é afinal mais protestante do que pensa. E leu bem a realidade: que ponham a charrua nas mãos dos beneficiários do rendimento social de inserção. Necessidades e oportunidades não faltam: das cidades às florestas, há um mundo inteiro a necessitar de atenção e manutenção.
 
Luís Seabra Melancia
Docente na Licenciatura em Ciência das Religiões
Publicado por Re-ligare às 11:23
Link do post | Comentar | Favorito
2 comentários:
De SAM a 19 de Novembro de 2007 às 23:05
Não comentarei sobre a pessoa, mas sobre o princípio que é um bom princípio. A esmola não chega, pois se chegasse o número de pessoas necessitadas, mundo afora, desapareceria com um mero esforço capitalista.

O que é necessário é a educação das massas para o serviço comunitário e social. O Canadá, por exemplo, tem como obrigatoriedade no seu currículo escolar essa necessidade vital.

É o velho ditado oriental do peixe: "se damos um peixe a um necessitado ele come uma vez, mas se o ensinarmos a pescar, ele poderá se alimentar todos os dias".

A educação é a base do progresso económico. Mas não a educação dos sistemas de formação que são mais passatempos para desempregados desqualificados. Falo na educação que fomente instrumentos que permitam essa mesma participação activa na comunidade.

Nesse sentido, estou de pleno acordo que tal medida deve ser tomada.
De Luís Melancia a 21 de Novembro de 2007 às 00:13
Obrigado pelo seu comentário. De facto, parece-nos que a educação para a cidadania responsável e participativa é a chave. Obrigado, de novo.
Luís Melancia

Comentar post

.Mais sobre Ciência das Religiões

.Pesquisar

.Posts recentes

. Ψυχή, Psychē e Fado

. A PRESENÇA AUSENTE (três)...

. A CULTURA QUE NOS REDEFIN...

. Música e Emoções - Romant...

. Biomusicologia – Definiçã...

. Natal, naTAO

. Encontro com Manuel Frias...

.Arquivos

.tags

. todas as tags

.Links

.Links

blogs SAPO

.subscrever feeds