Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

UMA TEOLOGIA QUE SUJE OS PÉS E CRIE CALOS NAS MÃOS

 

 

Caros bloguistas em CR,

              

Um dos campos de maior proximidade epistemológica é, sem dúvida, o que muitas vezes existe entre a Ciência das Religiões e a Teologia.

                      

Nunca neste blog se tinha entrado por esse campo. Acabo de receber um contributo de um aluno nosso do Brasil, onde esta questão é ainda mais premente pelo que de aplicação e serviço social ela pode implicar (ou desejar).

 

Assim, reproduzo abaixo o texto do nosso amigo Jeyson Messias Rodrigues, solcitando a todos a aberetura de uma linha de reflexão construtiva.

                  

Obrigado a todos,

Paulo Mendes Pinto

 



UMA TEOLOGIA QUE SUJE OS PÉS E CRIE CALOS NAS MÃOS

Não aconteceu apenas com você. Eu também vivi a minha crise acercada 
razão da reflexão teológica.
-O que eu estou fazendo? Por que Teologia? Para que ela serve?
Essas não são perguntas tão simples, em relação à teologia. Só posso 
enxergar com clareza sua razão e utilidade a partir do meu ponto de 
vista. Como falou Leonardo Boff, "Os olhos vêem de onde os pés pisam". 
Assim, de onde os meus pisam, entender o que o outro deve ver, pode 
vir a ser um esforço prepotente e vão. A despeito da publicação de 
livros e artigos se propondo a esclarecer a utilidade e a razão da 
reflexão teológica, talvez esses questionamentos, tão comuns ao 
estudante e ao observador mais crítico, não tenham solução senão em 
caráter subjetivo e pessoal.
Historicamente, a teologia serviu em dados momentos para legitimar as 
decisões das classes dominantes. Em outros, para motivar a 
contraposição a essas mesmas classes. Serviu como pretexto para 
colonizar e como espada para a libertação em relação ao colonizador. 
Já serviu a intenções metafísicas em busca da paradoxal compreensão de 
aspectos da mente e do caráter de um Deus inescrutável. E para que, 
concretamente, ela serviu? Para quase tudo o que se quis fazer com ela.
Concordo com Feuerbach: toda especulação teológica não passa de mera 
projeção. Não estamos caminhando em busca dos aspectos inerentes a 
Deus, mas das nossas próprias utopias, que se contraponham às 
distopias desta vida. Utopias que nos digam quais os valores que 
devemos preservar. Que reflitam a nossa imagem, fazendo-nos perceber 
quem fomos, quem somos, e no que corremos o risco de nos tornar. E que 
assim seja. Para Dalai-Lama, a melhor religião é aquela que nos 
transforma em pessoas melhores. Oxalá que a mesma teologia que outrora 
fomentou cruzadas, inquisições, extermínios, preconceitos e outras 
formas de crueldade, de alguma forma participe dessa transformação.
Mas paradoxalmente, às vezes também vejo a teologia como uma "jovem 
burguesa" (nada contra), acostumada com ambientes sofisticados - de 
muito bom gosto, inclusive - mas que passa de largo daqueles de quem 
Jesus mais se aproximou: os indigentes, os feios, os mal-cheirosos, os 
moribundos, os maltrapilhos, os moradores de rua. Jesus tinha seus pés 
empoeirados e sua roupa suja com o seu próprio suor misturado ao dos 
leprosos nos quais tocava. Enquanto essa teologia se senta, de pernas 
cruzadas, nas bibliotecas para pensar a vida a partir dos textos, 
Jesus acordava ao lado de outros moradores de rua (como ele próprio) e 
reinterpretava os textos em favor da vida. Divergiu da teologia 
oficial, dominante. Não se preocupou em preservar dogmas, mas em 
disseminar valores. Valores que celebravam o amor, a justiça, e acima 
de tudo, a vida. Valores que não excluíam o outro: o pobre, a mulher, 
o homossexual ou aquele que vivenciava uma forma alternativa de 
religiosidade. É interessante que Jesus tenha enaltecido à condição de 
"maior dentre os homens nascidos de mulher", alguém que não comungava 
da teologia ou das práticas litúrgicas próprias das sinagogas e do 
Templo os quais ele mesmo freqüentou, mas que se identificava com uma 
práxis ascética alternativa.
Madre Tereza de Calcutá, uma vez falou que "todo sofredor é Jesus com 
um triste disfarce". Segundo José Paulo, só devemos nos inclinar 
diante de Deus e do necessitado, sendo o resto, idolatria.
Um de meus melhores amigos é tetraplégico. Uma vez me questionou sobre 
o porquê de um ser tão bom e tão soberano, que tantas vezes curou, de 
acordo com os poderosos relatos bíblicos, permitia seu sofrimento e 
angústia. Não consegui usar a velha desculpa dos misteriosos 
propósitos de Deus. Consegui apenas dizer aquilo que acredito com 
todas as minhas forças: que Deus não estava longe, olhando de camarote 
seu sofrimento, mas igualmente tetraplégico, deitado com ele naquela 
cama. Acredito nas palavras do nazareno quando afirmou: "Tive fome... 
tive sede... estive nu... enfermo... fui forasteiro". Acredito em suas 
palavras quando exortou o perseguidor a respeito dos perseguidos: "Eu 
sou Jesus a quem tu persegues". Gosto de imaginar, não um Deus 
meramente metafísico e transcendente, mas um Deus que tem rostos, 
nomes, histórias, dores, e estômagos, via de regra... vazios.
Gosto de imaginar a nossa velha conhecida mulher adúltera voltando 
pelo menos umas quatrocentas e noventa vezes mais (setenta vezes sete) 
e recebendo a mesma atenção, ouvindo o mesmo discurso: "Eu também não 
te condeno, vá e não peques mais". Paradoxalmente, temos um Cristo que 
se encarnou, que pôs seus pés na terra, e construímos uma teologia que 
parece querer tirar os seus.
Pense um pouco: Quantas feridas você já limpou? Quantas crianças de 
rua você conhece pelo nome? Quantos presidiários você já olhou nos 
olhos? Quantos moradoras de favela você já visitou? Quantos idosos, em 
asilos exilados, encontraram consolo em seus ouvidos e em sua atenção?
Para que serve a teologia afinal? Se não for para pensar nessas 
questões práticas da vida, já parei de fazer teologia há algum tempo. 
Se não for para refletir acerca de problemas concretos, não me 
considero teólogo. Se não for para olhar (sem pressa, pré-conceitos, 
proselitismo ou complexo de superioridade) para as pessoas que 
refletem a imagem sofrida do criador, para mim, a teologia já não 
serve mais pra nada. Não se faz teologia longe dos livros, nem tão 
pouco se limitando a eles. Acredito na urgência de uma teologia que 
tenha intimidade com os textos sagrados e acadêmicos, sem, contudo, 
alienar-se em relação à vida... às vidas... às mortes. Que leia, pense 
e discurse, mas que também suje os pés e crie calos nas mãos.

