Domingo, 5 de Outubro de 2008

Navegação de Superfície

 

Caro Alexandre

As questões que colocas, pertinentes como é habitual, são, do meu ponto de vista, “uma possibilidade de melhoria”, uma porta que se abre para que possamos repensar e, tendencialmente (re)flectir sobre novas/velhas questões. Agradeço desde já o pensar que, por esta via, connosco partilhaste.

Ora vamos lá então, em navegação de superfície, aproveitando a janela de diálogo que abriste com este teu novo texto, tentar alguma sistematização. Comecemos por tentar sistematizar, de modo muito, muito simples e sem quaisquer pretensões de análise crítica, alinhavar alguns conceitos, “modalidades” racionais de algumas abordagens possíveis do Universo Manifestado:

·         Espiritualidades/Religiões/Filosofias/Ciências[1]; Ateísmos, Agnosticismos, Monoteísmos, Deísmos, Panteísmos, Panenteísmos, Holismos e Hilozoísmos.

·         Na Filosofia Ocidental: Empirismos, Fisicalismos, Materialismos[2] Racionalismos, Idealismos. Humanismos, Naturalismos, Cientismos, Existencialismos, Realismos, Iluminismos, Marxismos, Estruturalismos, Fenomenologias, Desconstrucionismos, etc., etc.

 

·         Materialismo: Genericamente, a filosofia que sustenta que o mundo é constituído por matéria. Remonta ao atomismo grego; emerge com Hobbs (Leviatã). Opõe-se ao dualismo corpo-mente; não tem qualquer ligação ao desejo excessivo por bens materiais, embora por vezes o termo possa ser usado com essa intenção.

·         Dialético: É característico e predominante no Marxismo, onde o Materialismo – enquanto filosofia da natureza - se combina com uma ciência de carácter englobante, conjuntamente com uma dialéctica hegeliana, esta concebida como uma «força histórica que conduz os acontecimentos para uma resolução progressiva das contradições» que são características de cada época histórica.

·         Científico: nas suas propostas mais ousadas, não se manifesta quanto à questão do sagrado; por vezes propõe que o espírito desabrochará da Matéria, sem no entanto fornecer uma explicação cabal sobre o processo, restando a dúvida se o Espírito, de um modo qualquer, provém da Matéria ou se esta simplesmente o oculta.

 

·         Idealismo: Qualquer doutrina que afirme e possa sustentar que a Realidade não é empírica, mas sim fundamentalmente Mental[3]. Idealismos: Absoluto, Subjectivo ou Imaterialista, Objectivo, Crítico[4], Transcendental.

 

·         Religião (religio, religare): A Busca de Deus, dentro de uma Igreja, de uma Instituição hierarquicamente constituída e canonicamente normatizada. Teologicamente ligada a uma Revelação – Escritura, Texto Revelado - que possibilitará a Salvação aos seus membros, mediante o cumprimento/aceitação, por parte dos mesmos, de certas regras e dogmas. Filosofia e Ciência são por vezes liminarmente rejeitadas, enquanto metodologias e/ou propostas.

·         Espiritualidade: A Busca do Caminho para o Espírito, para a Auto-Realização. O Conhecimento deve constituir-se como uma ferramenta abarcante com destino à Sabedoria. Considera que o Homem tem em potência tudo o que precisa para a Viagem com destino à Auto-Consciência. A Liberdade da Escolha dos vários Caminhos possíveis, consoante o seu tipo de Raio Monádico, de Alma e/ou de Personalidade.

·         Doutrina: Um conjunto de propostas, constituindo um corpus de amplitude variável, susceptíveis de abordagem diversa, podendo possibilitar, ou não, alguma latitude na formulação e consequência.

·         Crença: Conjunto de pressupostos, tomados por verdadeiros. De etiologia diversa por vezes, e por vezes também de difícil sustentação. São filosoficamente pertinentes as questões ligadas à aceitação e à gradação das crenças, os factores envolvidos e as suas ligações com as capacidades linguísticas e conceptuais.

