Terça-feira, 1 de Abril de 2008

APROVEITAMENTO RELIGIOSO, OU AS PRAGAS DA IGREJA MANÁ

Um edifício de sete andares, sede da Direcção Nacional de Investigação Criminal de Luanda, onde habitualmente estão detidas pessoas que vão a julgamento, desabou no passado dia 29 de Março, cerca das 04:00 locais (03:00 em Lisboa), provocando a morte a 29 pessoas que morreram esmagadas debaixo dos escombros.

 

De acordo com um comunicado de imprensa da Igreja Maná, estamos perante um castigo de Deus: o desabamento do referido edifício foi a forma de Deus punir o Governo angolano pela interdição causada à igreja Maná em Angola (e vá lá agora saber-se o porquê dessa interdição, quando tantas outras igrejas têm liberdade de associação e de culto...).  

 

O referido comunicado chega mesmo a publicar uma opinião que dá conta do seguinte: «Quem se mete com o nosso Apóstolo, está a meter-se com um Moisés. Então ele ora e Deus manda pragas». E ainda: «Enquanto o Faraó perseguir os crentes, as pragas do Egipto não vão parar».

 

O assunto é sério: estamos diante de um exercício vergonhoso de aproveitamento religioso. Se o aproveitamento político – aquele de que os políticos tantas vezes lançam mão em desespero de causa – é imoral e repreensível, o aproveitamento religioso é ainda pior – é vergonhoso! Do que se trata aqui é da descaracterização da natureza de Deus – uma falsificação de Deus, um deus criado pela Igreja Maná! – em benefício da causa particular e mesquinha de um senhor que se quer fazer passar por poderoso na terra… e que manda no céu! E é imoral, abjecto vir aproveitar-se da morte de 29 pessoas inocentes, capitalizando essas mortes a seu favor. Estamos perante o grau zero da ética, mas o mais grave é o facto de tal comportamento vir de um líder religioso, formador de atitudes e mentalidades. É preciso estar toldado por interesses pessoais obscuros, para atiçar desta forma o sentimento de ódio religioso e acicatar a sede de vingança cega, sem ter a luz e a lucidez para medir as consequências. Perante estes factos, considero estarmos diante de um incitamento velado ao tumulto e à guerra religiosa.

 

A ideia a fazer passar é a de que com o denominado Apóstolo da Igreja Maná não se brinca: se alguém se lhe opõe, ele faz umas orações, Deus manda umas pragas e mata indiscriminadamente. Assim, sem mais nem menos. Mesmo que não mate quem alegadamente lhe fez mal (neste caso o Ministro da Justiça de Angola), mata quem calhar – mesmo que sejam inocentes e alheios à briga! Estamos perante um caso grave de arrogância e prepotência.

 

E estou indignado! Também eu sou cristão evangélico e o Deus que penso conhecer não é refém nem das birras nem das zangas do senhor Tadeu – nem de ninguém! A colagem gratuita e infantil a episódios obscuros, necessariamente mutilados no seu sentido e significado inteiros, por força da violência mutiladora da nossa percepção e limitação de linguagem, tornam ridícula esta comparação entre as pragas do Egipto e as novas pragas da Igreja Maná!  Quando falamos de Deus e do que Ele faz, não falamos d'Ele; falamos, isso sim,  da nossa compreensão, percepção e interpretação que fazemos d'Ele! E isso está, muitas vezes, distante da realidade! Barth, o teólogo, acertava em cheio quando nos confronta com um imperativo e um impedimento, simultaneamente. Dizia ele: «Eu não posso falar de Deus, mas eu tenho de falar de Deus»! E, muitas vezes, as pessoas falam de Deus com a ligeireza da ignorância e a leveza da inconsciência!

 

O que é grave, mesmo, é a facilidade e aparente felicidade com que a referida igreja promove o endeusamento de um homem e a diabolização de outro homem, tão humano e criado por Deus como o primeiro. A Igreja Evangélica, garanto-vos, não se revê nesta forma de manipulação e utilização de mecanismos de intimidação e retaliação divina «a la carte», cujo objectivo não é outro senão o de provocar o endeusamento do líder e a obediência temerosa e submissão acéfala e acrítica do rebanho.

 

Entrar nestas subjectividades e especulações é perigoso…! Com a mesma legitimidade com que a referida Igreja atribui o desmoronamento do edifício a um  acto de Deus, o Governo angolano poderia, por seu lado, atribuir essa mesma tragédia ao acto tresloucado de um opositor qualquer. Ou não podia?

