Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

POLÍTICA E HIPOCRITAMENTE CORRECTO

O Dr. Paulo Pinto deu aqui nota do seu descontentamento pelo atraso verificado na construção do memorial às vítimas do massacre judaico de Lisboa em 1506. Muito bem; acho que tem razão. E já que é de fogueiras que falamos, deixem-me aqui lançar mais duas achas:

 

Ao ler o texto da proposta nº 423/2007 fiquei indignado. E fiquei indignado por aquilo QUE LI e por aquilo QUE NÃO LI!

 

O que li foi que os vereadores do Partido Socialista, da Lista “Cidadãos por Lisboa” e do Bloco de Esquerda fizeram a proposta para a construção do memorial «após negociação com as comunidades católica e judaica». Mas andamos a brincar ou quê??? Por que carga de água é que a comunidade católica teve de ser ouvida neste processo? Que fique claro que a comunidade católica é ré neste processo e se nalguma coisa deveria ser ouvida é num pedido de desculpas público, sincero, à comunidade judaica. Já para não falar de uma restituição não só da honra mas também dos bens confiscados, roubados, vilipendiados que, na altura, enchiam os cofres da igreja católica. Negociação com a comunidade católica??? Mas desde quando é que se negoceia com o agressor?

 

E o que não li na referida proposta foi exactamente isto: que os crimes de limpeza de sangue, executados através das técnicas de execução mais violentas, inumanas e malvadas, foram perpetrados pela igreja católica e pelo seu braço asquerosamente criminoso chamado «Inquisição». Falta lá isto na proposta: dizer não só que houve o crime, mas dizer também quem foi o criminoso!!!

Ainda não vi o memorial, mas espero que esteja mais completo que a proposta…

 

Aqui estamos nós diante de um acto que podemos classificar de política e hipocritamente correcto.

 

Luís Seabra Melancia

Docente na Lic. em Ciência das Religiões

Publicado por Re-ligare às 18:18
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7 comentários:
De raco a 23 de Abril de 2008 às 23:21
Concordo! Há que engajar coveiros para desenterrar esses criminosos e já que não podemos queimar-lhes a carne, metamo-los num microondas. Sou católico, mas concordo, pois não me sinto minimamente responsável pelo que eles fizeram.
APOIADO! Mais ridículo não posso ser.
Para bom entendedor...

Rui Oliveira
De Re-ligare a 24 de Abril de 2008 às 10:10
Não; não se trata de arregimentar coveiros nem desenterrar criminosos. Os responsáveis pela chacina - esta e outras - lá estarão de onde nunca mais poderão regressar. É por isso que seria ridículo fazer hoje com eles o que eles faziam com os judeus: queimar em esfinge.
O problema que se coloca hoje é outro: é uma chatice quando as vacas sagradas não nos deixam pôr os nomes nos bois. Isto é, quando os servilismos ideológicos quase nos levam a querer obliterar a História ou, mais grave ainda, fazer um branqueamento histórico. Aconteceu; e o crime tem vítimas e criminosos. Paciência. O que é mau é se nos deixamos cegar pela «luz» que temos...
Luís Melancia
De raco a 24 de Abril de 2008 às 23:42
"Que fique claro que a comunidade católica é ré". Qual comunidade? A de hoje, a minha? Ré de quê? De comportamentos de há 500 anos? Eu sou réu se meu pai for assassino? Só posso ser réu do meu mau comportamento. Do meu pai eu não herdo comportamentos. Só herdo génese. E, religiosamente, a génese que herdei é a do Cristianismo que professo o melhor que posso.
Além disso, relativamente a 1506, não se pode falar de comunidade católica, por oposição, pois nem Protestantes havia ainda. Bem, lá no fundo o amigo Melancia também é réu e por isso, hoje, não pode tomar posição, pois está cativo dos comportamentos de uma comunidade cristã de há 500 anos.
Está claro que uma crítica desta natureza, com efeitos transferidos, não tem ponta por onde se pegue. Além do mais, hoje, ninguém tem de pedir desculpas. Consta, investigamos e constatamos e... condenamos veementemente. É bom que não se repitam crueldades e desumanidades. NINGUÉM PODE PURIFICAR A HISTÓRIA!
Rui Oliveira
De Re-ligare a 25 de Abril de 2008 às 00:17
Caro Rui,
1. A comunidade católica a que me refiro é a INSTITUIÇÃO - não as pessoas. Estas desaparecem - aquela permanece. E é essa que deve ser responsabilizada - moralmente responsabilizada - pelo que mandou fazer!
2. Mas quem é que falou em católicos por oposição a protestantes??? Não havia protestantes mas havia igreja católica sim senhor. E havia inquisição; e é essa que está em causa!!! E essa começou em 1183 para queimar Albigenses...
3. O amigo Rui diz ainda que «Além do mais, hoje, ninguém tem de pedir desculpas. Consta, investigamos e constatamos e...». Bem, se está a pôr me causa a verdade histórica da Inquisição, só me ocorre que o Ahmadinejad fez exactamente o mesmo em relação ao holocausto...

Não vá por aí...

