Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

NATUREZA E HUMANIDADE

Os debates sobre as ameaças ao equilibrio ecológico do Planeta trazem à superfície questões que transcendem as análises relacionadas com as ciências biológicas. Na verdade sempre houve preocupação com a extinção de espécies animais e vegetais, tanto para os estudiosos como para os indivíduos cuja existência dependia diretamente daqueles espécimes. O respeito, por exemplo, pelas épocas de reprodução na prática da pesca ou da caça sempre existiu nas populações dedicadas à sua exploração. A utilização de métodos de extermínio massivo de animais ou a destruição de grandes extensões de flora surgiu com o desenvolvimento da comercialização e da industrialização que floresceram com o que se convecionou chamar de "era industrial", agravando-se ainda mais nesta controversa "era tecnológica" em que vivemos. Este fenomeno destruidor acompanhou a passos largos o processo de desenvolvimento das sociedades, estreitamente ligado às formas de dominação nacional e internacional.

Cabe ainda lembrar a modificação que os próprios conceitos (e, consequentemente os princípios) têm sofrido ao longo da história da humanidade. Tal aspecto é muito importante na própria formulação da ética que orienta a ação social. Durante as épocas em que a humanidade se considerou um produto divino privilegiado, que tinha à sua disposição todos os elementos da natureza e o próprio mundo com os seus limites mal definidos, exerceu sem qualquer preocupação os seus "direitos" predatórios. Não lhe cabia qualquer dever em relação à manutenção das espécies, tarefa de âmbito exclusivamente divino. Quando Malthus chamou a atenção para a ameaça representada pelo crescimento descontrolado das populações no consumo de alimentos e ocupação do espaço planetário, as teorias desenvolveram-se tendo em vista o controle da natalidade e algumas até reconhecendo o benefício das guerras e das epidemias para a redução do excesso de indivíduos. Praticamente foram desconhecidos os pontos de vista relativos à defesa da natureza, ao controle da produção e à uma distribuição mais justa dos recursos mundiais. Predominou, portanto, o ponto de vista dos mais bem situados na escala de poder das sociedades e de todo o mundo, reforçados os seus tradicionais "direitos predatórios".

Nessa perspectiva, as descobertas científicas que deveriam trazer benefícios para a humanidade compreendida globalmente, passou a representar acréscimos de poder para os mais poderosos. A descoberta do petróleo, por exemplo, que Humboldt louvava como elemento de utilidade no desenvolvimento dos produtos medicinais (1), e que permitiu enorme avanço no sector da energia, trouxe também graves consequências como fator de conflitos sociais e até os nossos dias tem sido o detonador de guerras e formas as mais cruéis de dominação colonial e imperial. Assim também outras importantes descobertas que fazem a ciência avançar mas acrescentam terríveis ameaças nas mãos de uma minoria que detem o poder mundial. Poderiamos falar das descobertas no campo da genética, como no dos medicamentos, como no dos adubos e pesticidas, etc, etc. O aumento de poder nas mãos de uma minoria que controla os organismos políticos e economicos do mundo é de tal ordem que causa medo a continuação das descobertas científicas. Já tivemos a dolorosa experiência das nefastas formas de utilização da energia atomica e de produtos como a talidomida e outros que causaram a morte ou a deformação de milhões de pessoas em todo o mundo.

 

EVOLUÇÃO DO BEM E DO MAL

Não podemos ser pessimistas no entanto. O desenvolvimento do conhecimento da humanidade, apesar de sempre dominado por grupos de poder interessados na sua própria soberania, esteve permanente ligado ao produto mental da pessoas que pretendiam o bem geral. Nos textos filosóficos mais antigos (2) vamos encontrar num Hesíodo, por exemplo, a voz dos camponeses opondo-se à aristocracia em defesa do trabalho e da justiça. Mesmo em autores que refletiam os interesses de uma classe ou raça considerada superior, emergiam os ideais morais contrapondo-se aos hábitos reais. Assim se desenvolveram os conceitos relativos aos valores espirituais e morais, à unidade familiar, à organização das cidades-Estado. Germinavam os conceitos éticos.

Durante a idade média, sob a dominação religiosa, a ética e a moral foram identificadas com a vontade divina deixando na mão dos auto-denominados interlocutores de Deus o poder de decisão sobre a existência na Terra. Chegou-se ao extremo de mover processos crime contra insetos que ameaçavam as produções de cereais (3) em tribunais episcopais com a condenação explícita e expulsão definitiva dos campos franceses. Mas este poder algumas vezes voltou-se contra os camponeses que ousaram matar animais que "foram criados por Deus", obrigando-os a pesadas multas que beneficiavam a Igreja. Os problemas existentes não eram devidos nem à falta de conhecimento científico nem à ausência de princípios éticos, mas sim à existência de um poder totalitário que conduzia a ação dos indivíduos de acordo com os seus interesses de permanente domínio social.

