Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Brasil e ensino religioso: a oportunidade de dar uma lição

 

Toda a comunidade internacional dos que estudam as religiões e, especialmente, as relações dessas com os Estados, estão de olhos postos no Brasil. Muitas vezes o caso brasileiro é apresentado, mundo fora, como exemplo para temáticas religiosas diversas.
Das sínteses religiosas com séculos de História e de cultura própria, à intensidade do catolicismo, com santuários dos mais importantes a nível mundial, ao recente crescimento das Igrejas Evangélicas e Neo-pentecostais, o Brasil serve de exemplo para ilustração das mais actuais dinâmicas religiosas.
O essencial deste olhar, por vezes distante, que fazemos com base na bibliografia ou no conhecimento de umas visitas académicas, é que sempre a realidade brasileira nos surge como tolerante, respeitadora, no fundo, de uma maturidade que apenas é possível porque, apesar da História recente do país, o convívio inter-religioso é longo.
De facto, o Brasil é olhado pelos especialistas como um verdadeiro laboratório do que de melhor o Homem pode conseguir em termos de respeito pelas liberdades religiosas. É nessa caracterização de laboratório, onde se cria saber que pode ser até aplicado a outras realidades, que o nosso olhar se debruça hoje. A actual discussão em torno do Acordo do Estado Brasileiro com o Vaticano e, especialmente, a questão do ensino religioso, merece o mais cuidado tratamento e a atenção de todos.
Apesar da discrepância de critérios, de aplicações diferentes, de grades e de conteúdos variados, o Brasil foi um dos primeiros países a perceber que era importante dar aos seus futuros cidadãos conhecimentos sobre o universo religioso que o rodeia. Este património está totalmente de acordo com a tradição de convívio religioso do país.
Ao texto vago e de interpretação ambígua do Acordo entre os dois Estados, deve ser adoçado e produzido instrumento legal que não ponha em causa esse património de liberdade, de respeito e de igualdade que o Brasil tem construído nas últimas dezenas de anos.
É da mais lógica racionalidade a conveniência em que um grande país com muitos católicos estabeleça um Acordo com o Vaticano. Mas também é da maior importância que seja mantida a qualidade dessa mesma relação e, em especial, com os cidadãos de outras confissões religiosas.
Os acordos são necessários e mesmo indispensáveis e desejáveis, mas não devem beliscar os avanços verdadeiramente civilizacionais que cada país conseguiu construir através da sua própria experiencia e vivencia.
Seria um recuo para toda a Humanidade, se fosse aberta uma porta para um ensino religioso confessional no Brasil.

         

 

Paulo Mendes Pinto
(dir. da área de Ciência das Religiões na Un. Lusófona)

 

 

Publicado por Re-ligare às 19:39
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3 comentários:
De Ideberto Bonani a 17 de Julho de 2009 às 15:30
Prof. Paulo. Percebo que estás a cada dia mais contextualizado no universo multi-religioso do Brasil. Os compromissos academicos os quais obrigatoriamente o agendam a ministrar alguns dias do ano nessa maravilhosa nação são deveras importantes para o alargamento de conhecimento no tema religioso.
Creio que a lúcida leitura que fizeste de uma forma muito precisa e a exposição feliz que aqui é colocado o assunto também propôem que a troca de experências academicas entre os países de lingua lusófona torna-se a cada dia um instrumento de maior percepção da matéria, maior elucidação do assunto e maior clarificação acerca do universo multi-religioso.
Com certeza, Ciência das Religiões é uma ferramenta indispensável no Universo Acadêmico e não só.
Abraço e bom retorno. Camões te espera!
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Prof. Paulo. Percebo que estás a cada dia mais contextualizado no universo multi-religioso do Brasil. Os compromissos academicos os quais obrigatoriamente o agendam a ministrar alguns dias do ano nessa maravilhosa nação são deveras importantes para o alargamento de conhecimento no tema religioso. <BR>Creio que a lúcida leitura que fizeste de uma forma muito precisa e a exposição feliz que aqui é colocado o assunto também propôem que a troca de experências academicas entre os países de lingua lusófona torna-se a cada dia um instrumento de maior percepção da matéria, maior elucidação do assunto e maior clarificação acerca do universo multi-religioso. <BR>Com certeza, Ciência das Religiões é uma ferramenta indispensável no Universo Acadêmico e não só. <BR>Abraço e bom retorno. Camões te espera! <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Bonani</A>
De joiadelima a 17 de Julho de 2009 às 15:48
É verdade, o Brasil é um pais de dimensão continental, com características diversas, inclusive no campo religioso. O que se observa de positivo nessa pluralidade de convivências sociais e religiosas é o respeito à liberdade , seja ela cultural, social e religiosa. Nisso o Brasil , como diz o autor dessa rica reflexão, "serve de exemplo para ilustração das mais actuais dinâmicas religiosas". O autor foi feliz na escolha da temática o Brasil e ensino religioso: a oportunidade de dar uma lição. E que os olhos da comunidade internacional esteja mesmo voltado para a realidade do fenômeno religioso brasileiro e dele possa tirar lições e experiências de cunho científico, que de alguma forma sirva de parâmetro para o estudo desse tão abrangente e actual tema: o fenômeno religioso. Aqui fica os meus parabéns ao renomado Dr. Paulo Mendes Pinto, coordenador do curso de mestrado em Ciência das religiões da Univ . Lusòfona.

