Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

O FENÔMENO RELIGIOSO NA PÓS-MODERNIDADE

                     

Abordar o fenômeno religioso na pós-modernidade é tocar numa questão complexa, que se reveste de maior complexidade à medida que enfocamos os aspectos mais subjetivos dessa nova religiosidade. Diante da enorme diversidade que se verifica no fenômeno religioso atual, e pelas constantes transformações que se verifica em todos os seus aspectos, uma vez que existe uma troca quase que constante de idéias ritos, símbolos e doutrinas, levadas de um lado para outro pela mídia, o que torna quase impossível dizer quais elementos pertencem ou não a determinados grupos religiosos. O que se verifica como marca desse fenômeno é a diversidade, a heterogeneidade, o misticismo, o hibridismo religioso e o pragmatismo (as coisas valem enquanto funcionam).
            Quando falamos de fenômeno religioso na pós-modernidade, precisamos ter em mente que estamos tratando com uma realidade absolutamente diferente de tudo que já se viu até o momento em termos de experiência com o sagrado.
            Obviamente que não podemos falar da religiosidade no contexto pós-moderno dentro de uma visão absoluta, uma vez que uma das marcas da pós-modernidade é a ausência de absolutos. Entendemos, portanto, que todas as verdades sobre o fenômeno encontram limite na própria idéia da relatividade: os fenômenos são e não são ao mesmo tempo, a liquidez e a volatilidade também é um sinal da pós modernidade e se reflete da mesma forma na religião.
            Mesmo assim, podemos destacar algumas marcas dessa manifestação religiosa, enfocando obviamente a religiosidade do catolicismo popular e a que se manifesta no contexto protestante.
            Uma das marcas desse fenômeno é o misticismo, a valorização excessiva do emocional e o abandono da razão. Parece contraditório que vivamos hoje quase que um retorno aos períodos mais primitivos da raça humana. Elementos das crendices religiosas mais elementares ganham espaço na religiosidade atual. O esoterismo, o neopaganismo, crença em Duendes, Gnomos, anjos cabalísticos, tarôs, horóscopos, cartomancia, quiromancia, etc., ganham espaço na espiritualidade do homem moderno.
            Por outro lado, se verifica a banalização da fé e a mercantilização da graça. A graça já não é concedida por Deus, ela é conquistada por um baixo preço através da manipulação de jejuns, “correntes de orações,” “cultos de descarrego”, “cultos da conquista” das “novenas”, etc. Tem sempre uma “noite” para cada necessidade. O que você quiser é só freqüentar o culto certo, e Deus não tem escolha, tem que atender. A igreja já não é o lugar “aonde você vai para servir” ela se tornou a prateleira onde se vende bênçãos, milagres, curas, CDs, DVDs, livros de todo tipo, objetos ungidos e sagrados e todo tipo de bugigangas que alimentam a volúpia de alguns que enriquecem enquanto prometem prosperidade para os outros.
            O sagrado passou a ser mercadoria comercializada como qualquer outro produto. Na contemporaneidade a idéia é a facilidade, a virtualidade. A mídia trouxe o “delivery” para as igrejas, na qual você liga e o guru de plantão envia a resposta para o seu problema. Vivemos hoje o fenômeno da igreja virtual, conduzida por pessoas sem rostos, sem manifestação de afeto, que se conhecem apenas pela voz e pelo numero da conta bancária onde estes depositam os recursos para manter os programas.
            Atualmente, a religião e até mesmo Deus já não é um senhor a quem o homem busca servir e estabelecer relacionamentos. Na verdade Deus está a serviço do homem e serve enquanto possa atender aos desejos e caprichos do cristão.
            Mais do que nunca, se verifica uma grande confusão nas crenças religiosas protestantes, vive-se numa verdadeira babel religiosa. Encontramos dentro das crenças e das práticas protestantes elementos oriundos do xangô, do espiritismo, da magia, das religiões africanas, da teosofia, da valorização dos sonhos, uso de fórmulas mágicas, palavras que funcionam no estilo abracadabra, dentre outros, e o mesmo se verifica na direção contrária, idéias do catolicismo e do protestantismo estão impregnadas na religiosidade desses grupos. Na verdade, já não podemos falar daquilo que sejam sinais distintivos de determinada manifestação religiosa. Vivemos atualmente o tempo da antropomorfização do sagrado (Deus é concebido em termos humanos) e da divinização do humano (o culto voltado para agradar o homem). É o fim da religião e o começo da pós-religiosidade, (para cunhar mais um termo novo). Nesse contexto prevalece a privatização do divino, qualquer pessoa cria a qualquer momento uma nova religião, forjada com retalhos de crenças outras. Temos poucas opções: abandonar a religião ou nos preparar para viver esse novo tempo.

               

Neilton Santos Azevedo

aluno do Mestrado em Ciência das Religiões (Un. Lusófona / FATIN - Maceió)

Trabalho realizado no âmbito da cadeira ministrada pela Profa Drª Renê Pereira Melo Vasconcelos

 

 

Publicado por Re-ligare às 16:50
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3 comentários:
De SAM a 31 de Julho de 2008 às 19:16
De facto, concordo que há uma utilização capitalista do fenômeno religioso por muitas das sociedades atuais. Aliás, acredito que há uma utilização para o poder em quase trodas as sociedades, sejam atuais ou não. A diferença é que as sociedades atuais e ditas ocidentais regem-se num sistema aonde o dinheiro e o capital são essa manifestação de poder. Por isso Divindade, Profestas e símbolos tornam-se, literalmente, moedas de troca.

Outro aspecto é a cientificidade atual. As religiões cada vez mais se apoiam em ciência. A verdade é que mesmo as mais "estranhas", "obscuras", "bizarras" ou "capitalistas" dessas pseudoreligiões tem um não-sei-que de estudo sobre algo pseudocientífico. As pseudoreligiões que aqui são citadas falam em entropia, de supercordas, de éter, de quarks e positrões até, sem saber bem porquê...
Já aquilo a que eu designaria de pós-religião, será algo que poderá eliminar tanto o relativismo exagerado assim como o absolutismo exagerado. Essa sim, talvez, venha a ser a pósreligião humana.
De Pedro a 12 de Julho de 2013 às 22:18
concordo realmente, nos dias atuais muitos líderes religiosos tem usado o sagrado como um cabide de emprego se beneficiando da posição para tirar proveito de A ou B. Quem sofre com isso são os fieis que olha para seu líder com um super-deus, impecável, homens que falam a verdade. Enquanto serve de bucha para o A/B se dá bem no topo. O fenômeno religioso nos dias atuais está igual a telexfree. Quem está na ponto sempre se dá bem.
De jcsilva a 29 de Agosto de 2014 às 00:26
gostei do comentário sobre a conexão da religião-pós modernidade e a tecnologia

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