Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Pares de “opostos”

    

Pares de “opostos”:
Contributo para uma receita de Harmonização[1]
 
Mestre/Discípulo
Alunos/Professores
Ciências/Religiões
Flores/ Insectos e/ou Pássaros,
Jardim/Ecossistema
Função/Papel
Pessoal/Social
Tempo/tempo hodierno
“Aprender”/“ensinar”
-------------------------------------------------------------------------------------
Ser (Númeno), estar (fenómeno), Espiritualidade/instituição, Consciência/consciência
 
I
A questão de (pretender) ensinar e/ou de (pretender) aprender
 
Opinar, sendo fácil, é fôlego desgastante. Ter uma Opinião é esforço árduo, Filosófico e Estruturante.
 
Estas duas “profissões”, situadas muitas vezes em campos aparentemente antagónicos, quando na verdade nos parecem complementares, possuem antecedentes filosóficos, religiosos e ideológicos, cujas raízes, sendo profundas, possuem contrapartes visíveis por vezes duras e espinhosas. Albergam pois estas duas categorias um vasto campo, antagónico na aparência, que se estende desde a praxis rotineira e algo frustrada até aos horizontes ensolarados de um estar por vocação. Abrangem tipologias diversas, que vão desde o pseudo-pedagogo[2] – aquele personagem que, pretendendo ensinar, nada faz além de reduzir e destruir - passando pelo alegado mestre carismático[3] – seguramente na sua própria perspectiva – que, muitas das vezes pouco entende da profundidade da Unidade expressa pela multiplicidade complexa. E quanto ao mestre pensante e ao aluno inquiridor? Espécies menos comuns, certamente, mas os que ainda exercem o seu nobre mister, alegram-nos o Coração.
Ao interrogarmo-nos amiudadas vezes sobre o modo como se pode transmitir/receber o saber, perguntámo-nos também qual o combustível Ético e Moral que a todos deve impulsionar para um percurso que supostamente permita adquirir/transmitir o conhecimento. E quanto ao Conhecimento-Sabedoria, não parcelar mas holístico, saberemos nós todos um pouco do que isso pode representar, os vastos horizontes que poderão ser rasgados e desvelados?
Mas o que significa “transmitir”, e de que modo pode ser efectuada com legitimidade tal acção? Será afinal o Ensino, a imitatio de um acto de desvelar o transcendente/imanente – em suma, o sagrado – que poderá ser o interiorizar e o desvelar que Heidegger atribuía ao Ser (aletheia)? Não será a mimetização de um modelo sagrado que deve ser entendido como o Ensino comunicado oralmente? Teria Sócrates Razão[4] ao dizer que a Verdade era passível de ser encontrada, levando o interlocutor à anamnese, através de um processo dinâmico que lhe permitia enfim recordar aquilo que afinal a sua Alma já sabia[5]?
Ainda um outro assunto que subjaz a estas misteriosas funções e que nos leva a colocar uma outra pergunta: onde reside a fonte da “autoridade”, aquela que verdadeiramente possibilita o dar e receber, de modo a que não possa existir, a agressão psicológica, a tentativa de alienação da “individualidade” ou o reforço da condição de dependência, mas sim a nobreza de acção que conduz ao bom saber e à honestidade intelectual?
O acto de ensinar/aprender é, segundo penso, um acto de “intimidade” em cada um e com os “outros”. É um estar de confiança mútua, de profissionalismo activo de ambas as partes, só possível quando as lógicas posicionais são entendidas e acordadas. Assim sendo, a dupla professor/aluno é, na justa medida, ouvinte e mensageira. Mas como pode um aluno «dualogar» com quem julga ter a certeza da sua interpretação – ou talvez não - daquilo que considera facto[6]? Como pode um professor transmitir a doxa a quem não a deseja, a quem recusa a mensagem enviada?
Por outro lado, nunca nos podemos também esquecer que conhecimento e praxis são instrumentos de poder, tal como definidos por um qualquer sistema dito pedagógico, que use mecanismos de “instrução” e alienação. O conservadorismo (anti)pedagógico é uma forma de ensino moribunda mas que se recusa a morrer, tal como os seus pretensos valores de estabilidade ideológica.
Também nestes tempos de New Age[7], parece existir ainda, da parte de alguns sectores, uma certa resistência aos livros, ao conhecimento alargado, multidisciplinar, holístico, crítico e estruturante. Tudo isso é muito típico de um certo “primitivismo”, ou melhor, de uma baixa e falsa pedagogia, prima da anarquia filosófica, teológica e científica. O conhecimento, a investigação de base científica – em sentido lato, onde a certeza que temos é a tentativa de aproximação à medida da incerteza – e o saber formal, são vistos por muitos como formas estratégicas de exploração e de predomínio de classe.
