Segunda-feira, 24 de Março de 2008

Num tempo de Paixão, em que erradia a Esperança dos Cristãos, novamente a imagem da culpa dos Judeus

 

                        

Chegados ao fim do tempo de preparação para a grande festa da Páscoa, os Cristãos recolhem-se para vivenciarem a intensidade do Tríduo Pascal, também conhecido como Tempo da Paixão, em que, através de uma liturgia ritualmente muito rica (particularmente, por parte dos Católicos, dos Ortodoxos e dos Anglicanos), fazem a memória dos acontecimentos que rodearam a prisão, morte e ressurreição de Jesus (o Cristo). Estes três dias começam com as cerimónias de Quinta-Feira Santa (Última Ceia e simbólico Lava-Pés, em que foi instituída e Eucaristia) e termina na Vigília Pascal de Sábado Santo, símbolo de todas as Vigílias, segundo as palavras de Santo Agostinho (Sermão Guelf. V,2):

Qual é, pois, a razão por que numa festa anual estão hoje em vigília os Cristãos? É que hoje é a nossa maior vigília e ninguém pensa noutra celebração de aniversário quando, com impaciência, perguntamos dizendo: «Quando é a Vigília?» «Daqui a tantos dias é a Vigília.» Como se, em comparação com esta, as outras não merecessem tal nome. […] Mas a Vigília desta noite é tão grande que poderia reivindicar para si só, como próprio, o nome comum de todas as outras.

No centro do Tríduo está a Sexta-Feira Santa ou da Morte do Senhor, único dia do ano em que não se celebra a Eucaristia. A parte da tarde deste dia está impregnada de grande signi­fi­cado, com ritualizações que se prolongam até ao início da noite, divididas em três grandes partes.

 

Parte ILiturgia da Palavra

Fazem-se quatro leituras (duas do Antigo Testa­mento e duas do Novo Testamento), directamente relacionadas, pelos hermeneutas cristãos. Nos textos escolhidos do Novo Testamento encontram-se ecos de algo que, velada e misteriosamente, já se preanunciava no Antigo Testamento:

Isaías (52,13 – 53,12)Em que se apresenta a figura do Servo Sofredor, que prefigura Cristo, e cujas analogias são surpreendentes:

Vede como vai prosperar o meu servo: subirá, elevar-se-á, será exaltado. Assim como, à sua vista, muitos se encheram de espanto ─ tão desfigurado estava o seu rosto que tinha perdido toda a aparência de um ser humano ─ assim se hão-de encher de assombro muitas nações e, diante dele, os reis ficarão calados, porque hão-de ver o que nunca lhes tinham contado e observar o que nunca tinham ouvido […] O meu servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz numa terra árida […] Desprezado e repelido pelos homens, homem de dores, acostumado ao sofrimento, era como aquele de quem se desvia o rosto, pessoa desprezível e sem valor para nós. Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. […] Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva: pelas suas chagas fomos curados. […] Maltratado, humilhou-se voluntariamente e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que o tosquiam, ele não abriu a boca. […] O justo, meu servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades. Por isso, Eu lhe darei as multidões como prémio […].

 

Salmo Responsorial (30[31],2.6.12-13.15-16.17.25)Oração veterotestamentária indi­ca­da para as Horas de Provaçãoque terá sido entoada por Jesus, na Cruz (pelo menos um dos seus versículos, assinalado)como súplica esperançosa na adversidade, e acção de graças pela bondade e fidelidade de Deus:

Em Vós, Senhor, me refugio,

jamais serei confundido,

pela vossa justiça. Salvai-me.

Em vossas mãos entrego o meu espírito,

Senhor, Deus fiel, salvai-me.

[…]

Fazei brilhar sobre mim a vossa face,

Salvai-me pela vossa bondade.

Tende coragem e animai-vos,

Vós todos que esperais no Senhor.

