Domingo, 25 de Novembro de 2007

De João Paulo II a Bento XVI - a questão mariana, ou as proximidades entre a Polónia e Portugal

Quando a 16 de Outubro de 1978 Karol Józef Wojtyła (1920-2005) foi eleito Sumo Pontífice da Igreja Católica, o primeiro Papa não italiano em 450 anos, em Portugal quase se desconhecia a polónia. Quatro anos depois, João Paulo II visitou Portugal. A imagem do “papa de um mundo estranho” deu lugar a quase um “nosso papa”. Com apenas 10 anos de idade, não posso esquecer a imagem, de beleza excepcional, da passagem da viatura aberta que transportava João Paulo II, o primeiro papa polaco, pela artéria lisboeta com o nome do único papa português, João XXI.
Entre Portugal e a Polónia, havia o mediador cultural, simbólico e mental, que era a imagem papal; havia muito mais em comum do que seria de esperar; pela via do desenvolvimento do culto mariano, na ligação umbilical de Wojtyla a Jasna Gora e na ligação posterior a Fátima, muito mais essa visão se viria a desenvolver.
Num pais recentemente saído de uma ditadura que tinha um dos seus pilares no catolicismo (Deus, Pátria, Família), Fátima ocupava um mítico lugar no ideário nacional a par do Futebol e do Fado, criando uma trilogia de 3 “F”.
O caso polaco era em tudo diferente: o regime político era autoritário, mas não fomentava a participação religiosa. Contudo, em ambos os casos o catolicismo e o culto mariano ocupavam um lugar de destaque nas identidades nacionais.
Mas mais longe ia essa proximidade entre os factores de religiosidade mariana entre Portugal e a Polónia. Com base exactamente nos antagonismos, a aproximação dava-se quase de forma natural. Jasna Gora, o santuário secular, congregara os polacos durante as dezenas de anos em que o pais esteve na esfera soviética; Fátima nascera (ou desenvolvera) com uma mensagem inequivocamente ligada a uma futura conversão da União Soviética.
Na sua primeira visita à Polónia, depois de eleito papa, João Paulo II realizou mais missas, reuniões e outros encontros religiosos em Jasna Gora que noutro qualquer local. A sua proximidade a Maria era já patente no seu estandarte. O lema TOTVS TVVS, é uma clara e directa expressão da imensa confiança de João Paulo II em Maria: “Sou todo teu, Maria”, afirmava a frase, colocando-se sob a proteção da Virgem. Mas esta viagem à Polónia ganhava ainda maior peso.
 
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Aquando da sua chegada à Polónia (Junho de 1979), as suas primeiras palavras foram de genérico conteúdo e diplomática forma. Contudo, a mensagem era clara e de apaziguamento. Dizia o recem João Paulo II: “Faço ardentes votos por que a presente viagem à Polónia possa servir para a grande causa da aproximação e colaboração entre as nações; que sirva para a compreensão recíproca, para a reconciliação e para a paz no mundo contemporâneo. Desejo, por fim, que o fruto desta visita seja a unidade interna dos meus compatriotas e também novo desenvolvimento das relações entre o Estado e a Igreja na minha amada Pátria”. Os tópicos neste discurso de recepção eram, sem dúvida: a) aproximação de povos e nações; b) unidade da Polónia.
O chamado «Apelo em Jasna Gora», um discurso proferido a5 de Junho, aprofunda, contudo, as questões mariológicas. Recuperava a centenar imagem da dedicação do pais a Maria, generalizando essa ligação a todos os indivíduos: “Como, nos princípios, o Servo de Deus Pio XII, assim hoje [...] eu, indigno Sucessor seu, João Paulo II Papa, filho da Nação polaca, bendigo com todo o coração aqueles que receberem Maria”. Esta renovada ligação a Maria tinha como origem, ao mesmo tempo, um papa e um polaco. Era nessa dupla missão, nesse duplo papel que João Paulo II não deixava de ser Karol Woityla.
De resto, já na véspera, na Homilia e Acto de Consagração a Nossa Senhora, João Paulo II fora simultâneamente papa e polaco, como seria, obviamente, natural. Sobre o seu culto a Maria, sigamos uma vez mais o seu próprio texto:
“Levei, de facto, comigo da Polónia para a Cátedra de São Pedro em Roma, este «santo hábito» do coração, elaborado pela fé de tantas gerações, comprovado pela fé de tantas gerações, comprovado pela experiência cristã de tantos séculos e profundamente radicado na minha alma”. A identidade e ancestralidade cultural, eram o mote para o seu culto mariano em Roma. Num tempo mais curto, o das coincidências, lembraria ainda nas suas palavras que fora escolhido como papa exactamente no dia de 16 de Outubro, dia em que o calendário litúrgico da Igreja na Polónia recorda Santa Edviges, a padroeira dos pobres, a princesa recordada em Jasna Gora.
Minutos depois, retomaria a especificidade de ser um papa de uma nação pouco usada nessas funções: “Que hei-de dizer eu, primeiro Papa não italiano desde há 455 anos? Que hei-de dizer eu, João Paulo II, primeiro Papa Polaco na história da Igreja?”. Imediatamente relacionava esse facto com as especificidades do seu povo e mesmo suas, o culto mariano: “nem precisava dizer […] que iria contar com as vossas orações aos pés da Imagem de Jasna Gora. A chamada dum filho da nação polaca à Cátedra de Pedro contém evidente e estreita relação com este lugar santo, com este Santuário de grande esperança: Totus tuus, murmurara eu na oração, tantas vezes, diante desta Imagem”.
Tal como Fátima em Portugal, Jasna Gora está, geograficamente falando, no centro da Polónia. Este mosteiro criou à sua volta toda uma vivência nacional congregadora de boa parte das energias e anseios dos polacos. O episódio marcante neste processo de valoração religiosa teve lugar a 21 de Julho de 1655, quando tropas suecas invadiram a Polónia, tomando rapidamente Varsóvia, Poznan e Cracóvia. A 18 de Novembro, atingiram Jasna Góra.
Os suecos exigiram a rendição. A desproporção era abissal: o exército invasor era composto por 3000 soldados, enquanto os defensores totalizavam 90 homens armados e 70 monges. O cerco durou 40 dias e terminou com a vitória dos «Cavaleiros da Virgem Maria». A derrota do invasor não foi atribuída aos defensores, mas sim à intercessão protectora da Virgem Maria, cuja imagem da Virgem Negra era guardada dentro das fortes muralhas.
Em 1620, e para fazer frente às continuadas incursões das tropas do rei da Boémia, tinham começado as obras de construção de uma forte muralha defensiva. A Fortaleza da Virgem Maria, como é conhecida, estava em construção. Desde meados do século XVII que Jasna Góra ocupa um lugar especial junto do povo polaco. Muitos milagres são atribuídos a essa misteriosa imagem da Virgem Maria. Em processo em tudo semelhante ao português, o rei polaco Casimiro colocou, em 1656, na catedral de Lemberg, o seu reino sob a protecção da Virgem Maria. Desde então, ela ocupa o lugar de regente do país. Também na mesma época e após as lutas pela independência nacional, D. João IV de Portugal teve iniciativa em tudo parecida ao entregar a sua coroa real a N. Sra. da Conceição de Vila Viçosa.
 