·         Místico: Termo que surge a seguir à explosão do Neoplatonismo na Europa, durante a Renascença. Pressupõe, para muitos, uma via de contacto directo, através de uma relação de Amor entre o sujeito e o Objecto de Adoração ou Veneração. No Oriente corresponderá ao Bakti (Devoto).

 Quanto a Bohm: a sua Teoria da Ordem Implicada[5] tem um alcance científico - e não só – incalculável. As “acusações” sobre o seu alegado misticismo, reflectem a ignorância profunda de alguns, que se manifesta em última análise pelo uso inadequado das palavras com que as suas teorias e propostas são abordadas, analisadas e criticadas.

Bom, quanto ao nosso “historiador”… de facto o homem é um septenário completo, logo contém o subtil e o grosseiro, ou, dito de outro modo e simplificando, quando a mente se alia aos níveis superiores – mais subtis – o Homem surge mais brilhante e radioso, capaz de “esquecer”, de comandar o pequeno eu, egoísta e de vistas curtas, ignorante, que vive na e da aparência, longe da Realidade. Mas, quando a mente se liga ao nível das baixas emoções, do egoísmo desenfreado, a fraternidade é obrigatoriamente ignorada, e a mente pouco funciona… Quem não sabe que quando a fúria emocional sobe, até que ponto desce a capacidade de pensar e agir correctamente, com virtude Humana e não com desvario animal?

Penso que a busca ordenada do Espiritual, da Realidade, leva tendencialmente à União, Yoga, Religião. Obviamente neste contexto, os instituicionalismos serão muitas vezes problemáticos e desviantes. Ousar pensar, e, fraternamente poder fazer o caminho escolhido, parece-nos uma escolha possível e acertada. É que a norma torna-se muitas vezes redutora, serviçal dos maus costumes, promovendo por vezes o contrário daquilo que pretensamente diz apregoar. Além do mais, parece não contemplar os diversos patamares de consciência, tornando-se por vezes violenta e sanguinária na sua praxis. Se não és da minha religião…

Por isso Espiritualidade (logo Religião[6])! Este “logo” não é imediatista nem preconiza facilitismos, mas propõe, isso sim, a escolha das várias via que possibilitam a elevação do Homem e das Sociedades dos Homens, segundo a Ética da Fraternidade entre os seres sencientes, até aos deuses, até Deus e para além... do que É, Foi e Sempre Será, para além do Inominável…

Para terminar, aqui deixo uma tabela com a Grande Holarquia, segundo Plotino e Aurobindo (na interpretação de Wilber), retirada do seu livro, publicado em 1996, A Brief History of Everything.

 

Plotino

Aurobindo

Único Absoluto (Divindade)

Sat-Chit-Ananda/Supermente (Divindade)

Nous (Mente Intuitiva) [subtil]

Mente Intuitiva/Sobremente

Alma/Alma do Mundo [psíquico]

Mente Iluminada do Mundo

Razão Criativa (visão lógica)

Mente Superior/Mente em rede

Faculdade Lógica

Mente Lógica

Conceitos e Opiniões

Mente Concreta

Imagens

Mente Inferior

Prazer/dor [emoções]

Emocional-Vital/Impulso

Percepção

Percepção

Sensação

Sensação

Função da vida vegetativa

Vegetativa

Matéria

Matéria (densa ou física)

 

Um Abraço

António



[1] EsCiReFi.

[2] De Estados Centrais – uma filosofia da mente – e também Dialéctico e Histórico.

[3] Deus, Saguna Brahman, como causa subjacente, constitui um exemplo de Idealismo.

[4] Designa a filosofia de Kant.

[5] Ver o Teorema de John Bell (não o do telefone), que não afasta a possibilidade – em relação às partículas - de variáveis ocultas não locais. Cf. Peter Atkins O Dedo de Galileu – As Dez Grandes Ideias da Ciência, Gradiva, 2007.

[6] Para os que pretendem enquadrar a questão religião, de um ponto de vista filosófico, sugere-se uma leitura: A Religião, de Derrida, Vattimo, Habermas e outros, da Relógio D’Agua. Visite-se também Proclo, Eckhart e Foucault.

