Terça-feira, 27 de Maio de 2008

Aproximando-nos, estranhamente, do tema...

                               

Sobejamente interessado e contente com a recente vivacidade do nosso blog, não poderia deixar de me juntar a esta nova onda onde todos temos ganho com a discussão.

                  

No entanto, permito-me entrar no desafio lançado pelo Prof. Teotónio de Souza através de uma porta escusa, inusitada.

                 

Não há qualquer dúvida, o estudo das religiões nasceu e tem-se cimentado em torno de um olhar europocentrico. Todas as ciências modernas nasceram na Europa e mantiveram essa ligação umbilical até muito tarde (grande parte delas até hoje, naturalmente). É um facto, um problema, em certa medida, mas é incontornável.

                       

A descoberta do Outro tem-se verificado. Mas não nos podemos esquecer que o movimento que nasce no século XIX e que cria um estudo científico das religiões olha para o oriente e tudo o que seja exterior ao cristianismo apenas como curiosidade, objecto de exotismo, galeria de colecção.

 

------------------ Sobre estas questões, estamos, felizmente, já longe de um grau zero da reflexão. Eu próprio, os nossos colegas Alfredo Teixeira, Steffen Dix, José Carlos Calazans, José Eduardo Franco e, naturalmente, Teotónio de Souza, temos publicado através do nosso centro de investigação textos sobre o assunto. São já 4 os livrinhos destes autores sobre esta problemática e afins, e todos os volumes da nossa revista científica abrem com uma reflexão teórica relativa ao campo da Ciência das Religiões.

                           

Mas temos, acima de tudo, que pensar no porquê e no significado do olhar centrado na Europa e numa forma de estar claramente europeia. E a resposta é simples: o olhar é centrado na Europa porque é feito por europeus, na Europa. POde parecer simples, simplista, até, mas é inevitavel.

                    

Logicamente, o olhar da índia é indiano, o do brasil é brasileiro, etc, etc, etc.... com tudo o que de especificidades isso implica. É importante descobrir o Outro, mas nunca alguém consegue deixar de ser Si próprio para passar a ser esse Outro.

                              

A Ciência das Religiões é ainda comulada por mais problemas etnocêntricos. Actualmente, tudo o que no chamado Ocidente se relaciona com religião é imediatamente lançado para o campo da segurança, seja ela interna ou externa. É mais uma fobia ocidental... exagerada... mal gerida.... mas é a realidade do Ocidente. No Oriente, a realidade é outra... mas nós vivemos no tal Ocidente.

                            

E, ao viver nesse tal Ocidente, optamos e elegemos certos princípios como magnos. Só a nós interessa um indicador de violência. Acabo de vir de uma cidade onde, só em 2008, já foram assassinadas mais de 1.500 pessoas... quando vou ensinar Ciência das Religiões a esse local, não me posso desprender dessa realidade e adaptar o meu discurso, refazer teoricamente o meu edifício.

                   

A este respeito, veja-se o site: http://www.visionofhumanity.org/gpi/results/rankings/2008/

                      

Chama-se Índice Mundial da Paz. Para nosso contentamento, POrtugal surge em 7º lugar, como um dos paises mais pacíficos do mundo, onde é menos violento viver. A lista dos 10 menos violentos,  por ordem decrescente, é a seguinte: Islândia, Dinamarca, Noruega, Nova Zelândia, Japão, Irlanda, Portugal, Finlândia, Luxemburgo e Áustria. No fundo, tudo de matriz europeia. Nesta classificação, logicamente subjectiva e eurocêntrica, olhemos para o lugar de alguns paises: Angola (110.º lugar), Indonésia (68.º) e Índia (107.º).

                            

Naturalmente, cada meio olha para os problemas globais com os seus olhos.

                              

Uma CIência das Religiões não pode estar refém do imediatismo e das urgencias políticas e medos psicológicos do Ocidente. Mas ela nasceu, sem dúvida, na Alemanha, na França e na Inglaterra do século XIX.

                          

Mesmo sendo já muito diferente do que era nessa altura, as heranças são pesadas e o caminho é lento de percorrer. Mas está a ser percorrido. Basta olhar para o que se vai desenvolvendo para se perceber que o olhar e os projectos de investigação / edição já não são simplesmente virados para o umbigo.

