Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007

EM NOME DE ADÃO - A necessidade do ‘caminho do meio’ no ensino da evolução

Demissão por conta do ensino da evolução nos EUA

 

Colocada mais ‘lenha na fogueira’ da discussão sobre o ensino da evolução nos Estados Unidos. Foi noticiado pelo ‘The News York Times’, em 04 de dezembro de 2007, a demissão – ou pedido forçado de demissão – de uma professora do Estado do Texas, aparentemente por conta de posicionamento quanto ao ensino da teoria da evolução. Este fato deve acirrar ainda mais a contenda sobre o tema em 2008, ano em que possivelmente se dará a reforma do atual modelo estadual de educação científica nas escolas do Texas, nomeadamente sobre o ensino da teoria da evolução.

A matéria “Ensino da evolução termina em demissão nos EUA”, apresentada pelo sítio Terra[1] (www.terra.com.br) e fornecida pelo “The New York Times”, apresentou o caso da professora Christine Castillo Comer, demitida supostamente por ter se situado em prol da teoria da evolução. A professora, que exercia o cargo na Agência de Educação do Texas há vinte e sete anos e era diretora de ciências há nove, encaminhou correio eletrônico enfocando uma palestra sobre o tema evolução e criacionismo, realizada em Austin, de uma professora de filosofia da Universidade do Sudeste da Louisiana, intitulada "o cavalo de tróia do criacionismo". Este apoio à palestra da professora, chamada Barbara Forrest, foi a hipótese que a levou a quebrar o dever de neutralidade imposto pela agência de educação à educadora. Saliente-se que Barbara Forrest foi testemunha em um caso judicial que terminou com a proibição do ensino da teoria da criação inteligente nas escolas de Dover, Pensilvânia.

Consta na matéria que, após ser demitida, a professora Comer fez a seguinte afirmação sobre a teoria da evolução: "não é apenas uma boa idéia; é a lei".

O enredo em tela, digno de um filme de Hollywood, nos leva a refletir não apenas em relação à questão do ensino da evolução nas escolas americanas, mas igualmente sobre este ensino nas escolas públicas dos outros países e ainda sobre o posicionamento do professor em sala de aula em face de determinado tema ligado às religiões.

 

1º. Ponto - Sobre o ensino da evolução nas escolas públicas (em um país laico)

 

Qual será o vencedor do histórico embate da ciência com a religião? Os dois poderão um dia, finalmente, caminhar lado a lado, respeitando-se? Os cientistas afirmam ser impossível a união, pois a ciência é eminentemente materialista. Sob esta urdidura pairam ainda as colocações dos estudiosos da ciência, os quais entendem que apenas as teses comprovadas por métodos científicos devem ser ensinadas nas escolas. A contra sensu os religiosos inferem, em geral, que a evolução não faz sentido sem a presença da inteligência de um Supremo Criador.

Parece-nos, in casu, que estamos diante de uma disputa mais profunda: o controle da política educacional.

No Brasil, a Sociedade Criacionista Brasileira (www.scb.org.br) foi criada em 1972 com objetivo de “divulgar evidências resultantes de pesquisas, próprias e de outrem, que apóiem a tese da existência de planejamento, propósito e desígnio em todos os campos da natureza observável, em contraposição à tese do mero acaso mecanicista” e “divulgar evidências, resultantes de pesquisas, que apóiem a tese de que o mundo físico, incluindo as plantas, os animais e o homem, são o resultado de atos criativos diretos de um Deus pessoal”.

Em nosso entendimento, o salutar distanciamento do Estado com as religiões não pode servir de pano de fundo para a imposição apenas de teorias baseadas exclusivamente no método científico em sala de aula – apesar de respeitar a opinião dos cientistas quanto à primazia do método sobre o tropológico. O assunto, como propomos neste diálogo, ultrapassa as fronteiras científicas.

Faz-se mister, assim, a propositura de um ‘caminho do meio’ que permita ao educando conhecer todas as opiniões a respeito da evolução, sem primazia pela ciência ou religião, baseado no respeito a ambas as partes e, sobretudo, à liberdade de consciência e escolha individual.