A contrapor a filosofia dominante, germinavam conceitos mais progressistas que lentamente eram reconhecidos através das provas irrefutáveis da ciência. Ptolomeu travou as suas próprias afirmações para não ir parar na fogueira, mas Copérnico encontrou outras condições para desenvolver o conhecimento relativo à mobilidade da Terra em torno do sol. As noções dialéticas, já apontadas na Antiguidade, continuaram a ser desenvolvidas contribuindo para um conhecimento mais objetivo tanto da natureza como das relações sociais, o que conduziu à compreensão dos princípios democráticos. Assim se fundamentou a importante mudança conceitual que, de uma moral de classe evoluiu para uma ética social.

 

ÉTICA SOCIAL

Já Descarte chamava a atenção para o fato de que "os homens se converteram em mestres e donos da natureza". Mas foi Marx que no século XIX definiu com maior precisão que "o processo de produção deixou de ser um processo de trabalho... Os poderes produtivos do homem em geral, a sua compreensão da natureza e a sua capacidade para dominá-la surgem agora como as bases de produção e riqueza" (4).

Principalmente depois da segunda guerra mundial, quando o desenvolvimento das sociedades industriais se acentuou com todas as consequências nas modernas formas de exploração do trabalhador e de alienação social, essas preocupações com o caminhar egoista e destruidor da humanidade alertou os cientistas sociais. J.K.Galbraith, nos Estados Unidos, em várias publicações denunciou a origem dos problemas sociais como sendo originadas no contraste entre a opulência privada e a miséria pública, nos desniveis existentes entre sociedades industriais e não industriais (o que hoje se traduz na reconhecida desigualdade entre o Norte desenvolvido e o Sul explorado).

Os conceitos democráticos e de participação social evoluiram formalmente, mas os seus antídotos minam as sociedades. Os meios de comunicação social expandem a informação mas também cultivam uma maneira de pensar que domina as mentalidades; o sistema de ensino tornou-se obrigatório em quase todo o mundo, mas grandes contingentes populacionais não têm condições para frequentá-lo; as eleições são livres e democráticas, mas a escolha e promoção dos candidatos depende das instituições partidárias; a poluição do meio ambiente depende da vontade dos habitantes, mas os produtos existentes no mercado dependem da vontade das grandes e poderosas empresas; existe a ameaça da queda da produção alimentar e das reservas de água em todo o planeta, mas as políticas de produção e de proteção dos recursos naturais dependem dos consensos entre os Governos dos paises mais desenvolvidos que, prioritariamente, defendem interesses economicistas e não sociais ou éticos.

Com todos os esclarecimentos hoje alcançados a humanidade tomou conhecimento da importancia do equilíbrio ecológico. Proliferam os textos sobre ecologia, animam-se os defensores da natureza, ensinam-se as crianças a protegerem os animais e as plantas, criam-se leis a favor de áreas verdes nos meios urbanos e contra os excessos de poluição do ar e da água. Mas, ao mesmo tempo, multiplicam-se as mensagens de violência e destruição que (de)formam as novas gerações, afirma-se como modelo de ação individual o egoismo e o desinteresse pelas questões coletivas. Entramos numa época de alguma forma correspondente ao obscurantismo medieval, só que o Deus é o próprio Homem e a Igreja as instituições que centralizam o poder político e economico.

O caminho aberto pela "sinecologia", - as populações passam a ter relevância metodológica , "em que o ser vivo é visto como um participante obrigatório dos fluxos de energia e matéria numa natureza em equilíbrio dinâmico" (5) contribui, inegavelmente para que se consolide uma posição em defesa da natureza que inclui a humanidade como parte integrante. A questão ética deixa de ser considerada apenas como formal, como queria Kant, para constituir uma condição fundamental nos planos de desenvolvimento mundiais. Isto será possivel mediante a concretização em todos os ambitos da ação social dos princípios democráticos e a exigência mundial de uma estratégia política favorável ao coletivo e não às minorias que detêm as formas de poder.

Em Portugal o professor José Barata Moura assinalou: "Não se trata de ilusoriamente pretender paralizar a história"..."Trata-se de a trabalhar, de a reconfigurar, de a reassumir num sentido transformado que lhe permita acolher no seu seio, em termos sustentados e sustentáveis, as colectividades humanas.

