Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

História das Religiões: um serviço cívico?

 

Quando há seis anos Régis Debray, académico francês, entregava a Jack Lang o Relatório ao Ministro da Educação Nacional, com o título sugestivo, O Ensino do Fenómeno Religioso na Escola Laica, tudo apontava para um cada vez mais correcto diagnóstico de um grave problema das sociedades contemporâneas: o desconhecimento sobre o mundo das religiões.
No prefácio á edição que na altura foi dada ao prelo[1], Jack Lang afirmava de forma lúcida: “Uma escola autêntica e serenamente laica deve proporcionar a todos os alunos o acesso à compreensão do mundo […] No respeito pela laicidade […] Sem privilegiar, evidentemente, esta ou aquela opção espiritual, evitando deliberadamente qualquer ensino religioso, os professores devem abordar as religiões como elementos marcantes e, em grande medida, estruturantes da história da humanidade, umas vezes como factores de paz e de modernidade, outras vezes como factores de discórdia, de conflitos mortíferos e de regressão”.
Debray, fazendo a radiografia à situação, afirmava nas primeiras páginas do seu relatório: “É o desvirtuamento, o empobrecimento do quotidiano circundante, a partir do momento em que os dias feriados, as férias da Páscoa e o ano sabático, não passam de um acaso do calendário. É a angústia de um desmembramento comunitário das solidariedades cívicas, o que contribui bastante para a nossa ignorância do passado e das crenças do outro, a transbordar de estereótipos e preconceitos”.
Ora, as palavras destes dois prestigiados intelectuais franceses aplicam-se, na íntegra, ao caso português. O desconhecimento actual sobre o mundo das religiões é alarmante e, acima de tudo, perigoso.
Num recente projecto levado a cabo pela área de Ciência das Religiões na Un. Lusófona, vimos como apenas 21% dos inquiridos sabiam que o Islão é uma religião monoteísta; ou que Meca é a sua principal Cidade Santa (20%). Só apenas 42% dos inquiridos souberam identificar o feriado da Páscoa…
Neste momento há a noção, generalizada, de que o conhecimento sobre o universo das religiões não é apenas um manancial de curiosidades que se podem usar em jogo de salão. Não, conhecer as religiões é poder participar no mundo onde, como se verifica diariamente, as religiões desempenham um papel da maior importância.
E isto é válido para religiosos e para não religiosos. O mundo em que todos vivemos é o mesmo.
Assim, é de não perder a oportunidade única que se criou neste final de Junho em que vimos um grupo de figuras públicas, começando pelo Dr. Mário Soares, Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, afirmar da necessidade de colocar conteúdos sobre religião no Ensino Secundário.
Já vários países fizeram esse caminho. Muitos dos nossos parceiros europeus, e mesmo o Brasil, já avançaram na criação de uma disciplina nesta área.
Que a coragem política decida a favor de uma arma de conhecimento que nos dará, de certo, muita mais coragem cívica.


[1]Régis Debray, L'enseignement du fait religieux dans l'école laïque: rapport au ministre de l'Éducation nationale, Pref. de Jack Lang, Paris, O. Jacob, 2002.

 

              

                   

 

Paulo Mendes Pinto
Director da Lic. em Ciência as Religiões na Un. Lusófona

                  

Artigo publicado hoje no jornal diário Público.

Publicado por Re-ligare às 10:24
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6 comentários:
De Luís Melancia a 6 de Julho de 2008 às 16:21
Começa a ver-se uma certa convergência de entendimentos na criação de uma disciplina de História das Religiões no ensino público, em oposição ao modelo de ensino confessional que temos hoje.

Concordo. Que se crie, desde o 2º Ciclo, uma disciplina de Ciências Humanas (não existe também uma disciplina de Ciências Naturais?) que inclua, entre outros conteúdos, o ensino comparado das religiões enquanto fenómeno social e humano.

Continuo a achar que o ensino confessional deve ficar para a esfera do ensino privado. Aliás, a grande diversidade religiosa que existe hoje torna o ensino confessional público uma impossibilidade. Além de que o ensino da fé de um grupo não deve ser pago por todos.

Mais do que uma disciplina confessional (seja católica, evangélica ou muçulmana) faz falta uma disciplina que trate do fenómeno religioso enquanto elemento estruturante das sociedades. É dessa forma e nessa altura da vida que se começa a ensinar o respeito pelo outro, aquele que pensa e crê de forma diferente da minha.

