Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Uma Pizza para os intolerantes da mesa do fundo

 Aqui vos deixo o artigo que publiquei no Público de dia 29 de Junho.

                           

Quando há uns anos fui pela primeira vez à Turquia, tive a sorte de percorrer demoradamente algumas das zonas do interior desse enorme país. Certa refeição, no meio de uma vasta região quase desértica, a caminho da cidade onde a tradição diz ter Abraão vivido, em Harran, almocei… pizza!
Perante o meu espanto, fui ensinado. A pizza não é mais que uma das refeições tradicionais de grande parte do Médio Oriente desde há milhares de anos, possivelmente, desde o Neolítico: uma base de massa onde são colocados, genericamente, todos os condimentos e acompanhamentos que estiverem à mão.
O mito da cozinha italiana não caiu, entes pelo contrário. Hoje temos, em qualquer grande cidade do mundo ocidental, um restaurante que vende pizzas, confirmando-se esse nascimento de sentido verdadeiramente intercultural. Sendo tradicionalmente vista como italiana, a pizza é a imagem da globalização, do cosmopolitismo, dos alvores diversos da civilização.
Correntemente, atribui-se a Montaigne uma frase com amplo sentido nos dias de hoje: “Um homem não deve dar tanta atenção ao que come, mas sim a com quem come”. E o sentido actual vem do simples facto de, ironicamente, o país que importou as pizzas e as exportou, generosamente, para todo o mundo, estar hoje a proibir os restaurantes “étnicos”. De facto, hoje não em apetece comer “com” Itália.
É verdade. Passou despercebido. Mas tem um significado profundíssimo nas políticas de intolerância na Europa: a cidade de Lucca, na Toscana (centro da Itália), proibiu recentemente a abertura de restaurantes étnicos no seu centro histórico. O fim desta medida é o de preservar a “tradição culinária” da região.
O governo municipal aprovou esta medida e tudo leva a crer que, brevemente, outras localidades venham a seguir este propósito verdadeiramente ridículo. Também se passou a exigir que os estabelecimentos respeitem a tradição arquitectónica e decorativa da região.
Não é apenas através de grandes medidas políticas e legislativas que a xenofobia avança em algumas regiões europeias. Esse avanço pode ter lugar com pequenas obrigatoriedades no campo do quotidiano. A comida é, claramente, um desses campos onde esse trabalho civilizacional sujo pode ter lugar.
Que interessante seria se em Lisboa, na baixa, apenas se pudesse comer bacalhau com grão, cozido à portuguesa, e outros pratos supostamente tradicionais. Ou, que mais interessante seria, se semelhante postura municipal fosse por cá adoptada e, imaginemos, as pizzarias fossem proibidas dos centros históricos das nossas cidades… irónico, não era?
 
Paulo Mendes Pinto

Director da área de Ciência das Regiões na Universidade Lusófona

Publicado por Re-ligare às 15:09
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7 comentários:
De Marco Oliveira a 1 de Julho de 2009 às 21:48
Excelente análise!
De Ideberto Bonani a 2 de Julho de 2009 às 00:59
Cidade de Lucca, na Toscana (centro da Itália), é de onde são minhas origens italianas.
Façamos asim então! A pizza deixa de ser redonda (globalizada) e tornasse quadrada( quadratizada).
Essa intolerância com pizza ou sem pizza, com bacalhau ou sem bacalhau já está a me dar azía!
A terra é nostra!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
De Luís Melancia a 2 de Julho de 2009 às 03:59
É triste. Comemos tanto de uma coisa, que acabamos por perder a capacidade de saborear outras coisas igualmente saborosas...e suadáveis...e necessárias.

É como o fenémeno da monocultura: depois de semearmos a mesma semente durante anos, a terra perde a capacidade de continuar a produzir aquela sementeira específica. Perde minerais, perde nutrientes e empobrece!

