Terça-feira, 18 de Março de 2008

Um encontro de civilizações

          O artigo do nosso Director, o Dr. Paulo Mendes Pinto, a respeito da necessidade de um encontro de civilizações, suscitou-me algumas reflexões adicionais. A primeira é que esta complexa equação universal, composta pelas diferenças culturais dos povos, tem mesmo de encontrar algum mínimo denominador comum que possibilite um encontro que promova a existência de um futuro para todos! Temos de nos encontrar em algum ponto mínimo antes que cheguemos ao grau zero. É por isso que Hans Küng fala da necessidade de criarmos uma «ética dos mínimos».

          Recordo-me de uma anedota que ilustra esta ideia: certa equipa de futebol estava em tão mau estado que não ganhava um jogo havia muitos meses. O treinador, já desesperado, tentava vários modelos de jogo: 3-4-3; 2-4-4, e nada! Falhavam nos passes, falhavam na concretização…uma lástima! Em desespero de causa, o treinador reuniu a equipa profissional e começou um curso de futebol pelo princípio. Sentou os jogadores na relva, pegou numa bola de futebol e disse: «meus amigos, vamos começar pelo princípio: para quem não saiba, isto é uma bola».

          Pois para quem não saiba, a primeira bola do jogo do encontro das civilizações chama-se respeito pela vida humana. E já que estamos em registo de ciência das religiões, que se diga que o valor da vida humana não depende da religião que temos ou à qual nos convertemos. Que fique claro que ninguém vale mais por ser cristão, judeu ou muçulmano – ou coisa nenhuma. O nosso valor assenta no facto de sermos pessoas. Ponto.

          Afinal de contas, parece-me que não há outro valor tão comummente partilhado por todas as religiões como o valor da vida! Todas as religiões a prometem: desde a reencarnação sucessiva em várias vidas, passando pela experiência hilariante de uma vida no além rodeado de virgens, até chegar à promessa de uma vida eterna em mansões e ruas de ouro, vivida com os irmãos da mesma comunidade de fé...as escolhas são variadas! E por isso, todas as religiões são culpadas - gravemente culpadas - do paradoxo, da incongruência de se negarem a si próprias, matando em nome de uma religião que, em princípio, promete e promove a vida. Alguma coisa não bate certo.  

          Infelizmente, o caminho da religião está cheio de dois tipos de altares: o da adoração ao Grande Outro, aquele que é maior do que eu e o da imolação do outro, aquele que difere de mim. Já o mito de criação protagonizado por Caim e Abel nos apresenta a religião como a causa primeira de conflitos pessoais e civilizacionais. De resto, temos naquele relato o primeiro ENCONTRÃO de civilizações...

 

          Um dia desses, mandamos mais outra bola para jogo…

Luís Seabra Melancia

Docente na Lic. em Ciência das Religiões

Publicado por Re-ligare às 10:56
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