Sábado, 25 de Julho de 2009

Por favor, uma resposta para 2011

 Caros amigos,

                    

Aqui vos deixo o meu artigo que foi hoje editado no Público.

                  

                       

Daqui a muito pouco tempo, os países da Península Ibérica serão chamados a resolver um dilema interno com o maior significado para a sua identidade. Será necessário optar, mas haverá a tentação de contornar…
Mas a questão será colocada. Trata-se de um número redondo, próprio para efemérides… Como tratará a Europa esta data?
De facto, no ano 711 (da Era Cristã), Tarik desembarcava as suas tropas na actual Espanha, conquistando rapidamente a quase totalidade dos territórios hoje portugueses e espanhóis. A presença muçulmana seria longa e a chamada “Reconquista Cristã” levaria 781 anos até que a Península Ibérica fosse apenas cristã em 1492.
Daqui a 2 anos, falaremos de quê? De «conquista» ou de «presença»? A tónica será dada na vertente militar do início da ocupação, ou na componente social, cultural e científica da convivência?
Esta questão será, em muitos meios sociais, dramática. Será, mais ainda, uma prova à maturidade dessas duas nações, Portugal e Espanha. Uma prova à capacidade de perceber o que se ganhou com o Islão, e o que se perdeu quando a Europa «cristã» se fechou a outras religiões.
A situação actual oscila, por um lado, entre o conhecimento e, até, o reconhecimento, e, por outro, o fervor religioso. Onde ficamos?
Nos últimos anos tem-se difundido a imagem de um Islão ibérico altamente cosmopolita, cientificamente avançado, culturalmente brilhante. A Matemática, a Medicina, a Poesia, o Direito, a Cartografia desenvolvidas no Califado de Córdoba, possibilitaram que os reinos cristãos mais tarde se lançassem em grandes descobertas e fossem a cabeça da Europa.
Mas o mito do Islão enquanto inimigo natural ter-se-á mantido?
Mais recentemente, foram publicados alguns estudos sobre o ADN das populações peninsulares e o óbvio foi trazido ao de cima: grande parte da população de Espanha e de Portugal tem como antepassados populações vindas do Norte de África, possivelmente muçulmanas. Mas, mesmo com estes dados vindos da exactidão da ciência, o mito do Islão enquanto inimigo natural ter-se-á mantido?
Todos sabemos hoje que a procriação da população nascida na Europa Ocidental está a diminuir. Apenas as entradas de imigrantes nas duas últimas dezenas de anos possibilitaram que sectores-chave da economia se mantivessem de pé. Sem esses trabalhadores e sem as suas famílias, a Segurança Social de Espanha e de Portugal estaria eventualmente falida.
Hoje em dia, temos o conhecimento histórico, feito com uma análise do passado que procura ser isenta e, assinale-se, o consegue com grande qualidade. Temos a noção de que, genericamente, o Islão terminou na Ibéria em 1492, mas as pessoas que hoje somos são descendentes dos antigos muçulmanos nossos antepassados. Sabemos que sem os trabalhadores estrangeiros que nos demandam, a nossa economia estaria muito mais fraca.
E, como síntese de tanto conhecimento, como enfrentaremos o ano de 2011? O mito do Islão enquanto inimigo natural ter-se-á mantido?
            
Paulo Mendes Pinto
 
(Director da Lic. em Ciência das Religiões na Un. Lusófona)
Publicado por Re-ligare às 09:43
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3 comentários:
De Ideberto Bonani a 20 de Julho de 2009 às 00:04
Caríssimo Professor Paulo Mendes. Como sempre; seu método didáctico da pergunta que estímula a reflexão e a investigação é interessante,pois, as formas de multidimensionalidade do assunto aqui proposto levam-nos a reflectir esta efemérides "Tarikislãmica"!
Mas a questão que mais me faz relectir é a própria memória pedagógica da maior parte dos nossos cidadãos, tanto portuguêses como espanhois!
Temo que a maioria, mesmo possuindo essa herança genética, e aqui transcrevo suas palavras: Mais recentemente, foram publicados alguns estudos sobre o ADN das populações peninsulares e o óbvio foi trazido ao de cima: grande parte da população de Espanha e de Portugal tem como antepassados populações vindas do Norte de África, possivelmente muçulmanas;(...) Temo que não tenham conservado a memória genética, alias como outros eventos históricos de menor, igual ou maior envergadura. A verdade é que essa geração actual não tem herança histórica.
O Grande desafio é resgatá-la e para isso tem de confrontá-la e depois digeri-lá muito bem e se provocar azia tem um bom remédio para curá-la, seja de origem histórica mulçumana ou cristã, ou quem sabe, uma composição de ambas com o "diálogo" como princípio activo!
Abraços digníssimo mestre!
Bonani!
Desculpe a ousadia. Dá uma olhadinha no meu blog: "Bonani Sim, Banana Não!"