A consciência ecológica nas nossas sociedades já ultrapassou o estádio do despertar. É preciso que se não acantone na facilidade retórica de um mero refrão obrigatório, habilidosamente trauteado sempre que é mister sublinhar uma coincidência com o que está em voga ou angariar apetecidos proventos na cinegética eleitoral.

É sobremaneira imperioso que a consciência ecológica ganhe espessura e densidade, lance raizes e alargue o âmbito das suas preocupações, não perca a perspectiva em que a sua própria razão mergulha e o seu escopo encontra rumo.

 Necessitamos de uma defesa e de uma promoção ativas (isto é, com expressão prática consequente), de um ambiente verdadeiramente humano, comprometido com a aventura ou com o devir histórico que protagonizamos e modelamos."(6)

 

Notas:

(1) Branco, Samuel M. - in Ecologia e ambientalismo, um ensaio sobre os conflitos conceituais nos estudos ambientais - artigo no prelo -S.Paulo, Brasil, 1994

(2) Bottomore, T.B. - La sociologia como crítica social - Ed.Península, Barcelona,1976

(3) Ferry,Luc - Le nouvel ordre écologique, ed.Grasset, 1992, Paris

(4) Bottomore - obra citada

(5) Branco - obra citada

(6) Barata Moura, José - artigo - Ed.Ambiente DORL/PCP,Lisboa, 1994

                          

Zillah Branco

(Socióloga, Conselheira do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz)

Publicado por Re-ligare às 17:02
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2 comentários:
De Zé da Burra o Alentejano a 14 de Fevereiro de 2008 às 14:32
TAL COMO O BURRO, SOU MAIS DIRECTO:

- FALA-SE MUITO EM REDUÇÃO DA "TAXA DE NATALIDADE" EM PORTUGAL, MAS TODOS SABEM QUE A POPULAÇÃO MUNDIAL ESTÁ A AUMENTAR, E MUITO RAPIDAMENTE. ESSE É QUE É O REAL PROBLEMA!

- SE ESTÁ EM QUEDA NUNS PAÍSES, ESTÁ EM EXPLOSÃO NOUTROS E COM O MUNDO GLOBALIZADO DE HOJE TUDO TEM QUE SER VISTO A NÍVEL GLOBAL (NÃO SÃO SÓ OS NEGÓCIOS E AS DESLOCALIZAÇÕES DAS EMPRESAS).

- POR MUITO LOUVÁVEL QUE SEJA O FACTO DA POPULAÇÃO PORTUGUESA PODER SER RENOVADA COM OS SEUS PRÓPRIOS FILHOS (?), TODOS NÓS SABEMOS QUE MUITOS MILHÕES DE IMIGRANTES ESTÃO CHEGANDO TODOS OS DIAS À EUROPA E A PORTUGAL. ESSES IMIGRANTES FAZEM AUMENTAR A POPULAÇÃO NOS PAÍSES DE ACOLHIMENTO E TAMBÉM EM PORTUGAL.

- QUANTOS CENTENAS DE MILHARES DE PORTUGUESES EM IDADE ACTIVA ESTÃO SEM EMPREGO? 8% DA POPULAÇÃO?

- QUANTOS IMIGRANTES EXISTEM JÁ HOJE NO NOSSO PAÍS? COM CERTEZA MAIS DE UM MILHÃO, DE ENTRE LEGAIS E ILEGAIS, OS QUAIS, MAIS CEDO OU MAIS, TARDE FICARÃO LEGAIS, COM AS LEIS DE REGULARIZAÇÃO DE ESTRANGEIROS QUE SEMPRE SE FAZEM REGULARMENTE.

- NÃO PODEMOS, NÃO DEVEMOS NEM CONSEGUIMOS FECHAR AS NOSSAS FRONTEIRAS E EVITAR A CHEGADA DE MAIS IMIGRANTES.




De pardaldetelhado a 4 de Abril de 2008 às 12:46
Por falar em Religiões
Caros Companheiros desta vida

Estou cansado, não o suficiente para não participar.
Vai para dois anos vim da fronteira norte de Angola, aquela que confina com o sul da Rep. Democrática do Congo. Todos os dias, passam a fronteira, de um lado e para o outro, ao longo de mais de 800 quilometros dezenas de milhares de pessoas. Especialmente mulheres com um filho às costas, outro pela mão, e um cesto à cabeça que leva dentro um pouco de mandioca, amendoim, uns abacates e umas maçarocas de milho. Vende e troca tudo o que pode para matar a fome a si e aos seus. Mas o que é que isto tem a ver com Deus perguntarão? É que elas percisam tanto de continuar a sobreviver que não tem tempo de pensar em Deus.
passem bem
José Carlos de Olveira

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