Ademais, percebe-se que nem a ciência nem a religião é a dona da verdade. Várias teorias científicas naufragaram ao longo da história e as teses religiosas ou estão em linguagem simbólica ou engatinham nas suas explicações cientificas. É porque a ciência está em mutação permanente, como a volatilidade de uma memória RAM que se perde com a falta de tensão elétrica! E a religião se mostra suscetível a criticas!

A volubilidade é uma constante universal, prescrevia Luís de Camões nos Lusíadas[2]. O que hoje é entendido como verdade científica amanhã pode ser visto como uma mera ilusão. Os textos religiosos, por sua vez, podem ser interpretados de diversos modos ao longo da história.

O laicismo não impõe ao Estado a apologia ao ateísmo. O respeito aos ateus – bem como ao deístas e aos fiéis de todas as religiões – sim, mas não um posicionamento em favor do ateísmo. A neutralidade estatal não deve ser confundida com tendenciosidade.

Desse modo, o caminho dos extremos deve ser evitado. Não concordamos que o Estado possa decidir que, por exemplo, apenas o darwinismo deva ser explicado nas escolas públicas. Ao revés, impossível o ensino público se basear unicamente no criacionismo.

Se assim for, ou Estado estará fulminando os princípios constitucionais do laicismo – que pressupõe neutralidade por parte do Estado – e da liberdade de consciência, tão caros em uma democracia ou estará impondo o ponto de vista racionalista a quem pensa de forma diversa, praticando um verdadeiro estupro intelectual em favor da ciência.

Nesse prisma o enfoque do ‘caminho do meio’ é o da tolerância. Extremos devem ser evitados nesta fórmula. Assim, não podemos concordar com o eminente escritor francês Michel Houellebecq, quando afirmou que a “direita religiosa é apenas hipócrita”[3]. Pode até existir algum seguidor da direita religiosa dos EUA que não acredite em Deus, mas não cremos que este seja posicionamento majoritário. Em sentido inverso, podemos afirmar que existe movimento marxista ligado à igreja, como acontece com o MST (Movimento Sem Terra) no Brasil. Pois é, estudando a natureza humana percebemos que os paradoxos existem!

 

Por que a escolha do ‘caminho do meio’?

 

As diversas correntes científicas – e religiosas, sejam quais forem, são dignas de respeito por parte do Estado. Assim, os nossos alunos precisam saber que o significa o evolucionismo, mas não somente. O criacionismo, em suas diversas vertentes, como, por exemplo, o criacionismo "científico", o design inteligente, e as outras opções, como o evolucionismo social, o "gene egoísta", o neodarwinismo, a teoria evolutiva da simbiogênese, o pós-darwinismo, etc., devem ser expostos e explorados em sala de aula.

Ademais, não podemos desprezar o ensino de todas as correntes sobre a evolução – ou, pelo menos, as principais – em uma sala de aula estatal, sejam religiosas ou cientificas, pois o ensino da evolução compreende uma complexidade de conhecimento e não apenas se sustenta na disciplina de biologia. Além disso, o ser humano tem o direito de conhecer os pensamentos existentes, para poder praticar o senso crítico e a sua liberdade de escolha.

Nesta linha de pensamento, respeitável decisum prolatou uma corte Russa, ao decidir rejeitar pedido solicitando a proibição do ensino da evolução em escola pública[4]. A ação foi patrocinada pela aluna Maria Shreiber, de 16 anos. Alegou que o ensino da teoria da evolução das espécies ensinada na escola “violava seus direitos e insultava suas crenças religiosas”. O pai de Maria, Kirill Shreiber, entende que “o homem é resultado da criação de Deus, e muitos cientistas partilham desse ponto de vista”. Arrematou o pai da aluna, ao saber da decisão judicial, informando sobre recurso que seria impetrado: “nossa missão continua: destronar a teoria de Darwin. As pessoas não devem acreditar para sempre na bobagem completa que é o darwinismo”.

Percebe-se, portanto, que a intolerância e o radicalismo podem vir de ambos os lados e,

além disso, provir de membros da comunidade científica ou de qualquer religião[5], pois estas sementes ainda estão presentes no âmago do ser humano. Pensando bem, homo homini lupus[6] e, para que haja um equilíbrio, o Estado deve funcionar como um mecanismo de freios e contrapesos também neste campo.

