Domingo, 25 de Outubro de 2009

A razão, a lucidez e a profecia de José Saramago!

                «Deus, livra-me de deus» 

                O mais belo que o homem pode exprimir sobre Deus, consiste em que a partir da sabedoria do reino interior ele possa silenciar-se. Faz silêncio, por isso, e não tagareles acerca Deus, pois mentes, com isso de tagarelares acerca d’Ele, cometes pecado.

              Aurélio Agostinho, bispo de Hipona,  
              in Mestre Eckhart, «Sermão 11», Tratados e Sermões
               
               

    A Razão – Pode-se discorrer sobre os mais variados assuntos, de uma forma honesta, coerente e límpida, sempre num registo lógico e razoável (=ditado pelo raciocínio, pela razão), mesmo que em discordância com o timbre das conveniências.

    A LUCIDEZ – Pode-se construir um discurso, literariamente organizado e harmonioso (mesmo belo!), ditado pela clarividência de análise intelectiva, mesmo que os objectivos pareçam ou sejam intuídos (por uma maioria), carregados de dissonância.

    A PROFECIA – Pode-se falar em nome de outrem, sem disso se ter consciência, veiculando uma mensagem com um certo sentido para o ouvinte e um certo sem-sentido para o emissor, ou melhor, com duplo sentido: o emissor concebe e manifesta com determinado propósito, mas é percebido pelo receptor, com sentido, profunda e totalmente, diferente ou mesmo oposto. 
     

    José  Saramago, no centro das a(in)tenções, mais uma vez, pelas nada consensuais razões de sempre – a das suas contundentes (provocantes?!) afirmações antibíblicas e anti-religiosas!

    Como concidadão de Saramago (orgulhoso do meu Nobel da Literatura) não posso deixar de lhe reconhecer alguma RAZÃO no que diz («está lá escrito…»), muita LUCIDEZ na forma como o afirma (directo, sem tergiversações…) e o papel de PROFETA (o que fala em nome de…), na veiculação de uma mensagem que, embora [não] lhe diga directamente respeito, por não lhe ser ditada por qualquer necessidade pessoal de afirmação religiosa, (ele não pode calar o que lhe queima o coração…), me chega carregada de sentido, a mim, cristão, católico [e (um) pouco praticante]. 

    Para o cidadão Saramago, anónimo leitor da Bíblia, aquele texto não o provoca, ou melhor, provoca-o, mas de uma forma que lhe causa náuseas, abominação e indignação.

    Curiosamente, também a mim! E é, por isso, que não me quedo por aí. Frequentemente, pergunto ao texto: «O que leio aqui incomoda-me, mas Tu, ó texto, o que é que me queres dizer com este elenco de infidelidades, de matreirices, de imbecilidades, de mortes, de angústia, de sofrimento?» E Ele, mais aqui, mais ali, responde-me, a partir das consequências de comportamento corrigido, humanizante e humanizador, com histórias de fidelidade, de boas intenções, de sabedoria, de vida, de serenidade e de alegria. E eu colho: paz, esperança, confiança, amor à vida, temperança e discernimento.

    É curioso que um materialista, às vezes, tenha tanta dificuldade, em entender a leis da sua «tão querida» DIALÉCTICA, neste caso, da vida. 

    Mas ele tem razão: «está lá escrito…» E eu moo-me pela incapacidade de não lhe poder fazer ver mais além do que os olhos da carne lhe mostram.

    Mas, meus amigos, não é uma questão de estupidez… (e aqui não cabe o insulto ou a menorização. Ele é Nobel, não esqueçam!). A questão é de entupimento, de incapacidade espiritual e carismática (por falta de dom!). Não há volta (humana) a dar-lhe, escusam de se esforçar. Pode até suceder que, um dia destes, o voltemos a ver na Televisão, pelas mesmas razões (as da Religião), mas com um discurso diferente! Já não seria o primeiro… e não seria, com certeza, o último. («Os Meus caminhos não são os vossos caminhos…») 

    Ele tem LUCIDEZ! Não me digam que não se percebe, perfeitamente, que Saramago sabe o que diz, e que nele ainda não se nota qualquer embotamento (que talvez fosse natural) motivado pela idade.

    Sabe o que diz e di-lo de forma bem assertiva e convincente. Vem-lhe de dentro, das suas crenças, ou melhor, das suas não-crenças. E nisto não pode ser acusado de incoerência e de desonestidade. Sempre poderíamos acrescentar que, para quem não acredita, não fica bem emitir opiniões acerca das «verdades» daqueles que acreditam, e menos ainda, quando essas opiniões se adivinham carregadas de intenções provocatórias (talvez, positivamente!, mas…) e fazendo uso de um vocabulário vil, baixo e amesquinhador (que soa a dislate e a ignominiosa acusação). Vejo-o como um grito de indignação que não consegue calar, por ver muitos homens, seus contemporâneos, ainda dobrados a um texto e a crenças que ele não compreende e que, num processo natural de evolução por ele esperada, já deveriam fazer parte da história mais remota da Humanidade.

    Pois, mas afinal, tudo se manifesta contraditório e, pelos vistos, o que se supunha evolução revelou-se involução, nuns casos, e revolução, noutros… Desde a Política à Economia e até às manifestações religiosas. Será que o tempo reservado, por Saramago, à abstracção e à criação literária, lhe faltou para observar o que o rodeia? Nos 86 anos da vida do laureado, tudo tem estado em mudança contínua – as ideologias, as teorias, os paradigmas – e até o Ateísmo de hoje já não é bem-bem, o de há tempos atrás. As gradações também se alteraram, e os ateus de agora até parecem um pouco menos ateus. Alguns deles até já só preferem ser chamados laicos. Saramago não se deve ter dado bem conta do que está a acontecer, com mais rapidez, de alguns tempos para cá. 

    Ele é PROFETA! Soube, como ninguém, nos últimos tempos, retratar o deus de quem, correntemente, falamos. Eu concordo que esse deus, que, por tudo e por nada – e há revelia da admoestação mosaica de não ser invocado em vão –, é adjectivado, caracterizado, identificado, imaginado, é um deus vingativo, discriminador, violento, sem-palavra e não é de fiar («Deus, livra-me de[sse] deus»). SÃO PALAVRAS PROFÉTICAS! Não são palavras de Saramago, são palavras de Outrem, proferidas por José Saramago. A profecia não está cativa do mensageiro, pois ela fez-se até no comportamento da burra de Balaão! Fiquei advertido e incomodado por ter sentido o Alerta tão próximo e tão altitonante!

    Como sempre sucede, após os acontecimentos que nos tocam em profundidade, impõe-se-me recolhimento e silêncio, para melhor auscultar o eco ainda persistente desta voz profética que aponta para além das doutrinas caducas e das soberanas instituições, onde abunda a mesquinhez, a insanidade, o acomodamento, a paz podre, a luta pelo poder, a (in)justiça morosa, a falta de generosidade, a falta de solidariedade e a falta de Amor.

    Silêncio impõe-se!

    Rui A. Costa Oliveira

 

Publicado por Re-ligare às 02:12
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