Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Ocidente e Oriente

                 

            

Ao contrário do que é genericamente aceite, tanto no Oriente como no Ocidente existem inúmeras correntes de pensamento que vão do espiritualismo ao materialismo, da imagem mítica ao rigor lógico-positivista, da pura religiosidade à abordagem político-social.

Assim, muitas vezes pretende-se um “Oriente” fictício, platonicamente Ideal ou diabolicamente nefasto, qual exorcismo de sobrevivência. Estas formulações muito em voga numa new-age pouco estruturada, em pouco contribui para a melhoria dos processos decorrentes da globalização.
Por outro lado não nos basta a “inspiração” Oriental sem a “actividade” Ocidental, nem a “actividade” Ocidental sem a “inspiração” do Oriente, que é Buddhi-Manas, harmonizando assim no Ser, a interioridade e a exterioridade da Existência, que, na manifestação, é “ser para fora”.
Hoje e cada vez mais, o Oriente ocidentaliza-se, recebendo um impulso de activação do Mental Concreto e o Ocidente caminha para receber do Oriente a senda para a Sabedoria, para que possa atingir a Auto-Realização.
Então, e por maioria de razão, o Oriente distingue-se mas não se contrapõe ao Ocidente ou, dito de outro modo, o Ocidente e o Oriente opõem-se como momentos dialécticos distintos que darão origem a uma cultura de fraternidade activa mas não reactiva, de modo a contribuir para uma cultura global, Planetária que, seguramente, será a síntese de ambos.
Parece-me evidente que o “estar integral” poderá ser alcançado não pela necessária exclusão de um dos contrários, na aparente dualidade dos pares de opostos, mas sim pela síntese e união entre estes dois “extremos”, no mais absoluto respeito pela diversidade cultural, na mais profunda fraternidade, nunca desejando os frutos da acção.
O quadro que se segue, não pretende de modo algum a comparação ou a valoração. Simplesmente procura evidenciar alguns aspectos de complementaridade reflectindo seguramente as limitações do autor. Mesmo assim, aí vai.
                       
António E. R. Faria
                       

OCIDENTE
ORIENTE
Analítico, individualista, diferencial, objectivo e reflexivo.
Sintético, totalizador, integrador e intuitivo.
Extroversão: a introversão é uma “anomalia”.
Introversão: a extroversão é ilusão e sofrimento.
Privilegia a consciência da persona, o intelecto ou
Manas Inferior.
Privilegia o inconsciente colectivo, a
Mente abstracta ou Manas Superior.
Toma o “espírito” como uma função psíquica.
Toma o “espírito” no sentido metafísico.
O “real” é o concreto e a “verdade” é científica.
A matéria é ilusória e a “verdade” é a experiência Mistico-Religiosa.
O homem é pequeno e Deus é tudo.
O Homem é Deus e “salva-se”, isto é, liberta-se a si próprio.
Logos ou Verbo, temporalidade e encarnação.
Silêncio e Vazio, a intemporalidade e
a “paz da não-encarnação”.
A consciência é impensável sem um “eu”.
A Consciência independe do pensar e do “eu”.
O inconsciente é pessoal e negativo.
O inconsciente é colectivo e superior.
O inferior é negado ou reprimido.
O inferior é ajustado na ascese
Superior.
 
 

 
 

 

 

Publicado por Re-ligare às 11:15
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12 comentários:
De Teotonio R. de Souza a 30 de Maio de 2008 às 12:12
Excelente quadro comparativo. São as diferenças e as complementaridades que nos podem enriquecer. O problema tem sido o agudizar das diferenças em agressividades que já tem uma longa história. E todos temos direito à memória!
http://tinyurl.com/55b9mg
Vão no link acima as minhas reflexões mais alongadas sobre este assunto. Pode ler quem tiver tempo e interesse para o fazer.
De António E. R. Faria a 30 de Maio de 2008 às 15:07
Caro Professor Teotónio:

