Terça-feira, 25 de Março de 2008

TIBETE LIVRE!?

Com a aproximação dos Jogos Olímpicos na China, o tema da autodeterminação do povo tibetano começa a dar sinais de vida. «Tibete livre!» – começa a ler-se por aí. E começa a haver quem diga que assim como os portugueses moveram o céu e a terra pela causa de Timor, devem também assumir agora a responsabilidade pela causa do Tibete. Como se Portugal tivesse a mesma dívida moral para com os tibetanos como tem para com os timorenses.

 

Não escamoteamos o facto de haver graves violações dos direitos humanos no Tibete, mas temos de analisar cuidadosamente que interesses a independência do Tibete serviria: se os interesses corporativistas de uma religião, ou os reais interesses do povo tibetano. Antes de nos empolgamos com a possibilidade da criação de um Estado budista – porque é disso mesmo que se trata – há aqui algumas variáveis a considerar:

 

Primeiro, há que definir os termos da exigência: nem o próprio Tenzin Gyatso, o Dalai-Lama, o chefe religioso que quer ser líder político, pede a independência do Tibete. O que ele pede é a autonomia. Há que explicar o que se pretende realmente com a exigência de um «Tibete livre».

 

Segundo, há aqui uma questão que tem a ver com legitimidade política. Há que ter em linha de conta se a comunidade internacional deve interferir na criação de mais um Estado religioso em que o seu líder político passa a retirar a sua legitimidade não dos processos democráticos que governam qualquer Estado de Direito Democrático, mas sim do facto de ter um estatuto de alegada «santidade». Uma espécie de «direito divino» à moderna, com um precedente chamado Vaticano…

 

Terceiro, há também a questão que se prende com a viabilidade económica. É preocupante o facto de alguns dos novos Estados se transformam rapidamente em «Estados falhados»! Estados que se tornam economicamente inviáveis, com todas as consequências daí resultantes: instabilidade política, corrupção, terrorismo, migrações e tráficos ilegais, pobreza extrema, delinquência, etc. A frágil situação económica do mais recente Estado Europeu, o Kosovo, é um exemplo preocupante: tem a mais alta taxa de desemprego da Europa, a pior taxa de mortalidade infantil e o nível de vida mais baixo do Continente. Independência para quê? Antes de nos entusiasmarmos com o slogan «Tibete livre», vejamos se a liberdade – a política e a económica – está assegurada de modo a fazer do Tibete um verdadeiro «Tibete livre». A não ser que se queira mais um território que sobrevive à custa dos capacetes azuis e da ajuda internacional !

 

 E, voltando ao início, no que a Timor diz respeito, depois de termos sentido a causa de Timor deveríamos agora pensar o caso Timor. E dá que pensar…

Luís Seabra Melancia

Docente na Lic. em Ciência das Religiões 

 

Publicado por Re-ligare às 00:03
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4 comentários:
De paulo mendes pinto a 27 de Março de 2008 às 15:05
Naturalmente, a questão não é assim tão simples. A forma como o Luís a coloca é.... necessária para nos fazer pensar. Mas devemos ir mais longe.

1º - Há um antecedente histórico; uma situação de independência que terminou com uma invasão ilegal. Esse deve ser, sempre, o ponto de partida para uma reflexão sobre o TIbete.

Depois, sim, ir pensar e questionar: se o Tibete fosse livre (independente ou autonómico), que regime polítioc deveria ter... como se poderia tornar sustentável?

2º - Há a vontade popular que, pelo que sei, nunca foi auscultada sobre os seus desejos.

3º - Logicamente, haveria que pensar no como de um estado tibetano. Teocrático (enfim, uso a palvra pela falta de melhor...)? E a estrutura social... qual a sua maleabilidade e facilidade de ascenção? E adimensão do "corpo" de monges?... isto é, de não ou quase não trabalhadores / produtores de riqueza? Por fim, quala relação desse Estado com as comunidades imensas e algumas com alguns ,meios de budistas espalhadas pelo mundo?

