Quinta-feira, 23 de Julho de 2009

Brasília, um Brasil domesticado

 

Há histórias que não começam pela tradicional abertura: “Era uma vez, há muito, muito tempo…”. Não, e essas histórias não são de príncipes e de princesas, é claro. São de gente como nós que decide fazer histórias ou História. O Brasil tem uma dessas estranhas histórias.
Daqui a alguns séculos, alguns dirão: “Era uma vez, há muito, muito tempo quando um Presidente decidiu fazer uma capital nova”. Hoje fazemos aldeias olímpicas, fazemos bairros novos. Há exactamente 50 anos, o Brasil fez Brasília, bem no centro do país.
Esta foi a minha primeira vez em Brasília. Muito me falaram do planalto, alto e seco, com a terra vermelha que tudo marcava, que em tudo se entranhava. Brasília é isso e muito mais. Estranhamente, muito mais.
Brasília é o Brasil a tentar fugir de si mesmo, lançando-se numa ilha que nada tem de si mesmo. Apenas a terra vermelha, qual imagem do homem que vai circulando pela cidade, qual estranho em casa. Dizem-me que agora a cidade está a ganhar uma identidade...
A cidade capital é exactamente a negação de tudo o que se pode apontar para o restante pais. Um pensador, Agostinho da Silva, parece ter dito que “o Brasil era Portugal à solta”. Brasília é o Brasil domesticado, regrado, ordenado.
Para quem conhece o Brasil, a capital não é a reunião de toda nação, como o próprio nome tenta mostrar com um artificial genitivo de gosto latino. Em Brasília não há Brasil, há uma fuga a ele. Toda a informalidade do país é esquecida. Toda a capacidade de improvisação tenta ser negada. Toda a arquitectura procura ser fria e não quente. Todos os espaços são impessoais e não pessoais, naquele gosto latino tão típico de quem se fala sem nunca se ter visto.
Em Brasília não há acasos, há planeamento. Não há desordem, há ordem. Até talvez se tenha, por detrás de tanto planeamento, tentado esquecer o famoso “jeitinho Brasileiro”… mas isso ficou. Do Brasil, ficou em Brasília essa forma informal de resolver tudo.
A geometria dos espaços e a cor branca não fazem as almas. Podem iludir uma aparente limpeza. Mas as almas lá estão… quentes como a terra vermelha que sabemos estar debaixo do alcatrão das avenidas.
                   
Paulo Mendes Pinto
(dir. da área de Ciência das Religiões da Un. Lusófona)
Publicado por Re-ligare às 19:54
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6 comentários:
De Ideberto Bonani a 23 de Julho de 2009 às 22:52
Era frio e era claro
como a seca de Brasília
eu já não sei se amava ou sonhava
isso eu sei
você era mais loura no meu sonho
que em meu olho, eu sei
meu olho era escuro
pro teu sonho iluminar, eu sei
Era reto e projetado
como as linhas de Brasília
não diga o que eu já sei
eu penso que é mentira, eu sei
a nossa solidão é a do planeta
é quase a mesma, eu sei
atenda o telefone, ouça meu disco
ou saia pra jantar, eu sei
Minha canção era loucura
como a alma de Brasília
contorna, adoça, põe na boca o fel
da louca ilha eu sei
e é quase branca a minha angústia
eu não te amo porque amei
e quando te encontrar
vou perguntar o que valeu - Coisas de Brasília (Oswaldo Montenegro/Mongol)


Olha para a ilha, sonha com a ilha, ilude-te com “BRASILHA”!- ( Ideberto Bonani)
De Ideberto Bonani a 23 de Julho de 2009 às 23:07
Segue abaixo para quem quer ter uma idéia sobre o sonho de J.K e a construção de Brasília:

1980 UMA CASA PARA O PRESIDENTE – A construção do Catetinho, um palácio de tábuas construído por um grupo de amigos do Presidente JK, no local onde seria Brasília, é aqui detalhado pelo seu significado como primeira edificação da nova Capital brasileira. Edição UEAG.

