Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Martin Buber «contra» Carl Jung

 

 

Na última aula de Psicologia das Religiões passei os olhos, juntamente com os meus alunos, por dois capítulos de um livro fabuloso de Martin Buber, «O eclipse de Deus». Às páginas tantas, Buber deixa Jung entrar no livro e escrever um capítulo, soberbo, sobre Psicologia e Religião. Nesse capítulo Jung invectiva, provoca, acirra Buber. De seguida, cabe a Buber defender a «honra do convento» apresentando o que ele acha serem os pontos fracos da argumentação de Jung, defendendo «a sua dama».

 

Correndo o risco de uma simplificação exagerada, diria que o «duelo» vai nesta direcção: Jung diz que Deus não pode existir separadamente do homem. «A imagem que temos de Deus, ou formamos de Deus nunca está separada do homem. Poderá Buber indicar-me onde Deus fez a sua própria imagem separada do homem?», pergunta Jung. Para ele, Deus é um fenómeno psíquico e não existe separadamente do psiquismo humano.
 
Buber corta cerce e argumenta como quem desfere um golpe certeiro com um machado afiado: «nem a ciência psicológica nem qualquer outra ciência é competente para analisar o teor de verdade da fé em Deus. Cabe a seus representantes manter-se à distância, mas não lhes cabe opinar dentro de sua disciplina sobre a verdade da fé em Deus, como fazem sobre qualquer outra coisa de que têm conhecimento».
 
Em face disto, resta-me valorizar e ensinar o que há de consistente, de sólido (porque há…) em cada uma destas posições diferentes. Claro que fujo a sete pés daqueles que têm muitas certezas… e que engendram, fabricam, falsificam certezas - quaisquer que sejam elas!
 
No que a Deus diz respeito, bem faríamos se fizéssemos como diz o escritor aos Hebreus, que nos diz que tudo o que alguma vez conseguiremos será, somente, uma aproximação a Deus. «Porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus» (Hebreus 11:6), diz ele. Chega de dogmas, de certezas forjadas, de fundamentalismos exacerbados e ortodoxia implacável, como se a totalidade de Deus tivesse sido por nós apreendida, como se nos tivesse sido revelada por inteiro, ou se tivéssemos chegado e Ele…
 
Limitamo-nos a tentar uma aproximação e, ainda por cima, como quem vai... «tacteando», como dizia S. Paulo aos atenienses (Actos 17:27)!
 
Luís Seabra Melancia
Doc. na Lic. em C. das Religiões
 

 

Publicado por Re-ligare às 01:35
Link do post | Comentar | Favorito

.Mais sobre Ciência das Religiões

.Pesquisar

.Posts recentes

. Ψυχή, Psychē e Fado

. A PRESENÇA AUSENTE (três)...

. A CULTURA QUE NOS REDEFIN...

. Música e Emoções - Romant...

. Biomusicologia – Definiçã...

. Natal, naTAO

. Encontro com Manuel Frias...

.Arquivos

.tags

. todas as tags

.Links

.Links

blogs SAPO

.subscrever feeds