Jeyson Messias Rodrigues

(aluno da Pós-Graduação em Ciência das Religiões da FATIN - com a cesso ao Mestrado em CR da UN. Lusófona)

 

 

Publicado por Re-ligare às 17:39
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6 comentários:
De Re-ligare a 10 de Junho de 2008 às 10:03
Caro amigo,

Nao sou teólogo. Mas compreendo os sentimentos que transbordam do seu texto. Para que serve a Teologia se a prática e o sentir religiosos não imanam dela, se o mundo real das pessoas ainda necessita de... sobreviver, por exemplo.

Mas o meu trabalho, nomeadamente na área de Ciência das Religiões, implicou que eu me confrontasse com um problema: para muita gente, a Ciência das Religiões era coisa de... teólogos.

Ora, o que é, então a Teologia? É o mesmo que a Ciência das Religiões?

Hápontos decontacto,mas há muitas diferenças. Uma primeira: uma Ciência das Religiões tem que servir para alguma coisa de imediato na construção de um mundo melhor.

Uma abordagem científica e isenta ao fenómeno religioso deve ser uma primeira pedra na construção de uma posição de respeito que venha construir possibilidades de diálogo, de entendimento.

Neste sentido, uma Ciência das Religiões necessita de criar os tais calos de quem anda no chão sujo.

... é já uma diferença...

Abraço,
Paulo Mendes Pinto
De teologiadalibertacao a 10 de Junho de 2008 às 16:45
Parabéns amigo véio!
Sugiro a você amigo, escrever um texto acerca da Bíblia. Para provocar: Bíblia para quê?
Abração!
De Dimas de Almeida a 13 de Junho de 2008 às 16:10
Jeyson,

Só hoje desemboquei neste seu texto «Uma teologia que suje os pés e crie calos nas mãos». E li-o.
Fiquei sem compreender no que é que consistirá esse elo misterioso (misterioso para mim) que pode justificar uma teologia. Ou, por outras palavras, que pode levar uma teologia que "não serve para nada" a uma teologia que pode ter alguma serventia. É que a teologia é da ordem da linguagem (do logos) e não pode abdicar disso. Assim um pouco como a filosofia que, seguindo a sua lógica, também está condenada, inelutavelmente condenada, a não servir para nada se o filósofo não tiver pés sujos e mãos calosas.
Claro que, colocando o Jeyson as coisas em termos de serventia, apetece logo à partida perguntar-lhe para que serve uma Mona Lisa ? (penso que o Leonardo da Vinci sujou as mãos sobretudo com as suas tintas de pintor). Ou ainda: para que serve a arte ? Ou até mesmo, aprofundando o raciocínio, "para que serve" Deus ? E pergunto-lhe francamente: demitir-se da teologia não implicará demitir-se de um discurso (tenha ele a coloração ideológica que tiver) acerca de Deus ? É que assim que você começa a falar de Deus começa, quer queira quer não, a articular um discurso não inocente teologicamente, com todos os riscos que lhe são inerentes.

