Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

A PERTINÊNCIA DA CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

A PERTINÊNCIA DA CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

                              

Comentário ao livro de José Carlos Calazans, Globalização e Ciência das Religiões, Lisboa, 2008.

                      

                        

Qual a razão para a reflexão acadêmica no âmbito da Ciência das Religiões? Samuel P. Huntington, após sugerir uma superação à política da Guerra Fria declarou que "no mundo moderno, a religião é uma força central, talvez 'a' força central que motiva e mobiliza as pessoas". Esse é um conceito que, no séc. IX, não mereceria crédito mesmo para o cientista mais otimista em relação à sobrevivência da religião na modernidade que por bastante tempo se secularizou na mesma proporção dos avanços tecnológicos. Contudo, uma análise sobre as causas dos principais conflitos internacionais revela um caráter essencialmente religioso, a despeito das razões político-econômicas, que tem fomentado nos nossos dias diversas formas de hostilidade. Por isso, para Hans Küng, "não haverá paz política, se não houver concomitantemente paz religiosa". José Carlos Calazans, em seu livro "Globalização e Ciência das Religiões", sugere exatamente uma leitura dos "choques de civilizações" sem incorrer no erro de minimizar a importância do fenômeno religioso. Assim, a Ciência das Religiões, através de esclarecimentos resultantes da análise científica, tem um papel fundamental na construção de uma sociedade laica (pressuposto para uma convivência pacífica entre os diferentes), que mediante a pluralidade e a tolerância, garanta ao indivíduo o exercício de seu direito à liberdade religiosa. Dificilmente, porém, algum grupo ou sociedade se abre para aquilo que lhe é estranho, desconhecido. De acordo com Zygmunt Bauman, o fracasso da habilidade classificatória, os problemas de hermenêutica não solucionados e a incerteza, provocados por aquilo que é estranho, na melhor das hipóteses é sentida como um desconforto, e na pior das hipóteses provoca uma sensação de perigo. Assim, o cientista das religiões, para Calazans, tem a responsabilidade de descortinar o fenômeno religioso a fim de que este, em suas mais variadas formas e representações, não mais sofra o estigma do que chamarei "estranhismo" - um produto da ignorância que para Guilherme d'Oliveira Martins, tem aberto caminho a "perigosas simplificações que favorecem o desrespeito, a intolerância e a indiferença". Esse fim diplomático a que se propõe a Ciência das Religiões vem a ser mui pertinente em um momento que antecede o surgimento de dois grandes blocos internacionais - um econômico e outro militar, que quebrarão o atual paradigma de dominação norte-americana, trazendo instabilidade à atual ordem político-econômica mundial. Tal ordem não precisa, necessariamente, ser sucedida pelo caos. Historicamente, a própria humanidade já produziu modelos de solidariedade que transcenderam as mais diversas diferenças políticas, econômicas e religiosas. Esses modelos, de certa forma constituem uma esperança para superação dos desafios impostos por essa nova ordem para a qual aponta Calazans. Tais manifestações de solidariedade extra e inter-religiosas e, portanto, laicas, se mostraram à humanidade, recursos decisivos em momentos de instabilidade e mesmo desordem, tanto no ocidente quanto no oriente. Certamente o conhecimento sobre a alteridade se constitui em pressuposto à construção de pontes que viabilizem o diálogo e, consequentemente, a tolerância e a solidariedade. E nesse processo a Ciência das Religiões tem um papel preponderante e distinto da antropologia, sociologia e, especialmente, da teologia. Calazans aborda todas essas questões de forma sucinta, mas abrangente e provocativa, abrindo caminho para futuras reflexões e aprofundamentos. Apesar de se constituir em uma abordagem aparentemente influenciada por sua perspectiva européia, evidenciada, por exemplo, no uso de expressões como "descobrimento" para as colonizações portuguesas, trata-se de uma leitura introdutória muito interessante e, sem dúvida, importante para uma inserção norteada nas discursões peculiares à Ciência das Religiões.

                     

JEYSON MESSIAS RODRIGUES

(aluno da Pós-Graduação em Ciência das Religiões da FATIN)

Publicado por Re-ligare às 12:35
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