Escolhe-se o ‘caminho do meio’ simplesmente porque o Estado não pode impor algo às nossas consciências, nem se portar inquisitoriamente sobre o nosso livre arbítrio, pois, afinal, não somos apenas tijolos nas paredes!

 

Princípios regentes do ensino nas escolas públicas brasileiras

 

No Brasil, a Lei nº 9.394/1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, dispõe em seu art. 2º ser a educação inspirada nos princípios da liberdade e nos ideais de solidariedade humana, de forma a preparar o educando para o exercício da cidadania.

Figuram como princípios base para o ensino, dentre outros, a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; o pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas; e o respeito à liberdade e apreço à tolerância (conforme consta no art. 3º da LDB).

O ensino fundamental obrigatório tem por objetivo a formação básica do cidadão, mediante o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social (art. 32 da LDB).

O ensino médio, etapa final da educação básica, tem como finalidades, dentre outras, o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico (art. 35 da LDB).

A Constituição Federal do Brasil (CFB), por sua vez, prescreve dentre as garantias fundamentais (art. 5º) a livre manifestação do pensamento (inciso IV), a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença (VI), e a livre a expressão da atividade intelectual e científica, independentemente de censura ou licença (IX).

A educação, conforme consta no art. 205 da CFB, é promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa e seu preparo para o exercício da cidadania, com base na liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber (inciso II); e no pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas (inciso III).

Desta forma, percebe-se que o ensino no Brasil está fundamentado em três pilares: a) a liberdade de aprender e ensinar, b) o pluralismo de idéias, e c) o respeito à liberdade e apreço à tolerância. Com isso, estimula-se a solidariedade, o senso crítico e os ideais éticos.

Com base nestes preceitos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, bem como observando os princípios constitucionais da liberdade de manifestação do pensamento, da liberdade de consciência e crença e da livre expressão da atividade intelectual e científica, podemos afirmar que o Brasil adotou o que chamamos de ‘caminho do meio’, permitindo ao professor manifestar seu pensamento, desde que esta manifestação não influencie na liberdade de consciência dos discentes, e seja exercida, ainda, de forma a garantir o respeito ao pluralismo de idéias e à neutralidade religiosa estatal.

Esta conclusão esta inteiramente sintonizada com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN, 2002) do Ministério da Educação brasileiro, os quais sugerem que a teoria da evolução biológica seja um eixo integrador que envolva todas as áreas da biologia - zoologia, botânica, ecologia, genética, entre outras, para se compreender o histórico e a dimensão filosófica da produção científica e o caráter de verdade científica nas teorias existentes.

Entretanto, na maior parte das escolas brasileiras, a evolução não tem sido adotada como eixo integrador. Pesquisadores indicam que a teoria evolutiva é trabalhada nas escolas como mais um tópico no rol dos conteúdos da biologia (TIDON & LEWONTIN)[7].

 

2º. Ponto – Sobre a participação do professor em sala de aula (e fora dela)

 

Passemos a analisar a outra questão: a) o professor pode emitir sua opinião, se colocando favorável a determinada religião ou corrente científica? Ou, b) possui o dever de apenas informar as correntes existentes, se posicionado com neutralidade sobre o tema?

Para ambas as perguntas parece-nos justo a mesma asserção sobre a questão anteriormente analisada: o melhor caminho é o do meio. Ou seja, a tolerância deve reinar sobre o despotismo.

Pensamos, assim, que o professor de escola pública, em sala de aula, deve se manter neutro. A opinião pessoal – perdoem o pleonasmo necessário – do professor sobre determinada corrente científica ou religiosa não importa aos alunos, pois, no sublime momento de transmissão de conhecimento aos discentes, o professor é o mais precioso instrumento do conhecimento.

Em nosso entendimento o professor deve despertar nos discentes a capacidade de raciocinar e perquirir[8]. Nesse sentido, os alunos devem ter total liberdade para escolher a qual corrente se filiar – ou de não compactuar com nenhuma delas.

