Sábado, 15 de Dezembro de 2007

DA NATUREZA DA ÉTICA E DA ECONOMIA - III

Torna-se claro que cada cultura tem a sua forma de capitalismo e de economia, masigualmente um princípio ético universal subjacente a todos os povos e a todos os Estados, que possibilita a existência de uma espécie de moralidade genérica do negócio e que é igualmente de carácter universal. Este fundo comum que permite o trato comercial entre os povos e as naçõesprincípio activo dado à priori na fenomenologia do humanoauto regulado através da liberdade pessoal, do valor da palavra, da protecção sobre a propriedade adquirida, do reconhecimento das regras de um fair play e da confiança, constitui a matriz formativa da qual emerge igualmente o princípio da “espiritualidade laica”. Ética, economia universal e espiritualidade laica não necessitariam de ser explicados em nenhum contexto, porque estão dados à partida na constituição de cada ser humano, e são a base formativa dos indivíduos. Mas a pluralidade das culturas criou especificidades regionais e nacionais a partir dessa matriz, que a globalização teima em unificar, e que a Lei e a Justiça tentam regular para o bom uso das sociedades. Se assim é, porque será então necessário recorrer a uma ética, ou a uma moral, de sentido religioso e sectário para regular um capitalismo desenfreado, quando cabe ao Estado fazê-lo? A resposta é, infelizmente, acutilante e rápida: porque o Estado se encontra comprometido com a “economia do lucro”, submetido portanto, a decisões de ordem política.

Caberá então às religiões regularem a economia dos Estados? Mais do que o século da “religião” (o XXI), na afirmação um tanto enigmática e profética enunciada por André Malraux, deveríamos acrescentar que entrámos no século do “re-ligare”. A (re)descoberta da religião e das religiões não implicará necessariamente a remissão do pecado do esquecimento da , nem a penitência dos agentes de negócios convertidos à filosofia moral de líderes religiosos. Ao contrário e em nosso entender, significará muito mais a (re)descoberta do fundo comum de uma “espiritualidade laica” na qual todos os seres humanos se identificam e unem como humanidade. E é justamente neste sentido que uma economia mundial poderá igualmente emergir da globalização, mesmo que inicialmente tenha de sofrer a contaminação de um multicultiralismo cego que não distinga as diferentes características das civilizações. Será, portanto, um longo caminho a percorrer, mas necessário.

Publicado por Re-ligare às 14:32
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