1981 UMA LEI PARA MUDAR – A Lei Santiago Dantas que permitiu a construção de Brasília através de uma série de medidas inovadoras na constituição jurídica de uma empresa pública, a Novacap, que foi responsável pelas obras. Edição UEAG

1988 AS CIDADES-SATÉLITES DE BRASÍLIA – Em 370 páginas, são realizados estudos para uma visão das cidades-satélites de Brasília: suas origens, seus aspectos físicos, organização política, estrutura econômica e aspectos antropológicos sobre a vida do homem. Edição UEAG. Aprovado para as escolas de Brasília pelo Departamento de Pedagogia da FEDF. Prefácio de João Emílio Falcão. Edição impressa pela Gráfica do Senado Federal.

1989 A EPOPÉIA DA CONSTRUÇÃO DE BRASÍLIA – Os momentos fascinantes da grande epopéia nacional que foi a construção de Brasília, em 3 anos e 10 meses, para abrigar os três Poderes da República com toda estrutura urbanística, arquitetônica e de serviços em funcionamento na data inaugural, a 21 de abril de 1960. Lances emocionantes, épicos e de grande sentimento cívico. Um livro com 220 páginas. Com ilustrações. Prefácio de Edilson Cid Varela. Edição de União Editora. O Departamento de Pedagogia da Fundação Educacional de Brasília compatibilizou-se como didático de próprio para as escolas e bibliotecas de Brasília.
Um abraço.
Bonani

De Janaina Bahia Oliveira a 24 de Julho de 2009 às 16:58
O texto é bem interessante. Lê-lo me possibilitou me olhar do lado de fora, com os olhos de um europeu. Sou psicóloga, estudante da turma inicial do mestrado em Brasília. Confesso que o jeitinho brasileiro está ainda bastante arraigado na nossa identidade. Apesar da tentativa constante de algumas pessoas fazerem as coisas de acordo com as regras, com os acordos sociais, sinto que faz-se tantas leis, na verdade, para não cumprí-las , pois se fosse natural o respeito às convenções de convivência social, não se precisaria de tantas leis. O que ocorre é que se faz leis e as pessoas não percebem as real necessidade delas, por não pensar como quem as fazem pensam. É como dizer a crianças o que elas podem e o que elas não podem fazer sem explicar o motivo disso, assim não há internalização e não há mudança de atitude. Enfim, como o texto mencionou, a própria arquitetura da cidade nos diz muito sobre tudo isso.
De Rosemarie a 25 de Julho de 2009 às 03:20
Boa noite! Gostei da publicação desta em relação a Brasília, nasci aqui já acostumei com a arquitetura geométrica mas para quem veio pela primeira vez realmente é um visual não muito arrojado mas uma beleza com características planejadas longe de algo com reservas mais naturais, estamos no Planalto Central. Gostei muito das aulas por ti ministradas e pude observar que trata-se de um curso de um nível elevado de informações e que há seriedade. Volte logo! Não se preocupe, irás tomar uma água bem gelada! Rosemarie
De Erly Fernandes Cardoso a 29 de Julho de 2009 às 19:33
O povo de Brasília é mais Apolíneo que Dionisíaco, talvez explica sua domesticação.
Porém, é um povo livre.
Parece ser antagônico mais não é.
o brasiliense sabe muito bem o que quer e a aonde vai chegar, mesmo que ditados pelas regras da pólis.
Um olhar vindo de fora mostra que estamos no caminho certo, só o final da jornada pode dizer se todos estávamos errados. Se estivermos, Nietzsche rirá.
Erly Cardoso.
De Eliel Messias a 30 de Julho de 2009 às 23:04
Brasília não reflete bem o país, aqui há exemplos de ordem e progresso, uma capital com pouca idade, porém madura. Mas há sim as mazelas escondidas debaixo dos tapetes dos palácios.Uma cidade com renda per capita de aproximadamente R$ 19.000,00 que aparenta as mesmas características de outras cidades brasileiras, a riqueza continua com os poderosos que representam apenas 4,5% da população.

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