Sábado, 3 de Janeiro de 2009

rir (não) é o melhor remédio?

Quando eu tinha uns escassos 15 ou 16 anos, apareceu nos cinemas um filme que se tornou num clássico. O seunome ficou famoso: O nome da rosa. No final do ano lectivo passado vimos esse filme. Interessa retornar a ele vezes sem conta. O texto escrito por Eco, no flem com a supervisão de Georges Duby, remete-nos para a complexa relação entre o Cristianismo e o humor, o riso.

             

Quando acabei de ler os primeiros comentários ao meu desafio de ontém, fui ao site que aloja os nossos blogs, ao SAPO. Entrei nas tags e, sem surpresa, vi o que era mais que esperado. Nesses marcadores temáticos, no Top 100 não contava o tema religião. Fechada sobre si mesma, a religião não sai para os temas que se procuram.

           

Mas mais curioso e elucidativo: o único tema na letra R, sim,a de «Religião» era.... nada mais, nada menos, que «Rir».

                 

Agora, tomando eu o direito ao humor: "escreve Deus direito por linhas tortas"?

               

Ou melhor, porque têm os religiosos tanta dificuldade em lidar com o humor?

             

Respondam-me, por favor.

                        

Paulo Mendes Pinto

Publicado por Re-ligare às 23:01
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8 comentários:
De Hélia Bracons a 4 de Janeiro de 2009 às 00:22
"O homem é o único animal que ri"
Aristóteles

Guilherme de Baskerville, frade franciscano do ano de 1327 dizia no filme que menciona..."Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade."

Na mentalidade cristã, é comum identificar-se o "homem sábio" com o "homem sério". O homem sério é aquele que não ri. "Sorrir era proibido! O tom sério afirmou-se como a única forma de expressar a verdade e tudo que era importante e bom. O riso, por sua vez, era visto como o oposto: a expressão do que era mau (pecado). O riso foi declarado como uma emanação do diabo. O cristão deveria conservar a seriedade sempre, para demonstrar seu arrependimento e a dor que sentia na expiação dos seus pecados."

... apesar de, ainda, o povo português estar preso a esta mentalidade retrogada, sisuda, séria, desconfiada, invertida.... actualmente, penso que, as coisas são diferentes, vão existindo, mesmo no seio da igreja católica, pessoas abertas, com sentido de humor, que sabem interpretar o riso e o sorriso e fazer disso algo belo e sublime, e mais , capazes de chegar aos outros através desta virtude, que passa, também, por rirmos de nós mesmos...
De Re-ligare a 7 de Janeiro de 2009 às 00:04
Cara Hélia,

Se há fenómeno que me espanta na longa História da Humanidade, é esse de se ter construído a ideia de que o riso é antónimo de siso.
De facto, e comprovando isto que não é mais que uma constatação, a espiritualidade cristã desenvolveu um «dom as lágrimas» e não do riso. A lágrima, como a de Madalena, é a virtude do arrependimento.
O riso sempre foi aliado e visto com o consumo de alcool, a festas, a... deboche, ao que de pior se acreditava ser Roma.
Há uns estudos muito interessantes que nos dizem que a posição natural dos músculos da face é... o sorriso. Usamos brutalmente menos músculos a sorrir que a fazer cara séria... o natural é sorrir e rir.
Se quisermos ver a religião como o espaço da negação do riso, então é mais que a negação do riso, mas sim do próprio Homem.

Obrigado pelo comentário,
pmp


De Luís Seabra Melancia a 4 de Janeiro de 2009 às 04:22
O «post» a que este comentário dá resposta, termina com a pergunta: «Porque têm os religiosos tanta dificuldade em lidar com o humor?». Pois bem:

1. Primeiro, porque a Escritura Sagrada apresenta Jesus a chorar várias vezes, mas nunca o descreve a sorrir, quanto mais a rir (e será que ele nunca deu uma vigorosa e sonora gargalhada???) …

2. Depois da escritura sagrada, é a arte sacra que lhe segue o exemplo: apresenta um Jesus sempre sério, de aspecto deslavado e triste, maldisposto e doentio, sem expressão nem emoção (ai se eu fosse pintor…)

3. E finalmente, como se a escritura e a arte sagradas não bastassem, é a instituição sagrada (a Igreja) que não se ficou atrás: a austeridade religiosa da Idade Média (e da de hoje...) proibia que se risse na Igreja e identificava o riso com a leviandade e o pecado. Ainda hoje temos de escolher entre o riso ou o ciso...