E os diversos grupos religiosos têm de aprender a ser consistentes: não podem querer ter um Estado laico quando se trata de coarctar privilégios aos outros mas esquecerem-se disso quando se trata de alimentar os seus pequenos interesses confessionais. Ou sol na eira, ou chuva no nabal»; as duas coisas é que não!

Mas é claro que não andamos a dormir…isto levanta outro problema: será que não anda por aí quem pensa que tem o «direito divino» de ocupar essa disciplina…?

Luís Melancia
Docente na Lic. em Ciência das Religiões
De Alexandre B. Weffort a 8 de Julho de 2008 às 01:17
Acerca do papel social da Religião

O desafio lançado pelo Prof. Paulo Mendes Pinto no texto “História das Religiões: um serviço cívico?” não nos pode deixar indiferentes. E o esforço em criar e manter um espaço de diálogo mais flexível acerca das matérias que estão no cerne da formação que procuramos na Licenciatura e no Mestrado em Ciência das Religiões também não. Assim, é nesse sentido que proponho algumas reflexões suscitadas pelo texto referido, que procuro problematizar com um questionamento acerca do papel social da Religião.

A importância do conhecimento das diversas religiões, dos valores e dos comportamentos que lhe estão associados é algo cada vez mais reconhecido. A história de cada religião, o papel que cada uma desempenha na história dos povos e nações, bem como a sua importância no processo de reconfiguração económica, política e cultural da humanidade, nomeadamente no momento actual do processo de globalização, são algumas das áreas onde o conhecimento acerca das religiões pode e deve estar presente a nível dos currículos escolares. Seriam conteúdos possíveis a uma “História das Religiões” a implementar no ensino público.

Mas a questão das religiões não se esgota na perspectiva histórica (da ciência histórica). Podem ser estudados os comportamentos religiosos (tanto na perspectiva da sociologia como antropologia ou da psicologia) ou os seus produtos (por exemplo, numa perspectiva estética), bem como dos discursos teológicos (onde a filosofia encontra um espaço de indagação amplo). E, além de todas as perspectivas listadas (de forma certamente incompleta), a religião é também um fenómeno que tem a sua natureza intrínseca (religião aqui considerada num sentido amplo, para além dos limites de cada credo ou confissão).

Ao tratar não de forma teológica mas científica a questão da religião, é preciso considerar também os comportamentos que se definem como "não-crença" , pois embora assumindo um discurso de “pólo contrário” ou de “indiferença enfática”, acabam por situar-se na mesma esfera de preocupações, problematizando muitas vezes os mesmos valores que se encontram nos discursos produzidos no âmbito das práticas religiosas.

Por outro lado, a dimensão espiritual da vida também não se esgota na esfera das religiões: basta considerar a diversidade de práticas espirituais (que cumprem aquele fundo comum a todas as religiões) ou daquelas que, não se considerando enquanto tal (enquanto religião), preenchem essa necessidade intrínseca ao ser humano. Põe-se, todavia, a questão de saber se aquela dimensão espiritual, não se esgotando na esfera das religiões, pode ser definida por ela (definida através de um discurso ou comportamento religioso). Em última instância, trata-se de saber se a necessidade espiritual intrínseca ao ser humano pode ser encontrada fora da sua humanidade. E as respostas vão da aceitação à negação categóricas, passando pela salutar dúvida socrática e acabando no já tão difundido pensamento taoista : “quem sabe não fala, quem fala não sabe”.

O verdadeiro desafio referido no texto enunciado por Jack Lang acerca do papel da Escola e do lugar da Religião na Educação vai mais longe que a fase actual, bem delimitada pela preocupação citada de Debray , acerca do empobrecimento do quotidiano circundante, notado, “a partir do momento em que os dias feriados, as férias da Páscoa e o ano sabático, não passam de um acaso do calendário”, como “um desmembramento comunitário das solidariedades cívicas”.

Não deixa de manifestar-se uma espécie de religio-centrismo ”, termo que, à falta de melhor, uso para referir uma certa tendência de monopolização das questões espirituais pelos discursos religiosos e de uma certa tendência à omissão daquelas dimensões espirituais nos discursos e comportamentos produzidos em outras esferas da vida. Como se a Ética, a Paz, a Fraternidade, a Dignidade, não se devessem perseguir e produzir em todas as dimensões da existência social ou que, para tal acontecer, terem elas de ser tuteladas pela Religião. E talvez essa seja a questão: do papel social da Religião.