Grato pelo seu comentário e reflexão. Segui a sua proposta e li atentamente o conteúdo do seu artigo que, do meu ponto de vista, remete para a importante questão da "memória" do Ser, numa das suas suas múltiplas facetas.
Assim sendo, como poderíamos , todos em conjunto, cumprir a Viagem Obrigatória sem o mapa - individual e de conjunto - e sem a memória correcta dos sítios visitados e das posturas interactivas que daí decorreram? Como nos poderemos alcandorar por mérito próprio ao estatuto que a nós próprios talvez precipitadamente nos concedemos - o de homem duplamente sábio - se não tivermos em conta as arrogâncias pitecídeas que continuadamente temos vindo a praticar?
Assim sendo, por maioria de razão e concluindo com brevidade, a memória histórica ao fazer parte da Memória do Homem é, mais do que um direito, um dever de consciência e imperativo categórico para o que se preocupa com o seu irmão, de modo a que possam ambos reflectir meditando sobre o passado, e, em lúcida e plena diversidade , construir o futuro possível neste Eterno Presente.

Um Abraço Fraterno
Namasté
De Re-ligare a 31 de Maio de 2008 às 17:53
Em primeiro lugar, quero agradecer ao António este texto que por mim foi aqui publicado por seu pedido.

É muito importante toda tentativa de sistematização de culturas. Contudo, ela é sempre redutora. Por exempo, quando se diz, em relaçãoao Ocidente, que "O “real” é o concreto e a “verdade” é científica" estamos a esquecer muito da própria cultura ocidental.
Onde é que no platonismo o real é o concreto? E se pensarmos que no Renascimento o Neo-platonismo tem um peso muito importante, então esta generalização é muito complicada.
Pior ainda, como se pode dizer que nas tradições do Ocidente, a verdade é científica? Como o António sabe muito bem, é uma afirmação absolutamente falsa e resultante apenas de uma leitura que esquece todo o percurso ocidental anterior ao século XVIII, pelo menos... e as gnoses, as místicas, as correntes de espiritualidade? mais, memso na ciência triunfante, onde está a relatividade?
É fácil entrar num discurso de agressão ao ocidente. Ele tem as costas largas. Interessa ler o livrito do Odon Vallet sobre os erros que multiplicamos sobre as religiões... a euforia em relação ao Oriente é natural e jusifica-se em muitos aspectos.
Como aqui tenho dito, o Ocidente tem a consciência pesada por tanto crime. Muita coisa correu mal nos movimentos colonialistas. Mas não deve justificar a criação de uma ideia redutora das culturas ocidentais, afirmando-as apenas como materialistas e inferiores.
Queremos ideia mais brilhantemente libertadora do Homem, mais espiritalmente elevada, menos materialista, que a que resulta do percurso antropológico onde, por exemplo, J. J. Rousseau cria a ideia do Bom Selvagem? Enfim, todo o percurso filosófico que leva à noção de que todo o Homem é igual?
Onde é que noutra cultura tem aspecto que se lhe assemelhe? Isso não cabe em quadro algum...

Abraço,
paulo
De António E. R. Faria a 1 de Junho de 2008 às 14:13
Caro Prof. Paulo Mendes Pinto

Desde já agradeço o ter publicado o meu pequeno texto. As suas achegas são deveras importante e permitem que possamos aprofundar um pouco mais as questões referidas em ambas as prosas. Da minha parte, assim eu o consiga. Dada a extensão do meu comentário, este terá de ser dividido em 4 partes. Que me seja perdoado o incómodo que causo.