Antero de Quental, que é referido na proposta camarária, diz tudo em meia-dúzia de páginas no »Causas da Decadência».
Luís Melancia
De Samuel R. Rodrigues a 24 de Abril de 2008 às 07:47
É notório que a falta de respeito à memória dos que já morreram, manifesta sem ambiguidade a falta de respeito existente para com os que vivem.
Assim, todos os esforços engajados para o restauração dessa respeitabilidade devem ser encorajados, apesar dos reconhecimentos tardios, insuficientes, e da famosa hipocrisia de que tanto que fala e de que só os outros estão na origem.
Sim, porque sem vergonha e hipócritas deveríamos nos considerar todos, ao não reagir mais veemente à injustiça e às atrocidades infligidas HOJE, a homens e mulheres constituídos como nós, vivendo, ou aliás morrendo sob o olhar e a barba dos grandes tenores do humanismo de fim de semana, que nos grandes (ou pequenos) salões da nossa sociedade não fazem outra coisa a não ser se “indignar”.
A inquisição e os judeus tiveram nestes últimos anos muitos outros nomes, e infelizmente continua…
Quem ainda faz menção do que se passa desde 2003 no Darfur em grupos não arabes e por uma grande parte cristãos, que provavelmente já passou as 300 mil vitimas e 2 milhões de deslocados. No entanto as Nações Unidas ainda não consideraram que se possa tratar de um genocídio… o que é que poderiam pensar os nossos amigos chineses, grandes parceiros comerciais do governo sudanês ?
Portanto não sejamos tão exigentes para com os nossos dirigentes políticos que a meu ver até representam bem aqueles que os elegeram.
Em todo o caso se há uma profissão que não vai conhecer desemprego no séc. XXI vai ser a de “fabricante de memoriais”
Samuel R. Rodrigues
De Re-ligare a 24 de Abril de 2008 às 09:39
É brutalmente complicado tratar estas questões. Percebo as palavras do Luís Melancia; percebo a ironia do Rui OLiveira; e poderia mesmo perceber imensos outros comentários ainda mais divergentes.

Sim, temos que encaixar que as pessoas são outras e não podem ser acusadas pelo que outros fizeram há séculos;

Sim, também devemos não esquecer que, de facto, se a antiguidade da instituição serve como argumento para, por exemplo, dizer que a matriz cultural da Europa é cristã católica, então também se deve encaixar o que de mau tem essa matriz cultural... a Inquisição é um desses fenómenos a não esquecer.

Não há que procurar culpados; mas também não há que desculpabilizar.

De facto, a mim surge-me a tentação de olhar para a "colagem" da Igreja Católica como um oportunismo a nível de marketing. Não o quero pensar e julgo estar a ser obtuso se o fizer. Mas, porquê, no conjunto escultórico, a par do monumento aos 4000 mortos, um monumento ao pedido de perdão? Estamos a colocar ao mesmo nível o acto criminoso e o pedido de perdão por ele?

Nisto, acho que se exagerou.

[ai que bons que nós somos que até pedimos perdão pelo que fizémos .... mas façam-nos um monumento por isso!]

Mais uma vez, é a dificuldade em gerir a memória, o passado.

Volto à minha questão: para quando um memorial APENAS aos que morreram? assumindo isso sem véus ou justificações. Puro e Duro!

É isso o que merece a memória dos milhares que foram quimados vivos.

Percebo o Rui. Para quê ir buscar coveiros? Mas, também, para quê ir (re)buscar monumentos para se criar a colagem de que se é tão compreensivo que até se pede deculpas... mas deixem isso ficar bem à vista! de preferencia em monumento em pé de igualdade ao monumento aos mortos...

Para quando saber exactamente quantos foram mortos pela Inquisição? os seus nomes.... isso custa muito.

Paulo Mendes Pinto
De Samuel R. Rodrigues a 24 de Abril de 2008 às 21:50
Ao reler o meu comentário, percebi que poderia ter dado a entender que as minhas palavras poderiam ser entendidas como que dirigidas ao professor Luís Melancia, pelo qual tenho muita estima e um profundo respeito, o que estaria obviamente e completamente errado.
Claro está, que o meu comentário deseja enfatizar, que não se pode esperar de uma sociedade que não tem coragem para enfrentar e nomear devidamente o passado, que possa vir resolver os problemas do presente, ou vice-versa.
A minha evidente revolta aparece não contra os que genuinamente se indignam contra a injustiça praticada com os indefesos, mas contra os que nas esfera de decisão, continuam a ignorar conscientemente as evidências para não “chocar” sensibilidades, tais como o Vaticano, ou outros estados religiosos ou imperialistas, assim como também de países democráticos com os quais não se quer ter problemas.
Sim, há assuntos tabus, vacas sagradas nas quais ninguém quer tocar, mesmos em países democráticos. E como na sociedade em que vivemos, somos nós que elegemos os nossos representantes, somos indirectamente responsáveis pelas suas decisões. Por isso eu digo “nós” e assumo essa vergonha, não me sentindo culpado, mas algures responsável.
Espero sim que, mais cedo ou mais tarde, teremos a coragem de levantar os muitos memoriais que se impõem, não para calar consciências com problemas existenciais, mas para falar e tratar honestamente dos numerosos e inqualificáveis massacres, reabilitar os milhões de esquecidos e anónimos que o não são, e condenar claramente os criminosos directos e indirectos.

Samuel R. Rodrigues

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