Por isso, o professor tem o dever ético-profissional de não influenciar na liberdade de consciência – e de credo, igualmente – dos alunos. Para tal, em sala de aula, deve emitir a sua preferência apenas quando estritamente necessário e quando não comprometa o laicismo e a neutralidade estatal, isto é, em casos especialíssimos.

Ao revés, nas demais atividades acadêmicas (palestras, artigos, por exemplo) e fora do contexto do ensino em sala de aula, achamos que o professor pode ser darwiniano – ou não. Isto é, fora da sala de aula o professor deve ter total liberdade para pensar como queira, sem sofrer represaria.

Se não fosse por este caminho estaríamos a engessar a liberdade de consciência dos docentes. E mais: tolheríamos a possibilidade de pesquisa por parte dos professores, ápice da produção do conhecimento, patrocinando um autêntico estorvo aos nossos educadores.

 

Analisando o caso Christine Comer

 

Para nós é difícil compreender a questão do ensino da evolução nos Estados Unidos. Analisar o problema pela ótica de quem não participa da realidade daquele país é embaraçoso. Para dificultar ainda mais a percepção do assunto, o contexto no qual se insere a questão é o histórico, social, religioso e político do Estado do Texas.

Além disso, não podemos concluir com absoluta certeza quais foram os motivos que levaram à demissão da docente Comer, apenas com base em uma matéria jornalística.

Todavia, analisaremos o fato sob o prisma dos princípios da laicidade e da liberdade de consciência, ambos revestidos de um caráter universal. Além disso, são regentes da fraternidade e tolerância presentes nos países democráticos.

Neste aspecto o tema da reportagem é universal. Não obstante esta batalha venha ocorrendo nos Estados Unidos desde a década de 1920, o assunto poderá estar presente nos tribunais brasileiros[9] e de outros países muito em breve.

Em verdade, no caso em questão a professora Comer colocou a sua opinião, afastando-se da neutralidade que a agência de educação texana esperava.

Analisando a reportagem, percebemos que a professora Comer se posicionou favorável à teoria da evolução, colocando-se em linha de fogo com o presidente do conselho estadual de educação, professor de religião e autor de palestras defendendo a teoria da criação inteligente.

Mas, ao que parece, a professora defendia a sua preferência apenas fora da sala de aula, exercendo, nesse aspecto, a sua capacidade de liberdade de consciência sem ferir a laicidade estatal.

Se assim foi, não nos parece justo a sua demissão, pois baseada apenas em caráter político-religioso.

 

O tiro pode sair pela culatra

 

Experiência realizada nos Estados Unidos demonstra que a imposição a alguma das correntes pode levar as pessoas a terem um comportamento oposto ao esperado[10].

Um professor de biologia de uma universidade do Estado de Washington teve a idéia de realizar o seguinte teste. Dividiu alunos do primeiro ano de biologia em quatro secções. A dois grupos foram distribuídas porções do livro “The Blind Watchmaker", de Dawkins, um livro pró-evolução, bem como um livro defendendo a teoria do design inteligente, chamado "Icons of Evolution". Esses grupos também assistiram a um curta (animação) criacionista e leram uma refutação de idéias criacionistas, bem como tiveram acesso à materiais sobre a natureza e sobre a história da ciência. Os outros dois grupos ficaram a ler apenas materiais sobre a teoria da evolução.
No final do curso, os alunos foram convidados a assumir um compromisso voluntário, um inquérito anônimo, sobre possíveis mudanças nas suas mentalidades. Os resultados, publicados na edição de novembro de 2005 da revista BioScience, constataram que 61 por cento dos estudantes expostos tanto ao criacionismo quanto ao evolucionismo (primeiro grupo) mudaram suas perspectivas, enquanto que apenas 21 por cento dos estudantes expostos apenas à evolução fizeram mudança de opinião.

Observou-se que grande parte das alterações nos conceitos dos alunos se realizou do criacionismo em direção ao evolucionismo.

Muito embora não termos conseguido acessar as fontes da pesquisa, o caso pode nos ilustrar que, embora o primeiro grupo tenha ficado exposto a ambas as correntes, recebendo exposições relativas ao criacionismo e a evolução, ao comparar estes ensinamentos, os criacionistas mudaram mais a sua opinião do que os que foram expostos apenas às idéias evolucionistas.

