Sábado, 3 de Maio de 2008

Chama Olímpica, agora na Antiguidade

                

No dia 30 de Abril, a Chama Olímpica chegou à China entre tremendas medidas de segurança, um programa futuro que a levará até aoEverest, por exemplo, e uma histeria colectiva normal nestes grande acontecimentos mediáticos.

                

Olhemos um pouco para o que dantes acontecia....

            

Na Grécia antiga existiam vários locais, vários montes, com o nome de Olimpo. O que mais se destacava era o que se situava junto à cidade de Olímpia.

Nesse monte, acolhendo toda a simbologia uraniana, das divindades ligadas ao mundo astral e atmosférico, Zeus, o deus cimeiro do panteão grego, vivia e tinha ai a sua corte.

Mas Olimpo, morada de Zeus, era também o local onde tinham lugar os mais importantes festivais em honra do deus, mais propriamente, em Olímpia.

Quando pensamos nas heranças que vamos gerindo no nosso horizonte simbólico, uma das que ocupa um lugar de destaque é, naturalmente, o movimento olímpico.

Bastante diferentes do que eram na sua versão antiga, esses mesmos muito diferentes entre si ao longo do milénio que duraram, os Jogos Olímpicos não deixam de ser uma das maiores, senão a maior, das continuidades da humanidade.

Em muito diferem os actuais dos antigos jogos. Na Antiguidade os atletas vencedores eram, de facto, heróis; Na Antiguidade os jogos implicavam uma trégua sagrada que, imagine-se, era respeitada; Por fim, na Antiguidade, não se competia por prémio algum, senão a honra (pelo menos durante os séculos iniciais).

Não se sabe ao certo quando começaram os jogos junto ao monte Olimpo. Pelas suas memórias, os gregos fizeram remontar esse início ao ano de 776 a.C., data a que fixaram um calendário pan-helénico.

Possivelmente, os jogos, tal como centenas de outros que tinham lugar ao longo dos anos, em muitas outras cidades, remontam a alguns séculos antes, eventualmente ao século XI a.C.

A Ilíada mostra-nos algumas situações que podem ser imagem de modelos de festival de que os Jogos Olímpicos nasceram. Primeiro, no canto I, depois de o deus Apolo ter sido apaziguado, jovens tocam, declamam e dançam -será esta como que a matriz que se encontra nos Jogos Pítios, em Delfos, em honra desse deus-, depois, mais tarde na narrativa, após a morte do jovem amigo de Aquiles, Pátroclo, jogam-se desportos de competição em sua honra – estes são a matriz dos Jogos Olímpicos.

Porque se competia em Olímpia? Porque se faziam tréguas efectivas antes de cada jogo?

De facto, em Agosto, de 4 em 4 anos, saiam os arautos de Elide, a cidade-estado junto de Olímpia, em direcção a toda a hélade. Proclamavam as tréguas sagradas e convocavam para os jogos.

A chave de compreensão deste fenómeno reside no facto de os participantes não concorrerem simplesmente entre si. Nos jogos em honra das divindades, as divindades também participavam: nenhum atleta ganhava se os deuses o não quisessem. Não é que os deuses fizessem com que os mais fracos ganhassem, mas quem ganhava era, sem sombra de dúvida, um herói no mais estrito sentido da palavra, era tocado pelos deuses.

Ora, quando se concebia que num evento estariam, no fundo, também os deuses a participar porque sendo os jogos em sua honra, eles lá estariam presentes para receber as suas homenagens, nada, ninguém poderia faltar a essa chamada. Era mais importante faltar à guerra, virar costas aos inimigos e ir a Olímpia aos jogos, tal como aconteceu nas guerras contra os Persas, e vir a ter os favores de Zeus em lutas futuras, do que perder esses favores divinos, passando para o lado dos incumpridores dos deveres para com os deuses.

Ir aos jogos era como que um dever para com o equilíbrio cósmico. Os deuses estavam à espera dos jogos. Todos queriam ver quem era o mais próximo dos deuses, o vencedor.

Esse, o que vencia, era tocado pelos deuses, era próximo dos deuses, era sacer, era victor. Nas suas cidades eram recebidos como heróis, em triunfo, em apoteose.

E eram recebidos em triunfo não simplesmente porque venceram, mas porque, vencendo dessa forma, nesse local, nesses jogos, traziam para a sua cidade, para os que estavam próximos de si, toda essa capacidade de superação. Em várias cidades os vencedores dos jogos eram obrigados a rituais religiosos que potenciavam essa proximidade com o divino a toda a comunidade.

Assim escrever Píndaro (1ª Ode Olímpica, 1-10), dedicando estes versos a Hierão de Siracusa, vencedor da corrida de cavalos:

A melhor coisa é a água; o ouro, qual fogo incandescente,

que se distingue na noite, sobreleva a riqueza orgulhosa.

Se anseias celebrar os jogos, ó minha alma,

não busques astro mais ardente que o sol,

quando fulge de dia , no éter deserto,

não querais celkebrar jogos superiores aos de Olímpia.

Daí parte o hino de mil vozes, a envolver o génio dos artistas,

para exaltar o filho de Cronos, quando chegarem ao lar opulento e feliz de Hierão

O complexo de Olímpia incluía diversas instalações para treino dos atletas e morada de alguns VIPs que visitassem o local. É famosa a participação de Nero numa das edições do jogos: mesmo caindo várias vezes e não tendo chegado ao fim da prova, foi declarado vencedor da corrida de quadrigas.

Milenar, imagem de toda uma civilização, foi necessário um édito religioso para por termo aos Jogos em honra de Zeus Olímpico.

Só um Deus poderia destronar os jogos em honra de Zeus, o deus. De facto, em 394 Diocleciano decretava o fim dos jogos. Seriam retomados mil e quinhentos anos depois, em Atenas.

                 

Paulo Mendes Pinto

(dir. da Lic. em Ciência das Religões)

 

Publicado por Re-ligare às 08:19
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