Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

O Atlântico como fronteira e desafio da laicidade.

 

 
Enquanto instrumentos civilizacionais relevantes, reconhecemos o papel dos media na construção de uma opinião pública que desejamos informada e esclarecida. Todavia, urge observar e analisar criticamente os respectivos «formadores». Sobretudo quando, por ignorância ou instrumentalização, emitem opiniões sobre a convicção religiosa dos líderes políticos, assim como da convicção politica ou social dos líderes religiosos.
Com base na análise do discurso dos “eixos do bem e do mal” e em nome da laicidade europeia – que rejeita a menção de Deus e do cristianismo na sua eventual constituição e proíbe a exposição de símbolos religiosos no espaço público – alguns colunistas sublinharam que a dicotomia entre “pombas e falcões” era alimentada pelo fundamentalismo religioso americano. Porém, entre as diversificadas análises e comentários dos mesmos ao discurso de tomada de posse do novo Presidente americano, encontramos apenas considerações sobre o seu discurso humanista, e destaque da lucidez, firmeza e sentido de responsabilidade que o mesmo apela. Há um silêncio sobre quaisquer observações ou esclarecimento quanto à liberdade de expressão pública da fé, à legitimidade de jurar fidelidade à nação sob a Bíblia e à “liturgia” que norteou a cerimónia. Será que as presenças dos líderes religiosos e respectivas orações reflectem um acto fundamentalista do democrata Obama? Será que as celebrações religiosas, antes e depois da tomada de posse, revelam que a nova democrata administração americana é, também, conduzida por elementos de natureza messiânica? Então, de que falávamos quando falávamos de messianismo ou fundamentalismo religioso americano? Independentemente de serem Republicanos ou Democratas, em última instância, será que a presença da religião no discurso e acto político é sinal de retrocesso no processo de laicização dos Estados Democráticos? Com relevância Paul Ricoeur responde, afirmando que: “é preciso ter mais sentido histórico e menos sentido ideológico, para abordar os problemas ligados à laicidade.” (Crítica e Convicção, p.181)
No discurso de Obama, não encontramos um desafio à religião, mas à relevância de uma conquista e herança americana: o respeito pela expressão e lugar das diferentes religiões na sociedade. Por isso, o seu desafio aos compatriotas não residiu na lealdade à religião dos “Pais fundadores” da nação mas na sua fidelidade aos princípios subjacentes aos documentos instituidores. E isto, na medida em que foram capazes de “encarnar o espírito de missão, uma vontade de encontrar significado em algo maior que eles próprios; é precisamente este espírito que todos devemos ter. (…) em última análise, o nosso país conta com a fé e a determinação do povo americano.” É no contexto desta herança que, entre Lincoln e Luther King, Obama ousa da liberdade de citar as Escrituras (1 Cor. 13,1) para admoestar os conterrâneos a necessidade deixar para trás o tempo da infantilidade. É no contexto desta herança que não se inibe de encorajar os cidadãos mediante alusões bíblicas que: aconselham à necessária perseveração do espírito (Ap. 2,2), fundamentam o sonho de que todos são iguais e livres (Gl. 3,28) e convidam o indivíduo a reflectir sobre a providência divina na história do povo como repositório de confiança (Sl. 78,7) que ajudará a ultrapassar o “Inverno rigoroso”. É no contexto desta herança que, as palavras dirigidas aos movimentos terroristas, fazem ressonância da narrativa bíblica recordando o facto de sermos julgados pelo bem que poderíamos ter feito e não fizemos (Tg. 4,17). Por fim, é no contexto desta herança que podemos compreender a tradicional “bênção” presidencial: “Que Deus vos abençoe! E que Deus abençoe os Estados Unidos da América.”
Não está em causa um juízo sobre a natureza dos valores religiosos supra citados, mas a liberdade de poderem estar presentes no acto mais público e solene da vida da nação. Que percepção tem o presidente americano e os 2 milhões que assistiram à cerimónia no Capitólio – para não falar dos observadores planetários – no recurso a tais símbolos e simbologias? Que significado pode ter a afirmação dos postulados religiosos que suportam a sua dimensão moral? Que implicações concretas estes mitos e rituais podem ter no comportamento do 44º presidente dos EUA e no povo que nele depositou a sua confiança?
Regressar a Tocqueville e à sua obra “Da democracia da América”, poderá nos ajudar na tarefa de confrontar e a contextualizar o discurso e o respectivo programa de tomada de posse, num contexto histórico e cultural que, cada vez mais se torna incontornável para a reflexão do conceito de laicidade. Tocqueville compreendeu que, em oposição ao menosprezo do iluminismo francês pela dimensão da liberdade religiosa, a América fazia dela a sua força democrática e reconhecia nela contributo que legou ao desenvolvimento de uma educação para o futuro da nação.
No quadro diplomático inerente à Ciência das Religiões impõe-se aliar a relevância do debate ao rigor da argumentação. Esta proposta a reflexão, tem apenas a pretensão descortinar a importância da religião como postulado basilar de quem se ocupa da observação da sua mundividência. Quiçá até, apesar do seu “universo extraordinariamente complexo”, apresentá-lo como farol do processo civilizacional? Recordamos um «profeta» contemporâneo quando exorta a Europa a reconhecer-se como produto forjado na tensão da dialéctica político-religiosa. Em alusão a Ulísses de regresso a Ítaca, Eduardo Lourenço lembra-nos que precisamos: “de liberdade para buscar a verdade e verdade para preservar a liberdade.” (Nós e a Europa, ou as duas razões, p.77)
 
Simão Daniel Cristóvão Fonseca
(aluno do Mestrado em Ciência das Religiões, Lisboa)
Publicado por Re-ligare às 10:40
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