4. Mas Jesus também invectivou os poderes do seu tempo e esboçou uns cartoons falados: ao Herodes (o poder político) chamou-lhe «raposa» e aos fariseus (o poder religioso) chamou-lhes «víboras». O que me leva a concluir que este fenómeno – o de espicaçar, provocar, dar alfinetadas aos poderes instituídos, sejam eles políticos ou religiosos – é tão antigo, normal e universal como o homem.

5. Temo que se alguns cristãos tivessem realmente poder e peso institucionais, não fariam melhor do que os muçulmanos que pedem a cabeça do escritor Rushdie, ou os hindus que pedem a cabeça do pintor M.F. Hussain, ou ainda como aqueles fundamentalistas que «incendiaram» a Dinamarca por conta do cartoon sobre Maomé. Ai, ai... os «Gato Fedorento» que pusessem as barbas de molho e se cuidassem…

6. O problema surge quando algumas pessoas não só se acham detentoras únicas da verdade, como ainda por cima nem admitem serem postas em causa…

7. «Porque têm os religiosos tanta dificuldade em lidar com o humor?» Alguns porque são realmente chatos, cinzentões, pouco inteligentes e desinteressantes; outros, (talvez a maioria) por insegurança, muita insegurança! Enquanto os crentes não perceberem que a presença da «não-fé» é tão legítima como a «fé» (e porventura muito útil a esta) …nada feito.

