Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Religião e prática criminal

Há uns tempos, fui surpreendido por uma constatação: se certa região tem uma percentagem tão alta de religiosos, porque é ela tão marcada pela corrupção e pelo crime?

            

Tenho que me confessar. Na minha ingenuidade, até esse momento eu não estabelecera uma relação. Mas sim, seria para mim óbvia: uma região ou uma população bastante religiosos deveria ser menos dada ao crime.

           

Contudo, a prova de uma ou outra visão é complexa.

        

Trago-vos, em tom de provocação, dois links.

            

Um é referente a um estudo e diz-nos que muitos presidiários no Brasil optam por se converterem. Será para melhor se integrarem e fugir a certas práticas e castigos?

          

O outro diz respeito a um caso específico, de contornos assustadores, mas igualmente importante para este espaço.

              

No fundo, a minha questão pode ter algumas abordagens para as quais eu gostava de nos conduzir:

          

1. Que relação podemos esperar da religião com a ética? pelo menos por parte significativa dos seus crentes?

2. Numa época em que olhamos para as religiões de forma tão utilitária, poderá ser a religião um lugar de guarda de valores?

3. Poderá ser a religião um escape social, tão facilmente usado como qualquer outro móbil?

         

Os links são:

           

http://www.usp.br/agen/repgs/2006/pags/014.htm

             

http://e-paulopes.blogspot.com/2008/11/madrasta-de-isabella-quer-virar.html

         

Espero os vossos comentários.

paulo mendes pinto

 

 

 

 

Publicado por Re-ligare às 00:13
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4 comentários:
De Alexandre Weffort a 13 de Janeiro de 2009 às 08:49
Caro Paulo Mendes Pinto,
Há, creio, que diferenciar as categorias do problema: conduta social, profissões, credos. Há, certamente, indivíduos que se dedicam a uma conduta criminosa oriundos das mais diversas categorias sociais (do crime do “colarinho branco” ao assalto de rua, passando pelas mais diversas formas de violência domestica, pela pedofilia, etc. ).
E conhecemos pela imprensa casos em que esses crimes são consumados por indivíduos das mais variadas profissões – até por sacerdotes – e que se assumem como crentes em qualquer das religiões (ou em nenhuma delas).
A religião desempenha historicamente um papel de regulação e regulamentação dos comportamentos humanos. É a própria religião que define, em primeira instancia, o que é considerado crime. Se não houvesse crime nas sociedades humanas a religião não teria de se dedicar a essa função reguladora.
O facto de os discursos religiosos conterem um enfoque ético, de regulação dos comportamentos, não implica que o crime – considerado como sendo um comportamento desviante – seja assim entendido (e da mesma forma) pela sociedade onde a prática religiosa se insere.
Há que não confundir a constatação de uma correlação com a existência de uma relação causal: o facto de os discursos religiosos conterem um enfoque predominante na ética não determina nem que os comportamentos lhe correspondam nem faz da religião um “lugar de guarda de valores”. Pelo menos, o único lugar de guarda dos valores éticos.
Abraço,
Alexandre

De Eduardo Vasconcellos a 14 de Janeiro de 2009 às 02:52
Salve!
Creio que o tema permite muitas abordagens e ampla reflexão. No entanto, gostaia de me restringir a duas delas: o crescimento da população evangélica nos presídios e a questão da ética religiosa.
Quanto à primeira, um dado da reportagem da USP parece significativo: aquele que registra as várias denominações que atúam dentro dos limites dos presídios e que, fora dessa circunscrição, são diferente em seus dogmas (às vezes até antagônicos), porém no trato com os presidiários atúam de comum acordo, isto é, de acordo com a reportagem "seguem o mesmo padrão". Não seria esse "padrão" a essência da mensagem evangélica que, ao desprender-se dos dogmas, facilitam a conversão dos indivíduos? Porque, ainda que se cogite algum oportunismo nessa "conversão" não se pode desprezar a grande possibilidade do indivíduo deparar-se num vazio existencial verdadeiro que permite a entrada do Cristo em sua vida. Nesse caso, a crescente população evangélica carcerária seria decorrente de um bem sucedido trabalho evangelísco aliado à suscetibilidade de um indivíduo sem perspectivas.
Por outro lado, a questão da ética no meio religioso foge dos presídios. Ou é caso para ser levado a eles. É curioso que na Bíblia não existe a palavra "ética". O termo que poderia ser assemelhado, nessas condições, seria "santidade", ou seja, para os padrões bíblicos, uma pessoa santa é uma pessoa ética. mas se transportamos essa relação para o mundo secular, a recíproca nem sempre é verdadeira. Quero, dizer, nestes tempos do "politicamente correto" ser ético nem sempre significa ser santo ou estar de acordo com os padrões bíblicos. Vide o exemplo das campanhas contra a propagação das DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis) aqui no Brasil. O Ministério da Saúde chega ao cúmulo de colocar máquinas de preservativos nas escolas (como máquinas de refrigerante) para evitar o contágio, no entanto, não se aplica um centavo em promover as vantagens de uma vida casta.
Nesse caso, a ética dissociada de uma revelação que conduza à moralidade é inútil pois a promessa bíblica é de que "veremos a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que não o serve" [ Ml 3.18] Portanto, creio eu, pelo menos dentro da cristandade, deveríamos susbtituir o termo "ético" por "santo".