Alexandre B. Weffort
De Luís Melancia a 8 de Julho de 2008 às 10:02
Viva, Alexandre.
Desde Protágoras que se pensa que «o homem é a medida de todas as coisas». E esse Humanismo pode implicar um descarte da religião enquanto elemento organizador da ética, da paz, da fraternidade, da dignidade. É uma opinião - e mais:uma opção igualmente legítima (nestas questões não há verdade científica). Agora o que está em cima da mesa continua ser isto: deve ser ministrado o ensino religioso no espaço público? Se não, por que não? Se sim, qual o modelo? E isto independente do «religio-centrismo» ou dos «secularo-centrismo»… (porque também existe...).
Luís
De Alexandre B. Weffort a 8 de Julho de 2008 às 14:46
Caro Luís,
Grato pelas observações.
Há, na dinâmica de um blog um ritmo que confesso ter alguma dificuldade em acompanhar (há aquela diferença entre “problematizar” e “polemicar”, mas isso é um problema meu ...). Por isso, talvez não consiga acompanhar todos os pontos propostos, mas vou tentar:

A primeira questão diz respeito à questão da “verdade” (da científica, da mística, da teológica, etc.). Não sei defini-la. Há uma plêiade de verdades, algumas concorrentes, outras contraditórias (algumas contradições são irredutíveis, outras dialécticas, outras ilusórias ...). Talvez a proposta de Boaventura de Sousa Santos (em “Um discurso sobre as Ciências”) se mantenha ainda válida. O critério da verdade possível reside, creio, na coerência intrínseca de cada processo, embora isso nos leve de volta ao humanismo de Protágoras que tão bem referes.

A segunda questão diz respeito à ciência e, no que nos importa mais, à ciência das religiões. Ao lançar a questão da pertinência do ensino da “historia das religiões”, de “religiões comparadas”, ou de outra qualquer fórmula que se adopte, a ciência das religiões deve assumir um papel específico (de ciência!, e aqui já não concordo muito com a utilização da expressão “serviço cívico” associada à questão da “História das Religiões”).

Em terceiro lugar, estamos no âmbito de uma instituição de ensino superior, a perorar acerca de questões relacionadas com o ensino secundário (que é espaço de formação constitucionalmente definido como obrigatório a todos os cidadãos, pelo menos em parte do percurso): cabe à ciência das religiões responder às diversas questões suscitadas. Daí considerar oportuno a problematização da questão, pois não basta ser politicamente correcto. E a resposta não é fácil.

Entra-se assim na quarta questão. A nível epistemológico há um largo caminho a percorrer na ciência das religiões para poder responder às questões propostas, nomeadamente do ensino destas matérias relacionadas com a espiritualidade humana.

À partida concordo com a posição manifesta sobre a questão do ensino confessional: deve realizar-se na esfera do privado. Mas também reconheço que as religiões e as instituições religiosas (qualquer que seja o seu nível de estruturação) têm sido o espaço onde, ao longo da história, as questões relativas à espiritualidade têm sido tratadas de forma mais profícua. Não se trata de concordar ou discordar, mas de constatar . E aqui voltamos à questão da ciência. Ela nos tem fornecido o método de indagação talvez mais profícuo: a ciência já sabe que a sua verdade é limitada!

E aqui a ciência nos obriga a maior ponderação: para propor a abordagem no âmbito do sistema de ensino público de questões tão essenciais como a Ética, a Fraternidade, a Dignidade, a Paz, questões que têm sido até hoje desenvolvidas sobretudo no âmbito das religiões, inseridas numa determinada estrutura de crenças é preciso um grau de esclarecimento muito elevado. Muito mais elevado que o que podemos hoje, ao nível da ciência das religiões, propor (note-se que estamos a falar do ensino público, portanto de algo que se deverá desenvolver sob a tutela do Ministério da Educação ...), mas a limitação que refiro pode ser, naturalmente, apenas minha.

Abraço,

Alexandre B. Weffort
De Natália a 10 de Abril de 2012 às 14:05
Realmente interessante.

Só tenho uma dúvida que espero que possa me esclarecer...

Tenho um colega que diz ser de religião "centrista".
Como aqui foi mencionado esse tal de "religio-centrismo", poderia me esclarecer em que ideias se baseia essa crença?
De Re-ligare a 7 de Maio de 2012 às 21:26
Cara Natália, o "centrismo" de que aqui falo tem a ver com o factoi de culturalmente se estar centrado naquilo que se julga ser a nossa base, a identidade. Mas depois, nem dessa tradições se tem conhecimentos...
Seria interessante continuar a conversa em torno desse tema.
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