A

No que me diz respeito, parto da premissa de um Globo, uma Humanidade, que na sua diversidade é portadora da Unidade. Essa Unidade está contida no Homem. Essa é a minha tese, filosófica e prática que tento aprofundar em cada dia que passa, quando olho e penso este Planeta e esta Humanidade. Na riqueza da diversidade, embora existam semelhanças, eu procuro complementaridades. Assim, quando refiro Ocidente e Oriente – e muito haveria a dizer sobre esta simplificação territorial e cultural – tento percepcioná-los como actores e deduzir sobre as especificidades próprias que lhes condicionam a existência, levando-os a determinadas cognições e práticas gerais de comportamento. Os acontecimentos que ocorreram nas permutas civilizacionais, integradores e/ou agressivos, são lições que devemos avaliar de modo a que as práticas positivas sejam reforçadas e os erros não voltem a suceder. Meramente colhemos o que plantamos. Bom, posto isto, comecemos.
Como refere, «toda a tentativa de sistematização de cultura é sempre redutora». Mas não é por isso que deitamos livros e manuais pela janela fora. Uma súmula da obra de um autor ainda é certamente redutora, se não for feita pelo próprio autor; também a análise de uma cultura será sempre fragmentária, redutora. Enfim, toda e qualquer análise será sempre incompleta, contendo aqui e ali informação espúria e/ou viciada. De facto, isso é verdade. Pode-se mesmo dizer que toda a obra humana é incompleta. Mas pode também, mesmo em uma meia dúzia de linhas, serem vertidas abordagens que embora genéricas se constituam como vectores que possam induzir o aprofundamento e uma visão mais correcta. Por vezes, isso é incómodo, até porque um novo ângulo de observação nem sempre é aceite de imediato. E ainda bem, pois a reflexão demora o seu tempo e conduz sempre a uma nova questão e esta a uma nova reflexão.
Por outro lado, sabemos também que existem, fruto das várias permutas de saber entre as várias culturas que se visitaram, e entre homens e mulheres que por mérito acederam a santuários ocultos de saber, alguns paralelos de cognição e de mundividência que são hoje pontes comuns e facilitadoras de entendimento. Mas isso são minorias, homens e mulheres que muito legaram e que poucos de facto escutaram e ainda menos seguiram. Estes embates – os das sociedades e culturas – não se jogam entre os mestres, mas sim com aquilo que nós todos deles aprendemos, ou não, e com o que disso fazemos no nosso dia a dia.
E aqui entramos em Platão, de seu nome Aristoklés. Além deste viajante inveterado, com mestrado, “Doc” e “pós-Doc” no Egipto, refira-se o obscuro Heraclito e ainda Parménides, Pitágoras e Sócrates. De que fontes beberam estes ousados devedores de Prometeu? Ora muito bem, é fácil inserir estes homens como “Ocidentais” ou geradores de uma “cultura” dita ocidental. Mas não me diga que o Ocidente é Platónico ou Neoplatónico, que vive segundo os ditames dessas altas filosofias, cujas raízes não serão muito difíceis de pressupor. Nunca foi dito que o Ocidente não tem valores, referenciais! Se Ele quiser, tem e muitos! Só que por vezes e no seu todo parece tê-los esquecido completamente. Limitámo-nos a tentar constatar aquilo que nos surge como realidade – e a “realidade” é para todos um espelho multifacetado – como o que constitui a abordagem e vivência da maioria das pessoas, das sociedades, genericamente a sua “personalidade” social, na cultura Ocidental de HOJE.
De António E. R. Faria a 1 de Junho de 2008 às 14:15
2

Podemos também afirmar que a Cultura de uma sociedade parece em muito, ser aquilo que é apreendido, aprendido e posteriormente partilhado, simbolicamente ou na praxis diária, o que se constitui como um factor de coesão social. É o conjunto das crenças, da ética e da moral, de modos de conhecimento, dos valores, da arte e de outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma dada sociedade. E como é que a cultura de uma sociedade – no seu uso da abstracção – vai mantendo os elementos culturais nos seus símbolos individuais, nos seus padrões artísticos e nos seus mitos, dado que estes repousam nos conteúdos mentais dessas pessoas? Ora o estudo dos nossos «produtos culturais» tem vindo a revelar que nos últimos 400 anos uma maior estrutura derivada de uma abordagem progressivamente inclusiva da mente concreta, verificável nas obras de arte, materiais iconográficos e escritos e até ferramentas de uso diverso. Acrescente-se que esta forma de cultura – a tal que progressivamente dá mais valor aos “bens” materiais – mais facilmente é preservada, dado que os aspectos simbólicos são mais frágeis e fugidios. Pelo «mecanismo adaptativo» as culturas vão respondendo às novas propostas filosóficas, políticas e sociais, alterando hábitos de um modo por vezes surpreendentemente rápido. É de ler O Crepúsculo do Dever e a Felicidade Paradoxal, de Lipovetsky, Entre o Bem e o Mal, de Mafessoli, Um Só Mundo, de Singer, A Vida Fragmentada, de Bauman, e A Subjectividade por Vir, de ŽiŽek, o O Mito do Eterno Retorno, de Eliade e o Si-mesmo, como um outro, de Ricoeur e para terminar A Mente, a Religião e a Ciência, do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, onde estas e outras questões colaterais são aprofundadas.
Ora como muito bem sabemos, também homens como Gebser e Wilber, têm chamado a atenção para a necessidade de um “pensar integral”, de um novo paradigma, mais abrangente e menos dualista do que o praticado, permitindo o uso mais integrado dos vários patamares de consciência.
Vamos a exemplos. Vejamos o que é dito sobre a Consciência.
De António E. R. Faria a 1 de Junho de 2008 às 14:19
3