 

Luís Seabra Melancia 

Docente na Lic. de Ciência das Religiões

Publicado por Re-ligare às 19:23
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12 comentários:
De icir@sapo.pt a 3 de Abril de 2008 às 14:13
Um bem-haja por seu pequeno comentário às afirmações deste Sr. Tadeu que está a apresentar alguns desequilíbrios de fanatismo e oportunismo, apresentando um Deus que é partidário e sem respeito pele vida dos inocentes. Vou mais longe este responsável principal pela denominação Mana, nada mais está a fazer a não ser instigar seus fieis a crer num Deus de vingança religiosa, está a ficar muito próximo dos fanatismos que estão na origem do terrorismo, e com jeito ainda passamos todos por iguais, espero que não se gere uma onda de fanatismo cristão que se assemelhe ao passado e que mais uma vez a verdade do Cristianismo seja amachucada de forma drástica e doentia. Estou de toda e em absoluto em consonância com seu texto, e acrescento, que deveríamos apresentar algo escrito que tenha uma posição bem explicita quanto às afirmações deste homem e como cristãos nada temos que ver com este tipo de postura.
Um abraço para todos e que Deus nos ajude a ajudar e a cancelar os desequilíbrios.

Aluno: Paulo ferreira
paulo@icirnet.com
De Anónimo a 3 de Abril de 2008 às 15:03
Se fosse de hoje, podia até pensar que o homem tivesse algum problema de saúde ou algo parecido, mas já não é de hoje que ele tem tais afirmações, o problema é bem mais grave. Acho preocupante porque aqueles que o apoiam, estão a idolatrar o homem e isso ainda é pior doque as afirmações dele.
Acho que não devemos ficar admirados com essas coisas, quem está firme que cuide em ficar de pé, e ajude os novos convertidos, porque essas almas podem se desviar ao ouvir tais afirmações. É preciso que esse tipo de "crentes" apareçam para que haja uma diferença entre os que são de Cristo e os que não são.
Jesus está à porta...

abraços
De sidsonnovais@msn.com a 3 de Abril de 2008 às 22:19
Certa vez os discípulos perguntaram a Jesus se poderiam mandar descer fogo do céu para consumir alguns samaritanos. Jesus repreendeu-os dizendo que Ele tinha vindo para salvar e não para destruir.

Veja este texto na íntegra:
LUCAS 9
52e enviou mensageiros que o antecedessem. Indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos para lhe preparar pousada. 53Mas não o receberam, porque o aspecto dele era de quem, decisivamente, ia para Jerusalém. 54Vendo isto, os discípulos Tiago e João perguntaram: Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir? 55Jesus, porém, voltando-se os repreendeu [e disse: Vós não sabeis de que espírito sois]. 56[Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.] E seguiram para outra aldeia.
De Re-ligare a 4 de Abril de 2008 às 12:03
Caro Dr. Melancia
Concordo com o seu insurgimento contra a lógica da igreja Maná. É como o "pensamento moderno" e "laico" funciona! Mas haverá ainda espaço para a Providência na História? E como se fará hoje a leitura dos castigos invocados por Moisés contra o Faraó?
Cumprimentos
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Caro Dr. Melancia <BR>Concordo com o seu insurgimento contra a lógica da igreja Maná. É como o "pensamento moderno" e "laico" funciona! Mas haverá ainda espaço para a Providência na História? E como se fará hoje a leitura dos castigos invocados por Moisés contra o Faraó? <BR>Cumprimentos <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Teotonio</A> R. de Souza <BR class=incorrect name="incorrect" <a>http</A> :/ www.gloriainacselsis.wordpress.com /
De Re-ligare a 6 de Abril de 2008 às 01:39
O Prof. Dr. Teotónio de Souza, Director da Licenciatura de História da Univ. Lusófona e Professor do Mestrado de Ciência das Religiões, levanta aqui uma questão pertinente.
Antes de mais, é preciso não esquecer que não é só a História que faz o texto: o texto também faz a História. Com isto quero dizer que o texto que construimos e interpretamos ajuda a construir a nossa realidade. Por isso devemos ser cautelosos em atribuir a Deus aquilo que, na violência da linguagem, o fazemos fruto das nossas limitações de representação, expressão e compreensão. É a «violência das margens» a que Brecht se referia. Paulo dizia que «em parte conhecemos».