Sds

Eduardo Vasconcellos
De Luís Seabra Melancia a 14 de Janeiro de 2009 às 09:13
Meu caro amigo e director Paulo Pinto:
como sabes, o meu amigo Harold Caballeros, fundador e Reitor da Universidad S. Pablo, em Guatemala e candidato presidencial nesse mesmo país, chamou-me também a atenção para a discrepância gritante que existe na América latina em geral e no seu próprio país em particular: a altíssima percentagem de cristãos não condiz com os elevados níveis de corrupção existentes. Ele acha que os cristãos, necessariamente portadores de um conjunto de princípios morais e éticos, deveriam ser «sal da terra e luz do mundo» – na empresa, na universidade, no governo, etc. Isto é, os valores partilhados pelos cristãos, resultantes de uma cosmovisão gerada pela Bíblia, deveriam ter tradução prática na forma como se vai construindo a sociedade. E não tem! Para ele, os cristãos são muitos, mas a sua presença não se faz notar ou sentir. Depois, há o «caso Brasil», onde alguns pastores evangélicos, deputados, já foram judicialmente acusados por corrupção…

A meu ver, o problema reside no facto de o cristianismo, herdeiro de uma mundivisão grega, ter desenvolvido um dualismo que se traduz na criação de uma vida a duas velocidades: o sagrado e o profano; o religioso e o secular; o sacerdócio e o laicado; a igreja e o mercado de trabalho; o convento e a empresa; o domingo e os dias úteis (e assim se vai sedimentando a ideia de que o domingo nem é dia útil, isto é, nem serve para nada...).

Ora, de acordo com essa grelha de leitura, o cristianismo torna-se uma espécie de fato e gravata (ou batina...) que se veste ao domingo; um conjunto de doutrinas ÚTEIS PARA O DOMINGO MAS INÚTEIS PARA OS DIAS ÚTEIS!!! No limite, é possível ser-se cristão ao domingo e ladrão à segunda, porque um universo não tem comunicação com o outro. As crenças estão separadas das práticas e uma coisa é a vida na igreja, outra é a vida «lá fora».

O que falta é uma metamorfose necessária: o cristianismo tem de abandonar essa ênfase exagerada na ortodoxia doutrinária (que cria mais inimizades e divisões que outra coisa) e deve preocupar-se em articular e traduzir uma ética cristã com tradução prática na vida como ela é. Para viver e vencer, o cristianismo do século XXI tem de saber responder a este desafio! Mas já não falta tudo: Barth, Bultmann e outros, já fizeram o mais difícil – desmitologizar o cristianismo e trazer à superfície o que ele tem de relevante para o mundo hoje. Agora só é preciso perceber que, mais importante que levar uma pessoa a defender um dogma, é ensiná-la a viver uma ética. E, a meu ver, a ética cristã parece continuar a ser o material de construção que melhor satisfaz as necessidades individuais e colectivas.

Quando os cristãos nascerem de novo (para usar uma expressão jesuana) e passarem a preocupar-se mais com a prática de uma ética cristã no contexto de uma comunidade do que com a defesa dos dogmas, então baixará a corrupção, a violência, o crime organizado, o tráfico, a escravatura…e até a crise dará lugar à retoma económica!!!

Luís Melancia
De Welberg Rodrigues a 16 de Janeiro de 2009 às 11:05
Ilusão de óptica.
Durante muito tempo temos observado os grandes ilusionistas, que com suas peripécias conseguem iludir a nossa visão e percepção. Ficamos deveras fascinados, e as crianças então, elas exultam de alegria ao verem suas mágicas e espectáculos. Porém para os mais crescidos e entendidos a história é um pouco diferente. Da mesma forma somos iludidos muitas vezes pela falsa ética religiosa que nos últimos tempos tem se tornado uma verdadeira ilusão de óptica, “faz o que digo e não faz o que faço”. Esta tem sido a linguagem religiosa, não só hoje, mas no decorrer da história. Quem não se lembra do casamento de Letizia Ortiz com o Príncipe espanhol Filipe, ela divorciada não poderia contrair matrimónio mais pela igreja. Será que isto aconteceu? Acerca dos links, os acho interessantes. Primeiro por eles serem do lugar onde nasci, e por isso posso falar com um pouco de conhecimento de causa. Alguns anos atrás o movimento evangélico brasileiro foi muito sacudido por todos, e principalmente pela comunicação social, onde sempre observaram os evangélicos como uma espécie de “praga a ser dizimada” e em qualquer momento de falha de seus líderes eles ficavam “na boca do povo.” Sempre foi assim, porém, como sabemos “quanto mais se bate na massa mais ela cresce”. Uma vez um grande governante brasileiro chamado “Getúlio Vargas” uns dos maiores homens daquele país, foi confrontado por religiosos de grande poder na nação, acerca do dito movimento evangélico em crescimento. Foi exigido, que ele como governante tomasse uma posição, e acabasse com estes dissimuladores. Sua resposta não tardou, após uma semana a visitar presos nas penitenciárias da cidade do Rio de Janeiro, perguntava a cada preso com quem conversava o seu credo religioso. Naquele tempo não encontrou nenhum dos dissimuladores naquele lugar. Então respondeu a seus exigentes religiosos, que não poderia acabar com um movimento que não causava dano a sociedade. Da mesma forma não vejo qual o dano que os pregadores de prisão estão causar a sociedade, uma vez que o desejo destes ditos pregadores é levarem os presos a reconhecerem seus erros e se possível mudarem de vida. Qual é o problema se pessoas saírem da cadeia com um desejo diferente daquele que o colocou naquele lugar. Porque a Isabela não pode ter o direito de mudar, o que fizera não é nada louvável e nem exemplo para ninguém, mas isto não significa que não possa ser recuperada. “Os doentes é que necessitam de médicos” e “quem não tem pecado seja o primeiro a lançar a pedra.” Termino com um provérbio judaico que diz:” Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.”

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