Caso A – Penrose, célebre matemático afirmou que a Consciência advém de fenómenos de mecânica quântica.
Caso B – Diz Eliade: «Tocar o cerne do Ser equivale assim a morrer para um tipo de vida ilusório e efémero e aceder a uma nova fase da existência, agora mais verdadeira e duradoura, plena de significado».
Caso C – Em 2003, numa reflexão sobre Neurociência, Religião e Identidade Pessoal, contextualizou-se: … em função dos «avanços da Neurociência» devem os filósofos estar «alerta para a especificidade da consciência humana» … E mais adiante: … é pela «interacção conjunta e concertada entre cérebro e corpo que nasce a mente». Mais adiante: …. «o cérebro origina o Si».
Caso D – Segundo a Vedânta, a Consciência é inefável, não pode ser descrita pois está para além das capacidades da mente. O Universo é uma extensão da Consciência e esta é simultaneamente matéria e espírito. Assim, matéria é a forma mais “grosseira” de espírito e consciência a forma mais subtil de matéria. Energia e matéria são uma só. Observador e observado são um só. Consciência e universo são um, tal como água e o vapor. Ainda segundo esta escola, poderão ser consideradas como fases intermutáveis de Consciência: vigília, sonho, sono profundo e turía, estado de pura consciência (dividido em vários sub-estados).
Bom, penso que isto pode constituir matéria para reflexão. Mais uma vez afirmo: não é uma questão de melhor ou pior. É uma questão de complementaridade. De pontos de vista, ambos úteis na sua diferença caminhando juntos para a aquisição global da Verdade.
Vejamos agora a questão da Tradição. Fala-me de Tradição como algo que permanece inalterável de geração em geração, sem sofrer mudança apreciável, pela prática constante e inalterada de determinados conteúdos? Alguma abordagem fixista e imobilista? Já notou certamente a evolução semântica das palavras utopia e platónico, por exemplo. E Judiaria? E isto porquê?
Quanto à criação de «uma ideia redutora sobre as culturas ocidentais, afirmando-as apenas como materialistas e inferiores» penso ser uma forma de facto simplista de colocar a questão. Embora o Ocidente – ou melhor, alguns Estados herdeiros de formulações setecentistas – tenham provocado duas Guerras Mundiais, enchido literalmente o planeta com armas de destruição maciça e crescentes níveis de poluição, tem este Ocidente, se quiser arejar os seus porões, muito de bom para dar. Mas para tal é necessário separarmos o trigo de certo joio, e isso é tarefa de peso. Posto isto rejeito a afirmação de inferior, o que é inferior é Manas, Mente, que algumas formulações dividem em Superior, o que está ligado à Alma Humana e a outra, dita Inferior que está ligada aos conteúdos concretos e às Emoções, sendo por vezes denominada alma animal. É usada nos processos de identificação do que é dito como objectivo.
No que diz respeito ao «percurso filosófico que leva à noção de que todo o Homem é igual» – eu diria, semelhante – devo dizer o seguinte: desde o tempo da massificação da escravatura que se palmilhou umas boas milhas. Mas, devemos estar atentos. Outras formas de escravatura têm sido evidenciadas, formas insidiosas, absolutamente nefastas, escondidas por mantos que se pretendem diáfanos mas que exalam o perfume pútrido da esquizofrenia. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é um documento notável, fruto do Humanismo Ocidental que penso ter alcance e aplicabilidade no resto do mundo. Mas, e isso é fundamental, deixemos a sua adopção ser feita consoante a vontade dos povos, na sua diversidade e pluralidade. Imposições, quem as quer?
De António E. R. Faria a 1 de Junho de 2008 às 14:24