Não é verdade que quando falamos de um facto histórico não estamos a falar DESSE facto específico e concreto? O facto histórico não existe - o que existe é a nossa interpretação, representaçãp e percepção do facto! E quando falamos de Deus e dos actos de Deus, não falamos de Deus mas da nossa compreensão, percepção e interpretação de Deus!

Mas o que me aborrece, mesmo, é o culto da personalidade, o endeusamento de um homem e a diabolização de outro, que a Igreja Maná, com tanta facilidade e aparente felicidade, faz usando textos com alguma ligeireza e despudor.

Um abraço
Luís

De Anónimo a 4 de Abril de 2008 às 12:10
Ao ler o artigo "APROVEITAMENTO RELIGIOSO, OU AS PRAGAS DA IGREJA MANÁ" da autoria do Professor Luís Melancia" parei um pouco e interroguei-me ! Será possível que tal comunicado seja real? De facto não tenho as provas da sua autenticidade, mas, por outro lado, também não tenho razões para duvidar da honestidade do referido professor, pelo que o meu comentário é na base desta confiança.

A ser verdade, o referido comunicado, e era bom saber-se: Como, quando e onde foi proferido, a fim de se avaliar o seu alcance social.

Tal aproveitamento é tão indigno que causa repulsa, a qualquer pessoa, e muito mais aos cristãos Evangélicos, cuja mensagem assenta na apresentação do amor e da misericórdia de Deus.

Quem toma atitudes de tal indignidade, deve ser desmascarado publicamente, e, não pode ser considerado Evangélico, tanto mais que o próprio termo Bíblico, significa "Boa Nova", logo "Evangélico" tem que ser um anunciador de Boas Novas. O tempo de apresentar a severidade de Deus pertence ao Sinai do Velho Testamento, embora, lamentavelmente, a tradição religiosa, não Evangélica, tenha mantido tais intimidações, num passado recente, todavia os verdadeiramente Evangélicos nunca se identificaram com tais doutrinas. Cristo e o Evangelho são a maior manifestação do Amor de Deus "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito... Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele" (João 3:16,17).
A minha enorme indignação e protesto a tais atitudes, anticristãs , aumenta pelo facto de tais pessoas, indevidamente se apresentarem como Evangélicas. De facto nada causa tanto prejuízo à, verdadeira, Fé Evangélica, como os que erradamente usam esse glorioso nome. Mais do que nunca, é tempo de, mesmo amando as pessoas, não deixar de denunciar tão indignos oportunismos.
O meu comentário ao artigo, em causa, pretende ser, mais do que um contributo, mas especialmente te uma clara demarcação de tais conceitos. Dionildo Vidal, Pastor Evangélico
De Dimas de Almeida a 4 de Abril de 2008 às 15:35
Meu caro Luís,
Estou inteiramente contigo no que dizes neste teu texto acerca das inqualificáveis palavras do Apóstolo Tadeu. Felicito-te por isso !
Que pode uma pessoa dizer mais de palavras tão obscenamente medíocres ?!...
Tudo isso, porém, na sua tristeza confronta-nos com uma questão crucial: como poderão as nossas igrejas, todas as igrejas, abrir caminho ao Símbolo na luta que este trava com o ídolo, sobretudo quando esse ídolo, insidiosamente, se reveste dos seus contornos mais subtis ao se assumir como Deus ?!
Olha, um abraço de amizade e admiração. Dimas de Almeida.
De Manuel Oliveira Duque a 4 de Abril de 2008 às 19:56
Data: 4.04.2008
Achei interessante o comentário do docente Luis Melancia, sobre a notícia publicada acima referente ao edifício que caíu Angola.
Porquê o edifício caíu não sei, mas o que sei, é que Deus, é Deus de Amor e não Deus de ódio.
Também me parece que o dever de um "Apóstolo" é orar por salvação para os povos e não por vingança.
Afinal, todos somos povo desta "Aldeia Global", e se Deus fosse Deus de vingança, teria muita vingança para fazer em todo o lado... No entanto não é essa a sua atitude, mas sim a bondade e complacência, olhando para todos com a expectativa de sermos pessoas melhores, que cooperam para o bem comum do Planeta que nos foi entregue.
Manuel Oliveira Duque
Pastor Evangélico e aluno em licenciatura de Ciência das Religiões.
De José Pereira Malveiro a 4 de Abril de 2008 às 21:55
Realmente.
É a baixeza e a degradação ética em toda a sua magnificência .
A moral, a vergonha, o respeito e inclusivamente a própria vida, tudo isto é ultrapassável no caminho desenfreado para a loucura global.
As vozes da razão, seja ela qual for, não se fizeram ouvir no passado, nem se farão ouvir no futuro. Há de haver sempre um Bush conforme houve um hitler .
Há de haver sempre uma proibição do uso do preservativo , condenando milhares a morrerem de SIDA, conforme ouve uma inquisição.
Eles andam por aí, e á mínima oportunidade é o que se vê.
É sem dúvida o grau zero da ética.
De Teresa a 5 de Abril de 2008 às 23:41
Por indicação de um amigo que postou o primeiro comentário, vim encontrar este seu artigo. Pois de facto suas palavras são verdadeiras, e eu testemunho na primeira pessoa em como j á ouvi o Sr. Tadeu proferi-las mais que uma vez. Na conferência j á referida, ele citou em duas pregações diferentes que os nossos inimigos e do nosso ministério devem ser tratados como inimigos, à laia do antigo testamento. ele afirmou que a oração da concordância serve para colocar pessoas no inferno. No entanto isto não é novidade, sem citar o nome de ninguém, sei que esta é uma pratica j á antiga na sua igreja (eu chamo-lhe manipulação e bruxaria, desculpem). Muitos ministros de Deus o têm abandonado por alguma razão.
O que mais preocupa, é a quantidade de fieis que esta igreja tem e o seu alcance. E também sei que tal como ele, outros pastores da sua denominação ensinam o mesmo, anulando o que Cristo nos ensina quando nos diz que devemos pagar o mal com o bem e que nossa luta não é contra a carne e o sangue.
Num culto que assisti há algum tempo, um pastor desta igreja, testemunhava eufórico que certo padre costumava dizer mal da sua igreja na missa ao domingo de manhã, então, ele (o pastor) reuniu um grupo de irmãos para uma vigília de oração. Eu oraria pela salvação do padre, para que Deus o perdoasse e o trouxesse para o caminho certo...
Ele orou para que o homem desaparecesse.
No fim, como quem testemunha uma grande vitória, contou à congregação que no dia a seguir o padre morreu.
Eu mandei um grito no meio da igreja...
Falo então do que ouvi e assisti pessoalmente.
Se algo pode ser feito, algo que não destrua a fé dos que servem a Deus na sua igreja, então faça-se. Mas lembremos que Deus nos diz na sua palavra que só no fim o joio ser à separado para que não se destrua também o trigo.
De J.Galvão a 2 de Junho de 2008 às 16:03
Em nome do bom nome de cada um....