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João Paulo II esteve em Portugal três vezes em visita, todas elas com forte carácter mariano:
1.Em 1982 visitou os 3 mais importantes santuários mariamos de Portugal: o Santuário de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal, em Vila Viçosa, o Santuário de Nossa Senhora do Sameiro em Braga, e Fátima, numa visita de alto valor simbólico. Não sendo imune, mais uma vez, às coincidências, nessa visita, Papa João Paulo II depositou a bala do atentado sofrido no ano anterior, exactamente a 13 de Maio, em plena Praça de São Pedro no altar da Nossa Senhora de Fátima ainda hoje a mesma bala se encontra na coroa de Nossa Senhora de Fátima no Santuário de Fátima.
2. De 5 a 13 de Maio de 1991 esteve nos Açores, na Madeira, Lisboa, e novamente em Fátima.
3.Uma outra visita, em que beatificou os videntes de Fátima, teve lugar em 12 e 13 de Maio de 2000. Nesta última visita, seria tornado público o chamado «último segredo de Fátima» onde, de forma profética, João Paulo II interpretava o texto da vidente Lúcia como dirigido a si, retratando o seu atentado, mostrando o seu sofrimento.
 
De forma mais directa quie no caso da sua visita à Polõnia, na sua primeira visita a Portugal, na recepção no aeroporto da Portela, lançava imediatamente o mote mariano “Agradeço a Vossa Excelência, Senhor Presidente da República, pela deferente presença aqui, em nome pessoal e a representar o hospitaleiro e honrado Povo desta nobre “Terra de Santa Maria””. Mais à rente: “Esta minha peregrinação tem um sentido dominante: Fátima; seguirei depois um itinerário mariano, por Vila Viçosa, Sameiro e “Cidade da Virgem”. Em direcção à Fátima ou no retorno de Fátima, levo no coração o cântico de acção de graças de Nossa Senhora, por Deus me ter salvado a vida, aquando do atentado sofrido, a 13 de Maio do ano passado [...] aqui rendo preito também à Igreja viva e dinâmica, identificada com a maioria da população portuguesa, que, ao longo dos séculos, com fidelidade ao Redentor do homem, com devoção a Nossa Senhora, que seria proclamada Rainha e Padroeira de Portugal (1646).
Nos dois casos, e em sentidos opostos em relação a regimes totalitaristas, os locais de cultoi mariano foram na época de João Paulo II locais de congragação e de agregação das gentes nacionais.