4

Refere ainda que o que correu mal «não deve justificar a criação de uma ideia redutora das culturas (o sublinhado é meu) ocidentais, afirmando-as apenas como materialistas e inferiores». Bom, essas afirmações são de facto suas e do que afirmei não me parece que tal possa ser dedutível, antes pelo contrário. Passe a redundância, o Ocidente foi o que teve de ser, agora é o que pode ser, e seguramente cumprirá melhor o seu papel, se a isso todos lucidamente ajudarmos.
A minha tentativa de sistematização aponta para linhas gerais e de certo modo subliminares, que estas “duas” Culturas – se assim podemos dizer, pois dentro delas existem cambiantes apreciáveis – possuem no seu estar hodierno em constante mutação. Porque, sabemos perfeitamente, muitas trocas filosóficas houveram e continuam a haver.
Mais uma vez repito: onde estiveram Pitágoras e Platão? De onde beberam Parménides e Heraclito? E já agora, falando de Neoplatonismo, Plotino, Proclo e Jâmblico. Pergunto-lhe, caríssimo Professor, onde está hoje a nobre praxis socrática e platónica? E o “caminho do meio” proposto por Aristóteles?
O Ocidente teve, tem e terá por muito tempo, homens e mulheres notáveis, capazes de elevadas propostas e proezas. Não é isso que está em causa. Para mim o que é importante é o que as maiorias pensam e fazem. O que me interessa pessoalmente, meu caro Professor, é o que faço, como penso, o que penso e o que digo, como abordo o outro, como existo – de um modo activo ou reactivo – como vivo as minhas congeminações e diatribes, como me olho a mim e o outro, como estou disposto a mudar, e não o que disse ou fez um Mestre de Sabedoria, embora seja essa uma das referências que possa ter no meu caminho. Homem, conhece-Te a ti próprio! Sábias palavras, mas tão em desuso!
O Ocidente tem história, um contínuo de interacções que tentamos desembaraçar de escolhos interesseiros para que possa surgir a História do Ocidente, ou melhor, o conto das viagens destes e de outros Ocidentes por terras destes e de outros Orientes, daqui e de Além Espaço. Enfim, A Vida que é movimento, com Vontade, Amor-Sabedoria e Inteligência faz o Caminho, caminhando.
Caríssimo Professor, penso que a tertúlia já vai longa. Finalizando, direi que, se a visão que defende sobre o Ocidente lhe serve, se a considera a mais correcta, por mim, está bem. Embora não partilhe de todos os seus pontos de vista, respeito-os pois sei que muito terá reflectido sobre estas questões. Para mim, perceber o passado, e, na diversidade de opinião, entender o que ele de melhor tem – e tem muito – integrando-o na cultura dos tempos que correm, olhando o outro nos olhos, fraternamente, parece-me ser o desafio que o mundo Ocidental hoje enfrenta, para que o futuro possa ser um melhor Sol Nascente. Vamos Lá!!!

