Terça-feira, 20 de Novembro de 2007

Em memória de Atahualpa: tolerar o intolerável, ou a má digestão da memória

No dia 16 de Novembro marcamos o dia internacional da tolerância. Tristemente, esse dia em muito pouco nos lembra atitudes de franca aproximação aos que são diferentes. Mais triste, se quiséssemos encontrar um dia “puro” de mortandades, de actos de genocídio, talvez ele não existisse. Má sina a da humanidade que tem conseguido marcar de sangue todas as datas do calendário.

Há quase 500 anos, neste dia 16 de Novembro, era aprisionado por Pizarro, de forma totalmente vil e desleal, Atahualpa, o último Imperador de Tahuantinsuyu, o Império Inca: aceitando um convide do conquistador castelhano para jantar e conversar, foi recebido apenas pelo Pe. Vicente Valverde que lhe exigiu que ele e seu séquito se convertessem ao cristianismo e se submetessem à soberania do rei espanhol. Preso, milhares de incas são chacinados e o próprio imperador acabaria por ser sentenciado à morte, mesmo depois de encher os cofres dos conquistadores de ouro e prata como resgate.

Ainda hoje parece não termos aprendido muito com episódios como este. Na mensagem que Kofi Annan emitia em 2006 por ocasião deste dia, afirmava-se, “os últimos anos têm sido marcados por um acentuado aumento da intolerância, extremismo e violência em todo o mundo”, constatando aquilo que diariamente também nós recebemos pelos media.

Num sentido mais construtor, esse mesmo texto afirmava uns parágrafos mais à frente: “toda e qualquer estratégia destinada a facilitar o entendimento deve assentar na educação. Há que aprender a conhecer as diferentes religiões, tradições e culturas, para que os mitos e distorções possam ser vistos como aquilo que são”.

Ora, muito pouco em Portugal se feito neste sentido. De forma genérica, como vários autores recorrentemente apontam (como Jorge Martins e Esther Muckznic), os manuais escolares apresentam, alguns deles, verdadeiras fontes de ódio e incompreensão, para não falar em erros crassos que apenas limitam o conhecimento e fomentam a intolerância. Em campos mais específicos, 2006, o ano do 500 aniversário do célebre massacre dos judeus em Lisboa, já passou há quase 3 anos e, no local onde tudo começou, junto à igreja de S. Domingos, na baixa, ainda não nasceu uma placa evocativa.

É no campo da memória que tudo se joga. Uma sociedade que não consegue tirar os seus esqueletos do armário, dificilmente algum dia poderá dormir descançada nesse quarto. Ora, como sabemos, quem não tem calma no sono arrisca-se a viver pesadelos.

Como o Candide de Voltaire, colhamos a experiência do jardineiro. Devemos ter em conta que a tolerância não nascer como uma planta. É necessário regar e cuidar carinhosamente essa sementeira se dela queremos colher frutos. Relembrando o ditado, se não se semearem calmarias, talvez venhamos a colher tempestades.

                  

Paulo Mendes Pinto

(director da Lic. em Ciência das Religiões na Un. Lusófona)

Publicado por Re-ligare às 10:50
Link do post | Comentar | Favorito
2 comentários:
De Luís Melancia a 22 de Novembro de 2007 às 23:28
E se a licenciatura em Ciência das Religiões - com o peso institucional que tem - apresentasse uma proposta formal à Câmara Municipal (na pessoa do Veredaor responsável) para a colocação da tal placa evocativa?
De Re-ligare a 23 de Novembro de 2007 às 18:52
........ e olhe que acho que tem razaõ!

Vamos mesmo fazer a proposta.

Abraço,
pmp

Comentar post

.Mais sobre Ciência das Religiões

.Pesquisar

.Posts recentes

. Ψυχή, Psychē e Fado

. A PRESENÇA AUSENTE (três)...

. A CULTURA QUE NOS REDEFIN...

. Música e Emoções - Romant...

. Biomusicologia – Definiçã...

. Natal, naTAO

. Encontro com Manuel Frias...

.Arquivos

.tags

. todas as tags

.Links

.Links

blogs SAPO

.subscrever feeds