Terça-feira, 29 de Julho de 2008

Para uma Função Social das Religiões?

              

 

A actualidade encontra-se, muitas vezes, remetida para questões de eficácia que nos tolhem a capacidade de fruir algumas dimensões importantes da vida. Uma delas é, sem dúvida, a necessidade de responder constantemente à questão: “Para que serve isso?” Tudo deve ser útil, tudo deve multiplicar riqueza, tudo precisa de justificar a sua própria existência.
As religiões não fogem à regra. Talvez tenham sido mesmo um dos primeiros campos da actividade cultural e social da humanidade a sofrer com essa derradeira e dura questão: “Para que serve a religião?”
Foi exactamente pela sua função social, aí tida como alienadora, que no século XIX e grande parte do XX se mediu a religião. A célebre frase atribuída a Malraux, de que o século XXI seria religioso ou não seria, apesar de descontextualizada, lançava em tom profético o que verificamos hoje: as religiões, longe de terem desaparecido como se vaticinava há um século, marcam cada vez mais o mundo, incluindo o chamado Mundo Ocidental.
Hoje em dia, já se percebeu, sejamos religiosos ou não, que o mundo das confissões é da maior importância na forma de organização das sociedades. Não é apenas por retórica de recolha de votos que Obama acaba de alinhavar uma grande aproximação ao mundo evangélico, deixando mesmo claro que a sua presidência – se for eleito – dará um lugar muito mais importante às confissões que o que foi dado pelo tão “religioso” G. W. Bush.
E isto pelo simples facto de ser claro o papel de acção social das religiões e respectivas confissões.
E, se quisermos responder a essa brutal mas tão importante questão, “Para que servem as religiões?”, então a resposta passará por aqui – pelo menos nas próximas dezenas de anos: para cumprir algumas das funções sociais que os Estados são cada vez mais incapazes de realizar.
Sim, depois de uma fase longa em que muitas confissões cristãs se afastaram da relação com os governos e com os Estados, neste momento é consensual entre as religiões que é por aí que cumprem parte da sua missão. Por outro lado, é também claro para os Estados que não podem mais deixar escapar essa imensa mão de obra – muitas vezes totalmente gratuita –, e com motivação imensa, que são os grupos religiosos.
Para o tal chamado Ocidente, lucra-se mais em estabilidade social, em apoio aos mais desfavorecidos, na criação de elos e de laços de vizinhança se o trabalho social das confissões for reconhecido.
E isto, logicamente, sem nunca colocar em causa a laicidade dos Estado e, acima de tudo, a necessária transparência destas relações. Mais que remetidas para guettos, a actualidade das religiões reside na possibilidade, talvez única, de neste momento ser possível trazê-las para o Mundo.
Levando as confissões a participar no Mundo. Tornando-as parte integrante nos processos de globalização. Dando-lhes um lugar de cumplicidade e de responsabilidade na resolução dos problemas sociais, talvez possamos ganhar uma força imensa para lutar contra os desafios que hoje se colocam à Humanidade.
A função social das religiões é entrar, de facto, na sociedade.
               
Paulo Mendes Pinto
(director da Lic. em Ciência das Religiões na Un. Lusófona)

 

Publicado por Re-ligare às 11:19
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6 comentários:
De Dimas de Almeida a 30 de Julho de 2008 às 13:11
Leio no texto acima as palavras:

«Tudo deve ser útil, tudo deve multiplicar riqueza, tudo precisa de justificar a sua própria existência.»

Releio. E sinto que me trespassam as vísceras as perplexidades mais agónicas! E sou levado, como caminho de um possível auto-alívio, a evocar Angelus Silesius. Escreve ele:

«La rose est sans pourquoi
elle fleurit parce qu'elle fleurit
n'a guère cure de soi,
d'être vue aucun souci».

Dimas.

De Alexandre B. Weffort a 30 de Julho de 2008 às 15:40
Novamente o Prof. Paulo Medes Pinto nos oferece um questionamento essencial e enriquecedor. Apenas uma questão: não devemos confundir "função social" com "papel social". Função implica um devir, papel, um facto.
Glosando o comentário do Prof. Dimas, as flores são o que são, não têm função social. Mas há quem as coma (e é gastronomia fina), logo cumpre um papel ... também social.
Abraço,
Alexandre
De SAM a 30 de Julho de 2008 às 19:26
Acho que a pergunta é pertinente e as respostas, por mais parcimoniosas que sejam, acabam por ser sobretudo redutoras, pois verão a questão desde uma perspectiva. Raros são os autores que conseguem enxergar a totalidade-multiplicidade do fenómeno reilgioso.
Assim, se o nosso prisma for desde dentro de um sistema religioso responderemos de uma forma, se for de acordo com uma visão psicológica será outra a resposta, antropólogos, sociólogos e filósofos também darão respostas distintas.
Acredito que o estudo transversal da religião é fundamental exactamente por isso mesmo!
De Gnóstico a 11 de Agosto de 2008 às 12:24
Sinceramente qualquer análise que parta meramente da análise de um papel social de qualquer religião vai sempre ser um pouco pobre mas adiante. Esse serviço social prestado pelas várias organizações, grupos e indivíduos religiosos abrem sempre a porta ao risco de instrumentalizar a religião. Num mundo saudável um grupo religioso oferece serviço à comunidade porque estão em missão para melhorar a situação do mundo, aliviar as suas dores por assim dizer. Mas a partir do momento que se começam não a simplesmente a cobrir a falhas do estado mas a servir de “estado social alternativo” à segurança social universal como nos EUA entramos num jogo de política e troca de favores que só pode conspurcar o espírito do serviço comunitário e comprometer a virtude daqueles que se oferecem para o prestar.
De Luís Melanbcia a 12 de Agosto de 2008 às 11:37
Falta é saber se o Estado deve ter esse papel omnipresente de modo a relegar todas as instituições particulares para o papel de amadores «tapa buracos». Isso parece-me mais uma questão ideológica...
De Gnóstico a 13 de Agosto de 2008 às 11:41
Não é uma questão ideológica per se, é tentar evitar a politização e corrupção do religioso.

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