Quarta-feira, 20 de Setembro de 2006

O Criacionismo e a oficialização de Deus

Desde a notícia de que Bento XVI iria reunir um grupo de teólogos para discutir o Criacionismo e o Evolucionismo, que os jornais têm publicado regularmente textos de opinião sobre a questão. Talvez dos mais interessantes, cada um com seu ponto de vista, tenham sido os de Jónatas Machado, conhecido difusor em Portugal do Criacionismo, e de Vasco Pulido Valente, figura sobejamente conhecida, e sempre ligada à ciência, ambos publicados no Público. De sobeja informação, arguta explicação e mesmo cativante argumentação, foi o texto assinado por Noronha Galvão (também publicado a 10 de Setembro no Público), participante nessa reunião que teve lugar em Castelgandolfo.
Nesta complexa questão, para além de eventualmente se olhar para os argumentos dos defensores do Criacionismo e do Evolucionismo, o que mais interessa ressalvar é a necessidade de se rejeitar, como afirmou no texto citado Noronha Galvão, qualquer “atitude totalitária, que só esteja disposta a aceitar o que a sua metodologia pode reconhecer, ou que procure reduzir à sua própria racionalidade os outros tipos de racionalidade”.
E é essencial que quem está a criar reflexão, quem está a criar opinião tenha esta postura construtiva e não destrutiva porque a maioria da população, tal como eu, não se lança, nem se deve lançar, na averiguação metódica dos argumentos de um lado e de outro; a nossa cultura científica e os nossos horizontes profissionais afastam-nos da possibilidade de discutir de forma fundada e sustentada uma questão tão especializada.
O que interessa ao normal cidadão – nem teólogo, nem biólogo ou geólogo ou ainda astrofísico - é o que pode advir desta disputa ao que se ensina na escola: pela escola todos passamos (felizmente, cada vez mais todos), e todos os nossos filhos por lá andam ou irão andar. O caso Norte-americano é, aqui, fundamental, tal como refere Pulido Valente.
Por alguns jornais temos acompanhado um sem número de polémicas, nesse que é o país guia do Ocidente, sobre a retirada ou a inclusão do Criacionismo nos currículos escolares de alguns estados americanos.
A questão é central e, se eventualmente transposta para o caso português, teria tudo a ver com o que queremos passar como base cultural e científica para as gerações vindouras, numa altura em que tanto falamos de “choque tecnológico”. Sim, porque ao eventualmente incluir nos programas oficiais o Criacionismo, estamos a assumir, de forma incontestável, a existência de Deus.
E não é que eu tenha alguma coisa contra a existência de Deus, mas o que tem sido ponto de significativa concórdia, é que não é pela ciência que se prova a existência de Deus, mas sim pelo acto individual e intransmissível que é a fé e a experiência espiritual ou mística: Deus prova-se dentro de cada um, e não pela negação de um postulado científico. Voltando a Noronha Galvão, é necessário que as partes compreendam que usam racionalidades distintas, donde, não emiscuíveis.
Esta situação lembra-me um episódio acontecido em Portugal em 1971 aquando da preparação de um texto constitucional, em que alguns membros de comunidades religiosas, cristãs, judaicas e muçulmanas, tentaram fazer aprovar um texto que dizia num dos seus artigos “O Estado, consciente das suas responsabilidades perante Deus e os homens [...]”, levando para uma lei fundamental a ideia de que a divindade existe.
Em Portugal essa linha não deu frutos. Logicamente, estaríamos a seguir os EUA, com a sua legal omnipresença do religioso nos actos oficiais e mais simbólicos da nação. Jura-se com a mão em cima da Bíblia, diz-se in god we trust, e em alguns estados o Criacionismo é matéria oficial na escola – nesse grande pais que é a “América”, Georg W. Bush não é nada de totalmente novo, é apenas um ponto alto de uma forte linha estruturante da sociedade, transversal a várias confissões religiosas e, em certa medida, o elo agregador entre elas.
A grande questão entre Evolucionismo e Criacionismo não reside, em meu entender, nos argumentos sobre a forma como o mundo se criou ou foi originado, e como chegou ao ponto em que o estamos a viver. O centro do que está em jogo é a opção, e nos EUA é isso que está em causa de forma premente, entre uma sociedade que coloca como oficial a existência de Deus, ou que remete esse assunto para o foro íntimo de cada um.
No fundo, é uma questão de liberdade a que assistimos nos EUA. De liberdade religiosa.
Paulo Mendes Pinto
Publicado por Re-ligare às 12:27
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