Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

A 'Idade da interpretação'

          

"Estou muito pessimista em relação ao futuro político porque penso que a democracia só será possível se a riqueza for distribuída por todo o lado - se eliminarmos a distância entre ricos e pobres"

A vida por aqui não pára. Mesmo quando, num tempo de Verão, nos ausentamos por breves dias, o cuidado que diariamente devemos ao ser humano é um imperativo a que cada um procura responder com redobrada dedicação e esperança. Na verdade, por estes lados, mesmo quando levados a questionar os limites de uma igreja solidária (porque só com desconto conseguiríamos que a selecção portuguesa de futebol de rua visitasse o Cristo-Rei), não desistimos de amar e de esperar que o impossível (Jacques Derrida, John D. Caputo) se faça dom, amor, justiça, hospitalidade e perdão. E o que é deslumbrante é que o impossível (estando-se nas tintas para tudo e para todos) se vai encarnando, surpreendente, no corpo de quem, tendo esgotado razões e soluções, não deixou de viver a radicalidade de uma esperança que não se rende a nada - alegre, e a roçar o que muitos apelidariam de pura loucura. E assim vivemos nos nossos centros e ínfimos mundos, a infinitude do rosto humano, a quem, sem que algo de verdade ou de transcendente o justifique, acolhemos e fazemos espaço, sempre que recuperamos um corpo, uma vida, procuramos casa, trabalho, família, uma comunidade ou um simples grupo de amigos.

Marcados por um conjunto de razões e práticas neopositivistas, que ainda hoje contaminam a inevitabilidade de um despojamento emancipado, nascido de um niilismo, hoje defendido por alguns pensadores (Richard Rorty e Gianni Vattimo) como Caritas, cada um de nós faz parte de um processo ou de uma construção histórica feita de uma infinita relação de forças, geradora, na sucessão dos dias, de inovação, continuidade, ruptura, interrupção e descontinuidade. O que somos, aquilo em que nos tornámos, não como uma necessidade mas como uma possibilidade ou um momento aberto ao impossível de nós mesmos, vem detrás, de uma relação com infinitas gerações que se pensaram e exerceram de determinada maneira, em todos os campos. Não nascemos do nada, e até o amor, nas palavras do filósofo Michel Foucault, tem a sua história, ou um saber que a comemoração dos 400 anos da apresentação do telescópio de Galileo Galilei às autoridades venezianas (25 de Agosto de 1609), entendida genericamente, esvazia de qualquer tipo de constelação atemporal ou matriz divina. Os factos são interpretação (Nietzsche), assim a ciência e a religião, o que significa que ao ser humano cabe diariamente a construção do mundo, a sua execução técnica, científica, económica, cultural, religiosa, ambiental… fazendo-a coincidir e reverter a favor de uma cooperação social sem limites, cuja lei não pode ser outra senão a da prática da justiça, ou a da Caritas para além do direito.

Na "Idade da interpretação", ou neste pós-fé e pós--razão, "a verdade e o conhecimento", como o defende Rorty, "são uma questão de cooperação social" e o "amor a única lei possível". Por conseguinte, neste aqui e agora da nossa história não deixa de ser preocupante a inexistência de uma autoridade global e nacional que consiga regular e colocar o capitalismo, o socialismo, como outros infinitos "ismos" ao serviço da democracia, isto é, de uma democracia que para existir terá de necessariamente resultar de uma dialogada e justa distribuição de bens e serviços. É por isso inquietante, pensando agora em Portugal, que num período de campanha para as eleições legislativas e autárquicas se ame tão mal o povo português e se gastem milhões de euros na construção de alienados e narcisistas monólogos religiosos e partidários. Vem a propósito relembrar e repetir, neste sentido, o que aqui escrevi há bem pouco tempo, com os olhos postos nas eleições europeias: "Quem não vive para servir, não serve para governar." E este é, de facto, o teste a que qualquer programa de governo ou candidato se deve submeter, devendo o eleitorado, por seu lado, saber avaliar e indigitar sapientemente, de forma a que o desenvolvimento social aconteça, não pelo apelo a verdades, ideologias, programas absolutos ou eternos, mas pela emergência de novas formas de dialogar, de estar no mundo, com novos vocabulários, capazes de abrir, sem defesas e resistências pessoais ou institucionais, as portas a uma democracia que a "solidariedade, a caridade e a ironia" anunciam e prometem, já hoje, nas suas actuais formas, e que há-de vir - "The Democracy to Come"!

             

Henrique Pinto

Director executivo da Associação Cais, professor da área de Ciência das Religiões.

Artigo puiblicadio no Diário de Notícias de 3 de Setembro passado.

Publicado por Re-ligare às 18:09
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