Domingo, 18 de Outubro de 2009

Desporto, Religião e Imprensa

 

Os historiadores explicam a natureza religiosa do desporto nas suas origens e os sociólogos os rituais do tribalismo presente ao redor do desporto contemporâneo. Porém, perante a morte de Deus ambos são surpreendidos pela insólita ressurreição do nome de Jesus no quotidiano desportivo nacional. O objectivo destas linhas prende-se com uma resposta complexa e provisória a uma indagação honesta e simples. Qual a razão do treinador Jorge Jesus ter deixado de ser chamado Jorge, para ser apenas, Jesus?
Uma observação à imprensa desportiva noticiando outras transferências do mesmo treinador não revela alterações ao uso do seu nome. Porém, desde o interesse do Benfica, os periódicos desportivos transformaram a sua identidade ao reduzi-la a Jesus. Os títulos que desmentiam a contratação do Jorge dão lugar a um Jesus que, para além de “mostrar o caminho” também “reza para manter” os apóstolos. Procurando uma resposta que satisfaça a legitimidade da pergunta, coloquei algumas hipóteses.
Em primeiro lugar pensei que o nome Jorge Jesus não é fácil de pronunciar. Não é poético. Haverá quem faça notícias desportivas com rimas? Haverá quem as recite?
Em segundo lugar, justifiquei a mudança à luz da gestão de caracteres. Reconhecendo que o Benfica é um tema recorrente, é natural que o nome do seu treinador esteja frequentemente nos seus títulos. Todavia, porque escolheram Jesus e preteriam o Jorge, se ambos têm os mesmos 6 caracteres? Porque não optaram pelo nome no lugar do apelido conforme escolheram Jesualdo em prejuízo do Ferreira?
Em terceiro lugar, avaliei o facto como um recurso ao humor. O nome favorece analogias com graça equebra o gelo na disposição dos leitores mais frios. Contudo, analisando a ironia de que já foi alvo, Paulo Bento nunca foi apelidado de Mestre ou Papa Bento. Piadas religiosas sobre o Reino do Leão não têm impacto suficiente?
Em quarto lugar, indaguei a possibilidade do recurso ao nome Jesus emprestar à mística benfiquista um espírito messiânico. No contexto de um Clube que tem por lema “e pluribus unum”, como epíteto “O Glorioso” e o estádio baptizado de “Catedral”, pese embora os heróis do passado, faltava um messias. Um messias cujo nome remetesse para um horizonte de esperança que garantisse a redenção do voo das águias. Não é minha intenção fazer a apologia do Benfica como religião. Rodolfo Otto ajudaria a fazer uma análise à condição do numem que pode caracterizar e compreender a dimensão do sagrado que envolve este clube. Pretendo apenas, pelo menos no plano da intenção, procurar compreender a mudança de identidade do treinador levada a efeito pelos jornais. Embora acredite que o Director Desportivo continue convicto de que o Benfica é uma religião, duvido que seja responsável pela imagem messiânica do treinador como o redentor que veio devolver ao clube a glória do passado.
Pelo que, prosseguindo no caminho das interrogações, introduzi na reflexão o conceito da relação de proximidade com uma figura que era distante. Apesar dos resultados positivos, até então Jorge Jesus era um treinador de equipas de plano secundário. Ao ser promovido para jogar no campeonato dos grandes, o pseudo anonimato poderia ser um factor animoso, gerador de desconfiança. Em contrapartida, ser chamado de Jesus funciona como uma estratégia de aproximação. Um nome que, para além de aproximar o novo treinador à família Benfica, leva-o próximo do coração do povo. Enquanto Jorge Jesus pertence ao passado do treinador, Jesus pertence ao imaginário colectivo dos portugueses, à identidade cultural da nação. Sujeitando a hipótese a qualquer critica, não posso deixar de observar que este último raciocínio, pese embora favoreça o Benfica, revela um outro e maior beneficiário: a imprensa.
Em Portugal a existência e sobrevivência de três diários desportivos poderia ser um milagre mas não é - para os 40 milhões de espanhóis existem 4 diários desportivos.
Entre as múltiplas e válidas explicações, proponho a mais frágil de todas: os portugueses lêem os jornais diários como um texto sagrado. “A Bola” até pode almejar a “Bíblia do Desporto Nacional”, mas os demais são adquiridos e consumidos com a mesma devoção (Os três diários desportivos vendem aproximadamente 170 mil exemplares). Mesmo considerando a diminuição das vendas registrada nos últimos anos, tal facto tem sido largamente compensado pelo crescimento exponencial das visitas às respectivas edições on-line. Edições que, incluindo o site Mais Futebol, registam mais de 45 milhões de visitas mensais.
Os portugueses podem estar secularizados, serem pouco assíduos aos templos, lerem ou conhecerem cada vez menos seus textos sagrados, mas a sua devoção ao imaginário mantém-se. Podem não ser fervorosos na leitura das palavras do Jesus de Nazaré mas compram, consultam e lêem com fervor as palavras alusivas ao Jesus treinador do Benfica. O nome Jesus ajuda a vender jornais em geral, e os desportivos em particular! E, caso os resultados positivos se mantenham, é significativa a possibilidade de Jesus tornar-se uma marca de sucesso. Sabendo isto, mesmo considerando-a morta, não haverá quem hesite em «ressuscitar» mais uma vez a religião, desta feita como uma estratégia de marketing muito oportuna.
 
 
Simão Daniel Cristóvão Fonseca
Investigador do Centro de Estudos, Mestrado e Licenciatura em Ciência das Religiões. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
Publicado por Re-ligare às 08:15
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1 comentário:
De Ana FR a 4 de Dezembro de 2010 às 00:31
Adorei o teu blog, em especial este artigo.

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