                     

Mas a verdade é que estamos inseidos na cultura ocidental, num pais ocidental, com tudo o que de mau isso implica. Mas também com o que de bem isso nos trás, como a segurança, por exemplo.

                  

O balancear de uma área de saber é complexo. Implica muita coisa. Umas simples, como ter gente, alunos ou professores. Outras mais complicadas, como saber até onde fazer as alterações. Outras, ainda, impossíveis de superar: as contingências da nossa educação, de milhares de anos de criação de ego e de mundivivências.

                        

O caminho faz-se caminhando.

           

Portanto, vamos a ele.

                     

Paulo Mendes Pinto

 

 

Publicado por Re-ligare às 14:56
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7 comentários:
De Teotonio R. de Souza a 27 de Maio de 2008 às 23:02
Aprecio a capacidade e a competência do Prof. Paulo Mendes Pinto em tudo o que faz para dar vida ao curso de Ciência das Religiões. Espero que consiga motivar mais alunos e docentes do curso para participar neste blogue. É um espaço que não exige deslocações para reuniões! É um desafio para todos.
Não compreendi o o colega Paulo quis dizer com "porta escusa, inusitada", nem esperava que focasse tanto no eurocentrismo. Isto não deverá ajudar a mudar muito. Quanto ao link, encontrei EUA no 97º lugar! Foi referida a Índia no 107ª lugar. Será uma expressão inconsciente de ocidentose (não posso dizer eurocentrismo neste caso)? Afinal manter seguranca com 1,25 bilhões da população indiana é comparável com o país de 10 milhões no 7º lugar?
Afinal parece ser verdade quando se fala de mentiras, grandes mentiras, e estatísticas!
De Re-ligare a 27 de Maio de 2008 às 23:38
Caro Professor,

Toac exactamente no que mais me interessa neste momento da minha reflexão: por mais que se queira, não se pode fugir à malha em que se foi educado e, porque não o dizer, formatado. O primeiro passo é ter consciencia dessa limitação. Depois, então, podemos trabalhar com menores entraves. Sim, os ocidentais têm e sofrem de ocidentose. Se o não sofressem é que seria estranho.

Contudo, assumir que se sofre de maleitas inerentes à nossa cultura,maleitas às quais dificilmente se pode fugir completamente é, finalmente, a "Via do Meio" para atingir uma postura séria e dialogante.

Regressando à questão do Ecumenismo, eu não poderia estar mais de acordo com a leitura brutalmente negativa daquilo em que resultou esse movimento.

Pode parecer caricato, mas ainda hoje fui confirmar as vezes em que eu já estive em mesas, em colóquios e seminários sobre interculturalidade, ecumenismo e diálogo inter-religioso... são, desde 2000, mais de 20! E o pior, somos sempre os mesmos, a dizer sempre o mesmo... alguma coisa não está em.

Temos que conseguir avançar num sentido pragmático como nos apontou Eulálio Figueira, nosso professor convidado em inícios de Abril. Ele, retomando o filósofo norte america Rorty, fez-nos ua brilahnte leitura do impasse em que se pode cair seguindo infindáveis reflexões, esquecendo o mundo real, o mundo das pessoas.

Mas, mais uma vez, o que mais interessa, em primeiro lugar, é ter consciencia do tal europocentrismo. Muitas vezes ele falha e... nem se percebem os erros ............ conto uma anedota: há uns tempos estive numa dessas mitas mesas; a organização tinha o discurso mais normativado de diálogo inter-religioso tipificado no Ocidente... no fim, levaram para jantar o grupo, entre eles muçulmanos, a um local onde apenas havia prato de carne de porco...

Interessa ter conscência das limitações antes de colocar a tocar a cassete com a mesma música de sempre!

No fundo, o que interessa desenvolver no diálogo inter-religioso é uma ética em que cada um perceba o seu lugar, sem cair na tentação de um folclore ilusório de reflexão, quando apenas se está num evento social.

O lugar de uma Ciência das Religiões é, aqui, essencial. O lugar equidistante de um saber isento pode ser a pedra de toque na ruptura entre o evento social de uma elite e a concretização de facto.