 

Carta aos Hebreus (4,14-16;5,7-9) Interpretação teológica da figura de Jesus (o Cristo) como único Sumo Sacerdote e Vítima, consumador definitivo da Nova Aliança:

Irmãos: Tendo nós um sumo sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. Na verdade, nós não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas. […] Nos dias da sua vida mortal, Ele dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que o podia livrar da morte, e foi atendido por causa da sua piedade. […] Tendo atingido a sua plenitude, tornou-se, para todos os que lhe obedecem, causa de salvação eterna.

 

Evangelho de São João (capítulos 18 e 19) Relato extenso dos acontecimentos da paixão e morte de Jesus, feito pelo discípulo amado (cf. Jo 13,22), que o acompanhou durante todo o percurso da Paixão até à sua morte no Calvário. Curiosamente, o evangelista inicia a crónica dos acontecimentos a partir de um jardim, junto ao regueiro do vale do Cedron (analogia com o jardim primordial, o do Éden, onde teve lugar a Criação), e termina-a junto de outro jardim (o jardim escatológico, o do eterno descanso, para que tende o percurso da vida humana), no lugar da crucifixão e sepultura:

Jesus saiu com os seus discípulos para o outro lado da torrente do Cedron. Havia lá um jardim, onde Ele entrou com os seus discípulos. Judas que o ia entregar, conhecia também o local, porque Jesus se reunira lá muitas vezes com os discípulos.

Tomando consigo uma companhia de soldados e alguns guardas, enviados pelos príncipes dos sacerdotes e pelos fariseus, Judas chegou ali, com archotes, lanternasw e armas. Sabendo Jesus tudo o que lhe ia acontecer, adiantou-se e perguntou-lhes: «A quem buscais?» Eles responderam-lhe: «A Jesus, o Nazareno.» Jesus disse-lhes: «Sou Eu.»

[…]

[Pilatos] entregou-lhes então Jesus, para ser crucificado. E eles apoderaram-se de Jesus. Levando a cruz, Jesus saiu para o chamado Lugar do Calvário, que em hebraico se diz Gólgota. Ali o crucificaram.

[…]

Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Mada­lena. […] Depois, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse: «Tenho sede.» Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vina­gre e levaram-lha à boca. Quando jesus tomou o vinagre, exclamou: «Tudo está consumado.» E, inclinando a cabeça, expirou.

[…]

Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, embora oculto por medo dos Judeus, pediu licença a Pilatos para levar o corpo de Jesus. […] Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no em ligaduras juntamente com perfumes, como é costume sepultar entre os judeus. No local em que Jesus tinha sido crucificado havia um jardim e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ainda ninguém fora sepultado. Foi aí que, por causa da Preparação do Judeus, porque o sepulcro ficava perto, depositaram Jesus.

 

Oração Universal Invocações e preces de intercessão, numa sequência decrescente de afinidade:

1. Pela Igreja ─ pedindo a paz e protecção divina.

2. Pelo Papa ─ pedindo a iluminação do chefe da Igreja, no supremo minis­té­rio do governo, orientação e defesa dos erros.

3. Pelos Ministros e pelos Fiéis ─ pedindo a graça da fidelidade ao serviço e corres­pon­dência ao dom da fé.

4. Pelos Catecúmenos ─ pedindo por todos os que, aderindo à fé, se preparam para receber o Baptismo.

5. Pela unidade dos Cristãos ─ para que a coerência de vida dos fiéis, em especial no campo das relações humanas, cada vez mais corresponda à profissão de fé de todos, em Cristo, único Salvador.

6. Pelos Judeuspara que, fiéis à palavra de Deus, transmitida pelos antigos Profetas, cresçam no amor a Deus, com Quem estabeleceram a primeira Aliança.

7. Pelos que não crêem em Cristo ─  por todos os homens que estão fora do grande redil do Cristianismo.

8. Pelos que não crêem em Deus ─ pelos ateus e por todos aqueles que perderam o sentido de Deus.

9. Pelos governantes ─ para que a luz divina os ilumine e mova no sentido de esforçarem pela paz e pela justiça para os povos que governam e dirigem.

10. Pelos atribulados ─ por todos os que vivem em sofrimento físico e espiritual, e são vítimas das injustiças, para que neles resista a luz da esperança.