Não sei se subjacente ao seu texto estará, conscientemente da sua parte, umas palavras de Karl Marx (não o cita) que, em 1845, formulou a sua 11ª. tese sobre Feuerbach (que o Jeyson cita) do seguinte modo:

«Os filósofos não têm feito outra coisa senão interpretar de diversos modos o mundo, mas aquilo de que se trata é de transformá-lo».

O que provavelmente não conhecerá é um comentário de Paul Ricoeur a essa tese marxiana:

«Interpretar o mundo é já começar a transformá-lo».

O seu texto, Jeyson, está atravessado de uma ponta à outra por uma condenação, (lamentável a meus olhos), de vinte séculos de pensamento teológico que, na história das ideias, contribuiram à sua maneira para diversas e importantes tomadas de consciência civilizacionais. Claro que tudo isto aconteceu, sobretudo, no Ocidente, este malfadado Ocidente. A que pertenceram um Platão, um Aristóteles, um Paulo de Tarso, um Agostinho, um Anselmo de Cantuária, um Tomás de Aquino, um Lutero, um Kant, um Kierkegaard, um Nietzsche, um Karl Barth, tudo gente que talvez não tenha tido nem os pés sujos nem as mãos calosas como o Jeyson exige em sinal de autenticidade. Mas gente que, com as suas interpretações do mundo e de Deus fizeram avançar a História no sentido da sua humanização.

Cumprimentando-o, creia-me, Dimas de Almeida.
De JEYSON a 9 de Julho de 2008 às 14:53
Dr. Dimas,
Obrigado por pela atenção e comentário sobre o meu texto. Peço que me desculpe a demora em respondê-la, visto que só a encontrei há duas semanas e só agora pude responder.
Caro Dimas, sua crítica me fez repensar alguns de meus posicionamentos. Suas observações certamente ecoarão em minhas próximas reflexões. Conforme o senhor falou, realmente eu não conhecia o comentário de Paul Ricoeur à críticade de Marx às contribuições dos filósofos. Na verdade não conheço profundamente o pensamento de muitos filósofos, apesar de reconhecer a importância de seus escritos. Mas conheço o pensamento de Joanderson - criança de 12 anos que foi estuprado por seus tios aos 9, e que mora na favela do Vale do Reginaldo, em uma casa de papelão em risco iminente de desabamento sempre que a chuva que nos ajuda a dormir o impede de fazê-lo. Tais exemplos são muito comuns aqui no 3º mundo, e nos confronta com a distância existente entre essa realidade e as contribuições filosóficas e teológicas no mundo da subjetividade. Assim, caro Dimas, tenho a impressão de que, conforme falou o filósofo e teólogo brasileiro Leonardo Boff em seu livro A Águia e A Galinha, "Os olhos vêem de onde os pés pisam". Certamente pisamos em solos diferentes, com urgências diferentes, e desafios diferentes. E, o meu solo "terceiromundista" me faz questionar se a teologia, para preservar seu caráter teológico, precisa continuar se omitindo diante da realidade que se impõe sobre tantos Joandersons, como tem sido nesses 20 séculos de discursão sobre as naturezas de Cristo, a relação entre as pessoas da Trindade, a discursão "Theotokos x Christotokos" e outras questões que, sinceramente, não considero mais importantes.
Aguardo suas futuras críticas. Um abraço, Jeyson
De Isalino Augusto a 21 de Janeiro de 2010 às 12:50
Caro,

Deparei-me com seu texto que o lí e ponderei. Tudo quando me interessou saber o que se fala a respito da Teologia na internet.
Devo tomar uma decisão sobre cursar Teologia daí meu grande interesse na busca que procedí.
O seu texto deixou-me balançado, acelerou meus pensamentos, jogas-te-me ao céu e ao chão num instante. Lí atentamente a crítica do Sr. Dumas, jogou-me violentamente para uma outra realidade, e lá você outra vez com a "teologia do suja pés e calo nas mãos", que realidade.
Confesso que valeu a pena ter galgado por aqui, o que vai certamente contribuir para a minha decisão.

Um abraço e continue refletindo os caminhos de Deus e dos homens.

Isalino Augusto
De JEYSON a 15 de Julho de 2010 às 17:24
Amigo Isaltino,
Desculpe a demora em retornar seu atencioso comentário. É que há algum tempo não entro neste espaço. Mas quero agradecer-te a atenção. Fico feliz por saber do seu interesse pelos caminhos e ambiguidades da teologia e pela sua inquietação frente aos problemas e desafios implicados nesse universo. Estou à disposição. Tenho publicado outros textos no http://jeysonrodrigues.blogspot.com . Fique a vontade para partilhar suas opiniões e questionamentos. Um abraço, Jeyson

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