De Welberg Rodrigues a 4 de Janeiro de 2009 às 13:51

Rir ou não rir eis a questão.
A sátira, comédia e paródia, não são um acontecimento recente e muito menos restrito. A origem da comédia tem sua raiz nas festas dionisíacas, consagradas ao deus Dionísio, que se realizavam em toda a hélade . As Dionisíacas Urbanas eram, de todas, a mais importante. A palavra comédia vem do grego komoidía . Sendo a junção de komo ” procissão jocosa e oidé canto. A palavra komos tem múltiplos sentidos no vocabulário grego. Havia dois tipos de procissão que tinham a designação komoi . Um deles consistia-se numa espécie de cordão carnavalesco, na qual participavam os jovens. Estes saíam às ruas da acrópole batendo de porta em porta, pedindo prendas e donativos. Nestas komoi era hábito também expor à zombaria aos cidadãos da polis. Outro tipo de komoi era de natureza religiosa. Esta segunda era realizada nas festas dionisíacas. Nesta procissão, era celebrada a fertilidade da natureza. Se escoltava nesta komoi , uma escultura representando um pénis. Era hábito também que, durante a procissão, as pessoas trocassem palavras grosseiras entre si. Estes palavrões tinham conotações religiosas. O surgimento da comédia só foi possível por causa da democracia, conquistada no século cinco a.C , quando a liberdade de expressão atingiu um nível inigualável na história para os chamados homens livres, porém os escravos, mulheres e estrangeiros eram excluídos deste direito. A comédia, em sua fase inicial, denominada comédia Antiga, tinha carácter radicalmente político. Tudo e todos eram satirizados pelos comediógrafos. Esta zairização não poupava nem os deuses, como se pode constatar na comédia "As rãs". Nesta comédia, o deus Dionísio, o mais popular dos deuses gregos, aparece caracterizado com uma roupa de uma prostituta. Na peça, o deus se revela covarde e afeminado. Este estilo tão violento estava permanentemente ameaçado de extinção. Sua existência devia-se à democracia ateniense. Por mais de uma vez neste período, tentou-se decretar a proibição da inserção de personagens relacionados a personalidades vivas, a alusões jocosas aos mortos e até mesmo proibir a crítica aos juízes. Somente a queda de Atenas e de sua democracia pôs termo à Comédia antiga. Como podemos notar este problema de pessoas não gostarem das sátiras não é nova e principalmente quando toca na questão religiosa. Porém devemos lembrar algumas coisas interessantes. Tais como o nome, Isaac, Isaque ou Yitzhak , do hebraico יצחק literalmente "ele vai rir". Porque sua mãe quando soube da promessa dada a Abraão riu. “Pelo que disse Sara: Deus preparou riso para mim; todo aquele que o ouvir, se rirá comigo.”; O salmista declarou “Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cânticos. E ainda o sábio Salomão declarou: “Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;” O problema não está nas sátiras religiosas mas sim na capacidade de cada ser humano em enfrentar esta realidade, bem presente desde os tempos antigos. Penso que chegou o tempo de cairmos na realidade, e esta é, o ser humano jamais deixará de ser criativo, alegre, feliz, capas e vivo. E é isto, que nos diferencia dos demais animais. Somos livres graças a Deus.
De Capriello, Luiz Antonio a 6 de Janeiro de 2009 às 11:28
Prezados colegas, li os comentários e do ponto de vista histórico concordo com todos, entretanto fica um alerta sobre a questão cultural de um povo que se sentiu "ofendido" com a relação entre igreja e política, mesmo que tratada de forma humorística.
Devemos pensar também na questão da liberdade como um todo; não é fácil debater este tema.
Frank Usarski escreve em seu livro Constituintes da Ciência da Religião que expressões que tenham forma pejorativa devem ser excluidas do vocabulário.
Então respeitar a liberdade de religião/culto e a liberdade de expressão ?
Como futuro cientista da religião penso que a maneira mais simples é tornar nossas impressões/críticas públicas de uma forma direta, pontuando cada item e explicando o por que de cada objeto de crítica, desse modo não nos distanciamos do real foco da discussão ou polêmica.
Em um dos comentários foi feita uma colocação em relação ao povo com as expressões : sisuda e retrógrado; eu não concordo, pois não podemos julgar um povo ou nação sem levar em conta a história, sociedade, moral , costumes e etc...
Um abraço,
Capriello, Luiz Antonio
De João Pedro Robalo a 6 de Janeiro de 2009 às 22:58
O Humor e a Religião

Respondendo ao desafio do Prof. Paulo M. Pinto e depois de ler os comentários, parece-me útil apresentar um outro lado do assunto.
Na verdade a maioria da cristandade tem alguma dificuldade em relacionar as duas questões. Humor surge tradicionalmente excluído do discurso e conduta de vida cristã.

No entanto, na pluralidade do cristianismo – que é uma das suas maiores virtudes – encontramos hoje em dia vivencias religiosas que não profanam o riso, a alegria, o sentido de humor e a boa disposição.

No meio evangélico – apesar de todos os exageros e defeitos que lhe são imputados – uma coisa de certo todos reconhecemos: A abertura para o humor, o riso e até “Show Humorístico” à volta de toda a vivência religiosa dos seus seguidores.
Uma simples busca no Google ou Youtube encontrarão imensos artistas de stand up que fazem desta arte a sua carreira.

Quando se possui a tranquilidade suficiente na abordagem á dimensão religiosa de uma perspectiva psicológica confiante – como é apanágio na teologia cristã reformada – consegue-se desfrutar o melhor da vida, e isto envolve o sentido de humor, a alegria diária da vida renovada segundo os padrões cristãos da revelação bíblica.

Convém, neste caso, referir que a Bíblia não refere apenas o facto de Jesus ter chorado, também faz menção da sua alegria.
Lc.10.21 “Naquela mesma hora alegrou-se Jesus no Espírito Santo, e disse:”
Esta situação refere-se ao resultado surpreendente que os discípulos haviam alcançado quando enviados por Jesus pelas regiões que iria visitar posteriormente.
O relato dos seus seguidores originou esta alegria que Jesus foi protagonista.

Podemos considerar que este não será o tipo de humor ou alegria que nos referimos normalmente, mas pelo relato do Evangelho, não deixa qualquer dúvida que foi um momento de boa disposição e regozijo.

