Domingo, 21 de Setembro de 2008

2ª Carta a Alexandre Weffort - 1ª Parte

Psicologia Integral

Uma aproximação

 

O Projecto Atman, visto como Impulso inerente da Imanência para a Transcendência

 

I

 

Para Wilber, a Filosofia Perene permite-nos «validar os novos paradigmas emergentes pois oferece um esquema global das coisas» para que se possa comparar o novo paradigma científico, verificar se este se pode encaixar «no esquema global das coisas». Assim, e segundo Wilber, a philosophia perennis «sempre ofereceu esse esquema[1]», fornecendo assim uma base holística, integral. Ainda segundo Wilber, a nota mais marcante da filosofia/psicologia perene, «é o facto de ela apresentar o ser e a consciência como uma hierarquia de níveis dimensionais, movendo-se a partir dos domínios mais baixos, mais densos e mais fragmentários até aos mais altos, mais subtis e mais unitários»[2].

Posto isto – na 3ª Carta abordarmos alguns aspectos do Homem como Microcosmos, Antropogénese – nesta segunda carta, tentaremos traçar algumas veredas para uma Cosmogénese, que nos possam conduzir até perto dos porões dos “grandes sistemas”[3], onde o sistema compilado por Ken Wilber terá ido beber. Não entraremos em especificidades – à excepção de algumas notas de rodapé - pois, embora isso fosse aliciante, seria simultaneamente muito complicado, dadas as nossas limitações, e estaria fora do âmbito do diálogo epistolar que pretendemos imprimir a este assunto.

 

Todos os grandes sistemas, da Índia, do Egipto, da Mesopotâmia e da Pérsia, desde há muitos milhares de anos[4] parecem ter na sua essência um mesmo e único grande propósito que se pode, por conveniência[5], dividir em três pressupostos:

 

1.     Fornecer-nos um mapa do Macrocosmos Manifestado, com referência ao Indizível Absoluto como raiz do Todo Manifestado.

2.     Por analogia, fornecer-nos um mapa do Microcosmo, o Homem.

3.     Facilitar-nos, por uma utilização de uma metodologia com aplicabilidade abrangente, a ultrapassagem dos nossos habituais e repetidos padrões da nossa (condicionada) consciência de vigília de modo a que possamos alcançar a nossa verdadeira identidade, ou pelo menos a união com a Realidade Perene.[6]

 

Nesta óptica, o pressuposto referido no ponto um, parece remeter para um Deus que não é o Deus Criador – criação ex-nihilo - das formulações teístas (monoteísmos), mas sim a Totalidade Transcendental da Existência, a qual, nas Escolas não-dualistas do Sanâthana Dharma (ou Lei Eterna, vulgo “Hinduísmo”) é referido como Parabrahman, “Absoluto”, Aquilo, sobre o qual nada pode ser dito porque Indizível, Nirguna Brahman, Brahman sem atributos. O 1º e o 2º Logos, Imanifestados são os dois Momentos que se seguem, a caminho da manifestação E, na aurora de mais uma Manifestação, surge o 3º Logos[7], o Logos Manifestado, Saguna Brahman, as hostes criadoras que de Si promanaram e em Si estão (na Sua Consciência). O Absoluto pode ser entendido como a “natureza essencial”[8], a raiz do Eu Transcendente que É subjacente à personalidade[9] humana.

As Grandes Tradições, ao sugerirem o “crescimento” psico-espiritual, propõem Caminhos, vias a percorrer para que a humanidade possa mais eficientemente atingir a Libertação. O seu objectivo é, em primeiro lugar[10], o auto-conhecimento com meta para que seja atingida a cessação do sofrimento, a libertação, uma vez que, e segundo certas leituras, o sofrimento é o produto do nosso condicionamento inconsciente.

Deste modo e segundo essas mesmas tradições – ou o que se pode acerca delas deduzir, - no homem, ao ser removido o condicionamento inconsciente, que o leva a considerar-se como um ego independente, separado e isolado, ele, ou ela, toma consciência de que no âmago do (seu?) Ser, somos todos o mesmo e único Ser, a Unidade. Esta Realidade, que para nós ainda é uma singularidade, é considerada o destino último da Evolução Humana segundo os grandes sistemas.



[1] Ken Wilber, O Paradigma Holográfico e Outros Paradoxos, Editora Cultrix, p.149.

[2] Idem, op. supra.

[3] Segundo pensamos, subsidiários do Grande Sistema.

[4] Como gostamos nós de “contar” o Tempo!

[5] Leia-se, inerente limitação do homem.

[6] Atman, Paramatman.

[7] O 3º Logos é tido em várias Tradições como uma Unidade Múltipla, o conjunto de todas as hostes celestes, das Potências, os Dhyani-Choans, ou os Elhoim, os Arcanjos, Querubins, Serafins, Tronos, Potestades e Anjos; os Alhim, na Babilónia, os Pitris-Barishad da antropogénese do Sanâthana Dharma, a Plêiade dos Fetail dos Gnósticos; Jehovah (Javé, Yawé) no Talmude, é Achad, o Um em Muitos, etc., etc.

[8] O Arquétipo, o Númeno, a essência oculta e eterna para além do Grande Tempo.

[9] De persona, máscara, o véu de Maya, que esconde a Realidade em cada Homem.

[10] Em segundo, a contribuição como hierarquia criadora para a concretização do Plano Divino, e, por último, a realização da Auto-Consciência.

Publicado por Re-ligare às 16:16
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