Um Abraço Fraterno

António
De Teotonio R. de Souza a 2 de Junho de 2008 às 10:02
Caros Paulo Mendes Pinto e Antonio Faria
Se me é permitido intervir, vejo que ambos estão a debater diferenças culturais, Paulo com maior enfâse nas Filosofias, e António com maior ênfase na História. Sou de opinião que é a prática histórica que mais interessa. Mesmo a leitura da prática histórica tem sido vítima de interpretações. Até à década de 90 estava em voga a história comparativa que implicava padrão de comparação e consequentemente exotismos culturais do «outro». Mais recentemente tem surgido o conceito de "connected histories", que alguém chamou história integrativa. Lembro-me do meu examinador de doutoramento, Prof. Ashin das Gupta, um pioneiro da história marítima da India, e que foi Reitor da Universidade de Shantiniketan (fundada pelo prémio Nobel Rabindranath Tagore) quando dizia: "Não se pode escrever história da Índia sem sair da Índia". Por implicação, é preciso conhecer as trajectorias históricas dos outros povos para contextualizar a pórpria história. Aqui não há histórias comparadas (culturas superiores ou inferiores) mas histórias conectadas!
De Alexandre B. Weffort a 2 de Junho de 2008 às 20:04
Achegas
O “estar integral” poderá ser alcançado não pela necessária exclusão de um dos contrários, na aparente dualidade dos pares de opostos, mas sim pela síntese e união entre estes dois “extremos”, no mais absoluto respeito pela diversidade cultural, na mais profunda fraternidade, nunca desejando os frutos da acção.
O parágrafo final do texto “Ocidente e Oriente” (do colega António Faria) surge como corolário de uma explanação sobre os traços mais relevantes do que podemos entender como paradigmático do “Ocidente” e do “Oriente” e da influência que um exerce sobre o outro, entendidos como “momentos dialécticos distintos” que se opõem.
Acompanhando a reflexão sugerida, proponho duas achegas fraternas: a primeira assinalando a natureza plenamente “ocidental” – na mais directa tradição cristã – da última frase (cf. Mateus 6:1) o que leva à seguinte questão: será a abstenção em relação ao “desejo” (sobre “os frutos da acção”) condição para uma relação de “profunda fraternidade”? A segunda leva à colocação da seguinte questão: “síntese” (numa concepção dialéctica) é entendida como uma “união” dos contrários ou como a sua superação? Ou, dito de outra forma: o processo de síntese – de emancipação face à contingências históricas – entre os dois “extremos” referidos não implicará também a superação do contexto cultural em que se desenvolvem, isto é, na superação da sua expressão cultural diversa? E isso será fraterno?
Estou certo, pelo menos, que estas interrogações, despretensiosas e aqui partilhadas em jeito de tertúlia, serão recebidas fraternalmente pelo autor do texto citado, a quem já me habituei a ouvir atentamente quando discorre sobre filosofia e história ou quando revela o seu conhecimento, por exemplo, sobre a cultura do Oriente.
Abraço,
Alexandre B . Weffort

De Teotonio R. de Souza a 2 de Junho de 2008 às 22:30
Caro Alexandre
Quando Bhagvadgita fala de «nishkama karma» (agir sem esperar fruto ou sem apego aos resultados), não fala da colectividade cultural, mas de individuos. Curiosamente, este principio era também seguido no Ocidente. O fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loiola, recomendava aos seus seguidores: "Deves agir como se tudo dependesse de ti, mas dever esperar os resultados como se tudo dependesse de Deus".
Quanto às suas reflexões sobre síntese, na realidade as sinteses culturais resultam mais facilmente com mestiçagem, e também com imposições a longo prazo, e obviamente como resultado de muita violência.
De Alexandre a 2 de Junho de 2008 às 23:12
Caro Prof. Teutônio,
Creio que a questão se situa na utilização do conceito de fraternidade que, neste âmbito, me parece estranho. A fraternidade está inserida nas contradições intrínsecas do existir social; e, quando observo o confronto, em cada época histórica, das formulações filosóficas e religiosas com a praxis social (que é concretizada sob essas mesmas formulações e de certa forma regulada por elas), constato que a questão não é assim tão diferente no Ocidente e no Oriente, e que essa é uma dimensão frequentemente elidida quando se analisa a questão.
Como sabe, não tenho o hábito de escrever em blogs. Tentei, no entanto, participar através de um pequeno exercício de exegese sobre o texto referido, procurando integrar nos meus hábitos esse instrumento tão fino de perscrutação do sentido do que nele é dito. E, certamente, não deixarei de "ruminar" sobre as suas observações (é a maneira que meu avô utilizava para designar, no melhor sentido, o esforço de compreensão), observações que agradeço.
Alexandre
De Décio a 30 de Novembro de 2010 às 16:12
Oi, gente.
"Abrimos" o blog www.blig.ig.com.br/dlmendes e
conseguimos "espaço" no Portal Luis Nassif
www.luisnassif.com/profile/DecioLuizMendes
Temos algo pertinente a transmitir ( Cosmologia, concepção do "logos", etc...).
Aguardamos a sua visita.
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Desde já agradecemos.

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