Desde Alexandria até Sarajevo, passando por Albi, quanto ensinamento foi perdido. Mas retirou-se daí o respectivo saber? E porque é que certas verdades seminais, certas Intuições doadas generosamente em metáforas analógicas, ao caírem em cérebros pintados de um verde rochoso, umas estiolaram e feneceram, enquanto outras, por processos psico-transgénicos, foram imbricadas, distorcidas e distribuídas como maná revigorante?
Por fim, pergunta-se: como avaliar, como medir? E o que deverá ser medido? E quem? Professores, Alunos e Escola? E ainda, como melhorar o processo de um inter-relacionamento complexo? O processo de medir, esse, deverá ser feito com justiça e ampla participação de todos os envolvidos nos processos parcelares, nos seus vários níveis. Mas sempre e acima de tudo filosofando crítica e reflexivamente, contrariando toda a proposta dogmática e redutora que fuja à universalidade e ao consenso legítimo.
É humano o inquirir. A chama do mytho e logos, esse inseparável par cuja dança enamorada é tão subjectivamente nossa, fornece a interminável energia para tal insistência. Se meramente nos ficarmos por uma teorese intelectual, vocacionada para o impermanente real, afastar-nos-emos da não-dualidade, “traindo” por algum tempo o impulso matricial. Não devemos pois reduzir o homem ao seu meio sociocultural, à sua história e ao momento histórico em que vive ou julga viver, à sua hereditariedade, à sua ideologia cultural, na qual ele partilha o seu inconsciente. Para uma libertação dos condicionamentos que nele estão em marcha, deve o Sapiens Sapiens, como Homem que É, alcandorar-se à sua verdadeira dimensão, Conhecer[8] mais de perto um modelo estrutural da sua condição de Ser que existe na forma humana.
É no viver das inter-relações humanas que se torna urgente aprender e transmitir[9], reflectir sobre tudo o que se apresente à consciência humana, qualquer que seja o seu patamar, na interioridade do “olhar”, despoletando a acção de abstracção e de intelecção. Assim, e dado que a linguagem não é um mero revestimento exterior do vivido mas sim uma articulação de um discurso mais fundo que propicia uma compreensão de sentido, esse sentido tem de se constituir como fio estruturante do viver desta sociedade individual. Assim, a aprendizagem pode também ser vista com um processo que se desenrola simultaneamente no tempo rectilíneo e espiralóide, como uma valsa a três tempos - Aluno, Escola, Professor – que devem tender para o Tempo Uno: o Ser.
Todos somos simultaneamente pássaros (de preferência a insectos) e flores. Não é só uma questão de polinização cruzada, mas sim de polinização que se pretende selectivamente plena, de troca, de permuta, mas sempre sediada na dádiva integral da fraternidade, que é inegoísta. Quando assim não acontece, a seta do tempo mostra-nos como foi, induzindo-nos a ponderar o devir que já espreita.
Mestres e Discípulos estão longe dos prosélitos. Estes, por enquanto cegos, prestam-se a serem guiados por alguns amblíopes. Todos rumam com estrépito ao penhasco da Ignorância, de onde regressarão (?) um pouco mais sábios.
Mestres e Discípulos são verdadeiramente uma raridade.

António Faria
 

(aluno da Lic. em Ciência das Religiões)

                  


[1] Que surge como resultado da reflexão propiciada pela leitura de alguns “posts” e respectivos comentários.
[2] Demagogo a tempo inteiro, ou pedabobo. Parente próximo do aluno cábula que sonha o “canudo”.
[3] Por vezes o auto intitulado professor, familiar chegado do aluno certinho e frustrado.
[4] Wittgenstein negava a possibilidade honesta de qualquer instrução textual no domínio Filosofia.
[5] Dito de um outro modo, pela Consciência actuando a um nível Superior.
[6] E como bem sabemos, contra factos não há …
[7] Entenda-se New Age como as várias tipologias ditas religiosas com raízes tanto a Ocidente como a Oriente.
[8] Que é Ser por tornar-se.
[9] Que obviamente é imagem reflectida pelas lentes do transmissor. Isto, em muito, convém não ignorar.

 

Publicado por Re-ligare às 19:37
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