O oposto também pode ocorrer, pois nos parece que o ser humano tem verdadeira aversão à imposição e ao radicalismo.

 

Conclusão

 

Não concordamos com o posicionamento da professora Christine Castillo Comer, quando a mesma prescreve a teoria da evolução como “lei”, imutável, verdade absoluta. O processo de seleção natural de Darwin poderá ser aperfeiçoado ou mesmo modificado pela ciência. Com certeza outras teorias de igual ou maior consenso no meio científico virão ao longo do tempo.

Discrepamos ainda quando a professora não entende o dever de neutralidade quanto ao ensino da teoria da evolução. Ora, em sala de aula o professor representa o Estado. Ele é o Estado! E como tal não deve ser palco para uma ‘guerra’ entre ciência e religião, mas de deferência a ambas. O ‘caminho do meio’ não pode ser utilizado para se contrapor as teses oriundas da fé e ciência, mas como ferramenta de demonstração dos pensamentos existentes.

Portanto, tem o professor o dever de fazer preponderar o laicismo nas salas de aulas. Deve respeitar igualmente as teorias existentes, científicas ou – até mesmo – religiosas, uma vez que, em nossa perspectiva, o ensino da evolução é tema complexo, que engloba várias disciplinas – biologia, sociologia, antropologia, religião, filosofia, história, entre outras.

No entanto, não podemos concordar que um professor fique tolhido de emitir opinião sobre qualquer assunto quando estiver fora da sala de aula, seja proferindo palestra, seja escrevendo artigos ou mesmo enviando correios eletrônicos por contrariar os dispositivos da religião. Esta proibição viola a liberdade de pensar inerente ao ser humano, ferindo a liberdade de consciência, pressuposto democrático de um estado de direito.

Até poderíamos cogitar ao fato do professor exprimir seu modo de ver determinado tema, em sala de aula, moderadamente e em casos especiais. Mas, teria o docente que deixar evidente a consideração pelas outras teorias, pois, na verdade, não é proveitoso que o seu juízo prevaleça sobre as demais correntes, para influenciar os alunos. A ética profissional deve prevalecer em face da opinião pessoal, pois, quem está ali é o Estado-professor e não o senhor-professor.

Conforme exposto, a professora Christine Castillo Comer possui o direito de ser darwinista, desde que não imponha esta teoria científica aos seus alunos e que este direito não se sobreponha ao dever de neutralidade que rege o laicismo estatal. A autonomia e o livre-arbítrio humano devem ser respeitados desde que não se sobreponham ao princípio da laicidade.

A religião não pode se considerar Estado, como ocorreu na Europa nos séculos XVI e XVII. Como pronunciou Alain Touraine, “o desenvolvimento da democracia supõe a independência do sistema político diante do sistema religioso”[11].

Assim, o ser humano tem o direito de optar pela ciência ou pela religião. Pode, ainda, ao invés de optar entre elas, escolher um equilíbrio, um caminho do meio, que dê dignidade e distinção a cada uma dessas áreas do conhecimento[12]. Este caminho pode se dar, por exemplo, em uma síntese entre o conhecimento científico e a visão de mundo religiosa. Seria utopia pensar que um dia a ciência possa respeitar a religião e vice-versa?

Se assim não for, a intolerância reinará e, ao contrário do ensino da evolução, estaremos a prescrever em nossa sociedade o ensino da involução, configurando numa nova Idade das Trevas!

 

Hugo Alexandre Espínola Mangueira

Especializando em Ciências das Religiões pela Universidade Federal da Paraíba - Brasil



[1] Estando disponível no link http://noticias.terra.com.br/educacao/interna/0,,OI2123725-EI8266,00.html (acesso em 04.12.2007).

[2] “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
    Muda-se o ser, muda-se a confiança;
    Todo o mundo é composto de mudança,
    Tomando sempre novas qualidades.”

[3] Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo. Página E6. Ilustrada. Edição de 05 de dezembro de 2007.

[4] Matéria presente no jornal O Estado de São Paulo, publicada em 21 de fevereiro de 2007, intitulada “Justiça russa se recusa a proibir ensino da evolução”, disponível em http://estadao.com.br/ciencia/noticias/2007/fev/21/252.htm (acesso em 14.12.2007).