Publicado por Re-ligare às 23:54
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3 comentários:
De Alexandre B. Weffort a 7 de Outubro de 2008 às 18:44
Caro António,
Seja à superfície, seja em profundidade, a conversa segue exigente. E a sistematização que adiantas é preciosa.
Nenhuma das perspectivas e conceitos que utilizamos (aceitando, genericamente, as delimitações que traçaste a cada um deles) se apresenta capaz de, por si só, responder de forma integral às questões formuladas. Aparentemente, torna-se necessário uma ruptura epistemológica (depois de ir, também, mais ao fundo das questões). Segundo Wilber e muitos outros pensadores), será a dimensão “Espiritual” a preencher os requisitos da síntese necessária, de superação das limitações que cada abordagem implica.
Voltando à proposta de Wilber (sem preocupação quanto à fonte onde ele vai beber ...), a busca de uma integração desses diversos contributos (construídos ao longo da história do pensamento humano, na superação das sua contradições reais e aparentes), implica um entendimento estruturado do físico ao espiritual e ao transcendente. Do nosso lugar no Cosmos como holons sencientes”. Mas a ruptura necessária obrigará a redefinir também o que consideramos como “transcendente”, conceito que se encontra, creio, aprisionado nas significações cristalizadas pelas diversas teologias.
Abraço,
Alexandre

De Carlos Guido a 10 de Outubro de 2008 às 11:13
Tenho acompanhado o desenvolvimento deste blog. Mas fico com a sensação de que os últimos conteúdos chegam a roçar o exercício quase narcisista entre duas pessoas que bem poderiam trocar essa correspondência em privado... Se a ideia é torcar-se «cartas» (como lhes chamam) de cá para lá e de lá para cá...poderiam usar o correio electrónico! Além de se notar uma total ausência de outras pessoas que colaboravam e que despareceram. Será que este novo estilo desintesessa a toda a gente menos aos próprios?

Peço desde já desculpa pela minha opinião, mas a meu ver, está muito desinteressante.
Por agora, voltarei (bem) mais tarde.
Carlos Guido.
De Alexandre B. Weffort a 11 de Outubro de 2008 às 20:21
Caro Carlos Guido,
Registo a opinião e, no que refere ao blog e à sua condução, remeto para o Prof. Paulo Mendes Pinto, responsável pelo mesmo e também pela componente académica onde o blog se insere.
Este é composto pelos contributos de quem entende (e como entende) participar. Os textos vão surgindo, ficando à cabeça o mais recente. Logo, quando um assunto não suscita reacções e o (salutar) debate, acaba por ser substituído por novo post . O facto de não surgirem novos textos não deriva dos que lá estão. Apenas significa que, nesse interregno, ninguém pretendeu avançar. Não cabe ao autor do texto responsabilidade pelos que seguem, muito menos pelos que não seguem.
E como toda a opinião é, por princípio, válida e relevante, proponho a reflexão acerca de um critério ou juízo que vem presente na sua crítica: que os textos são desinteressantes.
O uso do termo “desinteressante” é, ele próprio, interessante.
Na sequência dos textos partilhados sob a forma epistolar entre o António Faria e eu próprio (foi o género que entendemos utilizar) o termo “desinteressante” tem acompanhado de forma recorrente as críticas recebidas. É um juízo legítimo a quem o profere (disso não há dúvida nem discussão), mas algo contraditório pois ao ser manifesta a crítica é, no mesmo gesto, demonstrado algum interesse.
Estará o termo “desinteressante” a surgir em substituição a outro sentido, na manifestação de um juízo valorativo (como “inapropriado”, “inválido”, “não pertinente”, “incómodo”, etc.)? A razão da indagação é a seguinte: numa perspectiva científica tudo é potencialmente interessante. O interesse não emana dos dados em si mas do modo como os observamos. Nesta perspectiva, ser “interessante” é uma qualidade que releva não do evento observado mas do próprio observador. E esta característica (intrínseca à perspectiva científica) é também presente na perspectiva pedagógica.
Sendo também aluno da Universidade Lusófona no curso de Ciência das Religiões, é nessa qualidade participo no blog. E, creio que aqueles outros significados potencialmente presentes no termo “desinteressante” são justificativos de debate. De um debate interessante até no que refere à relação entre ciência e religião.
Alexandre

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