Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

O Estado Palestiniano, a Rainha de Saba e o Paquistão

A existência de um “Al-Qaedistão” partilhado pelo Paquistão (Waziristão e Balochistão) e pelo Afeganistão ― tema que tem alimentado as chamas da análise estratégica internacionalnão representa uma emergência geopolítica recente no quadro das forças de intervenção naquela região. As características culturais tão únicas desta área do globo fizeram da sua história uma verdadeira caixa de Pandora, que o Império Britânico abriu com a sua presença colonial, que a guerra com a antiga União Soviética aprofundou, e que a intervenção americana potenciou in extremis. O que espanta hoje aos analistas políticos e militares, quanto à capacidade dos Talibans se moverem tão bem entre o Paquistão e o Golfo Pérsico e de fazerem uso dos recursos naturaiscomo do ouro e de transferências bancárias à distância (sistema tradicional de crédito à distância ou hawala) para pagamentos das suas actividades terroristasnão nos espanta a nós que conhecemos as razões para tal especialização. Os territórios actualmente agregados e que compõem o actual Paquistão e as zonas fronteiriças do Afeganistão e do Kashmir, foram desde sempre uma extensa terra disputada entre os Mires e os lideres tribais; trata-se de uma vasta região de confluência entre a Ásia central, o Golfo Pérsico e o Golfo de Áden. As regiões paquistanesas do Sindh (sul) e do Multão (norte), que antes da invasão muçulmana estiveram sob a influência cultural e religiosa da Índia (hindu e budista), passaram a ficar ligadas pelos laços do islamismo à Arábia como à região do Golfo de Áden (Iémen); estes laços foram selados por várias gerações de famílias e de casamentos intercrusados entre sindhis, multanis, balochis, waziris e iemenitas. Mas uma das características mais marcantes das ligações materiais entre as culturas islâmicas desta região, é sem dúvida o sistema tradicional de crédito e pagamento à distância (hawala), herança directa da cultura hindu onde se originou e de onde terá derivado o próprio termo (hundi). Para o comércio continental como do golfo, o sistema hundi/hawala sempre foi o mecanismo de toda a vitalidade económica e cultural, e continua a ser hoje a fórmula de autonomia e independência de muitas comunidades. Não é portanto de espantar que os Talibans tenham tanto êxito em comerciarem e transferirem ouro à distância das minas do Waziristão para o Dubai, para a Arábia Saudita ou até para o Iémen, trata-se apenas de fazerem uso de um sistema que lhes é próprio e faz parte da sua cultura ancestral. Mas a existência de um Al-Qaedistão levanta um problema de fundo no equilíbrio de uma geopolítica para o extremo oriente e para o mundo, que é o de reforçar (na retaguarda) a formação do futuro Estado Palestiniano. Numa perspectiva do equilíbrio militar e estratégico, a existir um novo Estado Islâmico (nascido do radicalismo), que seja na Palestina e não na fronteira paquistanesa, onde os laços iemenitas e sauditas se podem estender facilmente ao eixo iraniano. É nesta perspectiva que podemos entender o “súbitointeresse americano em apoiar a criação do Estado Palestiniano, e de simultaneamente “aconselhar” Musharraf a demitir-se do cargo da presidência do governo paquistanês. Reforça ainda esta atitude o facto histórico de o Iémen estar ligado à Palestina através de um episódio com contornos míticos: o casamento do rei Salomão com a rainha de Saba. Saba era conhecida como a capital de um imenso país a sul da Arábia (hoje o actual Iémen), que a tradição islâmica diz ter sido fundado pelo rei Saba, de seu nome Abd Shems. Mais tarde, um dos últimos reis de Saba, Sharahbil, teve uma filha chamada Balkis pela qual Salomão se apaixonou. Deste mito parece ter derivado a ligação entre a Palestina e o Iémen. Assim, se o Sindh e o Waziristão se ligam ao Iémen pelas razões referidas, e o Iémen à Palestina, podemos compreender como a criação de um Estado palestiniano pode ser de vital importância, como a tentativa de impedir a emergência de um Al-Qaedistão é tão considerada, e como o Iémen se liga a estes dois de forma tão subtil, como as próprias ligações de Osama ben Ladin com o mesmo Iémen.

Image:Yemen-map.gif

 

 

Image:NWFP FATA.svg

José Carlos Calazans

Docente da Área de Estudos em Ciência das Religiões

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

Publicado por Re-ligare às 10:22
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