No seguimento do desenvolvimento da cristandade vemos o Apóstolo Paulo ordenar aos cristãos a quem doutrinava para se alegrarem – não apenas quando os momentos eram favoráveis ou fáceis – mas tal como diz: Sempre! (1ªTs.5.16)

Parece-me que o problema da dificuldade entre o sistema religioso e o riso alegre é um problema de interpretação, não só da teologia, como da dimensão de vida que Jesus veio inaugurar na sua vinda há cerca de dois mil anos.
Um cristão com uma boa consciência e sobretudo com uma teologia fundamentada na graça de Deus, desfruta mais da vida, da natureza e das oportunidades diárias que lhe são proporcionadas todos os dias.

Este é o cristão que é capaz de brincar, divertir-se, rir de si próprio e sobretudo compreender que alegria é sinónimo de espiritualidade e não o contrário.

Espero ter contribuído com algumas ideias para o debate sobre este assunto.

João Pedro Robalo aluno do 2º ano de Ciência das Religiões.


De Florbela Nunes a 7 de Janeiro de 2009 às 11:09
Com gosto respondo também

Religião, Humor, o que é melhor?...

Já dizia Salomão que “ O coração alegre serve de bom remédio…”

O humor pode ser usado, e muito bem por vezes, como uma forma de fazer pensar acerca daquilo que não está bem, e colocar em questão ou ser colocado em questão, é saudável e contribui para as mudanças e aprendizagem da vida. Todos somos colocados em questão e normalmente ninguém aprecia. A forma como lidamos com isso é que por vezes deixa muito a desejar… ou pode revelar humildade e sabedoria em querer disso tirar proveito, ou não.
A alegria, que é sempre alguma coisa boa, (e quem não gosta é porque de facto não a conhece) é um veículo para a saúde, e também para a comunicação.
Sem dúvida, e voltando questão final do Professor Paulo Mendes Pinto, que os religiosos, aqueles (e não especifico de que religião podem ser) que estão fechados em si mesmos, têm dificuldade em lidar com a alegria dos outros, ou com o riso. Existem não religiosos, mas que criticam os outros apesar de não suportarem ser ser colocados em questão, pois também estão fechados em si mesmos, existem aqueles que são escarnecedores só porque são e fazem-no sem nenhum objectivo e disso tiram a sua “alegria”, mas… O Zé Carlos não se deve importar muito com as consequências do seu “sketche”porque já deve ter posto muita gente a pensar e certamente já está habituado a estas coisas…
Lendo algumas impressões de várias pessoas entre as quais de um bispo, de um sociólogo e de um não religioso acerca do “sketche” que mais cartas recebeu nestes últimos tempos segundo a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, deixo as suas palavras: “Tem não tiver humor, não veja”.


Florbela Nunes

Aluna do 3º ano da Licenciatura de Ciência das Religiões



De JEYSON MESSIAS RODRIGUES a 12 de Janeiro de 2009 às 13:18
Achei fantástica sua provocação sobre a tão "sem-graça" relação comumente observável entre os religiosos e o riso. Rubem Alves, em Religião e Repressão alude a espiritualidade com o vôo de um pássaro e a religião com a gaiola que limita, regulamenta esse vôo. Às vezes chego a me identificar com a música de Roberto Carlos: "Será que tudo que eu gosto é imoral, é ilegal ou engorda?" (risos). O que penso sobre esse "mau humor" religioso é que são fruto de uma centralização histórica antiga-medieval do divino em detrimento de quase tudo inerente ao humano (morte, prazer, sexo, riso, irreverência) que destoava dos focos litúrgicos, sacerdotais sacramentais. Mas a dialeticidade da história nos mostra seu potencial para mudanças (ainda que lentas). A mesma espiritualidade "evidenciada" pela experiência mística, pela observância de rituais, e principalmente pelo jogo do "NÃO-PODE NÃO-DEVE", talvez tenha, nestes novos tempos, mediante a tão criticada relativização pós-moderna, a oportunidade concreta de relativizar esse mau humor religioso. Pelo menos acho que será engraçado!

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