Sexta-feira, 22 de Setembro de 2006

A cinco anos (de proximidade) do 11 de Setembro

Hoje, quem for a Nova York encontrará uma imensa cratera no solo, uma ferida que a América se esforçará por manter viva, por cultuar até ao fim dos tempos.
Agora que perfazem cinco anos sobre o inesquecível dia 11 de Setembro de 2001, muito se deveria equacionar. Ao contrário, para além da tal cratera-ferida de NY, pouco se alterou entre essa terrível data e o momento actual.
O Ocidente, nomeadamente os EUA, continuam a policiar o mundo e, em especial, a manter a mesma forma de relação com o chamado mundo árabe e islâmico. A questão palestiniana, por exemplo, longe de estar resolvida, viu neste último ano uma maior intensidade na luta, questão cada vez mais inflamada com a invasão do Sul do Líbano por parte de Israel.
Talvez o maior problema deste também cada vez maior e mais assumido conflito entre parte do Ocidente e parte do mundo islâmico resida na impossibilidade de ambas as partes dialogarem de facto, o que se verificou com a forma como as palavras de Bento XVI, em Ratisbona no dia 12 de Setembro, foram interpretadas. O léxico cultural e mental que tentamos aplicar ao mundo islâmico em nada coincide com a realidade do terreno, muito menos quando a realidade a lidar se enquadra dentro de uma linha fundamentalista.
Há que ter em conta que certas categorias base da cultura ocidental não encaixam linearmente em todo o resto do mundo. Princípios como os da laicidade do Estado ou os Direitos Humanos são relativamente despropositados quando aplicados de forma simplista a qualquer outra cultura que não a ocidental onde nasceram.
Há uma diferença radical que interessa ter em conta ao analisar os principais contrastes entre as partes, entre o Ocidente dito de democrático e o Islão fundamentalista. No Islão que pratica o terrorismo sobre o Ocidente, mais que cidadãos, há crentes. Mais que Direitos Humanos, como nós os entendemos, há deveres para com Deus e para com o próprio Islão.
Mesmo o que normalmente designamos como política, nessa parcela de Islão não o é. Muitos dos Estados Islâmicos são confessionais no mais profundo rigor do termo. Não é que haja uma religião do Estado, é a própria organização do Direito que rege o Estado que se baseia na estrutura e nas convicções religiosas.
Neste contexto, em parte do Islão é, de facto, impossível separar política de religião. O Estado, por regra, não é laico e não o pretende ser. Isso não é tomado como uma falha, é uma virtude que se deseja manter. O caso da Arábia Saudita é perfeitamente exemplar: aí estão alguns dos principais símbolos do Islão (começando pela própria cidade santa de Meca), para além de o Estado se assumir inteiramente islâmico na sua organização; isto é, o Corão é tomado como base da organização social, jurídica e política.
Ao dialogar com o mundo islâmico, o Ocidente não pode esquecer que, qualquer país dessa esfera religiosa é, antes de mais, parte do Islão. Essa noção de uma certa unidade, de uma certa pertença só muito dificilmente, e devido a problemas internos ao próprio Islão, se poderá quebrar.
Estando nós a ter em conta uma unidade populacional onde, muitas vezes, a teologia e os dogmas religiosos são o centro assumido e incontestado da lei e da ordem, facilmente começamos a perceber que até a noção de guerra é diferente: para o Ocidente interessa provocar baixas no inimigo com o menor custo de vidas do próprio lado; ao invés, nesse Islão fundamentalista, é a própria vida que pode ser usada como arma.
Isto é, na Palestina, quem morre sacrificando-se pela causa obtém o céu, não uma Cruz de Guerra. A diferença reside aqui.
Paulo Mendes Pinto
Publicado por Re-ligare às 16:09
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2 comentários:
De Luís Alves de Fraga a 23 de Setembro de 2006 às 22:09
Parabéns pelo seu blog.
Embora concorde com o que afirma neste apontamento, parece-me que à sua análise falta qualquer coisa mais. Ora vejamos.
- Qual a razão por que o fundamentalismo islâmico só começou a manifestar-se tão brutalmente há alguns anos a esta parte, sendo que o domínio colonial do Médio Oriente só terminou no final da 2.ª Guerra Mundial?
- Onde estavam os fundamentalistas nessa época?
Está a ver que me parece muito redutor a forma como coloca toda a questão.
- Não será necessário entrar com outros factores, nomeadamente de natureza económica, para se compreender a presente situação?
- Não será conveniente levar em conta que "Ocidente" hoje não corresponde, para os islâmicos, ao que era antes da 1.ª Guerra Mundial?
É verdade que o problema religioso anda paredes meias com a questão cultural, mas, parece-me, ter-se-á de olhar toda a problemática numa perspectiva política, económica e sócio-classista (isto é, entre o que pensam os diversos grupos sociais existentes nas sociedades islâmicas). Só integrando o que se quer olhar separadamente, como o fazem os Americanos, conseguiremos uma aproximação mais real do problema.
Tudo isto é, apenas, a minha opinião.
Um abraço.
De Re-ligare a 26 de Setembro de 2006 às 14:21
Sim, a questão encerra muitas questões. Um dos grande erros de grande parte das tomadas de posição do chamado mundo ocidental em relação ao fundamentalismo e ao terrorismo de base islâmica reside, exactamente, na não análise das suas raízes. Nada sabemos sobre a forma como conviviam os fundamentalistas religiosos com as tropas ocidentais que dominavam em regime de protectorado grande parte do Médio Oriente até à II Guerra Mundial. Nada sabemos das continuidades existentes a nível de escolas de pensamento entre os séculos XVII a XXI. Este fenóemno parece-nos recente ... sê-lo há? sinceramente, não sei, mas causa-me muita estranhesa que fenómenos tão fortes nasçam do zero (sinceramente, não acredito nestas fenómenos de geração ... a partir do zero).
Mas, por outro lado, acho que grande parte do conflito se deve a um latente e crescente anti-americanismo efectivamente recente.
Neste campo do anti americanismo, devemos, ainda, aliar uma outra ideia perniciosa: a quem convem eternizar certos conflitos? as respostas ciomeçam aqui a ser complexas e lavam-nos, muitas vezes, para campos de teorias de conspiração e coisas muito pouco pouco credíveis. Mas, a verdade, é que muito do que se chama fenómeno religioso pode estar a ser alvo de maquinação de outro nível.

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