Discutamos.

abraço,
pmp
De Samuel R. Rodrigues a 15 de Abril de 2008 às 11:48
Sente-se alguma provocação na exposição dos factos, provavelmente para desencadear a discussão . Conseguiu.
A esperança de um Tibet livre fala-nos de um povo que hoje vive oprimido sob uma ditadura que não lhe pediu opinião para o invadir e controlar a sua vida, e que tem todo o direito, ao mesmo titulo que qualquer outro povo do planeta, de aspirar à liberdade. E a isto, nenhum ser humano deveria estar insensivel.
Agora essa, da não -viabilidade económica para justificar que não se deve interferir... Quer dizer que só os países ricos é que podem ser independentes e livres?
Aceitar este parecer é a melhor forma para continuar a brutalizar e a "controlar" os mais fracos.
Já me parece ouvir alguns saudosistas a lamentarem o período da mão de ferro salazarista; pouco importa a liberdade, o que interessa é que as coisas andem na linha.
Segundo o texto biblico, durante o exodo, tambem alguns hebreus depois de provarem a liberdade e verem que nem tudo era facil, preferiam regressar à ditadura e à escravatura. Era a soluçao facil, pelo menos para poder comer e sobreviver. O combate para a liberdade exige esforço, abnegaçao e sacrificio de muitos para beneficio de outros.
Que aqueles que hoje beneficiam de liberdade e que nada pagaram para a obter, não esqueçam aqueles que ainda hoje não a possuem.

Samuel R. Rodrigues
De Luís Melancia a 15 de Abril de 2008 às 14:26
Não sei se o sentimento de servidão vem do povo ou se vem, antes, de uma classe religiosa, aspirante a dirigente, estéril e improdutiva, que quer o controlo sobre o território. Essa vontade de controlo pode ser politicamente legítima, mas nem tudo o que é legítimo é viável.

É claro que a viabilidade económica é determinante. Tibete livre? Está bem... desde que não sejam os outros a pagar, literalmente (com capacetes azuis e apoios financeiros internacionais), a liberdade que os monjes budistas querem ter!

Parafraseando Lutero, «peguem na charrua». Depois está bem...falam, gritem, reclamem liberdade.

A história do povo Hebreu prova exactamente o contrário daquilo que o Samuel pretende: prova que um povo valoriza mais o sustento que a liberdade.
De Samuel R. Rodrigues a 15 de Abril de 2008 às 16:10
Com todo o respeito pelo professor Luís , que muito estimo e admiro, não posso no entanto, não deixar de reagir a algumas racionalidades que apresenta.
Antes de mais, que fique bem claro que qualquer forma de servidão deve ser combatida seja ela de origem politica ou religiosa, ou vinda de qualquer outra fonte.
O “peguem na charrua” não pode ser tirado do seu contexto.
Calvino, continuador da reforma de Lutero, não se limitou a acabar com a mendicidade em Genebra, mas pôs conjuntamente a funcionar uma acção de solidariedade tal que deixou de haver desemprego e gente sem ter nada quefazer, o que muito deveria inspirar os nossos líderes políticos.
Por outro lado se não estamos dispostos a “pagar” essa solidariedade com o Tibete, que mais têm os outros países que beneficiam desse cuidado, cujos dirigentes, leigos ou religiosos, estão enriquecendo vergonhosamente à custa de nós “outros” e do povo se esquecem ? Eu não lhe vejo nada nas mãos.
O que é triste é de ver que são muitas vezes aqueles mesmos que pegam na charrua de manha à noite, a partir mesmo da tenra infância, a quem é privado o direito de gritar e muito menos de reclamar por liberdade sob pena prisão ou de morte. Isso parece não mobilizar o interesse público, nem as diplomacias hipócritas.
Mas é possível que no final quem tenha razão seja mesmo o pragmatismo do professor Luís.
Já a minha mulher diz que eu sou muito idealista…

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