 

Parte IIAdoração da Cruz

Exposição da Cruz

─ Exposto para adoração, o símbolo redentor da Humanidade, seguem-se os

─ Impropérios ─ Censuras (conjunto de três formulações) que o Senhor parece dirigir ao seu povo:

«Meu povo, que mal te fiz Eu? Em que te contristei? Responde-me.»

a que a assembleia responde com o Triságio:

«Deus Santo», «Santo e Forte», «Santo e Imortal, tende piedade de nós.»

 

Parte IIIComunhão e Despedida

Apesar de não haver consagação eucarística, é distribuída a Comunhão a partir da Sagrada Reserva conservada numa capela separada, desde o dia anterior.

Depois da Comunhão, a Sagrada Reserva é novamente guardada, mantendo-se exposta a Cruz, em cima do altar, despedido de qualquer toalha ou adereço.

*   *   *

Durante muitos séculos, a Sexta-Feira Santa correspondia a um tempo litúrgico dicotó­mico, em que o sentido teológico da crucifixão – como acto, simultaneamente, reparador dos desvios humanos, e restaurador da Aliança de Deus – se confrontava com o sentido interpreta­tivo de um acontecimento histórico, correspondente a uma condenação de um inocen­te, precisa­mente do Filho de Deus, o Salvador.

Atentando ao rito litúrgico e aos seus ritmos e desenvolvimento, durante toda a celebra­ção, e apesar das reconfigurações sofridas, ao longo dos tempos, ainda hoje estão bem visíveis esses dois aspectos. Aviva-se a memória dos cren­tes para o reconhecimento do dom divino do acto reparador de Cristo, com apelos fortes ao arrependimento; apela-se à compunção dos cau­sa­dores de tão injusta condenação; e procura-se o uníssono das preces no alcance das graças necessárias para a conversão que garanta um lugar na ressurreição dos Santos, juntamente com o Primogénito da Ressurreição, Jesus Cristo.

Hoje, porém, vivem-se alguns destes aspectos celebrativos em ambiência que poderemos chamar de «simplicidade litúrgica», contrariamente a épocas em que os actos de fé exigiam comportamentos gestuais mais visíveis e inflamados. Estavam neste caso, as flagelações públi­cas, as vestes penitenciais, as pancadas no peito, as peregrinações tormentosas e os rigoro­sos jejuns, quase completamente erradica­dos do operar religioso cristão. E essa exigência inscrevia-se também no registo oral, com as preces altissonantes, as confissões públicas das faltas, os impropérios e as imprecações.

A «defesa da Vítima», que só no Cristianismo aparece, segundo René Girard, não deixou, no entanto, de apresentar também o seu reverso: ou seja, também aqui se impôs carregar os agentes morais e físicos da condenação injusta com o fardo da culpa de todos.

Então, desde cedo, às preces dos devotos, se juntaram as súplicas especiais pela con­ver­são dos Judeus, causadores físicos do «deicídio», na segunda Pessoa da Trindade Santíssima. A relu­­tân­cia, por parte dos acusados, em aceitarem essa condição de culpa, e a dificuldade argumen­tativa de, ao longo de séculos, os convencer da maldade do seu acto, levou a que se recorresse à acção divina no intuito de demover os corações incréus.

Desde o início do Cristianismo, era de tal modo difusa a interpretação da responsabili­dade colectiva dos Judeus pela morte de Jesus que esta se prolongou com risco de se perpetuar. As palavras de um dos mais emblemáticos Padres da Igreja – São João Crisóstomo (séc. IV) –ilustram bem o que acabamos de dizer:

«Os Judeus mataram um cordeiro e eu recebi o fruto do sacrifício» (Cat. 13-19 [SC 50, 174-177])

 

Na então 8.ª invocação (agora, 6.ª) do missal de São Pio V, da Oração Universal de Sexta-Feira Santa, a liturgia interpelava a congre­gação orante:

