Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

Telhados de vidro

               Com a aproximação de eleições, os "poderes" aconchegam-se. Marcam posições. Num momento em que a tentação para "tomar partido" é muita, espera-se que os "poderes" religiosos saibam a diferença entre religião e política. Espera-se, igualmente, que os poderes políticos saibam "separar as águas" entre o que é legítimo e ilegítimo na "caça" ao voto.

                      

O reitor do Santuário de Fátima criticou o PS de Ourém pela utilização da imagem da basílica num cartaz de campanha. O padre Virgílio Antunes afirmou que "política é política, religião é religião", por isso não gosta - nem concorda - "que as forças partidárias se aproveitem da Igreja para benefício político". A Igreja "procura não fazer política partidária e se alguma vez isso acontece é abusivo", conclui o reitor.

Nesta, como noutras dimensões da Igreja, há telhados de vidro. Há dias, o presidente do Governo Regional da Madeira vestiu a camisola de dirigente do PSD para, dentro de uma sacristia - certamente com autorização -, fazer campanha. São, de resto, conhecidas as inaugurações na Madeira com um sacerdote a antecipar as palavras do presidente do Governo.

As relações entre Igreja e Estado são delicadas quando se cruzam interesses comuns. Em Grande Reportagem - Padres Políticos - emitida em Maio de 2008, a SIC contou a história de sacerdotes que, em fases difíceis da vida política e social portuguesa, antes e depois de 1974, entraram activamente na política partidária. Da esquerda à direita. Mais ou menos radicais. Ainda hoje acontece. "O homem é um animal político".

A lei e o direito canónico delimitam a acção. Mas não retiram a legitimidade. Um padre tem, afinal, os mesmos direitos que qualquer outro cidadão. O problema está em conseguir separar, honestamente, as duas funções. A tarefa é difícil. Neste fio da navalha pode estar a diferença entre defender ideias políticas legitimamente ou manipular consciências, deturpando valores religiosos e abusando da inocência dos fiéis para concretizar propósitos de poder.

Um padre do centro histórico de Lisboa acaba de escrever um texto aos paroquianos, publicado no boletim paroquial, com um apelo descarado ao voto num dos candidatos e, consequentemente, num dos partidos, à Câmara de Lisboa. Para que não restem dúvidas, o padre esclarece que se trata da pessoa "com quem preferíamos trabalhar".

O apelo direccionado, no altar, no púlpito ou num boletim, devia merecer uma tomada de posição do Episcopado e, no limite, a intervenção dos tribunais. A promiscuidade, sem consequências, só enfraquece a liberdade religiosa, que tem limites como todas as liberdades consagradas.

A Conferência Episcopal, em nota pastoral sobre as próximas eleições, reafirmou alguns valores para "orientar" a decisão dos católicos na hora do voto. Mediaticamente destacaram-se os chamados temas de "fractura" como o aborto, a eutanásia ou o casamento de homossexuais.

Os bispos limitaram-se a exercer o direito - e dever - de pensar a sociedade e o homem, sem penetrar directamente na lógica partidária quando a democracia é estável. Fizeram bem. Pena é que não tivessem ido mais longe sobre a concepção de construção de sociedade - a pobreza, a fome, o trabalho, o lucro, a corrupção, a distribuição de riqueza, as deslocações de empresas, os sistemas de segurança social... - como ousou o "conservador" Papa Bento XVI na última encíclica.

"Nenhum partido tem o exclusivo do Evangelho", disse o vice-presidente da Conferência Episcopal, D. António Marto.

Quais são, para os cristãos, os valores verdadeiramente essenciais na balança da decisão final?

                 

Joaquim Franco

Jornalista - SIC

(texto publicado na SIC online)

 

Publicado por Re-ligare às 00:11
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