É possivel confirmar que foi o denominado Apóstolo Tadeu que disse tal afirmação sobre o desabamento???
Uma coisa é ser ele a dizer.... tomando uma posição " oficial "...
Outra coisa é ser um dos seus seguidores.... o que não é nada mais que uma interpretação pessoal....

Já agora gostava de ver isso esclarecido....
De João Castro a 22 de Julho de 2008 às 01:44
Olá Pastor Melancia, que a Paz do Senhor possa inundar o seu coração, da sua familia e Ministério.
Já há muito tempo que não tinha o prazer de contactar o querido Pastor, mas por um acaso ao pesquisar na internete fui dar com este artigo escrito pelo amado Pastor, em referência à Igreja Maná e ao seu Lider propriamente dito.
Desejo felicitá-lo pela sua coragem, na verdade é imperioso que mais homens e mulheres sinceros, que servem a Deus com um coração humilde e cheio de amor pelas almas perdidas pelas quais Jesus Cristo morreu na Cruz do Calvário, tenham a coragem de igual modo desmascarar não só este senhor, como todos os homens prepotentes, gananciosos, materialistas e que usam o Nome de Deus para levarem a água ao seu moinho, enganando o povo, entrando pelo caminho de Balaão, e pela rebelião de Coré. Que saudades dos anos 60, em que serviamos a Deus com amor e sofrimento pelas almas perdidas, cujo lucro do nosso trabalho era a salvação das pessoas para o Reino de Deus. E não o vil metal e a vingança. Deus manda orar pelos Governantes e não amaldiçoá-los, Este não é o meu Deus, eu não me identifico com este Deus de vingança. Que Deus tenha misericórdia destes homens com uma nova teologia criada à sua maneira e da maneira que lhes convém melhor. Oro para que a venda dos olhos das pessoas seja tirada e possam contemplar o verdadeiro Deus de amor.
Que Deus tenha misericórdia.
Bem haja Pastor Melância, que Deus o prospere em todas as áreas e que lhe dê toda a sabedoria do Céu, para continuar a sua Obra.

Pastor: João Castro
Porto

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