Sábado, 24 de Outubro de 2009

As Canárias ou a fogueira...

Saramago encostou às cordas os que defendem uma leitura literal das grandes narrativas das origens. Segundo ele, quando se faz essa leitura, há uma série de consequências de difícil conjugação e que põem a Bíblia em causa. E como ele acha que a Bíblia não deve ser lida de outra forma (porque assim foi lida durante séculos), despreza a Bíblia pela incoerência que essa leitura lhe confere.

Carreira das Neves, por seu turno, respondeu dizendo que a Bíblia é um conjunto de livros escritos em diferentes registos literários e não pode, por isso, ser lida literalmente. Para Carreira das Neves não há incoerência no texto. O que é preciso é saber ler: ler não só o que o texto diz mas o que o texto quer dizer. Nem tudo é literal, e logo a começar pelos primeiros capítulos. Parece que a sua abordagem ao texto bíblico é pela via do método historico-crítico.


O debate centrou-se aqui: Saramago acha que a Bíblia é para ser lida de forma literal e chega à conclusão de que isso retira credibilidade e coerência ao texto bíblico. Carreira das Neves acha que não: há partes do texto bíblico que devem ser lidas como se fossem grandes contos, grandes narrativas, tendo em atenção que há textos que não podem ficar presos à pobreza de uma leitura literal.

Agora a parte difícil:

Há cristãos que, afinal, até pensam como Saramago na questão da literalidade do texto bíblico: é para ser lido e tido como literal. Ponto. Mas depois recusam chegar à conclusão do escritor e, contrariamente a ele, continuam a achar que a literalidade do texto não diminui a sua credibilidade.

E depois há cristãos que colocariam cristãos como Carreira das Neves na fogueira da Inquisição por ele dizer que o texto tem de ser liberto do espartilho da literalidade. Segundo esta escola interpretativa, o texto diz, afinal, muito mais do que aquilo que lá está escrito.

Entre ir com Saramago para as Canárias ou com Carreira das Neves para a fogueira, opto por fazer companhia a Carreira das Neves.

 

Luís Melancia

Publicado por Re-ligare às 01:45
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1 comentário:
De Cristina Martins a 24 de Outubro de 2009 às 15:46
A minha primeira reacção a esta polémica (ou será apenas uma suposta polémica?) que José Saramago tentou levantar, foi a de que, face à superficialidade da argumentação usada, simplesmente dever-se-ia ignorar o facto. Ainda esta semana, Pacheco Pereira, no programa da SIC "A Quadratura do Círculo", defendia esta mesma ideia, dizendo que caso quiséssemos fazer uma análise verdadeiramente crítica da Bíblia então que recuássemos até ao séc. XVIII e percorrêssemos o caminho até aos dias de hoje analisando os textos dos grandes pensadores e filósofos que debateram este assunto com recurso a argumentações bem estruturas. As opções políticas do prémio Nobel da Literatura são por todos conhecidas, o seu consequente ateísmo também e se levarmos em conta esta forma de marketing publicitário, que já conseguiu com que muitos e muitos portugueses adquirissem o livro quando de outra forma possivelmente não o fariam, justificariam esta minha primeira reacção. Contudo, confesso que ontem não consegui deixar de ver o programa do Mário Crespo transmitido em simultâneo na SIC e SIC Notícias, onde estiveram frente-a-frente o teólogo e exegeta católico Carreira das Neves e José Saramago. O debate confirmou a superficialidade e a mal informada e fundamentada argumentação do Nobel da Literatura. Mal estaria TODA a literatura mundial se seguíssemos apenas a literalidade da escrita, pois perderíamos com certeza grande parte, senão todo, do conteúdo das obras. E os próprios livros de Saramago são disso um exemplo. O livro de Jó foi escrito em estilo poético. Faz pois sentido interpretá-lo literalmente? É óbvio que não.
Carreira das Neves chamou a atenção para o facto de, a certa altura do texto, o autor de "Caim" ofender explicitamente Deus. Ora, aqui está um instrumento muito pouco digno de um Nobel: na falta de argumentos recorre-se à ofensa e ao insulto.
Como qualquer outra obra literária, e já sabemos que a Bíblia é uma colectânea de várias, é necessário contextualizarmos o texto à época em que foi escrito, quem são os autores e qual ou quais os objectivos destes, ao escrever aquele texto.
A Bíblia tem ainda uma outra particularidade muito interessante: tendo sido objecto de várias traduções e interpretações ao longo dos séculos, é quase impensável julgar que o texto que chegou até hoje ás nossas mãos é, exactamente, igual ao que os seus autores escreveram e quiseram transmitir. Por isso mesmo, se recorrermos ás cópias mais antigas, descobertas até hoje, facilmente percebemos que afinal os seis dias que Deus levou para formar/organizar a Terra são afinal períodos de tempo cuja duração temporal desconhecemos e que podem ainda terem sido diferentes entre si.
Se José Saramago iniciou o debate afirmando que não era seu objectivo criar quaisquer polémicas, ao longo do programa foram vários os ataques feitos à Igreja Católica através da alusão à época da inquisição e das antigas formas litúrgicas. Esta foi uma das razões que me levou a ter pena de que não tivesse estado também presente no debate, um representante da linha protestante. Como sou uma cristã não católica nem protestante, sinto-me à vontade para o dizer. Mas de facto, penso que ao Carreira das Neves faltou a objectividade que um protestante teria tido mais facilidade em introduzir no debate.
Saramago argumenta que, depois da criação, Deus não fez mais nada e que tem estado sempre ausente. Meus senhores, Deus fez-nos completamente livres para escolher e agir, e por isso mesmo a Bíblia não é a história de um Deus cruel mas sim a história da humanidade. É essa liberdade conferida ao Homem por Deus que permite a Saramago declarar-se hoje como ateu.
Finalmente, as afirmações de Saramago sobre as duas lacunas existentes, na sua opinião, na Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH): o direito à dissidência e o direito à heresia. Sobre o primeiro, penso que todas as igrejas, pelo menos as cristãs, os conferem aos seus crentes. Quanto ao segundo, ter-se-á Saramago esquecido que a DUDH é supra-religiosa e que caso estivesse nela explícito um direito à heresia estaríamos automaticamente a reconhecer a existência de um ser ou entidade superior?
Saramago representa o óbvio e constante desconforto dos ateus em relação à religião. E porque será?
Cristina Martins
Mestranda em CR

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