Domingo, 25 de Outubro de 2009

O Erro do profeta Saramago


A novela «Saramago versus Bíblia» que preconiza a tensão entre o autor e a igreja católica, tem mais episódios que a recordista Anjo Selvagem. Uma longevidade que, não assentando na angelical imagem do escritor, pode ser explicada pela força selvática que habita a sua produção literária. Por selvagem entenda-se a bravura das palavras aliada ao espírito indomável que lhes confere sentido. Estas linhas não pretendem ser uma apologia nem um julgamento do Nobel português. Deixarei para os especialistas tais afoitamentos. Na qualidade de aprendiz ao exercício da escuta, ensejo que estas linhas sejam uma busca pela cura da minha surdez. 
 

Escuta que deseja lembrar que o tempo e o espaço jornalístico é, significativamente, diferente do tempo e do espaço que Nemésio definiu como “caridade hospitaleira”. Na arquitectura da cronologia mediática Saramago ganhou a batalha. Mas segundo a hermenêutica de René Girard, a sociedade civil teve a oportunidade de se identificar com a vítima sacrificada pelos homens da igreja e assim expiar os seus pecados. Na verdade, o escritor português levou sobre si os sentimentos de culpa de todos nós que, pensando como ele, por razões culturais ou de formação religiosa, em alguns momentos também questionámos uma certa imagem de Deus no Antigo Testamento. Os cristãos que o acusam já leram a Bíblia? Entre aqueles que com regularidade lêem alguns trechos, quantos já não se sentiram, tal como Saramago, um sentimento de desconforto ou até mesmo de profundo incómodo com o impacto causado pela leitura das suas palavras? Porém, enquanto uns consideram irracional o sentimento provocado por tal reacção, outros vivem esse estado de alma traduzido pela experiência do homem diante do sagrado que, conforme descreveu o teólogo alemão Rudolf Otto, se abisma perante o terror, o tremendo e o majestoso que caracteriza o encontro com o totalmente outro. Uma inquietação legítima se, a ambas as experiências, não for dado um outro tempo e espaço para a aquietação. Em tempo útil é bem-vinda a exortação do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra para que a mesma seja de todos e entre nós mais conhecida.  
 

Em segundo lugar, quero manifestar o meu sincero apreço pelo génio brilhante que excita o Nobel da Literatura. Um respeito iniciado mas não prisioneiro da qualidade da sua produção literária. Para além da letra dos seus escritos, também reconheço na virtude do espírito os ditames de um profeta. Na história da Bíblia, narrativa que anima Saramago nesta cruzada contra o seu Deus, verificamos o desconchavo dos inimigos do povo hebreu serem muitas vezes o braço direito do próprio Deus. Pelo que, o tempo e o espaço destinados ao sagrado impõem-nos uma outra hermenêutica do niilismo profético de Saramago que tem em Nietzsche seu santo inspirador. No lugar de apedrejar o escritor à moda do mundo antigo, de lançá-lo às feras em conformidade com as tradições do Império romano, ou de queimá-lo de acordo com os tempos inquisitórios, a nossa geração pode e deve deixar que as novas parábolas do louco Zaratustra continuem a denunciar que “Deus morreu!” - ou a imagem dele por nós construída? Porque havemos nós de esperar duzentos anos para levar a efeito uma leitura de Saramago que posteriormente nos ilumine e ajude a reflectir sobre os efeitos e os defeitos da nossa cristandade? É certo que Saramago julga a Bíblia no tribunal da razão humana como sinónimo de “vontade do poder”. Mas entre nós, quem poderá lançar-lhe a primeira pedra como castigo do delito? Podemos puni-lo por não ser capaz dar o salto da fé expresso pelo cavaleiro de Keerkegard? Tempo e espaço destinados a serem compreendidos por aqueles que, nessa experiência, encontraram a sua realização antropológica.

 

Em último lugar, a fragilidade do barro que me arma não resiste à tentação de assinalar o erro de Saramago. Não foi o Erro de Descartes que Damásio sugeriu ficar por corrigir mas toca-lhe. Porque, de novo, nos recorda a complexidade e a fragilidade da condição humana. A ausência de fé, ateísmo ou simples suspensão de qualquer orientação religiosa não é um erro mas a sua cosmovisão em relação ao humano e ao divino. O erro de Saramago é outro. A incongruência de considerar justa e um grande “investimento” a atribuição do prémio Nobel da Paz ao homem que jurou fidelidade à nação – e ao mundo – inspirado num “manual de maus costumes”. Contradição que só ele poderá resolver.

                   

Simão Daniel Fonseca

(investigador do Centro de Estudos em Ciência das Religiões)

Publicado por Re-ligare às 21:43
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