Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Judeus portugueses, o que realmente interessa?

                                   

Todos temos assistido nas páginas deste jornal à discussão que tem tido lugar sobre a condecoração nazi que o antigo presidente da Comunidade Israelita de Lisboa terá recebido de entidades do regime nazi. Não irei escrever sobre esse assunto. E não o farei porque acho que em Portugal há aspectos mais importantes da relação com os judeus a que devemos dar alguma atenção.

Em artigo no Público do dia 27 de Março, Esther Mucznik perguntava em título do seu artigo “Um milagre da História?” acerca da visita e da postura da chanceler Ângela Merkel em relação a Israel, aos judeus e à Shoah. Mas em História não há milagres; Há boas vontades; Há discernimento e visão; Por vezes até há acasos, mas milagres, não, não há. E Ângela Merkel é essa capacidade de visão, de sensatez, de responsabilidade que demonstrou na visita a Israel.

Em Portugal, o que vimos a chanceler alemã fazer teria ainda mais significado. “Também eu sou judeu e muçulmano” poderia ser a frase saída da boca de qualquer português. Desde a quase-anedota atribuída a uma situação ocorrida entre Pombal e D. José I*, até aos estudos com base nos esqueletos dos cemitérios de Mértola, tudo nos aponta que quase todos fomos muçulmanos com a mesma naturalidade que depois quase todos fomos cristãos católicos e muitos fomos ainda judeus.

Se a cultura judaico-alemã de novecentos e de parte do século XX deu nomes e génios como Einstein, a judeu-portuguesa de quatrocentos e de quinhentos deu nomes como Abraão Zacuto, Pedro Nunes, Amato Lusitano, Garcia de Horta, Gracia Nassi, entre tantos outros grandes vultos da cultura e da economia europeias.

Em 2008 passam 500 anos sobre a morte de um dos mais importantes filósofos políticos do Renascimento. Nascido e criado em Portugal, de Isaac Abravanel nem sequer uma obra se encontra traduzida para a língua lusa. Na década mais brilhante da cultura e da ciência em Portugal, a de 90 do século XV, mais de 1/10 de “nós” éramos judeus. Que é feito deles? Que é feito dessa memória.

Não necessitamos de pedidos de desculpa pela Inquisição. Há que olhar o passado com a serenidade soberana de que já nada se pode alterar. Os milhares de mortos, as centenas de milhar de deslocados que Portugal fez na perseguição aos então chamados cristãos-novos não se podem apagar. Qualquer pedido de desculpa não os trará à vida.

O brutal na imagem que temos de nós próprios, é não se ter criado neste regime democrático uma cultura de valorização dessa herança multicultural judaica e muçulmana de que somos herdeiros.

Onde está um memorial com o nome dos processados por judaização na Inquisição portuguesa? Mas mais que isto, onde está a prova de gratidão para com o que essas duas culturas nos deram a nível de ciência e de cultura? Nos nossos manuais escolares quase nada se diz sobre isso. A situação é, verdadeiramente, vergonhosa.

Se queremos passar para o lado marcado por Ângela Merkel, temos que, de uma vez por todas, olhar com respeito para as heranças judaica e muçulmana. Não como algo de um folclore, mas como parte essencial do que possibilitou que, por uma vez na História da Humanidade, Portugal desse um contributo significativo ao mundo.

Isso passa por fazer um digno memorial à perseguição religiosa; mas passa também por saber os nomes das vítimas mortais, dos espoliados, dos perseguidos, dos exilados. Passa ainda pelo desenvolvimento, como existe em Espanha, de um sólido centro de investigação sobre a cultura judaica e muçulmana portuguesa. Por fim, passa por uma Lei da Cidadania que possibilitasse a todos os descendentes desses portugueses perseguidos pudessem retomar a cidadania portuguesa.

Ao fazer isto, não se está a tratar da memória “deles”, está-se a tratar da nossa dignidade.

                                

                          

* D. José terá decidido retomar as medidas de identificação pública dos descendentes dos judeus. Pediu a Pombal que tratasse de uma boina em forma e cor específica e que fosse obrigatório seu uso por eles. No dia seguinte, o marquês de Pombal surgiu em audiência dizendo que já providenciara a boina; trazia as três primeiras. Para quê as trazia, terá perguntado o monarca. Pombal terá respondido: “uma é para mim, outra para o Senhor Inquisidor Mor, e outra para Sua Majestade”... todos eram descendentes directos de judeus...

                                       

Paulo Mendes Pinto

Director da Lic. em Ciência das Religiões, Un. Lusófona

               

Publicado no jornal Público, a 3 de Abril de 2008.

Publicado por Re-ligare às 10:20
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6 comentários:
De José Pereira Malveiro a 8 de Abril de 2008 às 11:30
Caro professor
Os comentários sobre a injustiça a falta de agradecimento e reconhecimento dos nossos Judeus e Muçulmanos são sem dúvida pertinentes, e o facto de se terem passado´á um bom par de séculos não os torna menos actuais, porque é uma ferida aberta na sociedade portuguesa que urge sarar, e mais do que pedir desculpas, como muito bem disse, há a necessidade de criar-mos "uma cultura de valorização dessa herança multicultural judaica e muçulmana de que somos herdeiros".
José Pereira Malveiro
De filomeno a 12 de Abril de 2008 às 20:58
Abraao Zacuto tiene calle dedicada en Salamanca........
De Samuel R. Rodrigues a 15 de Abril de 2008 às 12:59
Não sabendo quem ele é, o filho pode ser levado a matar o próprio pai... por ignorancia.
Viva a instrução !
A minha boina não me fica mal de todo.
De Samuel R. Rodrigues a 15 de Abril de 2008 às 13:09
Não sabendo quem ele é, o filho pode ser levado a matar o próprio pai... por ignorancia.
Viva a instrução !
A minha boina não me fica mal de todo.
De paulo a 5 de Dezembro de 2008 às 18:01
sou natural de santa marta de penaguião,em toda aquela região havia costumes estranhos á religião catolica,muitas familias daquela zona tinham por habito mergulhar os seus filhos varões em lagares de vinho para lhes dar boa sorte na vida,outros mergulhavam os pertences das meninas em recepientes de agua,muitas das senhoras só faziam as limpezas nas sextas feiras á noite,muitas familias recusavam-se a celebrar o natal ou a fazer o sinal da cruz,nehum icon relegioso entrava em suas casas,cruzes,santos etc etc... Havia uma particularidade,muitos eram batisados para que não houvesse uma critica social mas mesmo assim muitos afirmavam não serem cristãos.Assisti a estes comportamentos na minha aldeia de santa marta de penaguião e arredores,a minha própria familia tinha este tipo de comportamentos,eram tradiçoes que passavam de pais para filhos,não tenho uma prova factual,uma prova no papel que a minha familia e outras fossem judeus mas penso que haverá uma forte relação com os cristãos-novos
De Re-ligare a 8 de Dezembro de 2008 às 09:15
Caro visitante,

Sim, mais certo é ser uma família com práticas cripto-judaicas. faltam os estudos,os leantamentos sobre as práticas nessas famílias, para se perceber bem a sua identiadde, e de que forma mantiveram, ao longo de séculos de perseguião, as práticas que eram proibida.

Um grande abraço,
Paulo Mendes Pinto

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