Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

AS IGREJAS E A POBREZA

 

 

 

«Fome Zero», «Pobreza zero», «Dia Internacional para a erradicação da pobreza», «Jogo pela pobreza» e a mais recente iniciativa religiosa «Operação Miquéias». Isto diz-lhe alguma coisa? São iniciativas de solidariedade para a erradicação da pobreza. Mas a pergunta impõe-se: serão mesmo relevantes?
 
Escrevo com a experiência de quem já fez, durante muitos anos e em vários contextos, um intenso trabalho de apoio social aos mais desfavorecidos, podendo daí tirar algumas ilações.
 
Já distribuímos toneladas de boa comida aos moribundos das ruas escuras nas noites de Lisboa; já fizemos, durante um longo período, distribuição quinzenal de centenas de sacos de alimentos num bairro pobre de Odivelas (sacos que, depois, algumas dessas pessoas iam vender para «fazer» dinheiro para a droga…); já alimentámos, meses a fio, outra comunidade miseravelmente pobre de outro bairro da Freguesia da Póvoa de Santo Adrião…
 
E se não tivéssemos parado, receio que ainda hoje estaríamos a alimentar as mesmas pessoas – ou, quem sabe, os filhos e netos daqueles que anteriormente ajudámos.
 
De todos os projectos que desenvolvemos, aquele que mais sentimos frutificar foi o projecto de apoio escolar às crianças de um bairro pobre de Odivelas. Chamava-se «Escola da Cidade» e funcionava assim: todos os sábados de manhã, várias dezenas de crianças que frequentavam a instrução primária vinham à «Igreja Central da Cidade» para uma manhã diferente: tomavam o pequeno-almoço, eram ajudadas nas tarefas escolares, tomavam banho e faziam ginástica. Algumas dessas crianças tinham mesmo fome, outras necessitavam realmente de ajuda com a matemática e o português e outras tomavam ali o único banho semanal. Claro que isto obrigava a dessacralizar a igreja e a transformá-la num imenso espaço multifuncional; o espaço sagrado de adoração dominical ficava transformado num espaço não menos sagrado de ajuda ao necessitado.
 
A minha mulher (que dirigia o projecto) e eu, sentimo-nos recompensados com este trabalho de uma forma singular: o que mais nos alegrou foi perceber a melhoria no aproveitamento escolar dessas crianças! De repente, aperceberam-se de que também eram capazes de ter bom aproveitamento escolar e de que eram tão bons como os outros! Os próprios pais dessas crianças foram ficando deslumbrados com a mudança de atitude e com o aproveitamento escolar dos seus filhos! Não será isso o início de uma fantástica reinserção social??? Será que conseguimos perceber que é aqui que a pobreza é vencida e a esperança nasce?
 
Tudo isto para dizer que desconfio dessas iniciativas de solidariedade que atiram comida para cima dos pobres. Não é por aí…um problema milenar não tem soluções instantâneas. E digo que a pobreza não se resolve atirando comida para cima dos pobres porque a pobreza é mais do que uma condição material, é uma condição mental! Não é tanto uma situação na vida, é algo mais profundo e enraizado: é uma cultura. E penso que a única forma de mudar essa cultura, escapar a uma espiral de pobreza e romper o ciclo vicioso da miséria é através de uma educação para a produtividade e para a prosperidade! Se essas iniciativas mediáticas, pontuais e efémeras, se concentrassem antes num projecto sério e consistente de acompanhamento integrado a crianças e adolescentes em situação económica deficiente, então sim…o futuro seria diferente!
 
Mas a moda é gastar rios de dinheiro numa campanha de marketing, chamar a televisão, contratar uma celebridade e montar esse espectáculo degradante de jogar comida para cima dos pobrezinhos. O plano é esparso, a prática é balofa e o efeito é nulo. Acaba-se a reportagem na televisão, as celebridades vão para casa, termina-se o evento e fica tudo na mesma. Mais uma vez, foram os pobres que acabaram por contribuir para que alguns beneméritos tivessem os seus 15 minutos de glória. A mim, não me aquece nem me arrefece que esses programas instantâneos de erradicação da pobreza sejam notícia nas televisões (até perdi a conta ao número de e-mails que já recebi a dar conta de que certa inicitiva até vai ser recebida pelo Presidente da República...). O que me interessará saber, daqui a cinco anos, é quantas crianças mudaram de vida, ganharam esperança, adquiriram novas ferramentas para a vida e quantas famílias foram reinseridas socialmente. O resto é fogo de artifício.
 
Não, não se erradica a pobreza sem erradicar primeiro a cultura de pobreza e reeducar as pessoas. Por isso é que se torna tão necessário deixar o acessório e concentrar esforços e meios no combate àquela que é talvez uma das maiores causas de pobreza: 45,5% da população, em idade escolar, abandona de forma precoce a escola.
 
Uma palavra às igrejas: primeiro, que as igrejas gastem menos em luxos internos e superfluidades e orçamentem cada vez mais para uma intervenção social em profundidade nas zonas doentes das suas comunidades. Segundo, que as igrejas expandam o discurso e se tornem um imenso centro de educação multidisciplinar, educando crianças e reeducando os adultos. Terceiro, que os dirigentes religiosos enfatizem continuamente o valor da educação como ferramenta indispensável para a alavancagem de uma vida.
 
Para erradicar a pobreza é necessário mais do que pão: é necessária educação, educação, educação! De resto, não diz a avisada sabedoria popular que «quem dá o pão dá a educação?».
 
 Luís Seabra Melancia

 

 

Publicado por Re-ligare às 02:18
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