Domingo, 23 de Março de 2008

A PRIMAVERA E OUTRAS DIVISÕES

Esta semana começou a Primavera, uma das quatro estações em que dividimos o ano do ponto de vista do clima. A sinfonia do ano, como se fosse executada em quatro andamentos, está escrita em compasso quaternário! Quatro estações dividem o ano (ouçam Vivaldi e verão que assim é...). Esta divisão quaternária em que o ano se decompõe, sugere-nos outras divisões, por nós fabricadas:

1. A divisão do espaço. Rousseau referia-se ao «primeiro homem que cercou uma porção de terra e disse ‘isto é meu’ e encontrou gente suficientemente tonta para acreditar nele». Desde a micro divisão parcelar de uns metros de terra, à macro divisão resultante do Tratado de Tordesilhas, a divisão do espaço é uma prática milenar.

2. A divisão do tempo. Foi grande a evolução na divisão do tempo, mas sempre se fez. Desde a divisão que se fazia do tempo mediante a posição do sol – a hora terceira, a hora sexta ou a hora nona – até à ínfima divisão do tempo em milésimos de segundo, usada para determinar a rapidez de uma prova olímpica, a divisão do tempo é outra divisão importante! (O relógio de precisão veio alterar por completo a nossa forma de vida e a divisão que faríamos do nosso tempo. É engraçado pensar que na Babilónia não se podia marcar um almoço para as 12:45h e na Grécia antiga não havia forma de marcar uma aula para as 13:15h...).

3. A divisão do trabalho é outra das formas de divisão que as civilizações foram criando. Desde a divisão do trabalho que se praticava nas sociedades agrícolas do Neolítico (baseada na distribuição de funções entre o homem e a mulher) até à divisão mais complexa do trabalho que Marx ou Engels identificaram, a divisão do trabalho é um facto histórico em todas as civilizações.

4. A divisão da matéria. Devemos a Demócrito a formulação filosófica do materialismo: o entendimento de que as diversas espécies de matéria poderiam ser subdivididas em pedaços cada vez menores até atingir um limite, além do qual nenhuma divisão seria possível. Seria Epicuro que, quase um século mais tarde, usaria a palavra «átomo» para se referir, pela primeira vez, a essas ínfimas fracções da matéria.

5. A divisão dos saberes, por força da especialização. Costumo dizer aos meus alunos que o saber superior – universitário – não é saber mais, é saber melhor. Estamos na era da especialização. E já alguém fez notar, com alguma graça, que especialização consiste em saber cada vez mais acerca de cada vez menos até se chegar a saber tudo sobre coisa nenhuma.

6. A divisão dos poderes. Em 1784, Montesquieu publicou o célebre «De L’Esprit des Lois», que é a sua obra política fundamental, onde formula a famosa teoria da separação dos poderes e que teve a maior repercussão na Europa e na América, contribuindo decisivamente para a Revolução Americana (1787) e para a Revolução Francesa (1789). Com a doutrina da divisão dos poderes em três esferas distintas, o poder legislativo, o poder executivo e o poder judicial, Montesquieu defendia que só existirá liberdade política se esses poderes não estiverem concentrados na mesma pessoa. 

7. A divisão das eras. Agora que passamos pela Páscoa, cabe lembrar que o mundo ocidental dividiu-se em dois períodos cuja figura axial é Jesus Cristo. Damos vez a essa divisão usando símbolo «a.C.» e «d.C.». Mas mesmo agora, em que a nomenclatura dessa divisão foi alterada para «a.e.c.» e «e.c.»(«antes da era comum» e «era comum») o instrumento da divisão das duas eras continua a ser o nascimento de Cristo.

 

Todas estas e outras divisões (algumas bem mais complexas...), podem levar-nos a viver mundos interiores profusamente atomizados, que correm o risco de fazer desintegrar e estilhaçar o nosso sentido de unidade na vida. O desafio continua a ser o de conseguir fazer deste pluriverso de vidas divisíveis, um universo harmonioso e coerente.

 

 

Luís Seabra Melancia

Docente na Lic. em Ciência das Religiões

 

 

Publicado por Re-ligare às 02:00
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1 comentário:
De Manuel Oliveira Duque a 5 de Abril de 2008 às 16:24
Data: 5 de Abril/08
A propósito do artigo anterior, do Prof. Luís Melancia, sobre "de A.C." (antes de Cristo) para "a.e.c."(antes da era comum), fácilmente nos deparamos com o conhecimento de que, se não tivermos cuidado, o conhecimento que deveria ser conhecido, acabará por levar muita gente ao desconhecido.
Afinal porquê a opção de se alterar "a.C."(antes de Cristo), para "a.e.c." (antes da era comum)?
Certamente se compreende que todas estas rápidas mudanças Globais, se devem ao facto de haver outras civilizações, de valores religiosos diferentes dos valores ocidentais, pelo que, certamente não aceitariam a marca de data do tempo "a.C. "visto que essa data para eles não é valorizada, de uma vez que têm outros valores de referência que para eles dizem mais.
Até aqui tudo bem... Mas o que custa a entender e o que muita gente pergunta é:

"Até onde chegará o homem sem Cristo?"

Era bom alguém comentar esta pergunta.
Manuel Oliveira Duque
Aluno da Lusófona

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