Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

A FAMÍLIA DE JESUS

(Seu pai, sua mãe, seus irmãos, suas irmãs, seus tios, seus primos,  
seus parentes)
 
 

             Estava Ele ainda a falar à multidão, quando apareceram sua mãe e seus irmãos, que, do lado de fora, procuravam falar-lhe.

             Disse-lhe alguém: «A tua mãe e os teus irmãos estão lá fora e querem falar-te.»

            Evangelho de S. Mateus (12,46-47). Escrito por volta dos anos 80 
           

            Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: «De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?»

            Evangelho de S. Marcos (6,2-3). Escrito entre os anos 65-70 
           

            E todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus.

            Actos dos Apóstolos (1,14). Escritos entre os anos 80-90 
           

            A seguir, passados três anos, subi a Jerusalém, para conhecer a Cefas [Pedro], e fiquei com ele durante quinze dias. Mas nas vi nenhum outro Apóstolo, a não ser Tiago, o irmão do Senhor. O que vos escrevo, digo-o diante de Deus: não estou a mentir.

            Carta de São Paulo aos Gálatas (1,18-20). Escrita por volta do ano 53 
           
           

  O interesse pelo conhecimento da família de Jesus pode ser suscitado por variadas e díspares razões, mas todas elas, normalmente, se resumem a:

  Simples e justificada curiosidade, pois as relações de família e a envolvência afectiva de qualquer pessoa funcionam como catalisadores de sinergias, tanto na formação do carácter como na modelação das personalidades. Conhecer-se a ambiência familiar (idealmente, de todos os seus membros) é, de certo modo, ficar de posse de uma quantidade grande de elementos de aferição que ajudam a entender as reacções, os comportamentos, os gostos, as tendências e as escolhas de cada pessoa, na sua vida adulta activa (individual e socialmente). E Jesus, como «verdadeiro» homem, não escapa a esta necessidade de análise.

  Motivações de ordem teológica. Neste caso, está presente, habitualmente, a fundamentação de argumentos (prós e contra) que giram à volta do que se convencionou chamar «virgindade perpétua de Maria».

  A virgindade de Maria, no acto da concepção de Jesus, é consensual para todos os Cristãos (Ortodoxos, Católicos, Anglicanos e Evangélicos/Protestantes), porém diverge, quanto a ser «virgindade perpétua» (antes, durante e após o parto) ou não. 
 

*   *   * 
 

  Será à volta da questão teológica que se esgrimirão os argumentos sobre este «estafado» assunto, ao longo dos séculos. Sim, porque isto não é novo. É assunto, há muito pensado e debatido, por milhares de pessoas que a estas questões têm dedicado muito interesse (e humana curiosidade!).

  Os textos epigrafados, se forem vistos à luz do conceito moderno de família, do Ocidente, só pode levar a uma interpretação: Maria tinha diversos filhos e, em consequência, Jesus tinha diversos irmãos.

  Esta, porém, poderá ser uma interpretação muito simplória, cientificamente, pouco exigente e, socialmente, descontextualizada. Suponho que se fosse esta a leitura mais plausível, a discussão já teria terminado, há muito. Porém, ela continua, porque se reveste de alguma complexidade. Complexidade que lhe advém do facto de se tratar de um assunto «de fé» de muitos, ou seja, do âmbito das coisas do «Divino», onde, por vezes, a Razão e a Lógica parecem não encontrar sustentabilidade.

  No entanto, também nestes domínios, um pouco de ponderação, de bom senso e de abertura ajudam à compreensão, não a uma compreensão imediata, dada pelo simples «olhar», fundado no preconceito e apoiado em léxicos e cosmovisões demasiado actuais, mas na capacidade de «ver» para além das aparências, perscrutando as não-evidências. O óbvio e o evidente é o que está patente, no momento, hoje; mas a realidade nem sempre é óbvia e evidente, tem de ser procurada com outras ferramentas da inteligência, mais exigentes. É para esse trabalho que se apela, quando se pretende adentrar âmbitos desta natureza, muito subtis, enovelados, abscônditos e velados, e sempre numa humilde suspeição de não se encontrarem as respostas que se procuram e que, também não poucas vezes, são só nossas. Tudo no Homem parece revestido de mistério e de «falta de evidente coerência». Mas, no fundo, há sempre um lastro transversal que alimenta o espírito e mantém acesa a chama de uma verdade que se intui, nos interpela e que, insistentemente, impõe uma procura.

  Alargando o horizonte interpretativo, criamos a indispensável abertura que rompe com os preconceitos e predispõe a admitir, à discussão, sem subalternizações ou reservas, os pontos de vista diferentes. O resultado deve ser aceite não como a prevalência indiscutível e absoluta de uma parte, mas como aquela perspectiva que, no estado actual dos estudos, parece a mais verosímil. Deixando sempre, em aberto, a possibilidade de tudo poder ser revisto e reconfigurado, sempre que novos elementos surjam e que ajudem a verdade que se procura. 
 

  O que se sabe da família de Jesus – e que está registado no Novo Testamento – é que ela existiu numa geografia e numa sociedade um pouco diferenciada daquelas que, no Ocidente, hoje, conhecemos. Em alguns outros pontos do Globo, porém, ainda hoje (caso de algumas sociedades de linhagem matrilinear) falar de família só faz sentido, com referência aos membros do ramo da mãe, em que os filhos herdam os lugares e o património dos tios, irmãos da mãe, pois o ramo paterno não faz parte directa dessa família. Impõe-se dizer isto, unicamente, para deixar vincado que ainda na actualidade há formas de organização familiar diferenciadas, assim como diferenciadas serão, obrigatoriamente, as formas de nomeação identitária de pertença dos seus membros, na sua relação, inter-relação e interdependência, vertical e horizontalmente.