«Oremos também pelos pérfidos Judeus, para que Deus Nosso Senhor lhes tire o véu dos corações, a fim de que também eles reconheçam a Nosso Senhor Jesus Cristo. – Deus omnipotente e eterno, que nem mesmo os Judeus excluís da vossa misericórdia, ouvi as preces que por este povo obcecado vos dirigimos, a fim de que reconheça a luz da vossa verdade, que é Cristo, e seja arrancado das trevas em que vive.» [Oremus et pro perfidis Judaeis: ut Deus et Dominus noster auferat velamen de cordibus eorum ut et ipsis agnoscent Jesum Christum Dominum nostrum – Omnipotens sempitérne Deus, qui Judaéos étiam a tua misericórdia non repéllis: exaúdi preces nostras, quas pro illíus pópuli obcaecatióne deférimus; ut, ágnita veritátis tuae luce, quae Christus est, a suis ténebris eruántur.]

 

A poucos anos do rescaldo do Holocausto nazi e como contributo notório contra o anti-semitismo, a Igreja, por acto do papa João XXIII, em 19 de Março de 1959, subs­ti­tuiu o «oremos pelos pérfidos Judeus», simplesmente pelo «oremos pelos Judeus», e, em 27 de No­vem­bro, foi modificada também a fórmula relativa ao Baptismo dos catecúmenos oriundos do Judaísmo, retirando a expressão «Repudiai a infidelidade hebraica, rejeitai a superstição judaica».

Após o Concílio Vaticano II, o novo Missal, adoptado em 1969, que ostenta o nome do seu promulgador, Paulo VI, passou a inscrever a nova invocação e prece, substituindo a antiga:

«Oremos pelo povo Judeu, para que Deus Nosso Senhor, que falou aos seus pais pelos antigos Profe­tas, o faça progredir no amor do seu nome e na fidelidade à sua aliança. – Deus eterno e omnipotente, que confiaste as vossas promessas a Abraão e à sua descendência, atendei com bondade as preces da vossa Igreja, para que o povo da primeira aliança alcance a plenitude da redenção.»

Com a reintrodução, por Bento XVI, do uso do latim nas celebrações litúrgicas e a autorização do uso do missal de São Pio V, alertaram-se alguns espíritos e reacendeu-se alguma polémica, pela iminência do regresso do formulário litúrgico antigo, de que faziam parte as fórmulas, consideradas anti-semitas, já retiradas ou substituídas. Esclarecidas as primeiras dúvi­das, não ficaram, porém, apaziguadas as inquietações, pois surgiu um novo texto introduzido por Bento XVI, apoiado na Carta de São Paulo aos Romanos (cf. Rm 11,25ss) que, no que aos Judeus diz respeito, pede a oração pelos Judeus para que o Senhor «ilumine o seu coração» para que reconheçam em Jesus «o Salvador de todos os homens» e todo o povo de Israel «seja salvo».

Reagindo, por considerar o novo texto um retrocesso no diálogo entre o Catolicismo e o Judaísmo, o Rabinato de Jerusalém, apoiado pela Liga Antidifamação, pelo Comité Judaico Americano e pelo Comité Judaico Internacional para Consultas Inter-religiosas, pretende reunir--se, agora, com representantes da Santa Sé, no sen­tido de conseguir maiores esclarecimentos acerca deste delicado assunto. É neste ponto que nos encontramos, aguardando-se notí­cias, depois desta Páscoa de 2008, aliás, já prometidas pelo cardeal Walter Kasper que remeteu o esclarecimento para um documento a emitir, brevemente, pelo Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone.

                      

Rui A. Costa Oliveira

Investigador do Centro de Estudos em Ciência das Religiões / Mestrando em Ciência das Religiões

 

Publicado por Re-ligare às 18:53
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1 comentário:
De Re-ligare a 31 de Março de 2008 às 10:24
A situação do olhar sobre o outro é profundamente complexa. E mais que complexa, ela encontra-se entranhada na doutrina e na ritualiadde. Parte significaftiva da identidade cristã criou-se exactamente como forma de afirmação perante um inimigo externo, o Islão, e um interno, os judeus.

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