Um grande abraço,
paulo
De Luís Melancia a 28 de Maio de 2008 às 05:34
Já agora, deixem-me meter aqui a minha colherada neste profícuo econtro de ideias. Há aqui dois temas principais que se têm «arrastado» neste debate: o primeiro é o tema da importância de um diálogo ecuménico, o segundo é o tema da tolerância religiosa e da aceitação do Outro. E há mais uma espécie de epifenómeno a construir-se aqui no debate: é a ideia de que o Ocidente, que sofre da tal Ocidentose, não quer nem uma coisa nem outra: nem o debate nem a aceitação do outro.

Sejamos práticos, pragmáticos: onde é que se faz debate de ideias? Onde é que se faz a integração do outro (que nem sempre é fácil porque esse outro nem sempre quer ser integrado...)? Onde é que se consegue ouvir e respeitar as diferenças e congregar à mesma mesa ateus, muçulmanos, hindus e cristãos? Não tem sido na Cuba comunista, no Irão islâmico e no Paquitão hindu! Mas em Lisboa é de certeza!!! Em Lisboa e em centenas de cidades «ocidentosas». Será que o termo ocidentose nao é um termo ofensivo contra uma civilização que é, afinal, campeã na tolerância, na integração de estrangeiros, campeã nos direitos humanos, liberdades e igualdade de oportunidades? Assistimos a uma ocidentose ou antes a uma tentativa de orientalização do ocidente?

Se me permitem uma «laracha», proporia que se transferisse para o Irão a próxima conferência sobre, sei lá, sobre «religião e direitos humanos», por exemplo. Há algum orador que se ofereça? E que trate o anfitrião com a mesma agressividade que, aqui na Europa, permitimos que nos tratem.

Pois.. é quando descemos das subjectividades teóricas e tocamos no chão que as coisas ganham sentido.
De Teotonio R. de Souza a 28 de Maio de 2008 às 07:55
Porque se fala sempre de "conferências, colóquios, congressos?". É só assim que o Ocidente sabe fazer ecumenismo. Este tipo de ecumenismo (ou chamem-no por outro qualquer nome) contribui muitas vezes para provocações desnecessárias. O diálogo da vida não precisa de debates. FAz-se melhor em silêncio, envolvendo-se com os que sofrem em silêncio. Europa tem a mania de dar pouca ajuda e pregar aos quatro ventos o que deu! Está longe do conselho biblico, de a mão esquerda não saber o que deu a mão direita!
De Re-ligare a 28 de Maio de 2008 às 10:02
Bom dia,

Mas é exactamente o que eu disse: estamos fartos de fazer colóquios, etc, em que vamos dizer sempre o mesmo, sem avançar, no fundo, em nada.

Contudo, não nos devemos alhear ao facto minimamente interessante de ser neste falho, viciado e incapaz Ocidente que estamos a discutir estas questões.

Poderíamos gostar que o já fizessemos há mais tempo. Mas o caminho faz-se caminhando. Sem ressentimentois e, acima de tudo, com boas vontades.

Abraço a todos,
paulo
De Luis Melancia a 28 de Maio de 2008 às 13:44
E isso mesmo Professor Teotónio: falo em colóquios ou conferências para mostrar que é no ocidente que se DISCUTE as questões...mais: ao fazê-lo DÁ VEZ e VOZ ao outro!!! O ocidente faz exactamente aquilo que o Professor diz que o ocidente não faz! Quando falo em uma conferência sobre ciência das religiões no Irão...ou no Paquistão...ou...é exactamente para mostrar que há uma(s) cultura(s) que CONTINUAM a queixar-se de que NÃO HÁ no ocidente aquilo que afinal são ELES que lá proibem (e desculpe-me usar o termo «eles» porque não me revejo nessa postura ideológica).

O Professor diz que o diálogo da vida não necessita de debates??? Ai, necessita, pois. Quando não, torna-se o monólogo da vida, superiormente comandado por um qualquer fanático religioso que pensa tudo por todos!!! Eu sei onde se vive nesse registo...e o Professor também! É por isso que não o entendo!!! É quando se acha que o diálogo da vida não é necessário que, de seguida, se regulamenta que o diálogo da vida não é..permitido!!!

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