   Apesar dos textos do Novo Testamento nos terem chegado escritos em grego, aquilo de que eles nos falam aconteceu, algumas dezenas de anos antes, em espaços de cultura e língua que pouco ou nada tinham de helénico. Além de se usar uma língua de cultura estranha aos acontecimentos, para falar de emoções, de relações familiares, sociais e políticas, as motivações dos seus autores, sabe-se, estavam longe das preocupações de carácter sócio-antropológico. Eles eram movidos por uma necessidade «superior», espiritual: falar de Alguém que encarnando, assumindo a nossa condição humana – numa postura de rompimento absoluto com os códigos sociais e religiosos do seu tempo –, nos tinha deixado uma mensagem de vida, de futuro e de paz, consubstanciada numa única saída: a do Amor e a do respeito. Nada de servidões, de imposições preceituais, de consciências sobrecarregadas de lixo, de vaidades, de ganância, de luxúria e de prazer a qualquer custo. Só uma única coisa como preocupação: o Amor e o respeito, o resto vem multiplicado, por acréscimo.

  Bem, perante um quadro doutrinário desta natureza, como devem calcular, pouco interessava ao Evangelista explicar se o termo «irmão» de Jesus queria dizer filho da mesma mãe e do mesmo pai, ou só da mesma mãe, ou se queria dizer primo, parente ou membro do mesmo grupo clânico. Este vocábulo é usado, nas mais diversas acepções, no Novo Testamento, 120 vezes.

  No aramaico – língua em que falavam os habitantes da Palestina – o termo «irmão» era usado, indiferenciadamente, para referir um parentesco próximo ou mais afastado e até neto (conforme se pode ver Génesis 31,28, quando Labão se refere às filhas Rebeca e Lia e aos seus netos como «minhas filhas e meus filhos»). Assim como também o de «pai» que, por vezes, como se encontra noutros passos da Bíblia, também se usa para referir o avô (cf. 2 Samuel 16,3).

  É claro que para os cristãos (Católicos romanos e Ortodoxos) que defendem a virgindade «perpétua» de Maria (exigível pela sua condição de Mãe de Jesus, o Cristo, o Filho de Deus, «a Quem nada é impossível», «escolhida», desde sempre, e inteiramente dedicada e votada a essa Maternidade (= virgindade, no sentido de exclusividade de predestinação), faz todo o sentido justificar por uma hermenêutica textual tudo aquilo que sustente essa crença dogmática.

  Por outro lado, os cristãos que não têm essa postura crente, perante a condição de Maria, apoiam-se na abordagem literal e directa dos vários textos, apesar de também defenderem a virgindade de Maria, mas só para o acto de concepção de Jesus. Não deixando, no entanto, de também, aqui, terem de «refugiar-se» na expressão gabrielina de «a Deus nada ser impossível»! 
 

  As pessoas mais afastadas destas querelas, perguntar-se-ão: «Mas, afinal, em que é que ficamos?» 
 

  A estas pessoas, eu responderia: «Fique cada um no propósito de colocar a Deus as suas dúvidas e d’Ele aguardar a inspiração. Não deixando que questões tão marginais obscureçam a sua fé no Essencial: em Jesus e na sua mensagem de Amor (a Deus, em primeiro lugar e ao próximo, como a si mesmo), num grande respeito pela dignidade de cada um, sempre na preocupação contribuir para mais justiça e reconhecimento dos direitos dos outros, nunca esquecendo o direito à diferença.» 
 
 

  Rui A. Costa Oliveira

(aluno do Mestrado em Ciência das Religiões)

Publicado por Re-ligare às 16:27
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2 comentários:
De Luís Melancia a 27 de Junho de 2009 às 01:59
Olá Rui.
Li o teu texto com atenção. E apercebi-me da tentativa que fazes em explicar que as palavras também são vivas, dinâmicas e que, com o tempo, também mudam de som e de sentido. Mais, e que as palavras sofrem essa violência - essa quase insuportável violência - que é, sempre, uma tradução.

Se Maria foi virgem para o resto da vida e, «pior ainda», se José não era mais do que pai putativo de Jesus...essas são questões que nunca chegaremos a exaurir por completo. E ainda bem; assim vivemos todos na absoluta necessidade de nos relativizarmos a nós próprios e às nossas verdades e, em humildade, fazermos espaço para a possivel certeza do outro. Dizes bem: «Não deixando que questões tão marginais obscureçam a sua fé no Essencial: em Jesus e na sua mensagem de Amor».

Outra questão bem mais fracturante que essa, e que divide ainda mais a casa cristã, é a da imaculada concepção de Maria. Que achas disso?

1 abraço do teu colega de mestrado,
Luís Melancia
De raco a 28 de Junho de 2009 às 14:57
Caro Luís
Obrigado pelas tuas ressonâncias.
Agora, a «Imaculada Conceição de Maria»?... é assunto para muito fôlego. Logo que haja disponibilidade, lá iremos com o nosso ponto de vista.
Mas, isto do «pecado original»!... Valha-me Santo Agostinho!...

Abç amigo do Rui

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