Quinta-feira, 9 de Novembro de 2006

Sobre o chamado véu islâmico - 1 (Turquia)

Num momento em que regularmente somos confrontados com processos que conduzem ao encerramento de espectáculos por alegado perigo ou por suposta ofensa religiosa, urge olhar para alguns dos fundamentos da nossa liberdade.
Recentemente, uma arqueóloga turca, no seguimento de outros processos semelhantes, foi obrigada responder em tribunal porque, num seu livro (My Reactions as a Citizen), defendeu que o chamado véu islâmico era uma evolução com base numa das indumentárias das prostitutas sagradas na antiga Suméria, há cerca de 5000 anos.
Este julgamento é o último de uma série de processos contra intelectuais na Turquia, incluindo o vencedor do prémio Nobel de literatura em 2006, Orhan Pamuk, e o novelista Elif Shafak.
A acusação contra Muazzez Ilmiye Cig, de 92 anos, aparentemente lançada por um advogado de Izmir, residia na “incitação ao ódio racial e religioso". A arqueóloga afirmou que o uso milenar do véu nasceu de ritos sexuais pré-islâmicos, quando, há mais de 5 mil anos, sacerdotisas sumérias iniciavam sexualmente os jovens – o uso do véu servia, entre outros objectivos, o de se distinguirem estas hierodouleias das restantes sacerdotisas.
A arqueóloga foi aplaudida quando deixou o tribunal, num julgamento que durou menos de uma hora. O editor do livro de Cig também foi absolvido. A acusada incorria numa pena que poderia ir até três anos de prisão. Este processo foi seguido com muita atenção e preocupação pela Comissão Europeia, num momento crucial na argumentação a favor do rápido estabelecimento de directivas conducentes à liberdade de expressão na Turquia
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Apesar de predominantemente muçulmana, a Turquia é um país laico, e é proibido o uso do véu nas universidades e nas repartições públicas.
A autora e acusada, é uma kemalista assumida (ideologia baseada nos princípios do fundador da Turquia moderna e laica Mustafá Kemal Ataturk), defensora da manutenção de uma ideologia laica do Estado.
Muazzez Ilmiye Cig tem afirmado constantemente que a Turquia actual está a distanciar-se dos seus valores republicanos instaurados por Ataturk. A tensão entre intelectuais como Muazzez, dos meios pró-laicos, e o actual governo tem sido constante.
Muitos temem que o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, do partido Justiça e Desenvolvimento, questione essa herança laica. Recentemente, foi tentado, por este partido, o levantamento da proibição do uso do véu em espaços públicos.
Paulo Mendes Pinto
 
Publicado por Re-ligare às 12:11
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