Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

Madonna, ou o desconforto na religião

É por demais reconhecido o rico percurso de contínua recriação de Madonna, sem dúvida, um dos expoentes da cultura popular da segunda metade de novecentos.
Contudo, transversal a muitas das suas metamorfoses de estilo, mantém-se uma contínua proximidade ao mundo religioso. Like a Virgin ou Like a Prayer são alguns dos muitos temas onde, de forma imediata, encontramos o religioso estampado na matéria de que a cantora se municia para fazer a sua arte e as suas performances.
Iconograficamente, deve ter sido ela quem mais difundiu o uso de crucifixos como objectos de adorno – que farão as autoridades francesas, com a sua “lei do véu,” perante o uso de símbolos religiosos como os que Madonna massificou? A década de oitenta viu, de facto, a mutação de algumas peças de identificação religiosa para o campo do quotidiano com uma forte carga de sensualidade.
Da virgem rebelde, da erótica mulher de “na cama com …”, até à mãe extremosa, qual Esther ou Raquel bíblicas, que escreve livros infantis, Madonna percorreu muitos dos caminhos da religiosidade no feminino.
Foi como que uma anti-virgem numa clara alusão à que sendo Virgem se diz não ter sombra de pecado; foi a verdadeira e completa imagem da mulher carregada de erotismo e de prazer, uma Maria Madalena levada ao limite do imaginário contemporâneo; e, há pouco tempo, disse passar a ser Esther, um dos modelos de mãe da cultura judaica.
Completando uma tríade simbólica que parte da jovem intocada, passando pela mulher sexualmente exuberante, terminando na mãe dedicada, parece que a cantora se inspirou em alguns historiadores de há algumas décadas que agrupavam exactamente assim certas divindades femininas antigas. Para eles, alguns conjuntos de três deusas com essas características não eram senão a materialização, numa tríade sagrada, destas três facetas possíveis do feminino, dessas três etapas da vida da mulher.
Com o nome Esther, a hebreia que é desposada por Assuero, rei dos Persas, sobre quem pesou toda a responsabilidade de salvação do seu povo cativo, Madonna afirmou caminhar pela Cabala. Diz-se que foi, mesmo, a um dos supostos túmulos de Raquel a “mãe de Israel”, em Belém - Raquel que foi a mãe do último Patriarca, Benjamim.
Agora, na sua última digressão, o fenómeno religioso irrompeu ainda com maior visibilidade. Madonna não nos parará de espantar: ponto alto do seu espectáculo, a cantora apresenta-nos a representação “tecno” de uma crucifixação.
Habituada a ver alguns dos seus vídeos censurados, proibidos, mesmo, não foi com espanto que a vimos levar esta performance a Roma. O problema coloca-se agora em Moscovo.
Mostrando a imagem perturbante que as séries e filmes sobre a máfia siciliana já nos deram repetidas vezes sobre a proximidade entre a forma de funcionar dessas organizações e uma certa religiosidade a elas imanente, uma religiosidade cristã, conservadora, Madonna é agora confrontada com a vulgar chantagem: se faz a representação onde é crucificada, ela ou a filha é raptada. Simples.
E como reagirá esta mulher que já tantas vezes fez corar e desafiou as mais altas hierarquias religiosas, como, por exemplo, lançando o repto ao actual papa para assistir ao seu concerto “crucificante” em Roma?
É aqui que reside o principal problema contemporâneo das religiões: elas são normativadas, muitas vezes, por instituições, bispos, papas, imãs, etc, mas elas são, acima de tudo, pessoas fora de qualquer controle, crentes com as suas motivações pessoais.
Qual será a sensação de uma católico que entendeu, percebeu, tomou como sua, a onda de contestação contra Madonna, agora ao ver que está acompanhado na sua luta pela empenhadíssima máfia russa?
A situação é altamente complexa, desconfortável e, acima de tudo, imagem de como na religião se podem mover forças de sinal contrário segundo aspectos semelhantes, por desígnios e motivos iguais.
Não é que haja alguma opção a fazer. Mas, em forma de provocação, apetece questionar: seguirão os cristãos os pedidos correctos do papa e a chantagem suja e negra dos padrinhos?
Paulo Mendes Pinto
Publicado por Re-ligare às 10:12
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3 comentários:
De Marco Oliveira a 18 de Setembro de 2006 às 13:24
Paulo,
Nos anos 70 a peça "Jesus Christ SuperStar " também foi motivos de controvérsia. Houve muita gente a ficar chocada pelo facto de uma ópera rock poder descrever a vida de Jesus. Mas passados alguns anos, a peça tornou-se um classico.
Penso que nem todos temos a mesma sensibilidade em relação à mistura de arte com religião. Talvez aí esteja um dos motivos das diferentes reacções a fenómenos como este.
De FL a 29 de Setembro de 2006 às 01:00
Nunca apreciei os dotes artísticos de Madonna. Todavia, é inegável que é uma pessoa extremamente inteligente na gestão da sua carreira. Posso até estar a ser injusto e reconheço a cada um a liberdade de viver a religião a seu modo, mas esta artista, por vezes, nas suas manifestações parecem ter um propósito mais profissional do que espiritual.
Estou curioso para ver como Madonna vai ultrapassar estes esquemas sórdidos que tentam limitar a sua liberdade de expressão. Mas basta ver o seu percurso para ter quase a certeza que vai ter sucesso.

Parabéns pelo blog.
De Re-ligare a 6 de Outubro de 2006 às 12:17
é interessante ver, agora que a data do concerto em Moscovo passou, que ela em nada alterou o espectáculo ...

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