Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

... quando se confunde tudo ...

É do conhecimento geral que a Maçonaria e a Igreja Católica não se relacionam da melhor forma possível. Esta dificuldade de entendimentro é histórica, reside muito do seu alimento na posição republicana da maçonaria portuguesa, ao passo que a imagem mais comum da Igreja Católica a liga ao espaço mais conservador; uma foi perseguida pelo Estado Novo, o regime de Salazar, a outra foi um dos seus instrumentos, dos seus mais directos e visíveis aliados. Particularidades à parte, esta é, de certo, a ideia generalizada por parte significativa da população; membros da Igreja houve que lutaram contra Salazar, mas em número não terão sido muito elevados.

                       

Mas não devemos esquecer alguns aspectos ainda mais distantes mas... não tão distantes quanto isso. No Portugal setecentista,  par de judeus, o Tribunal do Santo Ofício, a Inquisição, perseguia maçons. Perseguia, prendia, interrogava e torturava, matava.

            

Tudo isto cria um clima de desagradável convívio. De afastamento. Não é com espanto que vemos, como observadores atentos, que a televisão pública transmite um documentário centrado exactamente nessa distância histórica cimentada por alguns mal-entendidos.

                            

Mas a sociedade actual não necessita de mal-entendidos. Precisamos de crescer num clima de paz, de possível prosperidade, de construção comum. Sejam os intervenientes, muçulmanos, judeus, católicos, evangélicos ou... maçons.

                 

Portanto, foi com o maior espanto, com a mais sincera estranhesa que vi ontém Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de LIsboa, culpar a maçonaria de uma certa perseguição à Igreja Católica nas escolas porque... espantem-se, no Estado Novo a educação foi entregue à maçonaria!

                    

Nem sei como qualificar. Esta afirmação é como dizer que, durante a Inquisição, o governo do reino foi entregue aos judeus. Ou que no século XVI se tinha entregue a administração da Igreja Católica a Protestantes!

    

É o primado do quase-ridículo. Como se pode defender que no regime de Salazar um grupo que fora proibido e perseguido tivesse o domínio da educação? Mais, com o sentido utilizado de entregue...

                

Há gralhas muito graves. Ou, pior, se não for gralha é então simplesmente o lançar achas para uma fogueira centenar que nós não necessitamos.

                

A sociedade precisa de sereniadde, não de acusações. Muito menos de acusações a rasar o ridículo. Neste caso, o Sr. Bispo portavoz da Conferencia Episcopal Portuguesa foi longe demais. Acertou ao lado.  Foi intelectualmente desonesto.

                   

Uma instituição com as responsabilidades da Igreja Católica não nos pode fazer isto. A sociedade que queremos e pela qual devemnos lutar não pode continuar a viver em torno de frases que se atiram para o ar, criando mitos, medos, papões e cruzadas.

                     

Depois ficamos admirados com os fundamentalismos que surgem do exterior... o interior dá estes exemplos!

 

                    

Paulo Mendes Pinto

 

Publicado por Re-ligare às 09:51
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2 comentários:
De Re-ligare a 10 de Abril de 2008 às 14:06
É grave, vindo de quem vem! Vale a pena lembrar que a Constitução de 33 tinha consagrada a confessionalidade católica do ensino público!
Luís Melancia
De Dimas de Almeida a 11 de Abril de 2008 às 12:59
É triste, profundamente triste, que a voz da hierarquia católico-romana se faça ouvir uma vez mais entre nós sem fundura histórica. Isto é, incapaz de assumir a sua parte de responsabilidade na manutenção do inumano poder político que nos marcou, até às vísceras, durante um longo meio-século. Incapaz de se colocar, qual vítima imaculada, dentro da história, no que esta possa ter de perturbante. Incapaz de evitar uma permanente auto-glorificação adubada por uma auto-vitimização fundamentada não se sabe no quê. Incapaz, assim parece, de, em tudo isto, ouvir a voz do Evangelho que soa vinda dos antípodas ao convidar a uma salutar confissão de pecados. Incapaz, assim parece, de ouvir o que o Espírito tem a dizer, criticamente, às Igrejas, a todas as Igrejas (cf. as sete cartas, símbolo da totalidade, dirigidas às sete Igrejas do Apocalipse, caps. 1 a 3).
Onde terão as hierarquias, todas as hierarquias religiosas, aprendido essas coisas ? No Evangelho concerteza que não foi.
Tudo isto é triste. Muito triste.
Dimas de Almeida.

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