Acontece com a culinária, com a agiculrura e com outras esferas da vida!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Fica bem; cuidado no regresso :)
De Welberg Rodrigues a 3 de Julho de 2009 às 11:54
O glúten intolerante.
É interessante esta observação sobre intolerância. Temos algumas intolerâncias, por exemplo alimentar, Lactose e ao Glúten. O glúten é encontrado na massa de pizza por esta ser feita de trigo. Vejamos algo interessante. Existe uma doença chamada “celíaca que é uma disfunção intestinal crónica muito frequente que provocada por uma alteração da mucosa do intestino delgado próximo (a parte do intestino próximo do estômago). Esta doença pode aparecer em qualquer idade caso o glúten tenha sido já incluído na dieta. Esta doença é normalmente revelada no segundo ou terceiro semestre da vida (entre os 6 e os 20 meses de idade), alguns meses depois da introdução das farinhas na alimentação (farinhas lácteas com cereais, pão, bolachas, etc.). Existem outros produtos como uma costeleta panada, um croquete, algumas salsichas enlatadas, uma bebida achocolatada ou uma cerveja, entre muitos outros, que contêm glúten. Ainda não existe uma razão para que só algumas pessoas sejam intolerantes ao glúten e desenvolvem a doença. Contudo sabe-se que existe uma predisposição hereditária, verificada pela maior frequência de celíacos em famílias com registos anteriores quando comparados com dados referentes à população em geral. Caracteriza-se pela intolerância ao glúten, complexo de proteínas insolúveis contidas em cereais como: trigo, centeio, aveia, cevada, triticale e em alimentos que sejam produzidos com estes cereais. De facto é a gliadina, um dos componentes do glúten, substância tóxica para pessoas que apresentam esta patologia. Nas crianças os primeiros sintomas começam normalmente por perda de apetite, deixando de aumentar de peso, tornando-se crianças tristes e irritáveis. Quando são consumidos estes alimentos é iniciado um processo complexo de sintomatologia: como irritabilidade, distensão e dores abdominais, evacuações mais frequentes, moles e volumosas (diarreia) e por vezes acompanhadas de vómitos. Esta doença provoca ainda a redução significativa da absorção de vitaminas (ex: K e D) e mesmo ainda alterações dos níveis de fósforo e cálcio. Esta patologia provoca normalmente um atraso no crescimento. (qualfood.biostrument.com). Penso que quando observamos esta patologia descobrimos que os sintomas que demonstram não são muito diferentes da verdadeira intolerância humana. A onde existe intolerância existe a falta de crescimento. As palavras grifadas no texto expressam bem o que é a intolerância, uma DOENÇA.
De Florbela Nunes a 3 de Julho de 2009 às 14:42
Saudades e grande abraço para os meus colegas Welberg e Bonani

De facto, há alimentos que fazem mal à saúde. Não pelo excesso de consumo (porque o próprio organismo quando consome em excesso, não consegue esconder os seus prejuízos), mas porque em si mesmo não prestam para serem alimento humano, são prejudiciais.
Pode não ser visivel a curto prazo, ou até sê-lo.
Há que cuidar do nosso organismo a todos os níveis e esta é uma área fundamental.

Já dizia Jesus não em diálogo com satanás durante a tentação no deserto, mas como uma afirmação, que "nem só de pão vive o Homem..."
Algo que é pertinente aqui deixar porque, na verdade, tudo aquilo que ingerimos e devidamente digerimos, vai sem dúvida afectar-nos positiva ou negativamente

abraço

Florbela Nunes
De Ideberto Bonani a 5 de Julho de 2009 às 22:17
Caríssimo Prof. A tantas outras questões para serem resolvidas qua leis deste tipo fazem pensar que os políticos devem trabalhar para que essas intolerancias terminem. vai aqui uma reflexão sobre o que eles estão fazendo!

TAUROMAQUIA DA NAÇÃO
A palavra tauromaquia é oriunda do grego ταυρομαχία - tauromachia (combate com touros). O registo pictórico mais antigo da realização de espectáculos com touros remete à cidade de Creta Knossos ). Portugal é um dos países onde esta prática se faz presente.
No dia 02/07/2009 assistimos algumas cenas hilariantes na Assembleia da República, entre elas a que custou a cabeça do touro, ou melhor, do Ministro da Economia, Manuel Pinho.
Observando a seriedade dos debates do “touro – fatídico” dia 02, para aqueles que gostam de touros e de touradas aqui ficam algumas ideias interessantes!
A primeira . Pelo gesto do Sr. Ministro, porque, não “alterar” a “Nomenclatura” “Estado da Nação” para “Tauromaquia da Nação”. Sim pois quando se trata de assuntos tão relevantes para o exercício da gestão do bem estar dos portugueses, os senhores que lá se fazem presentes são uns verdadeiros touros na arena política deste país! Que força, que coragem que pujança estes touros produzem no desenvolvimento de Portugal!
A segunda . Todo observador atento, visualizando o gesto do Sr. Ex-Ministro, concordará comigo na brilhante ideia de à partir do próximo debate que as reuniões sejam transferidas para o “Campo Pequeno”, até li dias atrás que: este local proporcionou uma noite inesquecível. A praça cheia percebeu facilmente a qualidade dos toiros, plenos de bravura. Agradeceram os cavaleiros e os bravos forcados que os enfrentaram. “Revista Caras”.
Já pesaram, os portugueses todos assistindo o espectáculo com os lenços e os gritos de bravo, bravo, bravo!
Terceira. Logo após o tauromaquídio ” debate, logo á noite, o Ex-Ministro deu entrevista em um canal televisivo e disse que iria de uma vez por todas sair da cena política. Disse ele: nada de entrevistas, debates, etc. Nada de assuntos referentes à política. Penso eu que ele gostou da experiência e isso despertou nele o seu lado toureiro. Sim, é isso, ele vai deixar de ser político e vai ser toureiro! Minha proposta é que os demais sigam o exemplo, pois vida política é vida de exemplos!
Quarta Ideia. Essa vai para o Ministério da Saúde. Com a epidemia da gripe das aves, dos porcos, vai que apareça uma tal gripe dos toiros e comece a se alastrar por ai. Seria bom fazer de prevenção uma imensa reserva de vacinas, porque ainda que eles se transformem em toureiros, creio que não deixarão de ser políticos! Olé!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
De Ideberto Bonani a 5 de Julho de 2009 às 22:19
Errata: Onde se Lê "A " Leia-se "Há"

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