De Luís Melancia a 21 de Julho de 2009 às 14:27
Caríssimo,
acho que as associações e antagonismos de um país -ou de uma região - são fortemente condicionados por um factor fundamental: a identidade cultural.

E o que me preocupa é que a identidade cultural ocidental (existe isso? claro que sim... e estão identificados os elementos que ajudam a formar a identidade cultural), a identidade cultural, dizia, está a sofrer uma erosão sem fim à vista! Os ocidentais equivalem a cerca de 13% da humanidade e preve-se que esse valor desça para cerca de 10% em 2025. A demografia é uma das causas mas não a única...

Hoje já não é possível a Europa fechar-se, mas o problema é mais fundo: uma coisa é a Europa abrir-se, outra é a Europa ser invadida. Quando nos abrimos, recebemos, reconhecemos e integramos. Quando somos invadidos, somos violentados, agredidos e substituidos.

Já éramos...E nada mais perigoso quando alguém deixa de ser alguma coisa para passar a ser coisa nenhuma!!! Ou para passar a ser aquilo que nunca foi. A Europa tem identidade? Espero que sim...
E os cafés e as esplanadas que o George Steiner identifica não são os únicos elementos constitutivos dessa identidade...

«Tiremos à expressão todo o dramatismo», como canta o Rui Veloso: damos de caras com um islão que quer integrar o ocidente ou quer invadir o cidente?

Eu até tenho uma receita: que o ocidente deixe de ser cristão e o médio-oriente deixe de ser islâmico. Assim é que é jogo limpo! E garanto que se acabam as chatices!

Agora a sério: clarifiquem-se, sem rodeios, as intenções; e depois que se aja em conformidade.

Luís Melancia
Teu colaborador
De misael a 21 de Julho de 2009 às 22:27
Por favor, uma resposta para 2011.

Alô, meu mestre Paulo Mendes. Diferentemente do que ocorre conosco aqui na terra “dos quintos...” é o 2011 que vos chega trazendo lembranças do vosso karma. Como uma abertura à reflexão sobre a realidade dos valores externos étnicos e culturais infiltrados, injetados e impostos aos povos da vossa península e de toda Europa, “vitimados” pelas invasões dos exércitos mouros. Uma invasão não somente física, mas principalmente conceitual.
Interessante, sempre pensei que esse tipo de problema se restringia a nós, povos conquistados, inclusive pelos povos ibéricos.
Agora percebo, com alegria, que houve mais de um “Tarik”. O vosso foi Mouro, enquanto o nosso foi português, holandês, francês...
Como sabeis, esse tipo de “crise” é bem da essência de nós brasileiros. O antropólogo Darcy Ribeiro nos define como um povo sem definição (desculpe o trocadilho). Um povo que se acha europeu, que se acha índio, que se acha africano e depois descobre que não é nenhum destes.
No entanto, pasme, se conforma quando descobre também que é um povo peculiar. Único no mundo. Ao tempo que não é “ninguém” é todos, ao mesmo tempo.
Isto é bom ou ruim? Se, como diz o filósofo da primeira esquina, “todo ponto de vista é a vista de um ponto” consideramos não somente bom, mas muito bom, o resultado histórico desses eventos invasivos.
Essas justaposições culturais e étnicas, meu mestre, é que minimizam as diferenças, suprimem os fossos, eliminam os baluartes e, no fim, todo mundo sai ganhando pelo princípio da tolerância. Foram compulsórias no início, mas depois nós as aceitamos pelo viés utilitarista. Pelo menos conservamos nossos estilos e o estilo, como disse Schopenhauer, “é a fisionomia do espírito”
Viva a multipluralidade!

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