[5] Bispo católico fez greve de fome com objetivo de impedir o governo brasileiro realizar obras de transposição do rio São Francisco.

[6] Tomas Hobbes.

[7] TIDON, Rosana and LEWONTIN, Richard. Teaching evolutionary biology. Universidade de Brasília. Brasília, Instituto de Ciências Biológicas, Brasília, DF, Brazil, Harvard University, Museum of Comparative Zoology, Department of Organismic and Evolutionary Biology, Cambridge, MA, USA. 2003.

[8] No mister de ensinar talvez não haja método mais precioso que a maiêutica – processo dialético e pedagógico socrático.

[9] Conferir o caso do Estado do Rio de Janeiro, que decidiu implantar o ensino do criacionismo nas aulas de religião da rede estadual de ensino desde 2004.

[10] Segundo o conteúdo disponível em http://telicthoughts.com/teaching-anti-evolution-increases-acceptance-of-evolution/ (acesso em 17/12/2007).

[11] TOURAINE, Alain. Os riscos do populismo religioso. Entrevista à revista Época. Edição n. 500. Dezembro, 2007.

[12] GOULD, Stephen Jay. Pilares do tempo: ciência e religião na plenitude da vida. Editora Rocco: 2002.

Publicado por Re-ligare às 11:13
Link do post | Comentar | Favorito
5 comentários:
De fjespinola@hotmail.com a 26 de Dezembro de 2007 às 16:12
Perfeito e atual o ponto de vista sobre o ensino na guerra criacionismo x evolucionismo.
Gostaria de acrescentar que esta guerra me lembra o episódio de Galileu. Após o heliocentrismo ser amplamente aceito, a doutrina religiosa cristã se modificou, podemos dizer até que ela evoluiu... Sendo assim, espero que esta dialética evolução x criação sirva para uma evolução das idéias criacionistas. Qualquer evolução das idéias evolutivas apenas confirmará sua verdade.
De Hugo Alexandre a 27 de Dezembro de 2007 às 00:39
Pertinente a menção à Galileu Galilei. A Igreja evolui a passos de cágado, o que pode levá-la à ruína. Mudar tão lentamente assim só mesmo (pasmem) a Maçonaria - mas aí já é outra história.
Caro Francisco José, sua passagem por aqui é 'avis rara, avis cara'.
De lyrapb@terra.com.br a 26 de Dezembro de 2007 às 17:59
Parabéns. Muito bem escrito e esclarecedor. É pertinente acharmos e nos preocuparmos com a liberdade de pensar, escrever e falar. Não importa se o que eu acho hoje é o que eu ache amanhã. Mas eu tenho o direito de pensar, achar, agir e fazer. As omissões, por sua vez, são mais perigosas.
De Hugo Alexandre a 27 de Dezembro de 2007 às 00:48
É verdade... Assim, 'só sei que nada sei'!!! Afinal, a mudança é uma constante! E viva a democracia!
De Ednice Fidelles a 27 de Março de 2008 às 18:45
Muito bem Hugo! Contribuindo com nosso crescimento intelectual e democrático. Você me fez relembrar um acontecido semelhante comigo, quando um pai de uma aluna se queixou na direção do colégio sobre um assunto abordado em sala de aula, na disciplina de Ciências " Reprodução dos seres vivos", e é claro que além de brotos e sementes falei sobre espermatozóides e óvulos... A coordenação pedagógica liberou a garota das avaliaçoes com esse conteúdo CURRICULAR, pois deu o direito à discente de se ausentar quando esse tema fosse exposto. "Era contra os preceitos religiosos do pai".

Comentar post

.Mais sobre Ciência das Religiões

.Pesquisar

.Posts recentes

. Ψυχή, Psychē e Fado

. A PRESENÇA AUSENTE (três)...

. A CULTURA QUE NOS REDEFIN...

. Música e Emoções - Romant...

. Biomusicologia – Definiçã...

. Natal, naTAO

. Encontro com Manuel Frias...

.Arquivos

.tags

. todas as tags

.Links

.Links

blogs SAPO

.subscrever feeds