Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Bento XVI, Portugal 2010

Ao longo de 25 anos, João Paulo II visitou oficialmente Portugal três vezes. A primeira, apenas quatro anos depois da eleição. Bento XVI não tem as razões "extra" de João Paulo II, nem a longevidade - tem 82 anos - para repetir a marca do antecessor. Mas é de registar a opção de visitar Portugal ao quinto ano de pontificado.

No início de Setembro, o porta-voz do Vaticano esteve em Fátima num encontro com jornalistas. Disse que o anúncio de uma eventual visita a Portugal do papa alemão estaria para breve. E não hesitou em fazer a ponte com o antecessor. "Bento XVI sabe que Fátima é muito importante para o mundo católico", explicou o padre Federico Lombardi.

Uma rápida sondagem entre as motivações emocionais dos peregrinos revelará que João Paulo II continua a ser "o Papa de Fátima" e Bento XVI gozará ainda desta empatia.

Porquê em 2010?

Bento XVI é um papa institucionalista. Preza a memória de longo alcance. Valoriza identidades e símbolos. Na canonização de D. Nuno Álvares Pereira, a homília de Bento XVI salientou a relevância histórica e patriótica da figura. Longe de questiúnculas ideológicas e bafientas, só compreendidas por quem conhece as idiossincrasias do século XX português, evocou o novo santo, sem preconceitos, como "herói" que "contribuiu para a independência de Portugal" em relação a Castela.

Na mesma linha, estará a opção de aceitar o convite para visitar Portugal em 2010. No centenário da Implantação da República. Data fundamental e simbólica. São 100 anos de memórias e desencontros. A Implantação da República abriu profundas feridas nas relações entre a Igreja e o Estado, ainda por sarar junto de alguns sectores da sociedade portuguesa.

Com esta visita, o Papa cria uma oportunidade para a reflexão sobre o fenómeno religioso e as relações entre as instituições religiosas e o Estado laico.

A visita em Maio de 2010 pode também condicionar a agenda política. Seja qual for o governo ou a tendência política dominante, Bento XVI não deixará de reafirmar a posição da Igreja sobre alguns temas "fracturantes" na sociedade. Prevenindo eventuais dissabores diplomáticos e políticos, poucos estarão disponíveis para antecipar no parlamento discussões como o casamento de homossexuais ou o testamento vital.

A agenda de Bento XVI em Portugal vai ser cautelosamente preparada. Num pontificado marcado por polémicas inter-religiosas - com os muçulmanos na sequência do discurso de Ratisbona e com os judeus depois do caso Williamson - o papa alemão terá em Lisboa também uma oportunidade única.

Antes ou depois de passar por aquele que é conhecido como o "Altar do mundo", Bento XVI podia revelar ao mundo o exemplar caso português de bom relacionamento entre religiões. Um encontro com os líderes de várias religiões, em Lisboa, seria um sinal… 
                        

Joaquim Franco

(texto editado na SIC Online)

Publicado por Re-ligare às 01:01
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