Inequivocamente, em Maio de 1982, os Portugueses, maioritariamente católicos, descobriam uma “alma-gémea”, um papa vindo de uma região periférica como eles, com especial devoção a Maria, também como eles.
*
No passado mês de Outubro, o Santuário de Fátima comemorou os seus 90 anos com uma nova basílica. Todos esperavam que o papa estivesse presente em tão importante ocasião. Ratzinger enviou um cardeal, mas não esteve ele próprio presente.
Na última semana, os bispos portugueses deslocaram-se a Roma. Esta normal visita ao novo papa, já não polaco, mas alemão, de um pais central, resultou muito mal. Entre as várias críticas do Sumo Pontífice, uma surge como que escondida: à prosperidade de Fátima não se pode dizer que corresponda uma boa saúde do catolicismo em Portugal.
 
Paulo Mendes Pinto
(dir. da Lic. em Ciência das Religiões)
 
Este texto é a versão em português da nossa comunicação no passado dia 16 de Novembro em Chemnitz (Alemanha), no colóquio «Peripheral Identities»

 

Publicado por Re-ligare às 19:31
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3 comentários:
De Manuel Duque a 30 de Novembro de 2007 às 22:10
Qual terá sido o motivo porque o Papa Bento XI não esteve em Fátima, na inauguração da nova Igreja?
Será que ele não apoia a causa de Fátima?
Não acham que teria sido motivo de grande regozijo para toda a comunidade Católica Romana, que ali estivesse o seu lider máximo, em vez de ter mandado um representante?
Procurará ele estar noutra ocasião?
Ninguém sabe, nem a classe mais elevada da hierarquia da Igreja!
Não será isto um enorme distanciamento das bases de fé proclamadas pela doutrina Mariana?
Ou será uma tentativa de voltar o olhar para a verdadeira Palavra de Deus, procurando deixar para trás aquilo que não tem base Bíblica?
Era bom que mais alunos comentassem isto.
saudações
Manuel Duque




De Re-ligare a 6 de Dezembro de 2007 às 01:00
Ora, é exactamente ao que levanta que eu tento chegar ... porquê?????

para mim parece-me claro. Com a morte de João Paulo II e a eleição de Bento XVI terminou um ciclo muito centrado no culto mariano. Este novo papa é um teólogo sólido. Não será por acaso que a nova basílica de Fátima se chama ... não dos pastornhos ou de N. Sra., mas sim da Santíssima Trindade. Mais, junto a ela foi inaugurado um monumento enorme ...não a Maria, mas a Jesus.

Abraço e obrigado pela participação,
Paulo Mendes Pinto
De Anónimo a 10 de Dezembro de 2007 às 13:31
Este texto é extraordinário na avaliação e comparação de dois povos, distantes e com poucas ou nenhumas relações históricas, mas ligados num culto de profundas raízes católico Romana.
O culto mariano, é talvez uma das mais profundas divisões entre cristãos da igreja tradicional em Roma e a reforma protestante ao longo da história.
Compreendo toda a devoção e admiração pela figura de Maria no cristianismo. O que não consigo entender é todo o acrescento e até certo sentido exagero, que se criou à volta da sua participação em todo o advento de Cristo na terra.
Maria foi de extrema importância para a concretização do nascimento de Jesus, mas não foi única nessa acção, José teve também um papel fundamental para que a profecia se cumprisse e foi ele que em último caso preservou e salvou, tanto Maria, como Jesus do extermínio e frustração de todo o plano arquitectado por Deus.
Parece-me que o debate à volta de uma questão sobre a virgindade e sexualidade, volta a ser mal abordada pela igreja Católica, pois Maria não perde nada do seu valor, de mulher bendita, pelo facto de após o nascimento do seu filho primogénito, ser uma mulher cumpridora dos seus deveres e laços de amor para com o seu marido José, coabitando com ele e sendo sua mulher de pleno direito, como veio a acontecer gerando uma família que são referenciados nos evangelhos como os irmãos e irmãs de Jesus.
Toda a tentativa de divinizar o humano, só prejudica o cristianismo, não o ajuda.
A referência central da fé cristã, não é alhear os seus maiores representantes da sua natureza humana, tornando-os uma espécie de seres abstractos e inatingíveis, tipo deuses do panteão com atributos humanos.
O fundamento sobre o qual o cristianismo faz sentido e tem lógica, é: Deus feito homem! Humano na sua totalidade, com as mesmas necessidades, preocupações, limitações, sentimentos opostos, desafios e dúvidas, que, como qualquer ser humano ao longo da história, todos nós já experimentámos.
Deus feito homem, para que o novo homem possa ser recriado de novo à sua imagem e semelhança, sem perder a sua dignidade, liberdade e humanidade.
A eu ver o culto mariano desvirtua a essência do cristianismo nestes factores, talvez seja por isso que as diferenças entre estes dois últimos Papas são tão acentuadas. Um que procura responder aos anseios do povo, mesmo nas coisas em que a maioria não significa que tenha a razão. Outro que procura uma pureza doutrinária, desviando-se do apelo da popularidade em detrimento da verdade.
Acredito sinceramente que com o debate de ideias, com a frontalidade sobre os conceitos, de certo, no futuro, o cristianismo será purificado dos desvios doutrinários, e voltará à sua essência de um só Senhor. Jesus Cristo!

João Pedro Robalo

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