Por Joiade Lima dos Santos (aluno da pós-graduação em ciência das religiões com acesso ao mestrado da Lusófona, turma Brasília, DF .
De Susie Barreto a 22 de Julho de 2009 às 18:12
Comentário ao texto: O Brasil e o Ensino Religioso- Uma oportunidade de dar uma lição
De: Paulo Mendes Pinto. Dir.da área de Ciência das Religiões na Un. Lusófona
A cultura cristã, a religião e a moral estão intimamente relacionadas. Ao dar a alguém conselho para uma conduta social melhor, transmitimos conceitos religiosos que são relativos à formação do mundo, à existência de Deus à origem, à vida humana, à preservação do ambiente e relações sociais.
Se desde a infância os pais dão explicações religiosas, caminham com os filhos, sua fé se fundamenta e se completa uma vez que o seu todo está relacionado: social, familiar, intelectual, psicológico e religioso, contribuindo para sua plenitude e transcendência. A criança cresce nos critérios de justiça e verdade e se estabelece como cidadão pleno.
A religião faz parte da natureza humana. No Brasil, predomina a religião cristã, informação baseada nos dados registrados por algumas fontes de estudo: segundo o professor João Flávio Martinez, fundador do CACP, graduado em história e professor de religiões em sua publicação “O quadro religioso no Brasil e no mundo”,os cristãos no Brasil formam 92% da população religiosa e na Enciclopédia Livre Wikipédia são 89%, justificando o tipo de educação predominante.
Nesses estão centrados os valores universais para a superação, resistência, aceitação e compreensão quanto as diferenças individuais e sociais.
Não se está falando aqui de santuários,mais sim de um evangelho genuíno, universal, sem fronteiras, raças e cor. O que tem permitido esta interação pela supremacia do amor, razão, decência e ordem.
A instrução da verdade leva à liberdade de escolha porém, nem toda escolha leva à liberdade verdadeira.
No Brasil, o Ensino Religioso é institucionalizado.
A Secretaria de Educação do Distrito Federal apresenta orientações para o desenvolvimento do Ensino Religioso na Rede Ensino num processo educativo que pressupõe o desenvolvimento integral.
A dimensão religiosa não se separa da pessoa humana, logo se justifica o Ensino religioso ser desenvolvido nas escolas. O educando precisa desenvolver todas as suas dimensões, desenvolver-se integralmente. Precisa exercer plenamente sua cidadania “relacionar-se bem consigo mesmo, com próximo, com ambiente e com Deus”. Deve reconhecer-se amado incondicionalmente por Deus, aprender a conviver e respeitar a diversidade, valorizar a fé, a crença, ter esperança como possibilidade para todo ser, num espaço para abertura ao diálogo, respeito enfim, busca da unidade na diversidade, formação de valores e atitudes por meio de reflexões, dinâmicas, tendo por base a união da vivência e da fé “entrelaçadas”.
A Lei nº 9475, de 22 de julho de 1997:“Dá nova redação ao art.3 da Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 96 que estabelece as diretrizes a bases da educação nacional.”
Art.33 O E.R., de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedada quaisquer formas de proselitismo.
§2º- Os Sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituídas pelas diferentes denominações religiosas, para definição dos conteúdos .
Brasília 22 de julho de 1997;176 da Independência e 109 da Republica.
Desaparece os termos confessional, inter-confessional ...
Constitui parte essencial a formação do cidadão...
Nas considerações na visão do Estado Brasileiro:não é catequese,não é ensino da Bíblia ou de algum livro sagrado,nem ensino de determinada religião
É um importante colaborador no desenvolvimento da religiosidade, tendência nata do ser humano e que o impulsiona à busca do transcendente, transcendente que na religião se designa como Deus.
“A tarefa das denominações religiosas constituídas em entidades civis, é a de ser guardiã do cumprimento desta lei, pelo Estado, por que o E. R. bem organizado e efetivado, favorecerá a sociabilização dos valores humanos e transcendentais no âmbito da escola, ou seja, a humanização e personalização do ser humano”. (cf. Puebla1027).
CNBB- Setor de Ensino Religioso.
Susie Barreto- turma Pós-Graduação acesso ao Mestrado Brasília


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